The Harp
1 One
Notas iniciais
Mesmo estando com muita saudade do Brasil, sempre fora em Londres que Thaís se encontrava, o clima frio e úmido; as pessoas educadas e civilizadas; o sotaque que a fazia se sentir em um filme a cada momento, tudo aquilo a conquistava e a forçava voltar. Muito havia acontecido enquanto ela estava no Rio de Janeiro, o que ela só poderia contar para sua melhor amiga, Izabella. A brisa gélida do inverno rigoroso batia em sua face, fazendo com que se lembrasse do calor infernal que havia passado na cidade do Cristo Redentor. Pegou seu celular dentro da bolsa, discando para Bella, ela realmente precisava vê-la.
— Alô! Thaís?
— Izabella Marçal! Que saudades de você amiga, acabei de chegar, vou passar em casa para deixar as coisas e estou indo logo pra aí, tudo bem?
— Claro, tenho umas novidades pra te falar, que você não vai acreditar. — Bella pausou, rindo. — Vem logo.
— Digo o mesmo pra você, já estou indo. — Thaís disse.
Thaís desligou o celular, jogando-o na bolsa, o taxi parou em frente ao seu apartamento. Ela pagou o homem e entrou no prédio. “Lar doce Lar” murmurou para si mesma. Quando estava chegando ao elevador, foi interrompida por um garoto loiro, de olhos azuis, media estatura, absolutamente lindo: o porteiro.
— Srta. Miranda, você tem visita, ele está esperando na porta de seu apartamento. — O garoto sorriu.
— Obrigada Enzo, você é um amor. — Thaís disse piscando para o rapaz.
O elevador chegou e a garota entrou, deixando o porteiro boquiaberto no andar térreo. Quem será que estava a esperando? Não se lembrava de ninguém nesse momento, até que a porta se abriu e ao ver aquela figura sentada de frente a sua porta, seu estômago embrulhou.
— O que você está fazendo aqui? — Thaís gaguejou.
— Bem vinda a Londres — Ele disse cinicamente. — Filhinha. — Fez questão de enfatizar essa parte.
— O que você está fazendo aqui? — A garota repetiu.
— Apenas dando boas vindas. — ele disse se levantando e se aproximando de Thata.
— Então você já pode ir embora. — Ela cerrou os olhos e disse — Papai — Fazendo uma cara de nojo.
— Preciso de dinheiro — Ele disse cambaleando.
— Eu já deveria saber, não vou alimentar seu vício. Sai daqui. Agora! — Ela disse a ultima parte, bem alto.
— Acho que a Marily não iria gostar que a responsável por sua morte, negasse isso para seu fiel marido.
— Eu não matei minha mãe! — Thaís disse chorando, abriu a porta de casa, antes de entrar abriu a carteira e jogou cem libras em seu pai, este que mandou um beijo para ela.
A morte de sua mãe fora o motivo da mudança para Londres, ela teve um infarto fulminante enquanto brigava com Thaís, fazendo com que, para a família, ela fosse a responsável. Passou sua adolescência cuidando de seu pai, alcoólatra, este que a maltratava, forçando-a a sair de casa no dia de seu aniversário de dezoito anos. Atualmente, ele não tem residência fixa e passa cada noite, caído em algum canto da cidade.
— Eu não matei minha mãe — Ela repetia cada vez mais alto, até que, quando percebeu, estava gritando.
Aquilo sempre fora doloroso para Thata, um assunto delicado, que não gostava de lembrar. Começou a desfazer a mala, tinha medo de sair pela porta da frente e vê-lo ali, esperando-a. Quando terminou, pegou as chaves de seu carro, e rumou até a porta, colocou a mão na maçaneta e respirou fundo. Quando abriu, ele não estava mais ali, soltou o ar o mais forte que conseguia, ficando aliviada.
Pamella tentava conter a risada enquanto seu irmão passava todas as instruções para o “almoço perfeito”. A nova namorada de Marc viria para conhecer a família, e, ele, como sempre, estava muito nervoso, queria que tudo fosse perfeito.
