The Game
3 Parte 1 - Capítulo 2 - Pânico, Medo e Desespero.
A princípio, Hélcias estranhou a pergunta. Estava prestes a perguntar o que Duo queria dizer quando sentiu que entendera o ponto. Um rápido passar de olhos, e logo depois um menear mais intenso da cabeça o fez notar o estranho fenômeno: a loja estava vazia. Completamente. Nem mesmo seu amigo Alvim ou mesmo o vendedor entediado podiam ser vistos em qualquer lugar da loja.
–Ué... Pra onde foi todo mundo? – Ele perguntou, claramente espantado
–Pra lugar nenhum.
–Em? – Aquela resposta de Duo certamente era incomum. Ele estava vendo que não tinha mais ninguém ali... não estava? – Como assim, Duo? Não tem ninguém aqui...
–Não tem ninguém aqui – O jovem confirmou. Somente agora Hélcias reparou de fato na expressão que Duo tinha em seu rosto: um sorriso cínico que imediatamente despertava sua apreensão – Mas eles não foram a lugar algum... Você é quem foi.
–C-como assim, Duo? – A apreensão de Hélcias aumentava cada vez mais. O que Duo dizia não fazia qualquer sentido e ainda assim ele falava com tamanha confiança que parecia ter total conhecimento do que se passava ali – Ora vamos... Essa brincadeira não tem graça
Com um sorriso forçado, Hélcias fez menção de se levantar. O jogo já não importava, queria mesmo era ir procurar onde todos da loja poderiam ter ido. Mas rapidamente seu sorriso fingido desapareceu por completo. Não importa o quanto tentasse, o quanto de estímulo seu cérebro mandasse às suas pernas... nada. Hélcias simplesmente não conseguia se levantar. Sem entender como, parecia completamente preso à cadeira.
–Nem se de ao trabalho – Duo afirmou, sorrindo para o jovem cuja expressão ia se tornando cada vez mais de pânico – Ninguém pode deixar o campo até o jogo estar terminado, essas são as regras.
–Regras...? – A confusão se mesclava ao pânico que ia crescendo em Hélcias – Duo, isso não tem graça nenhuma – Seu tom era firme, embora claramente mesclado ao medo – O que está acontecen...
A frase de Hélcias foi cortada por uma atitude no mínimo rude de Duo: ignorando as palavras do oponente, este simplesmente ergueu a cabeça. Hélcias estava prestes a reclamar da atitude, quando um arrepio lhe percorreu a espinha. Guiando-se por esse mal pressentimento, ele levantou a cabeça. Seus olhos, então, imediatamente se arregalaram. Ali, onde antes ficava o teto da loja, um enorme espaço branco agora dominava, como que se estendendo até o infinito. Contudo, o que era ainda mais apavorante era que este espaço não estava vazio. Ali, flutuando em meio ao que só poderia ser chamado de “nada”, estavam cada uma das units agora em campo, mimetizando as posições que estas tinham no jogo.
–Mas... o que... – Os braços de Hélcias caíram ao seu lado. As pernas, que ainda faziam alguma força para levantarem o corpo, simplesmente amoleceram. Pequenas lágrimas se formavam nos olhos do garoto, que sentia o pânico, medo e desespero crescendo. Mesmo sua garganta pareceu secar, conforme o que só poderia ser descrito como um grito mudo tentava sair de sua boca aberta.
De sua parte, Duo estava mais do que satisfeito. Medo. Pânico. Desespero. Dúvida. Uma mescla destes e mais outros sentimentos certamente cruzavam agora a mente de Hélcias. O garoto já não teria condições de jogar. Sua vitória estava mais do que assegurada. Tudo ocorreria exatamente conforme o planejado. Seu sorriso, embora certamente carregado de cinismo e arrogância, era também um de mais profunda felicidade. “Um passo mais perto...” ele pensava.
–Hélcias? – O jovem ainda estava olhando para cima. Os olhos arregalados. A boca aberta em estupor. Era hora de trazê-lo de volta. No final das contas, Duo precisava vencer e a única forma de fazê-lo era se o jogo continuasse – Hélcias! – Gritou, firme.
–O que... – Hélcias abaixou a cabeça vagarosamente. Seus olhos lacrimejavam. O rosto corado. Estava em completo pânico – Mas que merda é essa?! – Ele gritou. Finalmente conseguia gritar – Que porra está acontecendo aqui? O que... o que é aquilo... como? Como isso... O que está acontecendo aqui, me responde cacete! — Não fosse o literal aprisionamento à cadeira que sentia, Hélcias possivelmente já teria se levantado. Se teria corrido para a saída ou se tentaria atacar Duo em busca de alguma resposta nem ele mesmo seria capaz de dizer – O que...
