The Game

10 Parte 1 - Capítulo 9 - Três Momentos de um Mesmo Dia


A cafeteria estava praticamente lotada. Todas as mesas repletas dos mais variados tipos, passando por pais e filhos fazendo uma breve parada antes de alguma viagem, adolescentes cujo único propósito parecia tentar se manter acordado pelas próximas doze horas, possivelmente após uma noite virada em alguma festa, e uma quantia bastante notável de homens e mulheres em roupa social, certamente amaldiçoando a hora em que escolheram o próprio emprego, dado que a temperatura média para aquele dia era dada como próxima dos 30ºC

Sentado mais ao fundo, numa mesa para dois onde agora só estava ele, usando uma bermuda azul e camiseta combinando, Duo lia o jornal que comprara naquela manhã. Como era de se esperar, a matéria principal era ainda sobre o incidente ocorrido na avenida principal da cidade, três dias antes. E assim continuaria por mais umas duas semanas, ou até aparecer um desastre com maior número de mortos, Duo tinha certeza disso. A mídia é mesmo algo previsível. Mas também, o fato de mortes serem um dos assuntos que mais vendem jornais muito dizia do povo que os comprava.

–Deus meu, você sempre chega muito cedo... – Duo fora tirado de seus pensamentos pelas palavras de um homem que se aproximava. Provavelmente já um pouco além da casa dos vinte, o homem de tez morena tinha estampado no rosto um sorriso animado, enquanto puxava uma cadeira da mesa, sentando-se a frente de Duo – Assim me faz parecer um mal profissional, hehe.

–Você está vinte minutos atrasado. Há muito que perdeu o direito de clamar pontualidade como evidencia de bom trabalho – Respondeu Duo, ríspido – Enfim, descobriu alguma coisa do que eu pedi, Judas?

–Claro que não, eu te chamei aqui porque gosto de te ver gastar tempo – Respondeu o homem de camiseta branca e bermuda marrom, a quem Duo olhava com clara irritação agora – Já te disseram que você tem muito pouco senso de humor? Deus, se olhar matasse...

–Corte o papo furado – Ordenou Duo, já irritado com ele. Toda vez que se encontravam era assim. Bom, a bem da verdade, toda vez que aquele que atendia pelo nome de Judas encontrava com alguém a pessoa não saia exatamente com uma boa impressão – Eu estou com o dinheiro, agora me de logo a informação.

Houve uma interrupção na conversa conforme uma garçonete apareceu para lhes perguntar o que gostariam de beber. Ambos pediram apenas um copo de café e a mulher de cabelos ruivos e uniforme deixou a mesa.

–Ok ok ok. Deus, como você é apressadinho – Judas começou, enquanto pousava a maleta preta que trazia consigo sobre a mesa. Abrindo-a, tirou o que mais parecia um dossiê – Aqui vamos nós, toda a informação que você queria. Quer ler ao monte de dados sozinho, ou prefere que eu lhe explique o que consegui?

–Comece logo com isso – Foi a resposta de Duo.

–Pois bem, então – Judas tirou a mala de sobre a mesa, abrindo a pasta. Seu sorriso zombeteiro habitual deu lugar a uma expressão mais séria – Há três dias, houve, na Avenida Principal da cidade, um dos seus maiores centros comerciais, uma tragédia de larga escala. A explosão de um gasoduto criou uma larga cratera no meio da avenida, além de danificar prédios, tanto modernos quanto históricos, e causar um dos maiores acidentes de transito da história recente da cidade. Entre a explosão, acidentes de transito e pedaços de prédio caindo, ao menos cinquenta pessoas morreram, enquanto que quase oito centenas ficaram gravemente feridas. Esta é a história oficial.

–Para saber disso eu leria o jornal – Desdenhou Duo, que apontou para o papel que deixara de lado – O que me interessa é: essa é a verdade?

–Nem de longe – Respondeu Judas, sem um só segundo de demora – Veja – Do conjunto de papéis, ele tirou o que parecia um mapa, embora ele fosse composto de vários traçados retos, que Duo não identificou de imediato – Este é um mapa de todos os gasodutos da região central da cidade. A explosão que você presenciou, porém, aconteceu bem aqui – Ele afirmou, colocando o dedo em uma parte do mapa.

