The Game
13 Parte 1 - Capítulo 12 - Hélcias vs. Duo I
–Então? – Sentado, Hélcias encarava a Héber – Qual é a terceira coisa que eu deveria saber sobre aquele lugar?
–Bom, o que eu vou falar vai ser um pouco difícil de entender no começo – Héber respondeu, o olhar sério, pouco habitual ao jovem – Mas indo devagar você deve acabar entendendo. De qualquer forma, a primeira coisa que deve saber é que esse terceiro elemento vai se referir à natureza que os jogos assumem naquele lugar...
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–Sem brincadeiras desta vez – O tom sério e irritado vinha do outro lado do espaço brando homogêneo. A raiva visível no rosto de Duo, que falava em um quase gritar – Nós estaremos apostando duas pedras nesse jogo. Por isso, Hélcias, eu espero que você esteja com seu plano de saúde em dia, já que muito em breve você vai precisar de um leito!
–Isso é o que vamos ver, Duo! – O grito de Hélcias expressava muito mais um desejo do que uma certeza. Sentia as pernas bambas e não sabia dizer se era de exaustão ou de medo. Porém, sabia que não havia forma de voltar atrás. Pondo a mão no peito, como que tentando acalmar o coração acelerado, ele sacou uma carta – Certo... Da minha mão eu invoco meu monstro: Evoltile Najasho!
Como antes, à frente de Hélcias uma luz surgiu do chão. Erguendo-se a partir desta, porém, estava agora uma criatura com a aparência de uma serpente, de cor acinzentada. A metade frontal do corpo era sustentada no ar por duas minúsculas asas, enquanto que próximo ao final da outra metade um par de patas se mostrava. O monstro emitiu um estranho grunhido, indicando que sua invocação fora bem sucedida. Imediatamente após isso, Hélcias jogou uma segunda carta de sua mão. Uma magia, que ele declarou como tendo o nome de Evo-Force.
–Neste momento... – A voz de Duo, porém, interrompeu a jogada de Hélcias – Eu ativo o efeito da minha carta: Effect Veiler – Tomando a dita carta de sua mão, Duo a descartou para o cemitério, pagando assim o custo do monstro – Com isso, eu nego todos os efeitos do seu Evoltile Najasho!
Uma nova luz envolveu o monstro de Hélcias. O efeito desta, porém, foi bem diferente: a criatura, que então poderia ser tida como um ser vivo, assumiu tons pálidos de cinza e branco. Seus olhos, até então duas orbes de onde brilhavam duas luzes intensas, ficaram negros e sem vida. Abaixando a cabeça, a criatura parecia completamente imobilizada.
A jogada de Duo não fora despropositada, e Hélcias tinha certeza disto. Um deck Evols usa de monstros do tipo réptil para invocar especialmente monstros do tipo dinossauro, que então servem de materiais XYZ para monstros do tipo dragão. Um destes, Evolzar Laggia, possui a forte habilidade de negar qualquer magia, armadilha ou invocação ao custo de seus dois materiais. Duo certamente esperava que Hélcias tentasse invocar esse monstro e o movimento feito por Hélcias assim indicava: se por um lado a Evo-Force tributaria um monstro para invocar um Evolsaur, Najasho possui o efeito de invocar um Evolsar quando tributado. Essa combinação forneceria os requisitos necessários para a invocação de um monstro plenamente capaz de parar a magia Power Bound, um risco que Duo não poderia correr... Se tivesse essa carta na mão.
–Uma medida anti-laggia, Duo? – Hélcias perguntou, um sorriso confiante no rosto – Para ter um medo assim, eu vou chutar e dizer que as quatro cartas restantes na sua mão são três cyber dragons e uma Power Bound, não? – Ele não respondeu, limitando-se a olhar com leve confusão para Hélcias – Bom... O efeito da minha Evo-Force ainda pode ser resolvido. Assim, pelo tributo do meu Najasho, eu chamo agora do meu deck o meu Evolsaur Elias!
O réptil de aparência de serpente brilhou intensamente. Uma luz cegante, que foi então assumindo um outro formato. O novo monstro tinha a aparência de um antigo brachiossaurus: do tronco, sustentado por quatro firmes patas, partida de um lado uma longíssima cauda, enquanto que do outro o pescoço se projetava por vários metros para cima, uma visão que forçava ao oponente a olhar para os céus, mesmo com a distância entre ambos os jogadores. A criatura tinha a cor amarelada, além de espinhos de metal que lhe desciam do crânio até o dorso imponente. Contudo, o mais relevante para o momento era que ele não estava sozinho: um outro monstro, idêntico à este, surgia ao seu lado.
