Notas iniciais
História feita sobre o final da guerra do The Gray Garden, após a Etihw selar o Kcalb...
Achei que ficou bom para o primeiro tema do desafio de 52 fanfics.

Tudo o que sobrara fora um mundo devastado.

Apenas seres mortos e solidão no meio de um mundo de escuridão.

Árvores? Seria raro encontrar alguma com folhas. Todas, em todos os lugares, estavam vazias. Apenas seus galhos que uma vez se expandiram para o alto e para os lados, formando um abstracionismo de linhas marrons, pretas ou cinzas. Talvez uma folha ou outra poderia ser encontrada no chão, prestes a ser decomposta.

Era uma visão realmente desoladora.

Nenhuma vegetação parecia ser encontrada em lugar algum, apenas uma baixa grama acinzentada que não parecia ter nenhum tipo de vida. Seria até impossível acreditar que algo nascera ali algum dia se não tivesse vivido alguns anos antes.

Os rios, que antes corriam com uma água limpa e clara, cheios de peixes azuis, vermelhos, dourados, todos coloridos, que pintavam a paisagem por todos os lados, trazendo alegria e esperança ao pensamento de todos, agora estavam vazios, sem cores. Não era possível ver seus fundos, pois a sujeira parecia impedir. E nenhum sinal dos animais aquáticos nadando. Provavelmente não sobrara nenhum.

E as próprias florestas, antes cheias de animais, agora pareciam não revelar nem pequenas formigas andando pelo chão.

O céu, para terminar, não ajudava muito. Apenas uma visão nublada, com raios aparecendo e trovões sendo ouvidos de minutos em minutos. A visão das nuvens brancas, cheias de água, que podiam se transformar em chuva a qualquer momento, se espalhava por todos os lados, tornando-se impossível ver o céu azul, a infinidade de estrelas, algo que não aparecia há um tempo.

Tudo aquilo se tornara um terreno baldio, uma destruição, algo irracional, um abstracionismo. Não tinha maneiras de entender o motivo daquilo. Não havia um jeito de acreditar que seu mundo se tornara aquilo.

Ela andava pelo Campo de Batalha, onde tudo havia terminado. Agora, era um grande cemitério, onde habitavam os espíritos de centenas... Não... Milhares de soldados. Anjos e demônios, as duas raças que lutavam pelo domínio do mundo, lutavam por sua liberdade.

Mas... Agora, aquilo parecia tão fútil. Tão inútil, algo que poderia ter sido evitado muito tempo atrás. Que ridículo era o pensamento da guerra naquele momento. Sim, anjos e demônios eram diferentes, eles nunca poderiam viver em paz, juntos...

Mas...

Por quê?

Por que eles eram assim? Por que, apenas por serem opostos, eles tinham que lutar?

Ela fazia essas perguntas em sua cabeça, sem obter o mínimo de respostas. Na verdade, Ela percebeu que não se lembrava de quase nada antes da guerra. Parecia que os anos recentes tinham se resumido apenas aos acontecimentos e às lutas contra os demônios.

Cenas da batalha final passaram em sua mente. Aquela horrível batalha, que deixara o mundo assim.

Ela estava no centro, frente a frente com seu maior inimigo. Ele mostrava em sua cara um sentimento de tristeza, ódio, solidão... Uma expressão de quem não mostraria piedade, alguém corrompido por dentro que só sabia lutar.

E Ela, pensando agora, era a mesma coisa. Não via isso naquela época, mas via agora. Os dois, apesar de serem opostos, eram totalmente iguais, pois lutavam em vão. Lutavam apenas alimentados pelo ódio.

Ela continuou andando pelo Campo de Batalha, sem prestar muita atenção aos detalhes em sua volta, e chegou em um pequeno caminho de terra onde começou a andar. O caminho era uns dois centímetros mais baixo do que a grama em volta, e tinha uma terra marrom acinzentada, que não incomodava muito seus pés descalços e macios.

Ele passava por meio da floresta, se é que aquilo podia ser chamado de floresta, e, após alguns quilômetros, chegaria até um grande castelo. Um gracioso e bonito castelo, feito com seus tijolos brancos, posicionados estrategicamente para que uma defesa fosse formada. Ele se expandia de um lado a outro, formando um tipo de muralha, com várias torres de vigia de tamanhos variados. A menor delas devia ter no mínimo vinte metros de altura. Os telhados visíveis, em formato triangular, eram todos feitos de telhas brancas, agora bem sujas e algumas até quebradas, tirando seu brilho, que, há não muito tempo, eram o maior destaque da construção.

“Etihw! Finalmente chegou, me perguntei por onde andava” alguém disse. Era Wodahs, seu anjo principal. Etihw olhou para ele e acenou, sem demonstrar muita emoção.

O anjo era bem sério e misterioso. Quase nunca demonstrava emoções, e, além de raro, era estranho vê-lo sorrindo. Ele possuía um cabelo cinza que tampava parcialmente um de seus olhos. Ou, melhor, o que era seu olho, pois agora ele era coberto por um tapa-olho, devido a um dano ocorrido durante a guerra.

