Anoiteceu.

Kate voltava para casa após o longo dia de trabalho. Sentiu algo vibrar-lhe na bolsa e retirou o celular da mesma. Viu o número no identificador, porém não o reconheceu.

- Alô?

- Dra. Mansur? — uma voz apreensiva soava do outro lado.

- Sim, ela. Quem fala?

- Michael Way. Seu paciente. Eu sei que seu expediente acabou, mas preciso falar com a senhorita.

- Aconteceu alguma coisa?

- Sim, mas... Não posso falar por telefone. Preciso falar com alguém...

- Bem, você conhece o restaurante italiano próximo ao consultório?

- Sim.

- Encontre-me lá em uma hora.

- Okay. Até.

Desligaram. Kate passou em casa, tomou um banho rápido e vestiu uma roupa simples, confortável e informal. Pegou suas chaves e desceu a escadaria do prédio, encontrando Sally subindo-as, desanimada.

- Kate! — ao vê-la, Sally abriu um enorme sorriso. — Que bom, vê-la!

- Desculpe-me, Sally. Estou com pressa agora. Preciso ver um paciente.

- Agora?

- Sim. Meu trabalho não tem hora fixa... — suspirou desanimada. — Tchau.

- Tchau.

E desceu o que restava da escada apressadamente. Dirigiu para o restaurante e, ao chegar lá, encontrou Michael esperando-a sentado à uma mesa. Aproximou-se, ele puxou uma cadeira para ela e ela sentou-se junto a ele.

- Então, Michael. O que aconteceu?

- Algo muito sério. Estou desesperado...

- O que foi? — Kate ficou preocupada. A expressão facial de Michael era dura e fria.

- Minha namorada...

- O que tem?

- Está grávida.

- E...?

- Eu não a amo. E...

- Continue, Michael! — sua voz soava-lhe levemente desesperada.

- Eu tenho certeza de que não é meu.

- Como assim?

- Nós nunca transamos sem camisinha e eu sei que nunca estourou.

- Você disse-me que não a ama... Que problema tem? Termine com ela e dê um fim a isso tudo.

- Sim. Eu não a amo. Porém ela insiste que o filho é meu. Eu já tentei terminar, Dra. Mansur. Ela disse que se eu terminar o namoro, ela dirá a todos que não quero assumir \"nosso\" filho e não me deixará nunca em paz.

- Puxa!

- Então... Ela é louca! O que eu faço?

Kate olhava-o com pesar. Não sabia o que dizer-lhe. Estava tão perdida quanto ele.

Belle caminhava dispersa pelo Jornal. Acreditava ser a única funcionária naquele horário, porém não fora bem assim: trombou com um homem e, com o choque, acabou caindo ao chão.

- Desculpe. — ele se aproximou, estendendo-lhe a mão, a fim de ajudá-la. Ao colocar seus olhos em tal criatura, Belle sentiu seus joelhos fraquejarem. — Tudo bem?

Ela permanecia imóvel. Paralisou-se com a visão que teve. Aquele par de olhos azuis contrastando com o cabelo negro e os traços bonitos, tornava-o irresistível.

- Tudo...bem... — forçou um sorriso.

- Desculpe-me, mais uma vez. Estou atrasado. — sorriu-lhe. Ao ver o sorriso, Belle pensou que fosse desfalecer. Como não havia o visto antes? Assim dizendo, o homem se afastou.

Belle o vira afastar-se. Sentia-se uma idiota. Nem ao menos se apresentou. Agora estava encantada por um homem que nem ao menos sabia o nome. Saiu do Jornal, fechando-o, e rumou para sua casa.

Em poucos minutos, já estava em frente ao prédio. Estranhou um carro, lindo e caríssimo, parado em frente ao mesmo, porém não dera muita importância. Adentrou o prédio e cruzou com Grace descendo as escadas apressada e muito animada.

- Aonde vai, assim, tão feliz?

- Tenho um...er...encontro.

- Hum. Safada! Boa sorte.

- Não precisarei. Acho que estou com sorte demais. É um gato! Depois te conto mais. — piscou para a amiga e saiu apressadamente.

Belle olhou para Grace se afastar. Um encontro. É... Finalmente Grace iria desencalhar. Subiu as escadas rindo levemente. Então, lembrou-se do homem que havia conhecido naquela manhã. Gerard Way... Bom, como não havia nada para fazer naquela noite, por que não convidá-lo para uma volta no Central Park?

- Desculpe, sweety. Hoje, infelizmente, não poderei. Meu amigo perdeu a esposa e precisa de compa...

- Não precisa arranjar desculpas, Gerard. Se não quer sair, é só falar. — Belle desligou o telefone. Odiava desculpas esfarrapadas. Por um lado, aquele não-encontro foi bom. Assim, pôde conhecer o lado sacana de Gerard Way antes mesmo de começar a se envolver com o mesmo.

Levantou-se do sofá e dirigiu-se para o banheiro. Após um relaxante e reconfortante banho, Belle colocou um pijama confortável e sentou-se novamente ao sofá, enquanto tentava terminar um livro qualquer.

Sally apareceu na sala e olhou Belle de rabo de olho. Sentou-se em uma poltrona em frente à ela. Belle interrompeu sua leitura e olhou para Sally de forma interrogativa.

- O que foi?

- Como foi seu dia?

Belle, confusa, não sabia o que responder. Sally estava estranha.

- Você está bem? Mal fala comigo e, do nada, vem me perguntar como foi meu dia...

- Estou...er...sociável hoje.

- Sei... Meu dia foi bom... e o seu?

- Ótimo.

Ambas ficaram sem assunto. Sally encarava a parede por alguns longos momentos, enquanto Belle, cada vez mais confusa, encarava a garota louca.

Repentinamente, Sally levantou-se e dirigiu-se para o quarto, em silêncio. Bateu a porta do mesmo, com força, atrás de si.

- Eu hein! Cada uma que me aparece. — assim dizendo, Belle retomou a leitura.