–Tsc. Evolsaus Elias tem a habilidade de invocar outro evolsaur da mão quando invocado de forma especial... – Duo comentou. Era um quase sussurro, um comentário apenas para si próprio – Com dois monstro de level 6 em campo... Uma invocação XYZ?
–Exatamente! – Gritou Hélcias, aparentemente tendo escutado as divagações de Duo – Do meu campo, eu utilizo meus dois monstros de level 6 como materiais para uma invocação XYZ! – No seu campo, ambos os monstros de Hélcias foram envolvidos por uma forte luz branca, que então condensou ambas as criaturas à forma de duas esferas de pura luz. Entre elas, um novo pilar de luz emergiu – Com isso, do meu extra deck, eu agora invoco o rank 6 Sword Breaker!
Surgindo do pilar de luz, saiu um cavaleiro em pesada armadura. Grossa, projetando-se para todas as direções, o tamanho descomunal desta dava uma vaga ideia de como seria o corpo em seu interior. Trazia ele uma espada em uma mão e uma clava na outra. Presas em suas costas e cinturas, uma infinidade de armas das mais variadas. Era ele sozinho, sem dúvida, uma fortaleza e um exército ao mesmo tempo. Uma vez ele em campo, ambas as esferas de luz se puseram acima dele, pairando sobre sua cabeça.
–Sword Breaker? – Comentou Duo, não familiarizado com a carta.
–Não conhece a carta, Duo? – Comentou Hélcias, esboçando no rosto um sorriso confiante – Pois deixe que eu explique seu efeito. Para tanto, eu agora destaco um de seus materiais XYZ – Acima do elmo da criatura, uma das esferas luminosas pareceu esfarelar-se espontaneamente, desaparecendo da vista de qualquer um – Agora, eu ganho o direito de declarar um tipo de monstro. Então, toda vez que meu Sword Breaker batalhar com aquele tipo em específico, o monstro oponente será destruído automaticamente!
–O que?! – Os olhos de Duo se arregalaram diante da declaração. Era obvio qual tipo Hélcias escolheria.
–Agora, e uma vez pago o custo, eu declaro o tipo Máquina! – Na espada de mão da criatura, uma intensa luz avermelhada envolveu a lâmina, indicando o efeito ativado – Eu seto uma carta e com isso eu encerro o meu turno.
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–Um mundo sem sorte? – A expressão de confusão de Hélcias era bastante esperada – Como assim? É um mundo azarado? – O comentário foi seguido de um sorrisinho jocoso.
–Não, não, isso é um entendimento errado da palavra – Para o espanto de Hélcias, Héber mantinha um olhar bastante sério enquanto seguia naquele assunto – É verdade que hoje em dia muitos pensam que sorte e azar são antagônicos, mas isso não é bem verdade. O que nós chamamos de azar nada mais é do que a Má Sorte, ao passo que nossa palavra sorte se tornou um sinônimo de Boa Sorte. Mas no final ambos são parte daquilo que chamamos de Sorte.
–E o que chamamos de sorte, então?
–A nossa noção de Sorte é bastante dúbia e mesmo pouco definida. Em grande parte, ela chega mesmo a se confundir com nossa noção de Destino – Declarou Héber, que procurava meios de explicar um conceito que ele próprio ainda não entendia plenamente – Mas tentando dar uma definição, Sorte poderia indicar absolutamente todo evento que nós não podemos controlar. Se o resultado deste efeito é negativo, chamamos de má sorte, ou azar...
–E se for positivo nós chamamos de boa sorte – Hélcias completou, arrancando um menear positivo da cabeça de Héber – Mas então o que quer dizer com “aquele é um mundo sem sorte”? Nós podemos controlar as cartas que iremos sacar ou coisa assim?
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–Hunf... Eu vou lhe dar algum crédito, Hélcias. Que você tenha visto a Veiler chegando, quer planejasse invocar esse monstro desde o início, você até que não é tão retardado assim – Duo falava com um leve sorriso no rosto, conforme comprava sua carta – Mas não pense que algo assim vai bastar. Da minha mão eu agora jogo a carta mágica Magical Mallet!
