The Game

19 Parte 1 - Capítulo 18 - Encontros Na Noite


–Toypugal boosta. Majesty ataca. 21k

A fala vinha de Hélcias que, detrás da bancada de mármore, observava a cena a frente se desenrolar. Em conjunto, o pequeno animal de aparência canina, com um pavio de bomba no lugar do rabo, e o paladino de armadura negra e espada translucida partira na direção oposta da arena.

–No guard! – Foi a declaração de Héber, que viu a espada inimiga atravessar o seu Vanguard de cima abaixo. O imenso dragão, coberto em suas chamas rubras, soltou um breve gemido de agonia, abaixando as duas armas imensas que empunhava em seus mãos. – Damage Check – Ele virou a carta do topo de seu deck. Outro The End, idêntico ao que estava no campo. Colocou o sexto dano em sua damage zone. A partida terminara.

O ambiente branco desapareceu, como era de costume. Rapidamente, ambos os jogadores estavam de volta à loja. Era sábado e a Fighters estava quase lotada. Jogadores de praticamente todo tipo de card games se reuniam naquelas mesas, jogando, trocando cartas, ou mesmo apenas conversando uns com os outros. Aquele era o primeiro dia que Hélcias via aquele lugar assim tão cheio e ainda lhe era difícil de acreditar a quantia de pessoas ali. Mais difícil, porém, era acreditar que dentre o que parecia quase 80 pessoas, nem bem quatro deveriam ser Jogadores, isso contando a si próprio e ao oponente que tinha agora do outro lado da mesa: Héber.

–Ufa, essa foi por pouco... Achei que ia perder – Hélcias comentou, esticando os braços, espreguiçando-se. Usava uma camiseta branca, juntamente a uma calça jeans azul e tênis de cor idêntica – Mas em todo caso, parece que eu já estou me acostumando com isso.

–Não está se sentindo tão cansado? – Hélcias meneou um aceno positivo para o amigo, que sorriu. Do outro lado da mesa, Héber usava uma camiseta vermelha e uma bermuda cinza-claro – Isso é bom. Quem sabe assim você consegue não ir parar no hospital após cada jogo – Ele brincou, dando um sorriso zombeteiro.

–Haha, muito engraçado – Ironizou Hélcias, que deixou o olhar abaixar-se, pousando-o no seu deck a frente – Mesmo assim... É mesmo bom que eu esteja me acostumando um pouco com isso...? – O murmúrio não era nem uma pergunta direta a alguém nem uma afirmação propriamente dita.

–Hey, Hélcias – Héber chamou, tirando Hélcias de seus pensamentos e fazendo-o erguer a cabeça – Você tá bem? Você tem parecido... Sei lá, um pouco disperso hoje.

–Ãh? Ah... Não se preocupe – Hélcias respondeu, forçando um breve sorriso – Eu só devo estar um pouco cansado, só isso.

–Hum... Bom, se você diz... – Héber pegou o próprio deck, que também estava jogado à sua frente. Separou uma carta, provavelmente seu grade 0 inicial, e começou a embaralhar o deck, sorrindo assim para Hélcias – O que me diz de uma partida normal? Quero uma revanche depois do jogo de ainda há pouco.

–Claro, claro, vamos nessa...

–Aqui o teu refri, Hélcias – Quem falava era Alvim, que se aproximou de ambos os jogadores, entregando a Hélcias uma Coca-Cola – Tem certeza que não quer um pouco, Héber? – Ele acrescentou, balançando a Pepsi já aberta que trazia em sua mão.

–Não, obrigado. Depois talvez eu pegue alguma coisa – Héber respondeu, terminando de embaralhar o deck e dando para Hélcias cortar. O que ele o fez, assim que terminou de abrir o refrigerante que recebera – Hey Alvim, vamos uma comigo depois que eu vencer o Hélcias?

–Então não vão jogar hoje – Hélcias comentou, bem humorado, pegando seu deck e dele puxando as cinco cartas iniciais.

–Por mim pode ser – Alvim respondeu, igualmente bem humorado. Usando uma camiseta azul e também calças jeans azuis, o garoto sentou ao lado de Hélcias, prontamente olhando a mão que o amigo puxara ao comprar as primeiras cinco cartas do deck – Ai... É Héber, ce tá com alguns problemas – Comentou, sorrindo.

