The Heir of The Universe
12 Capítulo Xll
Notas iniciais
P.O.V SAMU.
Segundo dia de uma viagem promissora. Prometia cansaço. Isadora ia na frente, nos guiando. Cora e Michele ia logo atrás, de vez em quando apressando o passo para conversar com ela.
Eu e Luigi, logo depois, e Reyna fica na retaguarda. Talvez ela só gostasse de ficar sozinha ou simplesmente não nos suportasse. Ou um pouco dos dois.
Isa parou, quando viu um grupo de adolescentes caminhando no meio do nada. Estávamos em uma planície, não muito longe do Acampamento Júpiter. Os jovens conversavam animadamente, mas não pareciam representar nenhuma ameaça ou interesse em nós. Reyna murmurou algo como "Malditos Graecus."
Isa mais olhava pro céu do que pra bússola, mas em momento algum tomou alguma decisão errada. Mi tirava as folhas de árvores e arbustos de seus cabelos, resmungando. Cora, sempre séria e sem se importar com nada. Luigi se arrastava ao meu lado, do jeito mais exagerado possível. Meus pés doíam, é verdade, mas o que podia fazer? Tínhamos que chegar o mais rápido possível ao Acampamento Júpiter.
– Isaaaa... — Disse Luigi, arrastado e meloso.
– Desembucha. — Respondeu ela, ríspida. Nem olhou pra trás.
– Percy tinha um táxi, um pégaso e um navio. Annie tinha um helicóptero. E nós?
– Os pés. — Acabamos rindo. Luigi soltou uma risada forçada, e até Reyna deu um risinho. — Não, falando sério agora. Podemos chamar os pégasos e os hipocampos de Poseidon — Ela me lançou um olhar discreto — Mas só se realmente necessário. E não falta muito.
A viagem seria longa. Deveríamos estar controlados. Eu e Luigi fomos conversando e contando piadas pra passar o tempo, até mesmo contanto fatos estranhos que aconteceram conosco. Não os de semideus, mas o de uma vida comum.
Isa, a cada duas horas era interceptada por Reyna, que queria continuar a discussão sobre quais decisões, nós, os graecus iriam tomar quando a guerra começasse, e onde seria a batalha. Isa, por pirraça, mudava de idéia com relação a alguma coisa ou apontava alguma falha que não existia, apenas para Reyna se apavorar e reformular tudo.
A noite chegou, e logo escolhemos o melhor lugar para acamparmos. Montamos as barracas abaixo de algumas árvores. Gostava de montar a minha perto da água, e por sorte, um pequeno riacho corria ali perto. Encostei a cabeça no travesseiro, olhando para a lona, ouvindo a água correndo, não pude deixar de pensar em Bella.
Cinco agora restaram... Outrora seis batalharam... Foi nessa batalha em que eu a perdi. É estranho. Eu tenho que fazer as coisas sozinho. Coisas, que antes fazíamos juntos. O vazio ainda está no meu peito. As vezes sinto como se meu coração tivesse morrido. Mas eu precisava me concentrar. Fazer isso pelos outros. Eles precisam de mim. E eu preciso deles. Cora e Isa. As duas superaram, não é? Então por que eu não consigo? Por. Que?
Sem perceber, acabei adormecendo.
Estava no acampamento. Semideuses, conhecidos e desconhecidos, faunos, sátiros, ninfas e todos os outros seres possíveis. Gritavam, lutavam, cuidavam de feridos, morriam. Olhei ao redor, tentando entender o sentido de tudo aqui. Fogo. Prédios e construções ardendo em chamas. Ouvi alguém arfar, e me virei a tempo de ver Isa caindo no chão, machucada. A pessoa que a derrubara riu. Michele apareceu em algum lugar a minha esquerda, e correu para ajudar uma irmã caída, que tinha uma flecha na panturrilha. Luigi e Cora lutavam, contra seres negros. Tinham forma humana, mas não eram humanos. Seus olhos, vermelhos, flutuavam no vazio, em uma espessa névoa que os rodeavam. Brandiam espadas feitas de um material escuro, mas não era ferro estígio. Aquilo não se parecia com nada que alguma vez eu já tivesse visto.
No meio da confusão, uma cena me chamou a atenção. Era um espectro de mim e de Bella, na batalha que deu fim a sua vida. Matei o semideus inimigo, mas outro se aproximou por trás de mim. Bella se colocou no caminho da lâmina. Morreu com um golpe no peito. Um espectro de Isa surgiu ao meu lado. Colocou uma flecha no arco e atirou, matando o segundo semideus, assim que meu espectro se virou. Os espectros se dissolveram em uma nuvem de fumaça e pó. Um grito cortou o ar, marcando mais uma morte.
