The Greatest

1 Greatest Hits


Capítulo 1 – Greatest Hits

Once I wanted to be the greatest

No wind or waterfall could stall me

And then came the rush of the flood

Stars of night turned deep to dust ¹

- x -

Primeiro vêm as gotinhas que caem no nosso rosto sem aviso. Depois o espaço de tempo entre cada uma dessas gotinhas vai diminuindo, e elas vão ficando mais grossas e pesadas. Geladas. Tornam-se uma unidade. Tornam-se chuva.

Eu estava debaixo dessa chuva. Não era muito forte, mas engrossava rápido e eu tinha caído na besteira de sair de casa sem guarda-chuva, na tola esperança de que não precisaria dele. Não me importaria muito em me molhar um pouco se não fosse o frio daquela noite e os livros que eu tinha resolvido pegar na biblioteca e que agora carregava nos braços. Esses eu não poderia estragar de jeito nenhum.

Ao meu redor começou o espetáculo da abertura de guarda-chuvas sincronizada. O lado bom de estar em uma calçada movimentada e de esbarrar o tempo todo nas pessoas é isso: quando elas abrem os guarda-chuvas, você sempre está no “raio de proteção” de algum.

Fui me aproveitando desse fato até encontrar algum estabelecimento aberto onde eu pudesse me abrigar. Naquele momento isso era meio difícil, pois muitas pessoas tinham resolvido fazer a mesma coisa que eu e agora enchiam as lojas. A chuva estava ficando mais forte, alguns comerciantes fechavam as portas para evitar a entrada de água. Em uma esquina a duas quadras de onde eu estava vi uma luz acesa em meio aos transeuntes e seus sobretudos. Corri até lá, desesperado e protegendo os livros com a roupa.

Era uma loja de discos, milagrosamente vazia. Bom, quase vazia. Havia algumas pessoas olhando as prateleiras, outras apenas esperando a chuva passar. Na verdade, eu só reparei que vendiam discos algum tempo depois de ter entrado lá e constatado que os livros não haviam molhado muito.

O som ambiente era alguma música do Sex Pistols que não consegui distinguir por causa do barulho que a chuva fazia lá fora. Entrei mais, até encontrar o balcão, atrás do qual havia um homem de costas para mim, ouvindo música em enormes fones de ouvido e folheando uma Rolling Stone.

Coloquei os livros em cima do balcão, separando os mais leves para tentar enfiar a qualquer custo dentro da mochila já abarrotada. Não entrava. Meus empurrões num livro de Eletrônica acabaram chamando a atenção do cara dos fones de ouvido, que se virou devagar para ver de onde vinham os trancos. Sorri amarelo para ele, murmurando um “desculpe!” e desisti da minha missão impossível. A chuva continuava a engrossar.

- Posso deixar aqui? – perguntei a ele, indicando os livros.

O cara não ouviu de primeira, óbvio. Tirou os fones e perguntou o que eu tinha dito. Repeti e ele fez que sim com a cabeça, para logo depois voltar à sua música e leitura. Arrumei melhor os livros num cantinho e fui dar uma olhada na loja.

Bem no meio havia as prateleiras de CDs, a novidade do momento. Mas em todo o resto da loja predominavam os discos e tapes, enchendo as paredes e estantes pregadas a elas. Eram raridades, gravações originais, havia também os recentes, os famosos, e os nem tanto... Era um paraíso para quem amasse rock e derivados.

Tirei a mochila das costas e procurei pelo meu bloquinho de anotações e uma caneta. Sem aquele bloco, eu seria capaz de esquecer até a alma em casa. Em meio às milhares de anotações, escrevi a localização da loja e... opa, eu não sabia o nome dela.

Fui até o balcão de novo, e cutuquei o cara. Ele tirou os fones bem devagar, me olhou com uma expressão de “o que é dessa vez?” e levantou as sobrancelhas, suspirando.

- Qual o nome dessa loja? – perguntei, bloquinho na mão.