— Já entendi Marc! Não pode falar de bebida, garotas, festas... — Pam dizia enumerando nos dedos os assuntos denominados como: os proibidos.
— Exatamente gatinha — Marc bagunçou seu cabelo e abraçou-lhe — Agora a coisa mais importante: você sempre será minha numero um.
— Eu já tenho vinte anos! Não precisa falar isso mais, eu já sei que sou a sua melhor e única. — Pam deu um tapa de leve no ombro do irmão.
— Convencida! Pode falar que eu também sou o seu número um.
— Isso ela não pode falar — Josh, outro irmão de Pamella entrou no quarto rindo.
— Isso é verdade, amo muito vocês. — Ela abraçou os dois — São os melhores... — Foi interrompida pela campainha.
— Desculpa maninha, depois a gente continua, mas agora é à hora de fazermos dar certo! — Marc beijou-lhe o rosto e puxou os irmãos para a sala.
A família era tudo para a garota, seus irmãos eram seus melhores amigos, desde sempre. Com três, cinco ou vinte anos, ela sempre fora tratada da mesma maneira, o que amedrontou o único namorado sério que a morena tivera. Ela desceu as escadas correndo e parou ao lado de Josh, enquanto Marc abria a porta, uma garota loira de olhos castanhos apareceu. Após cumprimentar todos da família, eles se dirigiram para a sala de jantar, ela não podia dizer que não sentia ciúmes da garota que estava ao lado do irmão naquele momento. O Sr. Oliveira se sentou na ponta da mesa, seguido pela Sra. Oliveira, Pamella com Josh ao seu lado, Marc e Melanie de frente a eles.
— É um prazer conhecer vocês! — Melanie dizia olhando para cada um na mesa, pausando em Marc, que sorriu para ela. — Ele fala muito bem de todos, principalmente de você Pamella. — Ela olhou para a garota, que mostrou um sorriso tímido e olhou para o irmão, que piscava para ela.
A tarde foi passando facilmente, a conversa fluía e a garota começou a se sentir melhor com a presença de Mel, estavam todos na sala de estar nos sofás, era difícil ver uma família como aquela em Londres, tão unida, bonita. Subitamente, o celular de Pamella começa a tocar, fazendo com que os outros parassem de rir com uma coisa que o Sr. Oliveira havia dito.
— Alô? Sra. Marçal?
— Olá querida! Preciso de você aqui agora, nesse minuto. — A mulher disse do outro lado
— É algo urgente?
— Muito
— Estou indo para aí — Pamella desligou o telefone.
Ela trabalhava com uma empresária muito famosa de Londres, Cameron Marçal, ela era sua assistente, e sempre que precisava de Pam, ela atendia seus pedidos. Agora não poderia ser diferente
— Desculpem-me, mas eu preciso ir. — Pamella disse tristemente enquanto pegava sua bolsa. — A Sra. Marçal precisa de mim.
— Ela ainda vai te matar Pamella! — Josh disse dando-lhe um beijo no rosto.
— É meu emprego! Eu o escolhi, então é isso...
— Boa sorte Pamella, nos te amamos. — Sua mãe disse feliz.
— Obrigada, foi ótimo te conhecer Melanie!
— O mesmo para você, até mais. — Mel disse acenando.
E ela saiu de casa, pegando o carro dos pais, e indo até a casa dos Marçal, era o ela poderia fazer naquele momento, trabalhar, juntar seu dinheiro e comprar seu carro, que sempre fora seu sonho.
Carolina chegava a sua casa depois de um longo dia, ela estava ajudando a mudança de seus avós. Entrou em seu quarto e se jogou na cama mais próxima, que era de sua irmã gêmea, Carie, sentia todos os músculos do corpo relaxando, ela estava realmente cansada. Quando subitamente sua irmã chegou e começou a bater na garota, ela sentia os tapas na sua face, os socos na barriga, a dor se alastrando por todo o corpo. Ela só conseguia chorar, a voz não chegava a sua boca. A garota não parava de bater em Carolina.