Um dos guerreiros negros fez Reyna cair de joelhos. Ela, enraivecida, fitava a lâmina que o demônio erguia sobre a cabeça, pronta para o golpe final. Olhei ao redor, procura do Quíron. Não o encontrei em local algum. Alguns semideuses, ao me ver, gritavam meu nome, imploravam por ajuda. Mas eu não podia parar para ajudá-los. Por algum motivo, não podia. Um alguém, vestindo uma capa marrom com capuz que ia até o tornozelo, ia tocando suavemente em cada um dos meus amigos. Eles morriam, assim que ele os tocava. Gritei desesperadamente, mas minha voz não saia.
Tentei correr até ele, mas alguma coisa não me deixava avançar, segurando-me pelos braços. Continuei gritando e esperneando, até que o alguém me tocou. Se aproximou lentamente. Tentei lhe dar um pontapé, mas não consegui me mover. Ele fez um sinal de silêncio, e tocou minha testa.
Acordei na barraca, arfando. Uma chuva leve caia lá fora. Luigi estava sentado do meu lado. Isa, Cora e Mi estavam do lado de fora, me olhando, preocupadas.
Sem nem me importar com a chuva, saí da barraca. Luigi veio logo atrás, me entregando meu casaco. Agradeci, e o coloquei. O tempo esfriara. As meninas me perguntaram o que havia acontecido.
– Nada, sonhei de novo com a morte da Isabella. — Em parte, era verdade, mas não queria lhes dar mais preocupações do que já havíamos ganhado. Talvez não significasse nada.
– Por que...? — Disse Isa, calmamente.
– Por causa dos versos das profecias. A antiga e essa nova. Tem como não lembrar?
– Ahn... Tem? Pensando o menos possível? Você sabe, é impossível conseguir prever o que diabos vai acontecer.
– Sim, mas...
– Ah, chega! — Disse Cora, me cortando. — Isabella pra cá, Isabella pra lá, chega. Pra mim já deu, to indo dormir,
Mi deu de ombros e foi atrás dela. Um relâmpago soou ao longe. Isa colocou o capuz e Luigi foi pra dentro. Não vi movimentação dentro da barraca de Reyna.
– Se cuida. — Disse Isa por fim.
Voltei pra dentro da barraca. Tentei afastar o sonho ao máximo que pude da minha cabeça. Mal havia acabado de dormir, até que Reyna nos acorda, dizendo que havia uma movimentação no mato e que achava melhor continuarmos.
Desmontamos tudo com o máximo de silêncio possível. Todos agasalhados e protegidos na medida do possível, partimos. Assim, as quatro da madrugada, demos início ao terceiro dia.
Reyna e Isa agora seguiam a frente, ambas não parando de falar. Quando uma delas alterava o tom de voz, podia ouvir parte da conversa e o pouco que consegui, só deu pra entender que estavam discutindo estratégias de batalha.
– ...os arqueiros podiam se posicionar atrás da última linha... — Disse Isa.
– ...meus soldados possuem os melhores equipamentos que... — Continuou Reyna.
A caminhada havia passado de cansativa para dolorosa. O dia havia acabado de raiar, e a chuva já havia parado há meia hora, mas aquilo era demais pra suportar. Três dias difíceis, mas necessários.
Assim que chegamos no Acampamento Júpiter, no fim do dia, alguns nos receberam com alegria e outros com certo desdém. Estava exatamente como me lembrava. Alguns semideuses nos cumprimentavam. Reyna nos avisou que iria pedir uma reunião de emergência para contar as notícias. Pediu que nós a esperássemos no refeitório.
Assim fizemos. Aproveitamos e ainda comemos um pouco, já que a noite foi corrida. Depois de um tempo, Reyna apareceu, seguida de mais um garoto. Tinha cabelos pretos, olhos puxados e porte forte. Já o tinha visto antes. Qual era o nome dele mesmo? Frank?
– Consegui a audiência. Acha que contamos sobre a profecia?
– Não sei. Melhor contar você mesma, sem nós aqui. — Disse Isa, quando ninguém mais respondeu.
– Então apenas a guerra eminente.
– Sim, seria uma boa.
Enquanto Reyna voltava para o lugar de onde tinha vindo e conversava histericamente com Frank, Mi segurou o braço de Isa e sussurrou em seu ouvido.
– Precisamos conversar. Todos nós. — Isa assentiu com a cabeça e nos chamou. Puxamos algumas cadeiras e fizemos um círculo. Assim que terminamos de nos posicionar, Cora começou:
– Certo, o que vamos fazer depois daqui?
– A profecia diz algo sobre um lugar frio. Tive um sonho há alguns dias, e eu estava em uma planície gelada. Não tinha nada ao meu redor. — Disse Isa.
– Não consigo pensar em nenhum lugar assim. Acho que devíamos seguir pro norte então. — Argumentou Luigi.
– O inverno está chegando. — Disse Mi, baixinho.
– E junto com ele, Urano. Que legal. — Resmungou Isa, sarcástica. — Precisamos nos decidir. Quíron pediu que eu o informasse sobre o nosso plano.
– Vamos seguir pro norte então. Viemos avisar o Acampamento Júpiter sobre o que está acontecendo e talvez eles nos ajudem. — Disse Cora.