- The Greatest. – ele respondeu, provavelmente me achando com cara de jornalista.

Anotei o nome, feliz, e guardei o bloco na mochila. Pra falar a verdade, era quase um caderno pequeno, só que sem pauta. Era minha vida.

Aos poucos a chuva foi passando e as pessoas foram saindo e tomando seus rumos. Olhei meu relógio, já eram quase onze horas da noite. Peguei meus livros e dei uma última cutucada no cara. Ele suspirou pesadamente e, mais uma vez, tirou os fones.

- Tchau!– eu disse.

- Ah... Tchau. – ele respondeu, um tanto admirado. – Volte sempre. – acrescentou, desligando o som da loja.

- Eu volto, sim. Até mais.

Fui embora, andando com cuidado nas calçadas escorregadias. Eu tinha que parar de chegar em casa tão tarde assim no meio da semana, odiava ter que pegar o metrô junto com caras de aspecto nada amigável e andar por ruas inóspitas de madrugada.

Girar a chave e entrar no apartamento foi um alívio. Coloquei os livros em cima da minha atulhada mesa de estudo e fui fazer um café pra me aquecer. Como eu acordaria cedo no dia seguinte já era outra história.

- x -

Se minha vida fosse uma lista de Greatest Hits, Tony estaria em último lugar. Como se uma banda nova idiota tivesse feito muito sucesso com um single por, sei lá, apenas seis meses e logo depois simplesmente sumisse da lembrança dos jovens que a amaram incondicionalmente.

Eu estava pensando nisso enquanto ele corria atrás de mim na faculdade. Além de ter acordado quase tarde e de estar completamente puto por saber que não poderia comprar um walkman novo por algum tempo, ainda tinha de aturar o chato que pensava que era meu amigo, por mais que eu insistisse no contrário.

- Hey, pára de andar! Parece até que não me ouve. – o infeliz falou, quando conseguiu se aproximar mais de mim.

- O que você quer?

- Não posso nem te dar oi?

- Não, você não pode. Eu te odeio e quero que exploda, aqui e agora.

- Não sei pra quê tanto rancor.

Ah, mas eu ri. E muito. Cinismo, burrice? Acho que os dois. Ele fala como se nunca tivesse feito nada de errado na vida e eu fosse o monstro ali.

Eu nunca me esqueci do que ele fez, e nem poderia. No primeiro semestre, quando eu era apenas um triste calouro do novíssimo curso de Engenharia da Computação, chamado de nerd por todo o mundo, surgiu o Tony. Ele fazia Engenharia de Telecomunicações e era tão calouro quanto eu, mas isso não o impediu de ser horrível.

Nosso “namoro” consistia basicamente em alguns amassos nos intervalos das aulas. Isso durou dois meses, até o dia em que o vi se agarrando com um outro calouro qualquer, de Telecomunicações, em uma festa. No meu canto, vi toda a cena. Só não pude ouvir a conversa deles, que riam de alguma coisa. Devia ser de mim. Só podia ser de mim.

Cinco minutos depois ele foi atrás de mim, com um sorriso na cara de pau. Quando nos encontramos eu apenas lhe dei um soco e fui embora. Desde então, três semestres depois, ele ainda me persegue. Um dia ainda repito o soco.

- Não fica rindo da minha cara, ok? Se não quer falar comigo, não fala, pronto. – ele falou, interrompendo meus devaneios e indo embora, irritado. Ótimo.

De qualquer forma, ele sempre fazia isso e com certeza voltaria a me perturbar antes do fim do dia. O melhor que eu tinha a fazer então era aproveitar as horas que teria sem o Tony no meu pé.

Bom, voltando a lista de Greatest Hits em que estava pensando... Eu sinceramente não saberia o que – ou quem – colocar em primeiro lugar, já que tudo de bom que acontecia na minha vida invariavelmente dava errado. Vide Tony, o falso bom partido. Alto, bonito, pretensamente inteligente e quase gentil quando queria ser. Era pra casar.