–Tsc, droga... – O sorriso confiante de Hélcias foi rapidamente substituído por uma expressão de nervosismo. Pelo efeito da magia, Duo agora poderia embaralhar quantas cartas de sua mão ele quisesse de volta em seu deck, sacando logo depois a mesma quantia que embaralhou – Com isso a mão dele...
–Se torna inteiramente nova, obviamente – Declarou Duo, sacando quatro novas cartas. Um sorriso em seus lábios denunciava que ficara bastante satisfeito com a nova mão – Agora, eu ativo outra magia: Foolish Burial. Com isso, eu envio meu Cyber Dragon Core para o cemitério. Assim, eu posso justamente ativar seu efeito: Banindo esta carta do meu cemitério, eu posso invocar um Cyber Dragon do meu deck para o campo. E eu escolho: Proto Cyber Dragon! – No campo de Duo, o processo de invocação se repetiu tal qual o que ocorrera com Hélcias, culminando no surgimento de uma criatura em formato de serpente, inteiramente feita me metal – E com isso, eu cumpro as condições necessárias para ativar esta outra magia: Inferno Reckless Summon.
–É isso! – Vendo aquela situação, uma rápida ideia atravessou a cabeça de Hélcias, que prontamente declarou seu movimento o mais alto que pode – Na ativação de sua carta, eu ativo minha armadilha em resposta: Call of the Haunted. Com isso, meu Evoltile Najasho volta ao campo!
Os olhos de Duo confirmaram a surpresa que sentia. Inferno Reckless Summon é uma magia cujo efeito só pode ser resolvido quando da invocação especial de um monstro com menos de 1500 de ataque. Quando resolvida, porém, ela dá a ambos os jogadores o direito de invocarem de seus decks, mão ou campo todas as cópias que possuírem de um monstro que controlam. Com apenas um monstro XYZ em campo, o efeito acabaria sendo inútil para Hélcias, dado que este não incluía o Extra Deck. Porém, invocando novamente o Najasho para o campo, Hélcias era agora capaz de chamar mais duas cópias dele de seus cemitério, que prontamente apareceram em campo.
–Hunf, que seja. De qualquer forma, meu Proton Cyber Dragon é tratado como tendo o nome de Cyber Dragon quando em campo. Assim, eu agora chamo do meu deck meus três Cyber Dragons! – Três outras serpentes metálicas entraram no campo. Estas, contudo, tinham um tamanho consideravelmente maior do que a anterior, além do metal de seus corpos parecerem bem mais reluzentes – E agora, eu uso dois de mais Cyber Dragons de level 5 como materiais para um invocação XYZ. E do meu Extra Deck, eu invoco agora meu Number 61, Volcasaurus!
O processo de invocação XYZ seguiu-se como o de Hélcias: dois dos Cyber Dragons de Duo se condensaram em esferas de luz, entre as quais uma luz intensa surgiu. O que saiu dela, contudo, foi uma criatura drasticamente diferente. O monstro tinha um corpo reptiliano, sobre o qual uma armadura púrpura reluzente cobria o peito, os joelhos e as mãos. Dela, extensões em formato de espinhos, da grossura de presas de mamute, se projetavam para frente. De pele vermelha, a enorme criatura rugiu alto conforme as duas esferas pairavam sobre sua cabeça.
–Merda! – O palavreado saltou da boca de Hélcias juntamente com um olhar de surpresa. E não era sem razão. Bem conhecido por ele, Volcasaurus tem como efeito especial destruir um monstro oponente e lhe infringir dano equivalente aos pontos de ataque daquele monstro – Com isso meu Sword Breaker...
–Está em pedaços! – Completou Duo, sorrindo confiante – Ao custo de um material XYZ, meu Volcasaurus põe um fim nesse seu monstro incômodo! – O monstro emitiu um rugido que fez a espinha de Hélcias se arrepiar. De sua boca, logo partiu um intenso jato de puro magma derretido, que atravessou ao monstro de Hélcias na região do peito, continuando até atingir a parede invisível que separava a arena do jogador, criando nela ondulações. Os pontos de vida de Hélcias caiam agora para 5300 – E agora, meus três monstros, ataquem àquelas cobrinhas irritantes!