–Mas... Não tem nada ai – Colocou Duo, reparando que o gasoduto mais próximo estava distante o bastante para mudar drasticamente o local da explosão – Por que estão veiculando uma noticia falsa?

–Na verdade, isso é bastante comum – Apontou Judas – Basta você olhar as noticias. O uso e abuso de termos como “suposta explosão de gasoduto” ou “as autoridades acreditam que” chega a doer. Faz parte do jogo. Como ninguém faz ideia do que realmente ocorreu, foram logo com a resposta mais fácil. Logo que tudo começar a ser explicado, pode notar, irão surgir notícias bombásticas de primeira página afirmando que “novos indícios provam erro da perícia” ou coisa do tipo.

–Então estão ganhando tempo – Divagou Duo, observando o mapa ainda – Bom, mas e você? Sabe o que aconteceu?

–Eu sou um informante, não uma bola de cristal – Replicou Judas, com seu usual sorriso zombeteiro – Eu acabei de falar: ninguém faz ideia do que realmente aconteceu.

–Então é um não – Comentou Duo, tentando ignorar a provocação – E o garoto? Theo. Para qual hospital ele foi enviado? – Ele perguntou, partindo para outro assunto. De nada adiantaria divagar sobre algo que ninguém tinha certeza.

–Não está pensando em ir atrás de um garoto hospitalizado, está Duo? Isso seria baixo até para os seus padrões – Judas sabia muito bem que não era este o caso. Numa situação como essas, alguém que estava teoricamente mais próximo da explosão poderia ter maiores informações. Porém, não podia deixar passar a chance de zombar do cliente – Bom, em todo caso, você não deve se importar com ele. Theo Dei está morto.

–O que? – Os olhos de Duo se arregalaram em surpresa e desconforto – Como?

–Digamos que ser pego por uma explosão nunca fez lá muito bem à saúde – Zombou Judas. Uma pausa na conversa foi feita quando uma garçonete veio entregar dois copos de café que ambos haviam previamente ordenado – Mas sim, o garoto estava no epicentro da explosão. Nem teve chance. O corpo mesmo só foi reconhecido por conta da arcada dentária.

–Isso não faz o menor sentido – Comentou Duo, visivelmente transtornado – Um jogador morrer... Nunca pensei que isso fosse possível...

–Se estiver se referindo à suposta imortalidade dos jogadores, eu sugiro que deixe de fantasiar – Comentou Judas, dando um rápido gole em seu café – Apesar dos rumores, ainda somos todos humanos. Não importa quem ou o que você seja, ser pego no centro de uma explosão não pode te deixar vivo.

Duo se manteve calado. Não queria discutir aquilo. Já há muito corria o boato de que os jogadores eram seres imortais, depois de uma série deles ter escapado da morte por um inacreditável golpe de sorte. Duo até mesmo sabia de um grupo de jogadores, talvez de russos ou americanos, ele já não lembrava mais, que gostava de praticar roleta russa uns com os outros. Tétrico, sim, mas o mais estranho é que eles não haviam tido uma morte se quer, ao menos até onde ele sabia.

–Pois bem – Ele disse, após o longo silêncio, soltando um suspiro – E a garota? Descobriu algo sobre ela? – Era o ultimo assunto que tinha a tratar com aquele homem, e estava ansioso por encerrar aquela conversa de uma vez por todas.

–Uma garota branca, de cabelos negros longos, entre a adolescência e o começo da idade adulta, usando um vestido preto e uma sombrinha branca. Você faz ideia de quantas pessoas só nessa cidade já cumprem esses requisitos? – Judas comentou, sorrindo – Além disso, ter encontrado com ela em uma rua residencial e sem câmeras de vigilância certamente não ajuda, também – Completou, dando de ombros.

–Mas... – Duo começou. Conhecia o procedimento. Judas gostava de brincar com as pessoas. Era uma pessoa capaz de irritar até o maior dos santos. Porém, igualmente, tinha contatos onde até o papa duvidaria. Se ainda não tinha dado uma negativa definitiva, certamente aquele discurso só servia para engrandecer o fato de ter encontrado algo.

–Mas... aqui está ela – Judas puxou uma fotografia por entre os papéis. A imagem era definitivamente a da garota que Duo havia visto. Ela estava de perfil, olhando para cima, e aparente no meio de uma multidão – A imagem vem de uma câmera de segurança nas proximidades da avenida principal. Na verdade, pela posição, essa garota está exatamente no epicentro da explosão.