–Você quer que isso acabe? – As palavras de Duo pareceram atrair completamente a atenção do garoto que já parecia prestes a entrar em estado catatônico. Algo que certamente não seria de utilidade alguma a Duo – É muito simples. Mais do que você imagina... – Ele fez uma pausa proposital, deixando as palavras se assentarem na mente do oponente – De-sis-ta
–De... sistir? – Hélcias repetiu, quase mecanicamente, tentando assimilar aquelas palavras.
–Isso! Tudo o que você precisa fazer é desistir. Entregue o jogo e tudo irá desaparecer, Hélcias. Eu prometo – Duo tinha vontade de gargalhar. Depois de quase ele próprio entrar em pânico perante o risco que corria com a partida, agora ele tinha certeza da vitória. Estava acabado.
–De... sistir... – Hélcias considerou as palavras de Duo. Milhões de perguntas flutuavam em sua cabeça ao mesmo tempo.
Agora, para além de todas as outras, ainda se perguntava como Duo podia entender o que estava acontecendo ali. Considerou que ele deveria ser o causador de tudo, mas a simples possibilidade de que tamanha insanidade fosse somente para vencer um jogo de cartas lhe parecia mais do que absurda. Ainda assim, que escolha tinha? Duo não parecia disposto a dar respostas, mas sendo sincero, ele realmente às queria? Talvez. Mas certamente queria mais o fim daquele pesadelo. De preferência antes que sua sanidade o abandonasse por completo. Porém... No exato momento em que pensava em declarar desistência, um pensamento lhe percorreu a mente.
–Comigo... – Ele conseguiu sussurrar, para o desconforto de Duo, que não compreendera bem as palavras do oponente – O que... O que vai acontecer comigo? – Ele perguntou, agora em alto e bom som, olhando Duo em pânico – Depois que eu desistir, o que vai acontecer comigo? – A pergunta já estava se tornando um grito.
–C-com você? Vai voltar ao normal, é claro – Duo respondeu, após alguns segundos de estupor perante a simples capacidade do oponente de pensar em uma pergunta dessas num momento assim – Vamos, desista. Assim que você desistir, você vai voltar a ver seus amigos e tudo isso vai desaparecer para sempre – Ele acrescentou, forçando um sorriso – Vai tudo voltar ao normal.
Ele estava mentindo. Hélcias não sabia como podia dizer isso, mas podia. Era instintivo: ele não podia desistir. Não sabia por quê. E até mesmo pensou que estava sendo idiota. Que escolha tinha? Ele ouvira o que Duo dissera: bastava que desistisse e tudo voltaria ao normal, então porque desconfiava quando não tinha nenhuma outra opção? Mas ainda assim desconfiava. Não, não podia desistir. Algo em si deixava isso bem claro. Se desistisse, algo ruim aconteceria. Algo muito ruim. É o que seu instinto dizia.
–Desista de uma vez, cacete! – Duo gritou, já ficando irritado com aquela indecisão – O jogo só pode terminar quando um vencedor for declarado. E tudo isso... – Estendeu os braços, como que tentando envolver todo aquele cenário surreal – Só vai desaparecer quando o jogo acabar. Então pare de teimosia e desista de uma vez!
Hélcias já não sabia se ouvia o que Duo dizia. Aquele cenário tão surreal. O desespero crescendo. Podia sentir seu coração se acelerando. O suor lhe escorrendo o rosto. Estava em pânico. Queria fugir. Queria sair dali. Queria que aquele pesadelo simplesmente acabasse. Que alguém fizesse aquilo acabar, de uma vez por todas. Fechou os olhos. Queria ignorar aquele mundo. Queria se recolher a si enquanto as lágrimas rolavam pelo rosto. Só queria acordar daquele pesadelo. E, então, algo aconteceu. Uma sensação quente. Intensa. Ela o envolvia. O protegia, de alguma forma, de entrar em completo desespero. Vencer ou perder. Continuar ou desistir. Confiar ou abnegar. Era como se nada daquilo importasse mais. Podia ficar em paz.
