The Forgotten
14 Vermelho?
Notas iniciais

Faz pouco mais de uma semana que Vida, a primeira imortal que conheci, veio me visitar.
Depois que ela foi embora Alex me explicou que os sobrenaturais, sem exceção, costumam se calar quando estão na presença de um Imortal e só falar quando são chamados. Ele também disse que Vida é uma vadia desprezível e manipuladora que despreza os servos da Morte.
– Como se ela fosse cuidar de tirar os humanos do mundo pra dar uma chance a novas almas. Sabe como foi difícil trabalhar durante a Segunda Guerra Mundial? – perguntou.
Eu não respondi, afinal nem era nascida nessa época.
Stella me mandou uma mensagem no celular dizendo que ia viajar o que achei estranho já que ela sumiu depois que descobri sobre Lizzy. Tentei telefonar e mandar mensagens, mas as minhas ligações sempre vão parar na caixa postal. Comentei isso com Alex que me garantiu que ela está viva e que tentaria encontra-la.
Nana está cada vez mais distante de mim, ela passa tanto tempo com o namorado que mal tenho oportunidades para vê-la. Tenho passado mais tempo com Alex, ele me conta as mais estranhas histórias sobre o mundo sobrenatural e sobre meus pais.
– Está tudo bem? – perguntou.
Virei-me para trás e ri pela décima vez da camiseta de Alex, ela era azul claro com um coelho segurando uma metralhadora desenhado e a frase “Nunca confie em coelhos” escrita embaixo. Pra alguém que trabalha com mortos ele tem um senso de humor bem estranho.
– Sim – respondi.
– Não parece – ele disse desconfiado – Você está preocupada com Stella?
–Estou – admiti – Mas também estou preocupada com Nana, ela mal vem á escola e faz muito tempo que não a vejo.
– Não se preocupe ela só está tendo uma paixonite de adolescente, já vi varias garotas com isso.
– Então você conviveu com várias garotas senhor River? – perguntei de maneira desdenhosa.
– Você se assustaria com quantas garotas morrem por paixonites – respondeu sorrindo.
Comecei há passar tanto tempo com o simpático Alex que quase me esqueci do Alex sombrio que mata pessoas mais rápido do que uma piscada. Virei para frente e comecei a anotar o conteúdo que o professor passava na lousa.
O sinal que indicava o final da aula tocou mais rápido do que esperava logo me juntei aos alunos que tentavam escapar da sala como se suas vidas dependessem disso.
– Gostou da minha camiseta? – Alex brotou do meu lado.
– Claro, ela nos alerta sobre o perigo que são os coelhos. Eu já suspeitava deles, esses olhos vermelhos não me enganam.
Sorrimos um para o outro até que eu me virei e fui em direção ao vestiário feminino.
Esses momentos com trocas de sorrisos estão mais comuns do que gostaria e isso me assusta.
Tirei minha roupa e comecei a vestir o uniforme de ginastica que me lembrava muito a roupa do palhaço Ronald McDonald.
Aline e suas amigas estavam me fuzilando com o olhar.
– O que você acha que elas querem? – perguntou Beth, a garota que havia sentado no chiclete.
– Coisa boa não deve ser – respondi.
Aline desfilou até mim usando seu shorts vermelho de ginastica e seu sutiã rosa.
– Alice – sorriu – Eu e as meninas estávamos falando sobre o cara novo, o Alex, e todas decidimos que vocês não são um bom casal.
– Casal? Alex e eu somos apenas amigos.
– Eu não acredito – disse séria – E se você for esperta vai dar um jeito de se separar dele.
– Não vou deixar uma amizade de lado por causa de uma garota mimada como você, Aline.
– Vai sim, se você sabe o que é bom pra você vai largar essa “amizade” – fez aspas com os dedos – E arrumar algum nerd pra você.
– Por que esse interesse no Alex? – me levantei e fiquei cara a cara com ela – Já transou com todos os caras da escola e quer experimentar algo novo?
Foi tão rápido que quase não vi, Aline levantou sua mão para me dar um belo tapa na cara quando Nana surgiu atrás dela e puxou seu braço segurando atrás das costas dela.
– Da onde você veio loira burra? – o rosto de Aline estava vermelho de raiva.