— Saí da minha cama, sua baixa. — Carie gritava, puxando o cabelo de Carol.
— O que está acontecendo aqui? — A mãe das garotas entrou no quarto, desesperada, se deparando com a Carolina deitada, imóvel, sendo atacada por Carie. — Carolina Aguayo, porque você fez isso? — Ela pegou a Carie nos braços delicadamente e a deu uma pílula que a fez acalmar.
— Eu não fiz nada, apenas cheguei e deitei aqui, ela começou a me bater. — Carol dizia rapidamente.
— Você sempre é a responsável pelas crises de sua irmã, não minta pra mim, Deus está vendo, você irá pagar por isso. — A mulher gritou — Deus está vendo! — Ela gritou mais alto.
As lágrimas caíam pela face de Carol, ela se levantou, passou por sua mãe correndo, pegou sua bolsa e saiu de casa. Ela não entendia o porquê de ter feito aquilo, mas não aguentava mais o que estava vivendo desde que aprendera a falar as primeiras palavras. Sua irmã sofre de bipolaridade, fazendo com que elas nunca conseguissem uma relação estável, o que deixa Carol frustrada. Sua família inteira é extremamente religiosa, provocando outra enorme diferença entre eles. Seus olhos estavam embaçados, ela estava respirando com dificuldade. Quando ela ia atravessar a rua, um carro passou muito rente ao meio fio, em alta velocidade, passando de raspão em Carolina, que se assustou e caiu sentada na calçada. A motorista do carro saiu de lá rapidamente, gritando coisas sem sentido.
— Oh meu Deus! Perdão, eu não te vi. — Thaís disse.
— Não tem problema, só encostou. — Carolina sorriu ao ver a preocupação estampada no rosto da garota.
— Claro que tem problema, entre aí, vamos a algum café fazer um lanche, estou te devendo. — Ela riu, ajudando Carol se levantar.
— Se eu não estivesse tendo um dia horrível, eu seria educada e não aceitaria. Mas como não é isso, para onde vamos? — Carol disse bufando em seguida.
— Entre aqui! — Thaís entrou no carro.
Elas foram andando pela cidade, tentando encontrar algum lugar decente aberto, enquanto isso elas ficavam conversando sobre suas vidas, seus problemas, elas se deram bem logo de imediato. Depois de muito procurar, elas desistiram.
— Carol, eu estou indo para a casa da minha amiga, acho que ela não irá importar se você for. O que acha? Você está precisando de uma noite de garotas com o nosso amigo especial: Tequila — Ela gargalhou alto.
— Nossa, estou mesmo, mas tem certeza que não tem problema?
— Nenhum, amiga. — Thaís sorriu.
Izabella abriu a porta de sua casa, deparando-se com sua sala de estar, mesmo estando com saudade de casa, ela não se sentiu tão confortável como em uma pequena casinha em uma cidade do interior da Inglaterra. Bella acabara de voltar da casa de seu pai, este, que, há dez anos, está divorciado de sua mãe. Lá eles fizeram muita coisa juntos, fato que não acontecia normalmente, já que ela só o visitava no Natal. Sua mãe era uma empresária bem-sucedida de Londres, o que a fez mudar para a cidade, deixando seu então ex-marido no interior, sozinho.
— Mãe, eu acabei de chegar— Izabella gritou, sorrindo
— Minha menina! Como foi? — Ninguém mais do que Dorothea apareceu na porta da cozinha.
O sorriso de Bella murchou, não era isso que ela esperava, ela não queria que sua empregada — mesmo que ela a considerasse como uma segunda mãe — atendesse a porta e ficasse feliz ao vê-la. Ela gostaria de ver sua mãe, a verdadeira, abrindo os braços na sua direção e a confortando com um abraço sincero e demorado.
— Foi muito bom — Izabella tentava parecer animada — Onde minha mãe está?
— Lá em cima — Dorothea disse olhando para baixo — no escritório — ela finalmente disse, sabendo que era a ultima coisa que a morena queria.