–Então ela realmente veio da avenida... – Duo comentou, mais para si do que para seu interlocutor – Dá para saber o que ela está olhando?

–Não – Respondeu Judas – Alguns pássaros ou a próxima grande invasão alien, ela pode estar olhando o que for, mas não existia uma só câmera apontada para cima naquele momento, então não temos como saber. Embora, eu acho que se fosse a próxima grande invasão alien ela não seria a única a estar olhando para cima – Brincou.

–Entendo – Ouvindo aquilo, Duo se levantou. Tomando o ultimo gole de seu café, ele pegou a mala que deixara ao pé da mesa e jogou os papéis que Judas trouxera dentro dela. Em seguida, tirou algumas notas de cinquenta do bolso, jogando sobre a mesa – Obrigado pelo trabalho. E eu gostaria que você me informasse se aparecesse algo mais a respeito disso. Especialmente se conseguir novas sobre essa garota.

–Apaixonou, Duo? – Zombou Judas, pegando o dinheiro – Bom, seja como for, se surgir algo novo eu te ligo. É sempre bom deixar um cliente bem satisfeito – Comentou, com visível sarcasmo, observando a outra parte deixar o estabelecimento. Sorriu para si, dando um breve suspiro – Hum... E o desgraçado ainda me deixou sozinho pra pagar a conta... – Murmurou para si próprio.

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–Ah, finalmente! – Exclamou Hélcias, que agora olhava para sua cama.

Desde a conversa que tivera com Héber e Esídio, três dias antes, Hélcias procurar melhorar os decks que possuía, bem como montar novos. Precisava, primeiramente, de quantidade: tinha de ter ao menos um deck de cada um dos mais populares card games, do contrário estaria se arriscando em demasia. Depois, precisava de qualidade: de nada lhe serviria um deck que não conseguisse manejar bem.

Para tanto, o garoto havia comprado uma série de booster box e starter decks na Fighters. Era certamente uma grande sorte o fato de a loja favorecer aos jogadores: pagara bem menos do que o valor de mercado, além de ter conseguido parcelar a compra em bem mais vezes do que seria conveniente para a loja. Parando para pensar, era mesmo bom que o número de jogadores fosse pequeno. Um número grande demais ou levaria a loja à bancarrota ou impediria a existência de tal sistema.

Em seguida, Hélcias passara o final de semana em seu quarto. Decidiu-se por ter apenas um deck de cada card game. Dessa forma, todos os seus recursos poderiam ser melhor canalizados, além de livrar cartas sobressalentes para possíveis trocas ou vendas. A partir daí, o jovem fez uma pesquisa intensiva sobre as melhores builds e sobre como usá-las. Montou alguns decks, e os testou da forma que podia. Mudou algumas coisas e testou de novo. E assim vinha fazendo há três dias, para agora, finalmente, se declarar satisfeito com o resultado.

Olhou pela janela. A noite já estava começando a cair. Pensava no que faria no dia seguinte. Por um momento, considerou aparecer na Fighters, mas era inútil: o lugar certamente estaria vazio, considerando que se trataria de uma terça. Mais compensava continuar em casa e seguir testando seus decks. Talvez valesse a pena chamar a Alvim. Ainda que Hélcias não pudesse lhe contar o que realmente estava acontecendo, ao menos poderiam testar os decks que o jovem montara.

Bom, mas isso ele decidiria amanhã. Agora ainda havia uma ultima coisa que precisava fazer. Vasculhando em meio aos papéis de boosters e caixas de decks que estavam sobre a mesa de seu quarto, Hélcias conseguiu encontrar o papel que Esídio lhe dera antes que deixasse a loja. Um endereço online estava ali escrito. Ele pegou o computador e, não sem hesitar, digitou o site no campo do navegador.

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–Até quando planeja me seguir?

A noite já dava lugar à madrugada. Aquela praça já estava completamente deserta, salvo por um ou dois sem-teto que se aproveitavam hora dos duros bancos de madeira, hora da suja grama mal cortada. Felizmente, para o garoto de cabelos ruivos, cujos olhos castanhos agora se perdiam no vazio das árvores, nenhum destes sem-teto parecia estar por perto agora.