“Olá, Wodahs” Etihw respondeu. Ela era a deusa daquele mundo, uma mulher morena com uma pele pálida e seus longos cabelos se estendendo, chegando quase até o chão.

“Por favor, entre. Tenho algo a conversar com você” Wodahs ordenou. A deusa andou calmamente até ele e o esperou abrir a porta, revelando uma sala aconchegante, com alguns sofás, um candelabro no teto com várias velas acesas e uma lareira acesa ao fundo, bem no centro. Dos dois lados da lareira, duas escadas abriam caminho para os andares superiores e o resto do castelo.

Etihw se aconchegou em um dos sofás e sentiu o calor da lareira a aquecer. Era uma coisa muito reconfortante após um passeio naquele mundo desolado e vazio.

Ela cruzou os braços, querendo se aquecer um pouco, enquanto esperava Wodahs começar a conversa. O anjo, no entanto, apenas observava a lareira com seu olhar sério. Ele não parecia nada alegre.

“Vai chover” Etihw disse, após alguns minutos, tentando puxar assunto. Wodahs pareceu sair de seus pensamentos e olhou para a deusa.

“Huh?” O anjo disse. Então, se lembrou do que iria falar. “Ah, sim.”

Ele olhou nos olhos cinzas da deusa. Esperava que ela ouvisse sua ideia.

“Já faz três anos” ele disse. “Três anos desde aquela maldita batalha final. Você se lembra dos detalhes, né?”

Etihw esperou alguns segundos.

“Sim, é claro. Só sobraram poucos anjos depois dela. Sherbet, Ciel... Morreram quase todos. Foi algo bem tenso” ela disse, falando alguns dos fatos da referida batalha. “E foi lá que o Kcalb feriu o seu olho.” Kcalb era o diabo daquele mundo. Um homem perverso, no pensamento de Etihw. Ele era o irmão mais velho de Wodahs, e quem tinha iniciado a guerra.

“É... E, no fim, o Kcalb desistiu de usar aquele feitiço. Você sabe o que o feitiço fazia?” Wodahs perguntou.

As memórias daquela cena vieram em sua mente. Kcalb tinha começado a falar algumas palavras que fariam um feitiço. Ele até começara a brilhar, quando, por algum motivo, mostrou piedade e desistiu. Por mais que fosse a deusa, ela não fazia ideia dos efeitos que o feitiço causaria.

“Não.”

“Certo. Bom, após isso, ocorreram os últimos golpes, não? Vocês dois estavam frente a frente e usaram sua magia um contra o outro ao mesmo tempo. Luz e trevas se encontraram, causando uma explosão” Wodahs começou a citar os acontecimentos. “E foi essa explosão que deixou o mundo no estado que está agora. No fim, seu feitiço foi maior e você atingiu o Kcalb. E, por fim, o baniu. E, depois de três anos, não vimos mais ele, que se encontra nas profundezas da terra, sem nenhuma chance de escapar.”

Era tudo verdade. Kcalb tinha sido selado com um feitiço de Etihw. No fim, a luz tinha vencido a escuridão. Mas ela não entendia por que o mundo se encontrava daquele jeito. Ela era a luz, o branco, o “bem”, certo? Por que o mundo se encontrava em tal destruição?

“Por que está me falando isso?” Ela perguntou ao anjo.

“É que... Tudo está diferente do que você imaginava, não? Você imaginava que o mundo seria lindo, brilhante, com unicórnios gays e arco-íris para todo lado” Wodahs disse. Etihw imaginava aonde aquela conversa chegaria. “Mas tudo ficou devastado e você não consegue criar mais nada. Acontece que... Eu acho que sei o motivo de isto estar acontecendo.”

Etihw não demonstrou estar surpresa após aquela última fala, embora estivesse. Ela preferiu manter a seriedade em seu rosto.

“Sabe?”

“É... Talvez. É que... Luz e Trevas. Branco e Preto. Yin e Yang. Positivo e Negativo. Etihw e Kcalb. Equilíbrio. É o princípio da dualidade. Quer dizer que... Um não existe sem o outro. Os dois devem existir juntos para trazer equilíbrio ao mundo, para trazer a paz.” Wodahs fitou Etihw. “Eu acho que existe um jeito de trazer a vida de volta ao nosso mundo, mas não sei como te convencer a fazer isso.”

Etihw temia que Wodahs dissesse aquilo... Não, ela não podia fazer!

“Etihw, eu acredito que a única solução para consertar nosso mundo seja... Libertar o Kcalb.”

“O quê?” Ela gritou, levantando-se do sofá em uma fração de segundo e ficando de pé. “Está louco? Depois de tudo que ele nos fez passar, depois da guerra que ele trouxe, a guerra que ele causou...”

“Lembre-se de que o Kcalb iniciou a guerra porque você o selou em primeiro lugar...” Wodahs a interrompeu. “...e ele conseguiu escapar de lá sozinho.”

Etihw se sentou novamente, cruzando os braços e depois colocando uma perna em cima da outra. Odiava quando ele estava certo.