— Então... vou tentar ir lá. — Sua resposta saiu quase como um sussurro.
Ela subiu as escadas rapidamente parando na frente de uma grande porta marrom, suspirou fundo três vezes e cerrou os olhos, girando a maçaneta lentamente, quando olhou para dentro do grande escritório viu sua mãe gritando no telefone, cena usual para aquela família.
— Mas isso é um absurdo, eu já disse que eu irei no dia dez, vocês não sabem com quem estão falando. — Cameron andava de um lado para o outro berrando e gesticulando para si mesma. — Se eu chegar aí e não tiver a reserva, vocês serão processados — Ela gritou mais alto e desligou o telefone bruscamente, jogando-o no divã ao seu lado. Quando olhou para Bella se assustou. — Meu Deus, você não sabe bater na porta?
— Oh, me desculpe, pensei que poderia entrar no escritório da minha própria mãe, para falar que já voltei da minha viajem, mesmo que ela não saiba que eu fui. — Izabella sentia a raiva crescendo dentro de si, sentia as lagrimas querendo sair, mas ela não daria esse gosto à mãe. — Queria também, fazer igual minhas amigas fazem com suas mães, conversar, contar sobre o que eu estou vivendo. Mas descobri há muito tempo que você não está nem aí para mim.
— Isso não é verdade Izabella Marçal, você está sendo injusta. — Cameron aproximou-se de Bella — Eu trabalho igual uma louca para que você tenha condições de fazer o que quiser, pago sua faculdade todo mês, sem atrasos. Banco sua aula de violão, de canto e de ballet. Você acha que isso é pouco?
—Francamente? Eu acho. — Izabella disse cerrando os punhos – Você consegue entender o porquê? — Ela esperou, não havendo resposta, prosseguiu. — Do que adianta você pagar meus estudos, sendo que nunca se interessou em saber qual é o curso que estou fazendo? Você alguma vez já me viu tocando violão e cantando? Já foi a alguma apresentação de ballet? — O silencio pairou no aposento — Eu já sabia, mamãe. — A menina disse se dirigindo à saída.
— Não tenho tempo para seus chiliques Izabella, faça-me o favor de sair.
— Não precisa nem pedir duas vezes.
Izabella saiu calmamente do escritório batendo a porta atrás de si, depois correu o mais rápido que conseguia rumo a seu quarto, o lugar onde ela mais queria estar naquele momento. Jogou-se na cama, deixando com que às lágrimas, que até então estavam sendo reprimidas, escorressem por sua face. Não sabia o que sentia, se era tristeza por não ter uma família normal, com pais que a amavam e lhe davam atenção ou se era raiva, isso parecia fazer muito mais sentido para a garota, concluiu que não se sentia mais magoada, já passara daquilo, era agonizante, era uma profunda ira, tamanha que a fazia tremer, soluçar. A campainha tocou, mais de uma vez, percebendo que Dorothea não abriria, enxugou as lágrimas com as costas das mãos e desceu rumo à porta, quando a campainha tocava pela quarta vez.
— Olá, sua mãe mandou me chamar, você sabe informar se ela está em casa? — Pamella disse exibindo um sorriso amarelo.
— Não quero saber dela — Izabella gritou — Nunca mais.
Bella sentia inveja de Pamella, ela era sempre bem vinda no escritório, saia com Cameron para fazer compras, gargalhava sobre assuntos que Izabella nem queria saber. Dorothea ouviu a garota gritando e se aproximou rapidamente da porta para receber Pam.
— Olá! Desculpe-me querida, mas Cameron está muito ocupada no momento, ela pediu para que esperasse um pouco.
“Ótimo” pensou Pam, “ficarei esperando aqui enquanto minha família está lá, se divertindo.” Ela, por alguma razão sempre sentiu uma imensa simpatia por Bella, esta que andava sempre bem vestida, com companhias bonitas. Ao vê-la assim, partiu seu coração, mesmo sabendo que tal afinidade não era recíproca, mas não podia culpá-la.
