The Guardians
17 Capítulo 5- Deuce
Notas iniciais
Após o incidente de manhã, Jack e Will saíram juntos, provavelmente para a cidade já que um dos carros havia sumido. Eu realmente não conseguia entender. Em um minuto estão quase se matando e no outro, saem juntos para um passeio na cidade. O mais impressionante foi vê-los voltar na hora do almoço e comer tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Eles não haviam se falado, mas também não haviam provocado um ao outro. Nenhum de nós estava entendendo muito bem o que estava acontecendo. De qualquer forma, Lucy não pareceu esquecer o que tinha acontecido, e continuava a não falar com Jack. Cléo tentou falar com ela mais cedo, mas não teve como tirar a razão dela: o que Jack disse foi muito errado e ela não esqueceria tão cedo. No restante do dia ela ficou no gramado lendo seu livro, até pouco tempo atrás quando começou a escurecer e ela retornou a seu quarto. O resto da equipe estava na sala de jogos. Acho que Leo pediu uma revanche a Sky no Street Fighter. E Cléo, Riley, Kevin e Jason devem estar jogando cartas ou algum jogo de tabuleiro.
Após terminar meu banho, resolvi ir me juntar aos outros na sala de recreação.
— Merda! — é a primeira coisa que ouvi ao entrar na sala.
— Bom ver vocês também — eu disse ironicamente.
— Ah, oi Deuce! — Leo me cumprimentou do o sofá.
— Oi, Deuce! Não liga pra ele não. Leo fica muito irritado quando leva 6 derrotas seguidas! — Sky disse do lado de Leo.
— Foram 5 — ele devolveu.
— Foram 6, Leo — Cléo disse da mesa, enquanto observava atentamente suas cartas.
— Você está de costas para a tevê. Como pode saber? — Leo protestou.
— Leo, desiste. Todos sabem que foram 6 — Riley, que estava na cadeira em frente à Cléo, disse.
Leo fechou a cara e sentou no sofá de novo:
— Melhor de 10! — ele disse para a ruiva
— Por mim pode ser! — ela concordou programando o jogo para a próxima rodada.
O ambiente estava exatamente como eu havia imaginado. Adoro quando todos têm um tempo para descansar e aproveitar o tempo livre juntos. No nosso ramo de trabalho não é sempre que essas oportunidades acontecem. Todas as vezes que saímos da base, nunca temos certeza se todos vão voltar. Por isso, quando não estamos treinando ou salvando o mundo, e eventualmente fazendo faxina no templo, estamos na sala de jogos. Todos juntos, fazendo nossos passatempos favoritos, rindo e conversando, como se fossemos apenas um grupo de adolescentes normais se reunindo na casa de um amigo em um fim de semana qualquer.
— Deuce? Vai querer entrar na próxima? — Jason me perguntou.
Eu estava prestes a aceitar, quando notei que Kevin não estava com eles:
— Onde está Kevin? – perguntei.
— Saiu alguns minutos atrás — Sky me respondeu enquanto apertava botões violentamente no controle do X-box.
— Recebeu uma chamada ou mensagem importante e saiu — Jason completou — Aha! UNO! — ele gritou jogando sua peúltima carta na mesa.
— Raios — Cléo disse largando as cartas na mesa, acompanhada por Riley.
— Vou procura-lo. Depois me junto a vocês! — eu disse me retirando do quarto.
— Ok — escutei Riley dizer antes de eu fechar a porta.
Kevin é um dos meus melhores amigos. E o conheço bem o suficiente para saber que ele não perderia uma oportunidade de relaxarmos com todos juntos. Não creio que sairia assim por causa de uma chamada. Quer dizer, não por uma chamada qualquer. O que significa que a ligação que ele recebeu pertencia a uma pessoa especifica, e eu já tinha uma boa ideia de quem era.
Subi as escadas até o segundo andar e avistei alguns fios loiros desde o balcão. Aproximei-me:
— Ei, Kevin!
— Oi, Deuce. — ele disse meio distante.
— Tá tudo bem? O pessoal disse que você saiu rápido por causa de uma ligação.
