The Good Father

1 Capítulo Único


The good father

Yue terminou de ajeitar a fralda de sua filha e deu um beijo na testa dela. A pequena estava em cima do braço do sofá laranja claro de sua sala de estar, não completara nem um ano de idade ainda e, além da fralda, vestia uma camisetinha violeta, da cor dos poucos fios de cabelo que cresciam em sua cabeça. Seus brilhantes e inocentes olhos castanhos claros, iguais aos de seu pai, percorreram de cima a baixo a figura de sua encantadora e jovem mãe. Ergueu a mãozinha para pegar um dos fios dos cabelos azuis claros da mulher que lhe trouxe ao mundo, queria puxar um dos clips que ela usava para manter atrás da orelha a curta cabeleira do lado esquerdo da face, mas foi detida. Yue não gostava que mexessem em seu penteado.

Sora Raikyuu, seu marido, pai biológico de sua filha e Guardião da Terra, o cargo mais alto a que um retalhador pode aspirar, saiu do quarto depois de quatro horas dormindo. Ele passou a tarde trabalhando, mereceu aquele descanso, mas anoiteceu e Yue precisava sair em missão. Alguém tinha que cuidar da pequena Lisa enquanto ela estava fora.

— Vou perguntar mais uma vez... — Yue ajustou a camiseta branca, fechou o cinto de couro sobre a calça preta, virou-se para ele e avisou. — Vai mesmo conseguir cuidar dela direitinho, sem ajuda? Eu ainda posso ligar pra Naomi.

— Que coisa! É claro que vou, ela é minha filha, o que você pensa de mim? — Reclamou. Um asiático brigão, sempre com o peito nu tatuado a amostra e modos pouco cordiais, Sora sabia muito bem que ela achava que ele não conseguiria. A carranca de sua esposa foi a resposta de sua pergunta. Segurou os ombros dela, a girou, a empurrou até a porta e disse: — Vai tranquila, não se preocupe!

Yue usou a mão para impedi-lo de bater a porta. Deu seu sorriso mais simpático, dois tapinhas no peito dele e disse:

— Ok, amorzinho, eu vou tranquila. Mas se eu voltar e vir só um fio de cabelo da Lisa faltando, você morre.

O beijou na bochecha, se virou e saiu. Sora ficou parado no mesmo lugar, sem mudar a cara de tacho de quando ela fez a ameaça. Ninguém o assustava mais do que Yue. Bateu a porta, voltou-se para a sua menina e, muito nervoso, marchou até ela. Colocou as mãos nos quadris e ficou olhando-a nos olhos por vários minutos. A criança, também muito curiosa sobre ele, pôs a mão na boca e devolveu a encarada. De repente, deu uma risada alta, o susto que deu em seu pai foi tão grande que ele caiu sentado.

No chão, o Raikyuu olhou rápido em volta e agradeceu por ninguém ter visto aquilo. Quando ia ficar de pé, levou outro susto, pois o pequeno Kyo estava ali. Um gritou apavorado para o outro, a menina, entretida com os dois, aplaudia e gargalhava.

— O que deu em você, não sabe mais bater antes de entrar?! — Sora brigou com Kyo e ficou de pé rápido.

— Eu encontrei a Yue no caminho e ela me disse para entrar! — Kyo ajustou com dois dedos os óculos fundo de garrafa e se justificou.

Claro que sim, Sora resmungou, respirou fundo e abaixou a cabeça. Yue não achava que ele era capaz de tomar conta de Lisa. Que tipo de homem não pode cuidar da própria filha, ele quase se sentiu ofendido, mas recuperou a dignidade, cerrou o punho direito e olhou a porta com determinação. Provaria para Yue que ela estava errada. Era especialista em provar para as pessoas que elas estavam erradas sobre ele, foi assim que chegou onde chegou.

Kyo não entendeu o sorriso dele.

— Vou para a praça com minha filha, levarei ela ao balanço. Se quiser vir para ajudar, está convidado, do contrário nós... — Sora começou a falar sem parar, Kyo, enquanto isso, tentava avisá-lo que a menina sumiu do braço do sofá. Como não estava sendo ouvido, o menino o cutucou no ombro, mas para chamar a atenção dele, teve que fazer isso várias vezes. — O que foi, Kyo? Fala de uma vez, eu já te ensinei que retalhadores de verdade sabem se impor, falam alto!

O Raikyuu voltou a falar sem parar. Kyo decidiu obedecê-lo e gritou dentro de seu ouvido:

— Lisa sumiu!

— Hum? Ela não sumiu! — Sora deu uma risada seca. Para se certificar, olhou o lugar onde Yue a deixara e de onde não a tirou. Kyo tinha razão. Virou o sofá, jogou pro alto a mesa do canto inferior esquerdo da sala, entrou no quarto, foi até a cozinha, ao banheiro, voltou e reconheceu: — Ela sumiu. Eu perdi minha filha! — Começou a exclamar em desespero, andando pela casa e revirando-a inteira.

Calado, pasmo, Kyo observava que ele também o ensinou que retalhadores de verdade mantinham a calma em momentos de crise, então ficou sem saber se continuava a ouvi-lo. Pensou também que Yue lhe delegou a tarefa de ajudar Sora a tomar conta da pequena, sentiu um medo congelante ao lembrar da ameaça dela e se juntou a ele numa busca irrefletida pela garota. Só depois de muito tempo e de bagunçar a casa inteira eles pararam e começaram a pensar. A contragosto, Sora pegou o telefone preto de ferro e ligou para Naomi.

— "Alô?" — Ela atendeu.

— Oi, Naomi, aqui é o Sora! — Ele ria, tentando não transmitir nervosismo na voz.

— "Deixa eu adivinhar: a Yue saiu e você perdeu a Lisa." — Retrucou a francesa.