— Hey, Bella! Não fique assim. —Pamella se aproximou, sentando-se ao lado da garota no sofá de couro.
— É Izabella para você. — Ela disse erguendo uma sobrancelha. — E eu não preciso dos seus consolos.
—Me desculpe então, só queria ser gentil com uma pessoa que está fragilizada, não tenho culpa pelo seu relacionamento com sua mãe, nem por ser sua assistente. O que você acha? Que ela gosta mais de mim do que de você? Pelo amor de Deus Izabella, você não pode ser tão tola. — Pamella disparou palavras sem pensar.
— Mas você faz mais coisas com ela do que eu já fiz em toda minha vida. Você não tem noção de como ela é. Não me dá valor, acha que eu sou apenas mais uma despesa em sua vida. — Izabella fitou o chão — Tem razão, perdoe-me, você não tem nada a ver com isso, e acho que te culpo desde o primeiro dia que pisou em minha casa.
— Disso eu já sabia — Pam disse rindo nervosamente — E eu realmente espero que isso possa mudar, não quero roubar seu lugar Bella. — Pamella cerrou os olhos, batendo em sua testa — Desculpa! Izabella.
— Pode me chamar de Bella — Ela gargalhou — aquilo era só para... — Ela foi interrompida pelo som da campainha. — Só um minuto, deve ser a Thaís.
Izabella se levantou do sofá e correu para a porta com um sorriso no rosto, não esperava a hora de contar todas as novidades daquele natal, e, claro, dar-lhe seu presente.
— A melhor amiga de todos os tempos chegou! — Thaís se apresentou, fazendo Bella gargalhar.
— Que bom te ver — As duas se abraçaram — Quem é ela? — Izabella apontou para Carolina, que estava rindo da cena.
— Ah! Desculpa não apresentar, estava muito feliz em te ver. Essa é a Carolina Aguayo, eu quase a atropelei e...
— Já entendi. — Izabella parou de rir — Olá Carol! Meu nome é Izabella Marçal, seja bem vinda a minha casa! — Ela riu de como aquela frase soou. E apontou para dentro da casa, vendo Pam. — E aquela é Pamella Oliveira, ou somente Pam. — Thata olhou curiosa para Bella, esta, que lançou seu melhor olhar de “depois conversamos”.
Todas as quatro se dirigiram ao andar de cima, rumo ao quarto de Izabella. Era uma casa muito bonita e bem cuidada, fazendo com que Thata não conseguisse esconder seu interesse por lá, mesmo fazendo visitas diárias à amiga.
— Bom, tem lugar pra todas aqui — Izabella sorriu — É só se sentarem que eu tenho muito para falar.
— Nem pensem em sentar no pufe lilás, não sei se vocês já perceberam, mas já tem dona. — Thaís correu para “seu” lugar do quarto, onde realmente havia uma placa dizendo “Lugar reservado a Thaís Miranda, sujeito a reboque”.
Ouve uma explosão de risadas por parte das duas novas integrantes do “grupo”, Izabella, que já estava acostumada, apenas revirou os olhos e exibiu um sorriso maroto.
— Bom, desculpa não ter nada para vocês — Ela olhou para Pamella e Carolina — Mas é porque acabamos de nos conhecer. Então... — Ela exibiu uma caixinha preta e laranja nas mãos e olhou para Thata, esta que já estava revirando a sacola que trouxera. Quando sorriu triunfante e pegou uma embalagem enorme com tons berrantes de amarelo e laranja. — Oh, não. — Bella fechou a cara.
— Ganhei! — Thaís se levantava correndo pelo aposento repetindo isso várias vezes, chegando em Bella, dando-lhe um beijo na bochecha. — Desculpa, mas... aguenta essa LOSER!
— O que foi gente? Vocês são loucas? — Carol disse rindo para as amigas.
— Não, não somos. — Thata respirou fundo, cansada pelo exercício. — É que todo natal, nos damos presentes com embalagens bregas, e fazemos uma competição.
— Quem der a embalagem mais brega ganha — Izabella completou — E esse é o primeiro ano que essa idiota ganha, por isso está tão exaltada.