Ele estava encarando o céu, mas baixou o olhar quando foi me responder:
— Pois é. Recebi uma chamada da Mi.
Mi, apelido de Michelle, era a namorada de Kevin.
— O que aconteceu?
— Bom, — ele se virou para mim — durante esses dias em que eu estava me recuperando dos meus ferimentos, eu tive que inventar algumas desculpas para adiar nossos encontros. Mas nenhum dos motivos era tão convincente
— Eu imagino. Você não é um bom mentirosão — eu brinquei.
— Definitivamente não. — o loiro devolveu com um sorriso de lado — A questão é que, a desculpa que inventei foi que um amigo meu quebrou a perna e estava no hospital e precisava da minha ajuda..
— Boa escapatória — eu admiti.
— Teria sido, seu eu não tivesse evitado dizer o nome do hospital ou do meu amigo, e me enrolado todo depois — ele começou a se preocupar — Agora ela suspeita que eu estivesse mentindo pra ela ou algo do gênero. Mas não posso dizer a verdade, não posso dizer que me machuquei por que fui atacado por uma Guardiã das Sombras! Quer dizer, não sem junto revelar minha identidade de herói e tudo o mais.
— Te entendo, meu amigo — eu disse tentando consola-lo. — Não se preocupe. Vamos achar uma saída.
— Como?
— Você disse que estava ocupado ajudando um amigo com a perna quebrada certo? — eu iniciei meu raciocínio — Então, eu serei seu amigo ferido!
Ele devolveu uma cara de dúvida e eu resolvi explicar meu plano mais a fundo:
— Eu vou te ajudar a falar com Michelle. Se ela ver que um amigo seu realmente está machucado, ela voltará a confiar em você e sua relação volta a ser como era antes!
— Mas, e a perna? — ele perguntou.
— Eu tinha pensado em cobrir com um gesso. Mas Jason pode facilitar esse trabalho para nós com sua mágica — conclui.
— Você realmente faria isso por mim? — Kevin me perguntou, começando a se alegrar
— Pra que servem os amigos, não é? — eu disse colocando a mão em suas costas — E então, vamos?
— Você quer fazer isso agora? — ele se espantou.
— Como minha avó dizia: não se deixa para amanhã aquilo que se pode fazer hoje! Vamos falar com Jason, ele lança uma mágica na minha perna para parecer que está quebrada. Eu e você pegamos o carro, vamos à cidade e falamos com ela! Assim vocês se resolvem e você não dorme com esse pensamento na cabeça. Tudo termina bem, o que acha?
Ele me olhou pensativo, e depois de um tempo respondeu com animação:
—É melhor do que meus planos!
—Obviamente! — eu disse brincando — Vamos lá?
Ele assentiu alegre e nos viramos para entrar no prédio e encontrar Jason. Descemos as escadas e íamos seguir pelo corredor em direção à sala de jogos, mas eu vejo Jack e Will saindo pela porta para a arena externa de forma sorrateira:
— Jack? — eu perguntei surpreso ao vê-lo.
— Deuce? — ele respondeu ainda mais surpreso.
— Aonde vocês vão a essa hora? — Kevin os questionou.
— Vamos a Biblioteca — Will tomou a dianteira da resposta.
— Ela não está fechada nesse horário? Já são quase oito horas. — Kevin devolveu.
— A bibliotecária é minha amiga. Não se preocupe. — Jack disse.
— E que livros pretendem pegar? — eu perguntei ainda achando a história deles meio suspeita.
— Livros sobre magia antiga que não há aqui na base. Fomos hoje de manhã pedir e ela disse que procuraria para nós. — Will respondeu rapidamente
— Exato. Eu me senti mal pelo briga com Will. Agora estou lhe ensinando sobre sua história. Ela disse para voltarmos de noite e pegar o livro — Jack completou.
—Ok, então… — Kevin disse menos desconfiado.
— Eu e Kevin vamos sair daqui a pouco. Se quiserem usar só um carro, deixamos vocês lá — eu ofereci.