–Hunf, é o que vamos ver – Replicou Héber, mantendo sempre o sorriso bem humorado – Eu vou começar...

–/-/-/-

–Bom, eu já vou indo – Alvim comentou. Tinha terminado uma partida de Vanguard com Hélcias e estava já guardando suas coisas na mochila que trouxera consigo – Meu curso de inglês recomeça hoje e eu tenho uma hora pra atravessar a cidade e chegar a tempo – Explicou, com um sorriso bem humorado.

–É verdade, as férias estão acabando, né? – Héber comentou, mais para si do que para os presentes – Se não me engano, para a maioria das escolas esta próxima semana vai ser a ultima de férias.

–Sim – Confirmou Alvim, levantando-se da mesa – Mas cursos particulares normalmente recomeçam antes. Bom, tchau pra vocês – Ele disse, dando um aperto de mão final em ambos – Prazer te conhecer Héber, e a gente se fala depois Hélcias.

–Certo, até outra hora – Hélcias respondeu, sorrindo, vendo o amigo deixar a loja.

–Cara legal – Héber comentou, sorrindo, enquanto mudava de cadeira, planejando um novo jogo contra Hélcias – Hey, Hélcias – Ele comentou, enquanto embaralhava seu deck – tem uma coisa que eu queria te perguntar já faz um tempo... Que diabos houve com o seu colar? Você ta sem ele o dia todo e não aparece nem no Campo...

–Ah, isso – Deixando seu deck de lado, Hélcias levantou o braço. Foi somente então que Héber notou: enrolado em seu pulso, estava o antigo colar de Hélcias – Eu decidi usar ele como pulseira mesmo. Ninguém vai contar as contas de uma pulseira, mas usando como colar seria bem fácil alguém notar o número de pedras aumentando ou diminuindo.

–Ah, claro – Héber disse, olhando para o próprio pulso, onde mantinha suas pedras da mesma forma e pelo mesmo motivo – É, eu deveria ter imaginado – Acrescentou, com um riso bem humorado.

–/-/-/-

Hélcias caminhava pela rua, deserta àquela hora da noite. Havia deixado a Fighters quando a loja fechara, por volta das 21h. Agora andava em direção ao metro mais próximo, estando a apenas algumas quadras deste. E foi então que sentiu. Parou de caminhar de repente. O coração se acelerou. Um suor frio lhe percorreu a testa. Os pelos de seu corpo se eriçaram e uma sensação mesclada de ânsia, ansiedade e nervosismo se abateu sobre ele. Os sinais claros da presença de um jogador pelas redondezas.

–Q-quem está ai? – Ele gritou, em voz alta. Estava atravessando uma rua comercial, com a maioria das lojas fechadas, então era pouco provável que se tratasse de alguém dentro de algum dos prédios – Olá? – Olhou para trás, imaginando se era algum jogador que também tivesse saído da Fighters há pouco tempo. Ainda assim, tanto atrás como a sua frente ninguém aparecia – Vai logo! Eu sei que você está ai e você sabe onde eu estou! – Foi então que uma ideia lhe passou pela cabeça – Está com medo? Está tudo bem, eu não quero jogar...

–Que gentil de sua parte, Hélcias – Saindo de um dos estreitos becos existentes entre as diferentes lojas, a figura de Duo se fez presente. Usava roupas pretas, que bem o camuflavam, dada a fraca iluminação da região – Olá, como vai sua noite? – Perguntou, cínico.

–D-Duo? – Hélcias deu um passo para trás. Ainda assim, fez questão de procurar se conter. Franziu o cenho, irritado com aquela presença – O que você quer? E qual é a da obsessão em sair de becos escuros?

–Muito engraçado – Duo comentou, dando alguns passos para frente. Para sua surpresa, Hélcias não se moveu, mesmo com este movimento – Bem, Hélcias, o que eu quero é algo bastante simples... Pedras – Instintivamente, Hélcias levou a mão até o pulso, ao mesmo tempo que desviou o olhar de Duo – Fique tranquilo, eu não planejo te desafiar de novo, não depois das ultimas experiências...

–Ficou assustado, Duo? – Hélcias provocou, colocando no rosto um sorrisinho forçado – Bom, se não quer me desafiar, então por que veio atrás de mim?