— Só é a primeira vez porque você manipulou o “juiz” no ano passado — Thata disse, pegando a embalagem da mão de Bella e colocando a outra no lugar.
— Que calúnia!
Carol e Pam só conseguiam rir, estavam quase ficando sem ar quando ouviram um grito e uma Izabella histérica pular em cima de Thata, dando-lhe muitos beijos na face.
— Eu não acredito — Ela disse mostrando uma capa de um disco de vinil — Você conseguiu! O disco de Beatles, assinado pelos quatro integrantes. Eu te amo! Muito obrigada. — Bella se levantou, recuperando a compostura. — Desculpa gente, mas eu estou muito feliz.
— Não tem problema, mas eu quero fazer uma proposta. — Pam disse rapidamente. — Estou com inveja. — Ela disse sorrindo. — Isso ai, muita inveja. Quero comprar presentes pra vocês também, então, que tal sairmos para o shopping e teremos apenas uma hora pra comprarmos bobagens uma para as outras, coisas baratas mesmo sabe? Depois voltamos e trocamos os presentes!
— Amei a idéia! — Carolina se levantou dando pulinhos — Vamos! Vamos! — Bella e Thata se entreolharam por alguns segundos e sorriram.
— Estamos dentro! Mas antes vou abrir meu presente. — Thaís disse rasgando a embalagem — Oh, não. Sério mesmo? — Izabella assentiu. Dentro da caixa havia um fino papel que estava escrito que ela acabara de ganhar um cachorro da raça Golden Retriever macho.
— Eu sei que seu sonho sempre foi ter um cachorro e, como você ama a minha Maggie, pensei em comprar um de raça igual para que no futuro eles se casem! — Izabella riu da própria teoria.
— Muito, muito obrigada. Eu que te amo! — Elas se abraçaram — Mentira — Thaís sussurrou para as duas que estava assistindo à cena — Agora, vamos?
— Sim, mas antes tenho que ver o que a Sra. Marçal quer de mim — Pamella sorriu sem graça — Só um minutinho.
Pam se dirigiu a porta do escritório e bateu rapidamente na porta, ouvindo algo como “entre” a garota adentrou o cômodo.
— Boa tarde Sra. Marçal, o que seria de tão urgente que a senhora me disse no telefone? — Pamella disse olhando para o chão.
— Então... queria que entregasse esse envelope ainda hoje naquele escritório que fomos na sexta, se lembra de como chega lá? — Cameron tirou os óculos e fitou a menina.
— Claro, levo sem problemas. — Pam disse sorrindo e pegando o envelope da mão da mulher — Então eu vou indo, irei sair com sua filha hoje. — Antes de ouvir uma resposta ela saiu do lugar, correndo para o quarto de Bella.
— Tudo pronto! Vamos? — Pam disse vendo as três garotas se aprontarem — Eu só preciso entregar esse envelope antes, então como provavelmente vocês ainda vão demorar, eu encontro todas lá ok? — Quando as amigas apenas assentiram com a cabeça e faziam um “uhum” com a boca ela saiu do quarto.
A tarde no shopping, não foi tão breve como as garotas esperavam, essa uma hora se transformou em três, elas tinham revirado o maior shopping de Londres procurando o melhor — e mais barato — presente para cada. O combinado era gastar no máximo vinte libras com cada uma, o que já diminuía muito as opções para cada uma. Depois de comprarem elas se encontraram no estacionamento e foram direto para a casa de Bella, onde bebidas e comidinhas às esperavam.
— Agora que irá começar a famosa “noite das garotas”. — Thaís disse mais uma vez, frase que fora repetida diversas vezes no carro, fazendo Carol gritar animadamente.
— Você fala isso como se fosse o evento mais badalado de toda Londres — Izabella disse revirando os olhos.
— Prestem atenção — Carolina começou — as meninas mais gatas, simpáticas e gostosas de Londres estão aqui. — A baixinha disse exagerando e rindo descontroladamente.