Depois do belo par de chifres que recebi ainda passei algum tempo pensando no que tinha feito de errado. Eu não era ciumento, nem chato ou grudento. Talvez fácil demais? Não sei. Me torturei com isso até chegar a conclusão de que ele é que era um cafajeste e que eu merecia coisa melhor.

É, ainda estou esperando a coisa melhor.

- x -

Tirei o bloquinho da mochila no meio de uma aula de Eletrônica. Fui passando as páginas lentamente, vendo as listas de filmes que já tinha assistido, de livros que deveria ler, de caras chatos que deveria evitar – adivinha quem estava no primeiro lugar! – e outras milhares de coisas. A folha mais recente era a de lugares que eu não deveria esquecer, onde eu tinha anotado na noite anterior o endereço da loja de discos.

Talvez eu devesse ir lá de novo. Não pra comprar alguma coisa, pois precisava economizar pro walkman, mas só pra olhar... Assim como adorava ficar horas na biblioteca apenas folheando os livros, eu poderia matar o tempo por lá, babando nos discos.

Foi assim que, no fim da tarde, resolvi ir na The Greatest. Sem nenhum livro nos braços e satisfeito por ter um objetivo, fui mais uma vez derrubado da minha nuvem por ele.

- Josh! Aonde você vai? – Tony perguntou, me alcançando antes que eu saísse pelo portão principal.

- Não interessa!

- Posso ir com você?

- Claro que não. – respondi o óbvio, continuando a andar.

- A gente pode ir pra algum lugar e conversar. O que você acha?

- Acho péssimo. Não temos nada pra conversar.

- É claro que temos. Você não tem motivo pra me odiar.

- Não tenho? – sibilei, me virando bruscamente para olhar nos olhos da criatura. – Você me traiu com aquela tripinha da sua turma e me diz que não tenho motivo nenhum pra te odiar?

- Joshua, olha pra mim. – ele falou com a voz melosa, tentando me derreter. Tudo bem, eu derreti mesmo. — Nós não tínhamos nada oficial. Era uma festa e eu estava bêbado e depois nunca mais tive nada com ele. Não valeu como traição.

Às vezes o raciocínio lógico me irritava profundamente. Porque não fiz Letras?

- É claro que tínhamos algo oficial. – eu não tinha certeza dessa parte, mas precisava parecer que tinha. – E pra mim valeu como traição, sim. Agora me deixe em paz, senão eu chamo a polícia.

- Não precisa ser tão dramático. Eu só quero conversar. Ou você quer que fique esse clima ruim entre a gente pro resto da vida?

- Eu não quero mais ver você pro resto da minha vida.

- Joshua... Por favor.

Ele tinha uns olhos verdes que me fariam gemer só de olhar pra eles. E uma voz tão bonita que toda vez que dizia meu nome naquele tom de “por favor, me dê uma chance” eu tinha que me segurar para não beijá-lo. Era um chato e tinha me traído, mas tinha lá o seu charme.

A loja ficaria pra outro dia. Suspirei resignado e voltei a andar, sendo prontamente seguido pelo cafajeste com um sorriso de você-fez-a-escolha-certa no rosto. Ele devia ser produzido em escala e comercializado. Talvez pudesse resolver os problemas do mundo com sua insistência.

Talvez não houvesse coisa melhor.

- x -

Notas finais
Nota¹: Uma vez eu quis ser o melhor
Nenhum vento ou cachoeira poderia me deter
E então veio a agitação de uma enchente
E as estrelas da noite profundamente se tornaram pó

Música: The Greatest - Cat Power

Nota²: Aqui estou eu, em uma nova história :D

Bom, ela se passa na Londres dos anos 90, quando os discos de vinil (LP's) começaram a ser considerados obsoletos e foram sendo substituídos pelos CD's na preferência das pessoas. Nessa época também ocmeça o interesse maior pela Informática e surge o curso de Engenharia da Computação nas faculdades de Tecnologia :D
Primeiro capítulo para apresentação de personagens e, claro, da loja The Greatest :D
Até a próxima...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.