— Claro que não! Que bobagem! — Entre gargalhadas, ele respondeu.

— Você quer nos matar?! — Kyo o repreendeu. Sabia que Sora era orgulhoso demais pra admitir que perdeu a menina, então ele mesmo o fez: — É, ele perdeu a Lisa!

Sora tapou a boca dele com a mão.

— Não dê ouvidos a ele. — Disse para a sua ouvinte. — É que... é que nós estamos brincando de pique-esconde e já passou da hora de dar a mamadeira dela, mas eu não consigo achá-la!

— "Sei. Me dá uns segundos, vou usar o meu poder pra achá-la." — Pediu.

— Sem pressa! Hahaha! — Continuava a tentar persuadi-la de que tinha tudo sob controle. A ameaça de Yue continuava a lhe dar calafrios. Mais do que isso, estava realmente começando a ficar preocupado.

Alguns segundos depois, Naomi o informou:

— "Ela está com os idiotas do Sato e do Sota, eles querem sequestrá-la pra te atrair. Me encontra na ponte em cinco minutos que eu levo você lá."

Sora esmurrou a mesa. Sato e Sota eram uma dupla de idiotas que ele derrotou e humilhou há uns anos, desde então eles viviam atrás dele, o desafiando, mas nunca os levou a sério. Mas usar um bebê era baixo demais. Nunca pensou que eles fossem capazes de descer tanto. Fora que se tratava de sua filha. Sim, precisava de Naomi lá, porque quando começasse a bater nos dois, não conseguiria mais parar. Como eles fizeram para raptá-la, ele não sabia. Só sabia que os dois estavam com ela e isso era tudo que precisava saber.

Não queria esperar cinco minutos, estava tremendo de raiva. Com um rosto que Kyo nunca viu antes, saiu andando, passou pela porta e correu reino a fora procurando por aquela dupla de imprestáveis. O menino fez o que podia para acompanhá-lo, mas, como já era de se esperar, ficava muito atrás. Sora era como uma força imparável da natureza, perambulava pelo reino numa velocidade que quase se equiparava à da luz e derrubava o que quer que estivesse em seu caminho.

Foi encontrar os sequestradores de sua filha numa pracinha perto da fronteira Leste do reino. Com bermudas cinzas, camisetas brancas sem manga e tênis pretos esportivos, os gêmeos se alongavam ao lado do balanço. Ao vê-los, Sora parou de correr, Kyo colidiu com ele e caiu. Nenhum dos dois notou o Guardião da Terra e o menino logo de cara. O Raikyuu fechou os olhos, pôs as mãos na cintura e andou dois passos na direção deles.

— Ah, olha só quem tá aqui, mano! — Sato o notou.

— Quem diria, hein? Sora Raikyuu! Decidiu deixar o medo de lado e aceitar nosso desafio?! — O outro o provocou.

Estava escuro e fazia muito frio no local onde os quatro se encaravam, o silêncio imperava de tal forma que o cricrilar dos grilos ficara ensurdecedor. A expressão soturna que tomou a face de Sora deixava claro que ele não estava ali de brincadeira, Kyo estava com mais medo dele do que dos adversários.

— Onde ela está? Não vou perguntar de novo. — Anunciou Sora.

Os gêmeos trocaram olhares. Ou eram bons atores ou não tinham mesmo a menor ideia do que ele estava falando. Vendo que eles manteriam a farsa, o jovem Guardião da Terra partiu para cima deles e os surrou por vários minutos. Só seus gritos de dor eram ouvidos pelo Reino de Órion, Kyo até virou o rosto, a cena foi forte demais para o loirinho. Quando acabou, os jogou um sobre o outro como sacos de lixo e voltou a perguntar onde sua filha estava.

Teria batido mais neles se Naomi não tivesse vindo. Os longos, lisos e negros cabelos da francesa estavam sujos com poeira e folhas por causa do tanto que ela correu para chegar ali, seu belo rosto alvo esbanjava preocupação.

— Procurei vocês o reino inteiro! — Disse, após desamassar o vestido marrom curto de alcinhas com o qual veio. — Venham comigo, eu sei onde eles a deixaram!

Sora e Kyo a seguiram correndo, sem pestanejar. Ela os conduziu até um pequeno galpão alguns quilômetros depois da Fronteira Oeste do Reino de Órion, mandou-os ir na frente e apertou o botão amarelo do interruptor, ligando a luz do estabelecimento. Lá estava sua filha, nos braços de Yue, as duas sorridentes, cercadas por caixas de papelão. Sora olhou para Naomi, que também não parava de rir.

Uma faixa branca com os dizeres "Primeiro de Abril" pairou sobre Lisa e a mãe.

— Pegamos você! — Yue zombou dele, que permanecia completamente perdido. Depois, olhou para a bebê, fez "toca aqui" com ela e disse: — Pegamos o seu pai! Ele se acha o maioral, mas nós deixamos ele com cara de trouxa!

Sora abaixou a cabeça, como que reconhecendo a derrota. Deu umas risadas, as abraçou e avisou que teria volta. Ficou tão apavorado com a possibilidade de perder sua filha que nem lembrou que Yue fazia esse tipo de coisa com ele e que ele mesmo fazia com ela. Kyo caiu sentado com as costas apoiadas nas caixas, nunca nada o fez sentir tanto medo quanto a ameaça de Yue. Eu quase urinei nas calças, ele balançou a cabeça se desaprovando. Yue usou um dispositivo de teletransporte remoto para raptar a pequena sem Sora ver. Para elas, como ninguém havia se machucado, estava tudo bem.

— Maldito Sora Raikyuu! — Os gêmeos espancados, largados na praça, praguejavam.

Os pobres Sato e Sota não podiam concordar que estava tudo bem.

Fim.

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