— Bella, sabe aquela Tequila que você disse? — Pam disse séria. — Vamos esconder da Carolina. — Ela disse abrindo o sorriso.
— Idiota! Eu que vou esconder de vocês se não subirmos logo.
Dito e feito, as três correram até o quarto de Bella, ficando sentadas em alguns dos muitos assentos disponíveis naquele lugar, ficaram um pouco em silêncio até que Carol se levanta e começa a rir.
— Ok, eu começo. Vamos fazer assim, eu escolho alguém pra dar o presente, depois de entregar, é a vez dela de fazer o mesmo e assim por diante. — As meninas assentiram fazendo Carol rir novamente. — Vou começar dando para uma pessoa, aquela que foi a responsável por me fazer encontrar com vocês. — Ela sorriu, olhando para Thaís que fazia o mesmo e se levantava.
Thaís pegou o pequeno pacotinho e o abriu soltando uma risada exagerada quando viu o conteúdo. Era um pequeno carrinho preto, idêntico ao de Thaís, a diferença era que na frente tinha uma mancha vermelha, similar a sangue.
— Que cobra você Carolina Aguayo! Eu já pedi desculpas! — Thaís disse levantando as mãos para o alto.
— Eu sei Thata, mas quando eu vi o carrinho, não resisti. — Carol deu de ombros.
— Ok! Minha vez! — Thaís disse levantando — Vou dar meu presentinho para uma pessoa que me surpreendeu hoje — As meninas permaneceram em silêncio — Ela era a única que eu não esperava deitada no sofá da Bella. — Ela sorriu para Pam, esta que levantou e deu-lhe um abraço.
Pamella pegou o pacotinho e o abriu, dentro havia uma miniatura de uma menina morena com óculos segurando uma pilha de livros, em baixo havia uma placa que estava escrito “Nerd”. Todas riram e continuaram a entrega de presentes. Além disso, ela recebeu uma maletinha de Carol — já que a garota passou a chamá-la de business girl (garota de negócios), por ser a única empregada no grupo. — e um porquinho de Bella, para ajudá-la a economizar dinheiro para tão sonhado carro. Thaís ganhou, além do carrinho, uma água oxigenada de Pamella, que satirizava sua cabeleira loira, que, por incrível que pareça, era natural. Carol foi presenteada com um colar que estava escrito Hope (Esperança) de Thaís, que era a única que sabia de sua história com sua irmã; um chaveiro de porquinho de Pamella e um gato de pelúcia, dado por Izabella, que segurava uma estrela que, no meio, tinha a frase “be safe”. Bella ganhou de Carol, uma plaquinha escrito “lar doce lar” toda desenhada e colorida, todas logo entenderam, pelo imediato fascínio da baixinha pela casa da garota; Pam deu-lhe duas pelúcias, uma de anjinho, e outra de capetinha, foi justificado pelas suas frequentes mudanças de humor.
— Meninas! Tenho uma confissão a fazer! — Thaís levantou o braço, rindo descontroladamente em seguida, fazendo com que todas repetissem a ação — Aconteceu uma coisa enquanto estava no Brasil. — Thata arregalou ou olhos, provocando as amigas, estas que já estavam bastante “felizes” devido a garrafa semi-vazia no meio da roda.
— Não enrola Thata! — Pamella gritou e jogou uma almofada na cabeça da loira.
— Calma, calma, vocês estão muito nervosas – Thaís disse rindo — Lá no Brasil o pessoal é mais... — Thaís fitou o teto tentando encontrar a palavra correta — Sapeca — ela exibiu um sorriso malicioso — Se é que vocês entendem.
— Claro que entendemos, brasileirinha — Bella provocou, e Thata deu-lhe a língua.
— Se a idiota da Bella deixar eu terminar — Thata disse rindo — Então, eu conheci uma menina, ficamos bastante amigas, saímos todos os dias, ela estava me mostrando como o Rio de Janeiro mudou, já que eu não ia lá tem muito tempo. Vocês não vão acreditar na balada que estreou por lá, simplesmente lin...