— Não há necessidade, Deuce. Por isso mesmo temos mais de um carro! — Jack disse empurrando Will para fora. — Enfim, vamos indo nessa.
— Até mais! — Will acenou e saiu pra fora com Jack.
Eu e Kevin trocamos um olhar de “o que está acontecendo aqui?”. Mas resolvemos ignorar o assunto pelo momento e seguimos nosso rumo à sala de jogos. Assim que abri a porta, quase levei uma “controlada” na cara. Isto é, um controle veio voando em minha direção e quase acertou minha testa, por sorte, Cléo invocou umas rajadas de ar para impedir que o objeto me acertasse. Eu peguei o controle em pleno ar enquanto me dirijia a ela:
— Obrigado, Cléo!
— Sem problemas — ela disse sem desviar os olhos das cartas.
A seguir, virei-me para Leo, que estava de pé na frente do sofá, ainda com a pose de arremessador:
— Ooops. — ele disse com um sorriso nervoso após ver minha cara de reprovação — Não te vi ai Deuce. Foi mal!
Eu apenas balancei a cabeça como um sinal de negação e me dirigi a ele, depositando o controle em sua mão:
— Acho que você precisa encontrar um hobby menos violento!
— Concordo plenamente — Sky disse se levantando do sofá e espreguiçando-se. — Da próxima nós jogamos futebol ou basquete. Não aguento mais ficar sentada.
— Mas eu ainda não ganhei nenhuma partida. — Leo protestou.
— Não é como se isso fosse ocorrer muito cedo! — Riley disse da mesa — E, UNO! — ela sorri jogando seu 7 vermelho.
— Sei como se sente, Leo — Cléo assentiu, jogando as cartas em sinal de derrota e levantando-se da cadeira — Acho que está na hora da gente comer alguma coisa.
— Essa ideia me agrada! — Sky brincou. — Pizza?
— Por que não? — Cléo disse indo em direção a porta.
— Mas é a Sky vai ficar de olho no forno?! Sabe como é, ela tem uma fama de queimar as coisas! — Leo começou a rir sozinho, recuperando-se da frustração de minutos atrás.
As duas apenas o ignoram e saíram do quarto, enquanto Kevin se dirigiu a mesa para falar com Jason sobre nosso esquema. Eu, por outro lado, me sentei no sofá, seguido por Leo, que tentava controlar os risos. Peguei o controle e desliguei o videogame.
— Aiai! Eu me amo — ele enxugou uma lágrima e endireitou-se no sofá. — E ai, Deuce? Vejo que encontrou Kevin!
— Pois é. Vamos a cidade resolver seu rolo amoroso — eu respondi.
— Ah, o amor! Viu? Por isso não me apaixono. Da muito trabalho. — ele disse simplesmente.
— Também encontramos Jack e Will no caminho — eu puxei outro assunto. Ainda não consigo tirar aqueles dois da minha cabeça.
— Jack e Will de novo, huh? — ele disse pensativo — Algo de errado não está certo. Em um minuto estão querendo se matando e no outro estão saindo juntos. Para onde eles disseram que iam?
— Para a biblioteca. Segundo eles, Jack está ensinando a história dos Guardiões a Will.
— Não gosto nada do rumo que esta história está tomando — Leo comentou — Ficarei atento ao horário, tenho um mau pressentimento sobre essa repentina “amizade” deles. — ele disse desconfiado.
— Eu não teria dito melhor! – concordei.
— Deuce! — Kevin me chamou da porta, acompanhado de Jason.
Ele me fez um sinal de “vamos” com a cabeça e saiu.
— Bom, eu vou indo. Mas me informe se qualquer coisa ocorrer — eu disse me levantando.
— Pode deixar!
Retiro-me da sala e subo ao terceiro andar até a sala de Jason. Fecho a porta detrás de mim assim que entro.
— Certo, acho que tenho um feitiço que pode ajuda-los — Jason disse endireitando os óculos enquanto folheava sobre as páginas de um livro que ele tinha acabado de pegar.
— Esse feitiço é indolor, certo? — resolvi checar antes que ele lance o feitiço em mim.