–Muito simples – Ele respondeu, fazendo uma leve pausa – Você vai conseguir pedras para mim – Ao ouvir aquilo, os olhos de Hélcias imediatamente se arregalaram em uma expressão inquisidora – Vai funcionar assim – Duo continuou, como que ignorando o olhar de espanto de Hélcias – Você consegue as pedras, entra em um Campo comigo e declara derrota. Bastante simples, não acha?

–Conseguir pedras... Pra você? – Hélcias teve vontade de gargalhar diante de uma proposta tão absurda, mas conteve-se – Isso só pode ser brincadeira...

–Oh não, eu asseguro que não – Duo comentou, mantendo no rosto um sorriso cínico – Sabe Hélcias, eu estou numa situação um tanto quanto problemática. Eu já tenho sete pedras, embora tivesse mais, não fosse por sua causa – Comentou, não sem claro ressentimento na voz – Conseguir mais três, honestamente, não é problema. Mas conseguir as três últimas... Isso sim é problemático.

–O que quer dizer com isso? Por que justo elas seriam um problema?

–Ora, ora, então o pessoal daquela loja não te explicou? – Perguntou Duo com uma falsa surpresa, mantendo o sorriso cínico – Bem, bem, é bastante simples. Uma vez que o Jogador atinge suas 10 pedras, o jogo se torna consideravelmente mais difícil.

–Como assim?

–Veja bem, eu imagino que já lhe tenham explicado a respeito da natureza da sorte naquele mundo, correto? – Hélcias meneou um sim com a cabeça – Ótimo. Bom, uma vez que você atinge as dez pedras, isso é completamente eliminado. Isto significa que a sorte passa a existir naquele mundo e seus draws voltam a ser determinado puramente por probabilidades. O grande problema é: isto só afeta a você.

–Em suma – Colocou Hélcias, compreendendo as implicações das palavras de Duo – Seu oponente segue sacando exatamente as cartas que mais precisa, ao passo que você volta a comprar com base em porcentagens. Bom, isso dá mesmo uma vantagem absurda ao seu oponente...

–E não é? Contudo, isto não é tudo – Continuou Duo – Ao atingir as dez pedras, você se torna incapaz de vencer uma partida por W.O. Isto é dizer que se você desafiar o seu oponente para um jogo que ele não possua deck, a partida é considerada empate. Claro, o oposto não é verdade e você pode perfeitamente perder por W.O.

–Uau... – Apesar de aquelas palavras não explicarem como Duo o poderia convencer a ajuda-lo, aquela nova informação era no mínimo curiosa, isso Hélcias precisava admitir – Em suma, a melhor alternativa seria enfrentar outro jogador com dez ou mais pedras em um jogo que você domine melhor do que ele...

–E é aqui que entra a ultima restrição – Duo comentou, dando mais alguns passos na direção de Hélcias – Jogadores com dez ou mais pedras somente conseguem entrar em um Campo para jogar contra jogadores que tenham nove ou menos pedras. Em suma: a única forma de conseguir as treze pedras é vencer outro jogador em uma situação de clara desvantagem. Isso, ou...

–Ou ter alguém que se renda antes e te de as pedras de graça – Concluiu Hélcias. O menear positivo com a cabeça feito por Duo confirmando sua fala – Bem... Eu vou fingir que acredito plenamente em tudo o que você me contou. E daí? Em primeiro lugar, você mesmo disse, você tem sete, não dez pedras. Além disso, mesmo que você consiga dez pedras e fique na situação que falou, isso ainda é problema seu. Pode me dar apenas um único motivo para eu aceitar uma proposta dessas?

Por um breve momento, o sorriso arrogante de Duo pareceu se estender ainda mais.

–O motivo, Hélcias, está bem aqui – Erguendo a mão, agora Hélcias notava que Duo possuía uma espécie de pasta fina – Pegue e de uma olhada – Ele acrescentou, atirando a pasta na direção de Hélcias, que a pegou com as mãos. Abrindo-a, observou, sob a escassa luz, o impresso de uma noticia de jornal. De imediato, seus olhos se arregalaram, virando-se para a figura de Duo, que deixou uma leve risada escapar dos lábios – Pois é Hélcias, eu fiz essa pequena descoberta há pouco tempo... Eu imagino como o pessoal daquela loja reagiria se soubesse desse seu passado...