–Ei? Ei, você me ouviu? – Duo insistia ainda. Começava a pensar quanto tempo ainda teria de perder ali. – Se não andar logo e desistir, eu vou simplesmente assumir que você passou a sua vez. Você só tem uma carta na mão. Vai perder não importa o que faça, então deixe frescura e desista de uma vez! É a única forma de isso acabar
–Isso não é exatamente verdade, não acha? – As palavras surpreenderam Duo. Erguendo a cabeça, Hélcias tinha agora uma expressão séria. Era como se todo o pânico tivesse desaparecido de seus olhos, que agora emanavam algo parecido com determinação, seriedade... e raiva – Você disse que isso acaba assim que houver um perdedor – Continuou, explicando-se – Neste caso... tudo o que eu preciso fazer é vencer, não acha?
–Me... vencer? – Duo teve vontade de rir perante aquilo. Não importa o quão sério aquele cara parecia agora, ele não teria como vencer. Ele não podia vencer – N-não me faça rir. Você estava quase gritando pela mamãe agora pouco, acha que está em condições de jogar? E depois, olhe o seu campo. Ainda que essa carta na sua mão seja um grade 3, eu tenho cinco cartas na mão e dois intercepts. Só de pensar que pode me vencer já mostra como você não passa de um noob.
Hélcias fechou os olhos e respirou fundo. Sem responder às provocações, ele estendeu sua mão ao baralho. Draw. Seu olhar cruzou o de Duo, que podia ver em Hélcias a mais plena confiança. Um arrepio percorreu sua espinha.
–Duo... Vá pro inferno! – Logo após esse grito de raiva contida, vindo do profundo de sua alma, Hélcias fez seu ultimo movimento – Ride! Exculpate The Blaster!
Os olhos de Duo se arregalaram. Em um instante, todo aquele deck torto contra o qual lutava fez pleno sentido. Infelizmente, já era tarde demais. O ride foi seguido de um call: margal. Por sua habilidade, este foi enviado à soul e 3 mil de poder foram adicionados ao Vanguard. O counter blast 3 selou a main phase. A partir daquele momento, Exculpate batalharia com todo o campo do oponente. E como estes eram agora alvos de ataque, Duo acabara de perder seus intercepts. Para além disso, em fim aquela ridícula quantia de soul charger fez pleno sentido. Após efeitos combinados de Lew, Lohengrin e Margal, juntamente com os contínuos rides do jogo, Exculpate recebia agora um boost de 26 mil de poder. Um total conjunto de 41 mil agora atacava a todo o campo de Duo.
–Quarenta... e um mil?! – Duo mal podia acreditar na conta que acabara de realizar – Qual é, isso sim é ridículo! – Gritou. Agora a raiva completamente aparente – Pois bem... tome isso aqui então! – De sua mão, Duo jogou a unit grade 1 Machining Ladybug. Quintet Wall. Counter blast 1 e cinco units foram chamadas ao campo. Duas defesa de dez mil e três de cinco. Para além disso, Duo ainda atirou duas cartas de sua mão ao campo. Cinquenta e seis mil de defesa total – Nem dois triggers passa – Declarou, vitorioso.
Hélcias claramente não esperava aquele desenrolar. Afinal Duo realmente tinha defesa o bastante. Diante disto, este esperava que Hélcias simplesmente se resignasse à derrota e voltasse ao estado catatônico de antes. Porém não foi bem o que aconteceu. Algo certamente se abalou em Hélcias. Ele agora já não tinha mais o olhar sério de antes. Não. Agora seu olhar era a mais profunda raiva e determinação. A um ponto que gelou a espinha de Duo. Estava com medo? Bobagem! A defesa era certa. Assim como a vitória no próximo turno. Não havia absolutamente nada que aquele completo imbecil poderia fazer... não é?
–Drive check – Essas palavras atingiram diretamente ao espírito de Duo. Por algum motivo, Hélcias ainda ia fazer a checagem. Um ato certamente desesperado, talvez a espera de algum heal que o mantivesse vivo. Ainda assim, algo em Duo dizia que não era isso. E quando Hélcias declarou sua segunda carta da checagem, Duo finalmente entendeu o objetivo daquela checagem – Flogal! Stand Trigger!
–S... Stand?! – A palavra saiu da boca de Duo com total estupor.
–Todos os efeitos vão para o Palamedes! – Gritava Hélcias, quase como se suas palavras pudessem socar a Duo – E agora, Palamedes ataca ao seu Vanguard!
Duo já não tinha mais defesa. No guard era sua única opção. A sexta carta caía na damage zone. Raider Mantis. Um trigger, mas certamente não o que o jogador esperava. A partida terminara. Derrota.
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