— Sim, o feitiço vai engessar sua perna e impedir que você toque o chão com ela. Toda vez que você tentar tocar o chão, uma dor horrível percorre seu corpo. Isso evita que vocês estraguem o disfarce — o loiro explica
— Ótimo. Me sinto bem mais calmo agora.
— Não se preocupe, eu te ajudo a não colocar o pé no chão — Kevin disse me tranquilizando.
Respirei fundo e lhe disse para lançar o feitiço. Jason continuou a olhar as palavras em seu livro e começou a balançar suas mãos ao mesmo tempo em que recitava umas palavras esquisitas, provavelmente em latim:
“In quas maledicta congessi operimentum in oras salsuram femoris. Humi pes abstinet, aut patitur a dolore ad INFEROS!”
Ele gritou as últimas palavras, e estendeu sua mão em direção a minha perna, a cobrindo com uma nuvem branca de magia. Quando a nuvem se dissolveu, minha perna estava completamente engessada, e levantada a exatos um milímetro do chão. Ele balançou suas mãos no ar mais uma vez e um par de muletas apareceu do nada. Ele me entendeu o objeto e eu me apoiei nelas, evitando ao máximo tocar meu pé no solo.
— Acho que estamos prontos para ir! — eu exclamei, mesmo que um pouco assustado. Podia jurar que as últimas palavras se pareciam com “dor dos infernos”. Certamente me lembrarei disso quando pensar em colocar o pé no chão.
— Creio que sim. Muito obrigado por fazer isso, Deuce! — Kevin me disse agradecido.
— De nada. Ah, mais uma coisa — eu me virei para Jason — esse feitiço tem algum tempo de duração ou coisa do gênero? — perguntei, só para não deixar dúvidas.
— Agora que você menciona, acho melhor colocar um limite de tempo, não? — ele, guardou o livro que tinha até então na prateleira e selecionou outro.
Ele começou a folhear as folhas de seu novo livro novamente:
— Certo. Você quer um tempo determinado, que o feitiço se anule ao entrar ou sair de um lugar, ou que acabe ao dizer uma palavra mágica? — ele perguntou enquanto lia os nomes dos capítulos.
— Acho que a do lugar é a melhor opção. – opinei.
— Você podia colocar um feitiço no carro. Assim que ele entrar no carro pela segunda vez o feitiço termina! — Kevin sugeriu.
— Vou ver — Jason voltou a folhear seu livro — Acho que é possível fazer isso sim! Vamos ao carro!
Ele invocou magia com suas mãos novamente e nos teletransportou até a garagem. Ele falou tão rápido e repentinamente que nem prestei atenção em suas palavras. Enquanto eu e Kevin nos recuperavamos da tontura, devido ao teletransporte inesperado, Jason lançou o feitiço no carro.
— Eu deveria ter avisado que ia fazer isso, não é? — ele passou a mão no topete meio nervoso — Mals!
— Sem problema — Kevin pegou as chaves do bolso e deu a volta no carro para ocupar o banco do motorista. — Obrigado pelo ajuda, Jason. – ele disse quando passou por este.
Eu entrei com dificuldade no banco ao lado. Assim que me ajeitei, abri a janela e pus a cabeça pra fora:
— Obrigado por tudo Jason!
— Valeu mesmo! — Kevin disse.
— Não há de quer! — ele disse afastando-se do carro.
Kevin apertou o botão do controle que abria a porta da garagem e iniciou o carro. E assim, saímos os dois pela noite, rumo a casa de Michelle, escutando um CD de músicas do Michael Jackson no caminho (tinha que ser o Kevin!), para tentar recuperar o namoro de um dos meus melhores amigos. Enquanto isso eu ficava repetindo em minha cabeça para não tocar o pé no chão, não queria descobrir que dor é essa.
Mas mesmo com tudo isso ocupando minha mente e eu com minhas próprias coisas e problemas para resolver, eu não podia parar de me preocupar com Jack e Will. Eu duvido muito, mas espero que eles tenham dito a verdade quanto à história da biblioteca. Por que, assim como Leo, eu não posso deixar de ter um péssimo pressentimento quanto a esses dois.
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