–Não me entenda mal. Eu apenas moro pela região – A resposta veio detrás dele. Virando-se, o garoto pode ver aquela que o seguia: uma jovem, de longos cabelos negros e vestido igualmente escuro. Em uma das mãos ela carregava uma sombrinha, agora fechada, que a luz da lua indicava como sendo de um claro branco.

–Então pretende negar que tem me seguido há dias? – Replicou o garoto. Usava uma camiseta branca e bermuda combinando. A expressão era de desconfiança e insegurança – Eu tenho notado você por perto já faz um tempo.

–Para conseguir notar a minha presença... Você não é mesmo uma pessoa comum, não é? – Disse a garota, mais para si do que para o jovem a sua frente – Descanse sossegado. Não tenho nenhum interesse em lhe fazer mal. Na atual situação, pode-se dizer que eu sou apenas uma observadora.

–Observadora é? Hunf, o que há de tão excitante em me observar? – Ele perguntou, com um sorriso de escárnio.

–Há exceção da sua natureza, bem como de suas capacidades? – As palavras frias da garota desfizeram por completo o sorriso do jovem. Como ele pensava, aquela garota parecia saber bem mais do que ele gostaria que ela soubesse.

–Quem... É você? – Ele perguntou. O medo crescia dentro dele e seus punhos se fechavam com força – Não é uma jogadora, pois sua presença não é igual à deles... Também não é como eu, ou eu certamente saberia... O que sobra...

–Muito mais do que você pode se quer imaginar – Ela respondeu. A mesma expressão fria ainda se mantinha em seu rosto – Em todo o caso, pensar demais só lhe será prejudicial. Eu já disse que não sou uma ameaça. Se não quer acreditar, isso não é assunto meu.

Um momento de tensão pairou no ar. O garoto mantinha os punhos cerrados. Os dentes trincados. Pensava se deveria acreditar nela. Bobagem! Alguém que saiba dele... A própria existência daquela garota era uma ameaça por si só, fosse quem fosse. Ele olhou em torno. Não havia ninguém por perto. Pensou em suas opções. Poderia se dar ao luxo de acreditar nela e simplesmente ir embora? Não. Definitivamente não. Ele sabia: qualquer um que souber a verdade sobre ele é um inimigo em potencial. As únicas pessoas em que podia confiar eram as que eram como ele. E mais ninguém.

–Não é assunto seu? – Ele repetiu, soltando junto um sorriso de escárnio – Se você realmente sabe tanto sobre mim, acha mesmo que essa resposta vai servir? – Ele levou a mão às costas, Quando a trouxe de volta sob a luz do luar, o cano de metal resplandeceu. Uma arma. Apontada diretamente para a garota – Desculpe. Mas foi você quem se meteu nisso.

Um tiro foi ouvido. Uma bala foi disparada. O brilho que deixara o cano confirmava isso. Porém, mais nada. Olhando estupefato, o jovem pode olhar enquanto a estranha garota continuava em pé. A mesma expressão gélida. A mesma postura firme. Tinha certeza que não podia errar. Não aquele tiro. Não com aquela arma. E, ainda assim, a garota, que deveria estar inconsciente no chão àquela altura, não demonstrava o menor sinal de incômodo. Ao invés disso, tudo o que ela fez foi caminhar. Passo a passo, na direção dele. Estava assustado. Paralisado de medo. O que, afinal, era aquela garota?

–Eu agradeceria... Se você não tentasse esses truques baratos comigo – Ela disse. Aproximava-se cada vez mais – Bom... Se bem que, há bem da verdade... É isso que me interessou em você. Essa sua resolução – Já estavam quase face a face – Disposto a fazer o que for necessário. Disposto a sacrificar o que for. Você tem mesmo uma grande vontade de viver – Ela parou um momento, olhando-o profundamente. Era como se seus olhos pudessem observar diretamente a alma do jovem – Talvez... Possa mesmo ser você, afinal – Ela disse, em um quase sussurro.

–O que... Isso quer dizer? – Ele perguntou, sem conseguir acompanhar aquele monólogo tão incomum – Afinal, quem... Não... O que é você? – O medo era claro em sua voz.

–Eu já disse – A garota respondeu. Chegando perto, ela desviou-se dele – Sou uma observadora – Ela completou, conforme passava ao seu lado. Com isso, ela seguiu o caminho que a trilha marcava. Logo, sua silhueta já não era mais visível na escuridão da noite.