Volcasaurus e o Cyber Dragon restante atacaram aos dois Najashos que Hélcias invocara em modo de defesa com um jato de magma e um raio lazer, respectivamente, que se projetaram de suas bocas. O Najasho restante, contudo, tivera de ser invocado em modo de ataque, dado o efeito da armadilha que o ressuscitou. Sendo o alvo do Proto Cyber Dragon, que repetiu um ataque similar ao do Cyber Dragon, Hélcias recebia com isso um dano de mil. Seus pontos de vida caiam agora para apenas 4300.
–Todos os meus monstros... E ainda metade da minha vida...
–Com isso, eu encerro o meu Turno – Um sorriso arrogante surgiu nos lábios de Duo, que observava com atenção o nervosismo crescente do oponente – Se ainda tiver coragem para continuar jogando, é a sua vez, Hélcias!
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–Infelizmente, não é bem assim que funciona – Corrigiu Héber – Infelizmente nós não escolhemos a carta que iremos sacar. E ainda que isso signifique que efetivamente existe um elemento que não controlamos naquele mundo, isso não invalida o que eu acabei de dizer, antes que você pense isso.
–Eu não tinha pensando – Hélcias comentou – Mas agora que você falou, como isso funciona? Se ainda existe um elemento incontrolável, então existe Sorte, não?
–Bem, sim e não... Acontece que existe a Sorte, uma... Coisa... Um treco praticamente metafísico – Conforme falava, Héber gesticulava de forma aparentemente aleatória, tentando definir com o corpo algo que as palavras não era capaz de o fazer – E existe o Fator Sorte, a sorte aplicada aos card games. Sacar exatamente a carta que você queria ou sacar a pior carta possível naquela situação... Sempre que isso acontece nós dizemos que a pessoa teve muita sorte... Ou muito azar.
–Ta, acho que entendi – Hélcias não sabia dizer até que ponto isso era verdade, mas já estava ficando levemente impaciente com aquela explicação – Bom, eu vou assumir então que você quis dizer que aquele é um mundo sem o Fator Sorte, e não exatamente sem Sorte, certo? – Héber meneou um sim com a cabeça – Se é assim, então como funciona aquele mundo? Se não sacamos cartas com base em sorte ou azar, sacamos com base no que?
–Muito simples, Hélcias – Um sorrisinho surgiu no rosto de Héber, quebrando em fim sua expressão mais séria – Ao invés de sacar com base em probabilidades, nós sempre sacamos com base em certezas.
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Ignorando a provocação de Duo, Hélcias sacou sua carta. Com os pontos de vida reduzidos quase à metade e o campo vazio, sua prioridade deveria ser a de invocar algo em campo que pudesse se sustentar. Infelizmente, com dois monstros de mais de 2000 de ataque no campo oponente, sendo um com a habilidade de destruir qualquer monstro, fazer era mais difícil do que falar. E olhando para sua mão, Hélcias não podia dizer que tinha grandes opções.
–Da minha mão eu ativo a carta mágica Pot of Dichotomy. E ao custo de devolver meu Evoltile Najasho, Evolsaur Elias e Sword Breaker para o meu deck eu posso comprar duas cartas – Puxando as novas cartas, o nervosismo de Hélcias pareceu puramente aumentar – Tsc... Eu seto três cartas da minha mão – Postas em campo, três enormes cartas invertidas surgiram bem à frente de Hélcias – E com isso eu encerro meu turno!
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–Mas você acabou de dizer que não escolhíamos as cartas que puxamos! — A confusão de Hélcias era bastante clara – Que raios de certeza é essa?
–A certeza de algo útil – Respondeu Héber – Nem sempre será o que você quer, e muitas vezes talvez lhe pareça que você só puxou um monte de cartas inúteis. Mas tenha certeza: na sua mão sempre estará a jogada ideal para a situação em que você estiver, seja ela qual for.
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–Hunf, três cartas setadas... – Duo puxou sua carta e olhou rapidamente para sua mão. Não precisou nem de um minuto para decidir sua próxima jogada – Esse jogo acabou Hélcias: Volcasaurus, você primeiro, ataque ao oponente diretamente!
–Neste momento... – A declaração de Hélcias arrancou um olhar surpreso de Duo – Eu ativo a minha carta armadilha: Evo-Singularity. Duo, me vencer não vai ser assim tão fácil!
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