– Garanto que não foi do mesmo bordel que você – respondeu Nana – Aprenda uma coisa querida Aline – Nana disse as duas últimas palavras como se estivesse prestes a vomitar – Alice pode e vai ser amiga de quem ela quiser e se você mexer com ela vai acertar contas comigo e já adianto que sua conta está no vermelho e vou cobrar todos os juros por ter que ver essa sua cara feia desde a primeira série.
– Você está quebrando meu braço – gritou.
– Vou quebrar mais que seu braço se te ver mexendo com a minha melhor amiga de novo. Estamos entendidas?
Aline disse algo que parecia um ‘sim’ e Nana a soltou. Assim que se viu livre, Aline a olhou com desprezo e foi para perto de suas amigas.
– Nana – falei sem acreditar – Onde você estava?
– Por ai – respondeu sorrindo.
Só agora percebo que a minha sempre sorridente amiga está vestida inteiramente de preto, sua pele está pálida e seus lábios estão pintados com o tom de vermelho mais intenso que já vi. Ela se parece com uma gótica das que vemos em filmes de vampiro, só que pior e com um echarpe que não combinava com nada.
– Você está diferente – falei.
– Você também, nem parece estar feliz ao ver uma velha amiga.
– Você não se parece a minha velha amiga.
– David me deu umas roupas novas – disse orgulhosa – Gostou?
Uma voz na minha cabeça estava gritando que tinha algo errado e eu sabia que devia escuta-la. Nana não é do tipo de garota que gosta de cores escuras, ela é viva e sempre que possível usa as cores mais chamativas possíveis. Resolvi mentir para evitar problemas.
– É, você está bem assim.
– Sabia que ia gostar – disse – Vamos a um lugar mais reservado? Tenho muitas coisas pra te falar.
A parte racional do meu cérebro gritava ‘não’ enquanto a parte curiosa gritava ‘sim’, como não tenho nem um pouco de vontade segui Nana para fora do vestiário.
Andamos até as arquibancadas nos fundos da escola e nos escondemos atrás delas. Nana se encostou numa viga e acendeu um cigarro.
– Quer? – ofereceu a caixinha com cigarros.
– Não, obrigada. Prefiro ter uma morte mais rápida e que não deixe meu pulmão preto.
Ela deu uma tragada e riu.
– Você é a melhor, Alice.
– Sou?
– Claro que é – ela brincou com a ponta do echarpe.
– Não está com calor? – perguntei apontando pro echarpe preto.
– Já faz um bom tempo que não sinto nem frio e nem calor.
Nana continuou fumando por mais um tempo até jogar seu cigarro no chão e pisar nele.
– David é incrível – falou.
Olhei para ela em busca de algum mensagem oculta nessas palavras.
– Hãm?
– Nós falamos de tudo um com o outro, somos bem sinceros sabe? Ele disse que gostou de você.
– Isso é bom?
– Claro que é, meu namorado e minha amiga devem se entender – ela disse como se fosse obvio, resolvi não discordar – Esses dias fomos ao parque, David sempre gostou de me morder em lugares estranhos – ela soltou uma risadinha – Ele me jogou numa arvore e começou a tirar minha blusa...
– Calada! – gritei – Não preciso e nem quero saber das intimidades de vocês.
Que Nana não era mais virgem eu já sabia, mas não queria nem um pouco ouvir sobre suas aventuras mundo a fora.
– Não, isso você precisa saber – ela falou séria – Eu pensei que ele me queria ali mesmo, estava preparada pra que ... Hum... Acontecesse como sempre – ela provavelmente estava pensando como falar sobre esse acontecimento sem ser de forma indecente – Mas ele fez algo inesperado.
– Inesperado?
Nana tirou o echarpe do pescoço e revelou varias marcas de mordida, algumas ainda tinha sangue . Ela começou a tirar sua blusa, a pele dela estava com mais mordidas e no meio do seu peito tinha marcas de pontos como se ela tivesse passado por uma cirurgia.
– Ele enfiou a mão entre meus peitos e arrancou meu coração – ela disse de forma melancólica – Ele me matou, Alice – podia ver a tristeza em suas palavras – E depois ele me transformou.
Meu sangue congelou nas veias. Os olhos sempre alegres e verdes que vi por anos estavam vermelhos.
Vermelhos como sangue.
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