– E vamos. — Respondeu Reyna, entrando no saguão. Dessa vez, estava com um rapaz franzino, um pouco mais baixo que ela, com um crachá que dizia "Probatio". — Sigam-me.
Demoramos alguns minutos para atravessarmos pouco mais da metade do Acampamento e chegar em uma sala em que uma mesa com vários lugares estava posta, com dois lugares na ponta para os pretores. Reyna nos indicou onde sentar, enfileirados a sua esquerda. Alguns romanos fizeram cara feia.
A pretora contou tudo o que sabia, deixando de fora a profecia. Por fim, quando terminou, um semideus ao fundo gritou:
– Os graecus estão aqui para nos alertar sobre a guerra. O que você sugere que façamos, pretora?
Todos os olhos se voltaram para ela.
– Bem. Irei proporcionar os devidos treinamentos para a guerra, assim como já discuti estratégias com o centauro Quíron e Isadora, filha de Zeus. Além disso, irei...
– Sem querer parecer desrespeitoso, pretora, mas nossos equipamentos estão gastos, e as forjas não estão dando conta da cota. — Disse um outro romano.
– Eu... — Murmúrios preenchendo a sala e impedindo Reyna de falar. Ela então se voltou para nós. — Me esperem lá fora.
Assentimos, e saímos. Depois de alguns minutos, Reyna veio ao nosso encontro.
– Reyna, e agora? — Disse Michele.
– Sugiro que vocês foquem na profecia. Cuidarei das coisas por aqui. Irei os treinar da melhor maneira possível. Até lá, sinto muito mas não vejo como posso ajudar.
– Compreendo. De qualquer forma, obrigada. — Disse Isa.
– Disponha. Os portões estarão sempre abertos.
Assim que ela voltou para sala, Cora suspirou.
– Ótimo. E agora? Qual caminho?
– Acho que a profecia já fala por si só. — Disse Michele. — Lugares que fazem frio e nevam geralmente são mais associados ao norte do que no sul, embora lá também neve.
– Dois pontos cardeais. Dezenas de países. Centenas de locais. — Disse Isa, olhando pra cima. — Nos sonhos de vocês, também sonharam com algum lugar?
– Não, só escuridão. — Disse Luigi.
– Também. — Respondeu Mi.
– Já sabe os meus. — Continuou Cora.
– Sonhei com uma guerra, mas não com um local. — Respondi.
– Bem... Locais desertos, sem vegetação, neva pra caramba, nenhuma cidade ou construção a vista, frio de matar. Alguma idéia? — Disse Isa.
– Espera. Ártico? — Respondeu Luigi.
– Não viaja. — Cora deu um tapa no braço de Luigi. — Não é o hora de brincadeira.
– Não estou brincando, e teoricamente, estamos viajando. E eu to falando sério. Ártico. Um lugar remoto, neve em montes, frio de lascar e ninguém nunca pensaria em morar ali.
– Uma boa teoria, mas teríamos que ter algo a mais pra ter certeza. — Disse.
– Tenho sonhado com pinguins. Isso serve?
– Depende, eles estavam dançando, como naquele filme, Happy Feet?
– Sim, estavam dançando break dance.
– Ta, ta bom. — Cortou-nos Isa. — Isso sem falar no verso "Lua ilumina com bondade generosa". Suponho que devêssemos procurar as Caçadoras de Ártemis. Elas podem nos dar alguma pista.
– E como as achamos? — Perguntou Cora, desinteressada.
– Posso pedir pra Quíron contatar Thalia, ou eu mesmo o faço. Vocês que sabem. Enfim, acho que devíamos continuar andando, até eu fazer contato com um deles. — Assentimos. — Rapazes, senhoritas, temos um plano e um titã pra derrubar.
Pouco antes de partirmos, Reuna nos trouxe mochilas suprimentos e alguns itens para acampar. Agradecemos e perguntamos se ela não gostaria de vir conosco, mas a pretora apenas recusou, dizendo que precisariam mais dela ali.
Pouco tempo depois de sairmos, murmurei comigo mesmo.
– Não sei o que é mais louco, o que vamos fazer ou quem vai ficar e lutar.
– Mais caminhos. Mais pés doloridos. — Refletiu Luigi.
Observando o entardecer, enquanto a lareira crepitava e os marshmellows assavam, não pude parar de pensar nos dois acampamentos. Laranja e roxo. Eram tão diferentes, e mesmo assim, tão iguais. Pensei no medo que deveriam sentir, ao saber que teriam que lutar em uma guerra pra proteger aqueles que amam, sendo que essas mesmas pessoas também podiam estar combatendo.
Nós cinco. Cinco adolescentes tinham que novamente seguir uma profecia estranha. Cinco adolescentes que nunca conseguiriam ter uma vida normal. Estávamos condenados. E nada podíamos fazer com relação a isso. Mas afinal de contas, quem foi que algum dia disse que isso seria fácil?
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