The Girl In The Woods
1 Prólogo
O sol já estava se pondo quando Justine chegou ao topo da colina. Seu peito ardia quando respirava, suas roupas rasgadas e a sola dos pés esfoladas pelas pedras denunciavam que o caminho não tinha sido fácil. Agora, parada em frente a imensidão do céu, no topo do mundo, ela conseguia pensar com mais clareza.
A mulher de vestido verde pareceu não reparar nela, muito ocupada proferindo um encantamento na língua antiga. As nuvens de tempestade se formavam aos poucos, dançando ao redor do corpo da mulher, que falava cada vez mais alto. A cavalaria do rei chegava à praia, todos os homens em armaduras brilhantes, a cavalo, empunhando suas espadas e correndo ao ataque. Justine se moveu com delicadeza para detrás de uma pedra, onde sentou e suspirou, pensando em como seguiria a partir deste fatídico momento em que se encontrou.
Ela já podia ouvir a mulher gritando as palavras, e o vento tinha ficado mais forte e frio. A cavalaria chegava mais perto, os cascos dos cavalos se tornavam um som insuportável. Ela sabia que não podia ficar ali, mas também sabia que devia parar a mulher de verde.
Assim que os cavaleiros chegaram ao inicio da colina, da terra ergue-se um paredão, que bloqueou a passagem do exército e a visão de Justine, que franziu a testa. Os gritos de agonia e desespero começaram alguns segundos depois, um grunhido grotesco emergiu e a cabeça da criatura apareceu por cima do paredão. A mulher parou o encantamento, as nuvens saíram de seu redor e arrastaram-se em direção ao paredão. Justine jurou ter ouvido elas falarem enquanto rastejavam em direção a batalha.
— Venha, menina. – a feiticeira sorriu para Justine, que se encolheu atrás da pedra, vendo aquela mulher, tão tenebrosa e sombria estender a mão. – Não tenha medo de mim, eu sou a salvação.
Mesmo tremendo, Justine segurou a mão da mulher, que a ergueu e aproximou-se da borda do penhasco.
— Estamos aqui, querida, na borda do mundo. Não há nada que possa nos parar agora. Nenhum exercito, nenhum homem, somos apenas nós e o poder principal, o poder que origina tudo, a criação e a destruição.
Com um movimento de mão a mulher fez as ondas aumentarem , chegando na praia mais rápido. O vento fazia os cabelos de Justine rodarem ao seu redor, seu vestido destruído se agitava. Um berro ecoou atrás delas, e ergueram-se das cinzas três homens, ensanguentados e suados. Mesmo estando longe, Justine reconheceu a face cansada do pai, que se aproximou das duas. A feiticeira moveu a mão em direção a eles e a fechou, a cabeça dos homens que o seguiam explodiu. A garota gritou em direção ao pai, mas a feiticeira o ergueu, o aproximando delas lentamente.
— Nada, meu rei, pode me deter. – ela sussurrou. – Seu exercito de merda não consegue fazer nada contra mim, você também não. Sempre foi um fraco, nunca fez nada certo. Seus pecados serão pagos hoje, os seus e os de todos esses homens que lhe seguiam. Entrou numa guerra perdida.
A feiticeira segurou Justine pelo cabelo e a levou a borda da colina.
— Aqui, minha margarida, a borda do mundo. O local ao qual você sempre pertenceu.
Justine gritou ao sentir a mulher empurrá-la em direção ao mar, vendo os pedregulhos lá embaixo se aproximando muito rápido. O ar faltou aos seus pulmões, seu grito evaporou no abismo, até seu corpo chocar-se com a água, e ela perceber que continuava viva. O mar se agitava ao seu redor, e enquanto ela tentava se agarrar a algo para não se afogar, ela ouviu duas palavras. Ao piscar se encontrou na areia da praia. No meio do mar emergia uma forma humanóide, toda feita de água, que vibrava junto dos trovoes no céu. Na mão da criatura estava o rei, como se fosse um bonequinho de porcelana.
A feiticeira tinha sumido da colina, e a criatura erguia o rei pela perna, para, enfim, engoli-lo. Justine levantou e correu para encontrar proteção. As ondas se agitavam, indo atrás dela. Na entrada da floresta o mar parou de segui-la, e então Justine se encontrou sozinha, com as arvores e a imensidão escura que tinha pela frente.
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