— Pelo amor de Deus Miranda! Não enrola! — Carol interrompeu-a.
— Nossa, que chatas! — Thata fez uma careta — Mas então, nós decidimos ir a um show de uma dupla sertaneja. — Thaís disse essa última palavra em português, fazendo com que todoas a olhassem com cara de interrogação — Desculpa, esqueci que vocês não sabem o que é, é tipo... Country. Lá está uma febre, as adolescentes amam ver carinhas cantando músicas de amor. Desnecessário! Mas eu fui com ela, não me chamam de boa amiga atoa, e eles eram totalmente gatos, vocês sabem que eu não resisto. Ainda mais quando a menina falou que era filha do empresário deles, e, que, provavelmente, entraríamos no camarim. Depois de show, eu já estava mais que entediada de ouvir aquelas músicas, e finalmente era a hora de ver os bonitinhos. Quando a gente chegou, eu notei que a minha amiga estava se engraçando pra um dos dois, o mais feinho, coitada! E eu aproveitei e fui pra cima do loirinho lá, e minha filha, você não tem idéia do que aconteceu depois! — Thaís gargalhou alto, fazendo as meninas que estavam boquiabertas repetissem sua ação.
— Thaís que babado! — Pam gritou, fazendo com que todas começassem a rir e zoar a loira, menos Bella, esta que permanecia calada fitando o chão com um sorriso maroto nos lábios.
— Gente, vocês estão percebendo que a Marçal está agindo totalmente estranho? — Carol apontou para Bella que só deu uma risada histérica.
— Sua vez Dear Bella — Thata disse desafiadora — Conte-me tudo e não esconda-me nada — ela deu ênfase na última palavra, fazendo Bella corar.
— Vocês são tão indiscretas! — Izabella disse ainda corada.
— Você não tem opção baby. — Dessa vez foi Pam que a pressionou.
— Ok, eu conto — Bella olhou para os lados e começou a abaixar o tom da voz. — Eu estava com meu pai, no interior, aí ele fez uma festa beneficente, a casa estava linda, toda decorada de branco e dourado, o que pode parecer brega, mas na hora estava bonita, você sabe como é a casa do meu pai né Thaís?
— Sei Bella, continua. — Thata a apressou.
— Então, meio que tinha uma banda apresentando lá, era a mais famosa da cidade, mas não usem isso como referencia, aquilo é um ovo. Aí no final do show, eu estava conversando com o vocalista e... aconteceu.
— O que aconteceu? — Carol disse e as três a olharam com os olhos arregalados, deixando a baixinha sem graça. — Uai gente, eu não entendi. — Pam revirou os olhos e cochichou em seu ouvido o que ela não esperava escutar. — Izabella Marçal, que pouca vergonha é essa? — O quarto se explodiu em risadas histéricas.
— O que vocês estão fazendo acordadas? — Dorothea abriu o quarto, vendo a garrafa vazia e quatro meninas altamente felizes.
— E aí Doro! Estamos curtindo aqui, tem lugar para mais uma. — Thata disse rindo.
— Sempre tem lugar no coração dessas groupies! — Pam gritou apontando para Bella e Thata, estas que se entreolhavam e mordiam a parte inferior da boca, lançando olhares maliciosos uma para a outra.
— Crianças! — Dorothea levantou os braços para o teto e bateu a porta.
— Eu acho que poderíamos fazer isso mais vezes — Bella lançou um olhar angelical para o teto.
— Concordo super, os caras de bandas britânicas são muito mais hots, eu tenho certeza. — Thaís disse fazendo um high-five com Bella
— Isso eu posso concordar — Pam e Carol disseram juntas, rindo em seguida.
— Isso é motivo para um brinde! — Thaís disse rindo.
— Pena que acabou as biritas! — Bella fez um bico.
— Você que pensa minha cara amiga — Thaís abriu a bolsa, tirando mais duas garrafas inteiras, depositou nos copos das respectivas garotas e ergueu o seu.
— Cheers — As quatro falaram juntas.
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