“É. Mas, mesmo assim, que provas você tem de que isso dará certo?”

“Bom, anjos e demônios são totalmente opostos. Mas, mesmo assim, isso não significa que eles não possam coexistir. Vamos lá, Etihw, abra a sua mente. Esse seu bloqueio já durou três anos, você não consegue criar nada desde a batalha final. Se você não fizer esse pequeno sacrifício, vamos todos morrer aqui, sozinhos. Pense em Grora, em mim. Pense em todos que morreram. Por favor, Etihw.”

A deusa pensou sobre aquilo. O que ele dizia talvez fazia sentido. Depois de tudo aquilo... Será que a paz realmente seria a resposta? Apesar de tudo, ela não podia evitar o pequeno sentimento em seu coração que queria aquilo.

“Então... Para salvar o mundo, para trazer a vida de volta... Eu preciso da ajuda de Kcalb” Etihw disse, revendo o que o anjo dizia. “E... Precisamos viver em paz. Mas e se ele não quiser a paz? E se ele tentar me matar quando eu o trouxer de volta?”

Wodahs esperou alguns minutos.

“Bom, deixe isso comigo. Se eu realmente conseguir te convencer, eu aposto que consigo convencer meu irmão. Embora ele pareça mau, eu sei que tem algo de bom nele. Eu vi a cara de remorso quando ele acidentalmente danificou o meu olho.”

Mais alguns minutos se passaram.

“Me dê tempo para pensar” a deusa disse, levantando-se e andando calmamente até uma das escadas, logo sumindo da vista do anjo.

E, então, um dia se passou. E outro. E outro. Semanas se passaram, até alguns meses. E tudo ia de mal a pior. Realmente, aquele mundo estava acabado. Só havia uma alternativa.

“Wodahs.”

Era Etihw, falando, depois de meses após aquela conversa.

“Talvez você esteja certo. Apesar de tudo, não custa tentar. Chame Grora. Vamos fazer isso agora.”

Alguns minutos depois, Etihw andou para fora do castelo e depois caminhou por alguns quilômetros, até chegar ao Campo de Batalha. Wodahs e Grora estavam ao seu lado, armados pra caso algo acontecesse.

Chegando ao centro, local onde ela fizera o feitiço de banimento, ela fechou os olhos. Concentrou-se no fundo de sua mente e sentiu sua energia fluir por seu corpo, dos pés à cabeça. Um grande sentimento, um pressentimento de que aquilo daria certo, a motivava.

Sua determinação era expressada em seu rosto. Ela viu todas as imagens da batalha final passarem por sua mente. Ela só tinha que... Deixar aquilo ir. Não conseguiria fazer aquilo sem deixar tudo para trás.

Ela se concentrou.

“Aceite. Isso aconteceu, mas tem que mudar” ela disse a si mesma.

E, então, sua energia foi liberada. Ela agachou e esticou seus braços para frente, e ficou com a cabeça abaixada, em direção ao chão. Um grande raio apareceu bem a sua frente, indo até o céu e perfurando as nuvens. O raio, de início, parecia ser totalmente branco e brilhante.

Mas, na verdade, metade dele era preto.

Luz e Trevas. Branco e Preto. Yin e Yang. Positivo e Negativo.

As palavras de Wodahs passavam por sua mente.

Etihw e Kcalb.

Ela mantinha a mesma posição.

Equilíbrio.

Então, sentiu tudo ficar leve. Até seu próprio corpo, que se largou e foi em direção ao solo. Ela sentiu o chão de pedra bater em sua cara. Depois de sentir o impacto, levantou-se devagar. O raio em sua frente começava a tomar um formato.

“Não... Eu tenho que fazer algo antes disso. Eu preciso mudar” ela pensou consigo mesma. Então, viu um pequeno diamante branco, com um formato de losango, bem na sua frente. Ela o colocou nas palmas das mãos e observou. Viu o seu reflexo. Seu grande cabelo em suas costas. “É isso.”

Então, ela segurou o cabelo todo em um único tufo com a mão esquerda, como se fosse prendê-lo. Ela o levantou até o alto e fechou os olhos. E, por fim, com o diamante na mão direta, ela o passou em seu cabelo rapidamente.

Todos os fios se partiram e caíram no chão. Os cordões que a prendiam a seu passado, os nós que amarravam e fechavam sua mente, todos eles foram cortados. Eles foram deixados para trás, assim como a guerra, assim como a antiga Etihw.

Agora, ela não tinha mais o longo cabelo, mas sim um curto, que não ia muito abaixo dos ombros. E não se arrependia de ter feito aquilo.

Quando olhou a sua frente, viu o diabo. Ele tinha um cabelo branco e dois chifres cinzas bem altos.

Ele parecia confuso sobre o que estava acontecendo. Mas ela sentiu que ele iria aceitar a paz.

Seu coração bateu forte. As nuvens no céu começaram a se desfazer. O céu estava azul e bonito.

Wodahs estava certo.

Era hora de um novo começo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!