–Em suma, está me chantageando, correto? – O olhar de surpresa foi deixando o rosto de Hélcias aos poucos, sendo convertido em um olhar de compreensão e resignação. Fechando a pasta, ele a atirou de volta na direção e Duo – Eu te ajudo a conseguir treze pedras e você se mantém em silêncio sobre isso, é essa a sua proposta?

–Ora veja, você é mesmo esperto – Duo respondeu, cínico – O que me diz? É um ótimo negócio, não acha?

Hélcias não respondeu de imediato. Os punhos cerrados. O olhar baixo. Por um breve momento, imagens de sua antiga escola lhe passaram pela mente. A escola que havia deixado justamente por conta do que acontecera na notícia que Duo agora lhe apresentava. Uma rápida tristeza foi lhe crescendo na mente, mas não apenas isso. Seus olhos ficaram molhados, mas não eram puras lágrimas de desespero. O eram também, isso era verdade. Mas eram, também, lágrimas de frustração. De raiva. De ódio. De novo e de novo, parecia que o próprio destino queria impedir qualquer traço de felicidade em sua vida.

–Um ótimo negócio, você diz? – Hélcias dizia, com os dentes trincados – Você... É mesmo um completo tapado!

–O que disse? – Duo perguntou. O sorriso se convertendo em uma expressão de frustração – Vamos Hélcias, nós dois sabemos quem está em pior posição aqui. Me deixar irritado não é uma boa ideia, não quando eu tenho esta informação...

–Pois você pode enfiar essa informação no seu rabo! – Afinal, Hélcias ergueu os olhos. Um olhar de pura raiva foi dirigido diretamente a Duo – Você... Desde que você apareceu minha vida virou de cabeça pra baixo! – Gritou, desabafando afinal – E pra completar eu ainda tenho a infelicidade de ter de topar com você de novo e de novo. Um imbecil arrogante, disposto a pisar nos demais e a usá-los como bem quiser... Você acha mesmo que sua irmã ficaria feliz ao ver o que você se tornou, Duo?!

–O que... Você disse? – Desta vez os olhos de Duo revelaram genuína surpresa

–Você não é o único que pode conseguir informação – Hélcias comentou, diminuindo um pouco o tom, tentando moderar a voz – O Héber me contou. Quem você é e... Qual é o seu desejo. Mas Duo, você realmente acha que sua irmã ficaria feliz vendo você fazer esse tipo de coisa? Eu não quero dizer só a chantagem: você está disposto a deixar outras pessoas em coma, cacete!

–E? – A resposta curta veio acompanhada de um olhar tão penetrante quanto o que Hélcias lhe lançava – O que você sabe sobre mim não está em questão aqui. O que a minha irmã pensaria... Não, o que qualquer um pensa não é da minha conta. Se a sua estratégia para me fazer desistir é uma jogada sentimental patética, eu sugiro que você mude logo de ideia e aceite meus termos. Ou então...

–Ou então o que? – Gritou Hélcias, cansado daquela conversa – Vai espalhar uma noticia que qualquer um que jogar meu nome no Google poderia encontrar? E depois? Vai me chantagear com o que?

–Está dizendo que não se importa que isso venha a público? – Gritou Duo, exausto daquela resistência. A impaciência aumentando – Como acha que as pessoas daquela loja vão reagir, em? O Esídio, mesmo o Héber, acha que eles vão simplesmente deixar passar o fato de você ser um assassino, Hélcias?!

–É claro que eu não acho isso! – Respondeu Hélcias, seus gritos ecoando pela rua. Seus olhos se enchiam de lágrimas de medo e raiva, que agora iam lhe rolando pelo rosto – Acha que eu não sei como as pessoas reagem a essa noticia?! Acha que eu fiquei completamente isolado por dois anos naquela maldita escola por vontade minha?! Eu sei muito bem como me tratam. E se for pra nunca mais voltar naquela loja... Mesmo se for pra nunca mais por os pés pra fora de casa, que seja então! – Fez uma breve pausa, deixando sua fala se propagar naquele espaço, enquanto a respiração se acalmava. As lágrimas agora abundantes. O tom de voz diminuindo – Eu não vou... Deixar que me controlem. Nem você, e nem ninguém.