The Forgotten
43 There goes my hero
Notas iniciais

Alexander não parou de correr enquanto não chegávamos até uma clareira no meio do bosque enquanto eu chorava compulsivamente. Encontramos Nana deitada no colo de Natália e Melody sendo tratada por Pudim.
– Chegamos – ele anunciou para ninguém em especial.
– Onde está o Morfeu? – Melody perguntou. Mesmo estando em sua forma humana os ferimentos da batalha ainda estavam pelo seu corpo.
– Alice, onde está aquele cabeça oca? – Pudim perguntou vindo em nossa direção e revirando os olhos para Melody que começava a farejar o ar.
Não respondi as perguntas delas com palavras, mas sim com soluços desesperados e lágrimas saindo dos olhos. Sinceramente, não sei como ainda tenho tanto líquido em meu corpo para chorar dessa forma.
– Eu não sinto o cheiro dele – a voz da Melody estava falhando – O que aconteceu?
Os meus olhos foram ficando embaçados, escondi meu rosto com as mãos e caí de joelhos no chão.
– Droga! – a bruxa praguejou em voz alta – O que está acontecendo? Merecemos respostas!
Alex apertou os meus ombros buscando me confortar sem sucesso.
– Thomas se sacrificou pelo bem de todos nós – ele respondeu sem qualquer traço de tristeza ou choro em sua voz – Morreu como um herói e talvez reencarne por ter feito tal coisa.
Melody começou a chorar desesperadamente. Senti alguém me abraçando, tirei as mãos da frente dos olhos e pude ver seus cabelos coloridos. Ela soluçava em meu ombro que já estava úmido com suas lágrimas. Pudim abraçou a nós duas e depois afagou nossos cabelos. A bruxa chorava de forma controlada dando prioridade ao nosso sofrimento.
Fui egoísta ao me preocupar apenas com a minha dor, mas naquele momento não consegui juntar forças suficientes para dizer a elas que ele estaria em um lugar melhor ou qualquer frase de luto.
Não me recordo se já contei sobre a reação que as pessoas tinham quando eu falava que meus pais haviam morrido, talvez por ser algo tão irritantemente supérfluo que não parece ter importância.
Quando os pais de alguma coleguinha na escola perguntavam sobre os meus, eu não escondia sobre a morte deles e sempre ouvia “Meus pêsames” ou “ Que grande tragédia, agora eles estarão em um lugar melhor”. Na época só conseguia questionar que lugar seria melhor que ao meu lado. Onde meus pais encontrariam um conforto melhor que o abraço da filha deles? Durante anos ouvi essas e outras frases do mesmo tipo sem que tivessem qualquer efeito sobre mim.
Um fato sobre o luto: Não adianta dizer que algo vai ficar bem para alguém que acaba de perder uma pessoa amada. As palavras não vão acabar com a dor.
A dor que corroía meu coração. Ah, a dor. Quase posso sentir a personificação imortal desse sentimento sussurrando para mim palavras tristes de um jeito que parecem atraentes.
– Encontramos algumas frutas – anunciou Lizzy.
Só agora percebo que minha irmã e seu amigo assassino não estavam aqui quando cheguei.
– O que está havendo? – Zero perguntou.
As meninas se afastaram limpando as suas lágrimas. Eu não me preocupei com as minhas. Pisquei algumas vezes para limpar um pouco a minha visão e depois encarei os borrões que imaginei ser minha irmã e seu amigo.
– O metamorfo se foi? – minha irmã perguntou.
– Sim – Melody praticamente sussurrou.
– Isso é uma pena, ele tinha um grande potencial dentro de si.
Elizabeth não veio me abraçar ou dizer aquelas frases que de nada adiantam, ela não tentou me confortar e apenas se sentou com Zero ao seu lado comendo as frutinhas que encontraram no bosque.
Percebi que Natália e Alex também não haviam dito qualquer palavra de consolo para nós. Talvez eles tenham visto a morte tantas vezes que tentar confortar alguém não seja algo necessário.
Natália resolveu que o clima de luto nos deixava em perigo e que o Conde poderia enviar um de seus familiares atrás de nós. Primeiro ela levou Melody e Pudim, enquanto Alex levava minha irmã e Zero e depois voltou segurando a mão da Nana que se manteve em silêncio todo o tempo.
– Eu não vou com você?
– Acho que você deve conversar com o Alex – ela respondeu pouco antes de desaparecer.
Alexander apareceu poucos segundos depois e estendeu a mão para mim.
– Vamos?
Segurei sua mão e esperei que a escuridão viesse até mim.
O céu já estava escuro e cheio de pontinhos brilhantes quando chegamos ao Instituto. As garotas haviam parado de chorar e todos esperavam por nós.
– Não vai ser fácil – Alex murmurou para que apenas eu ouvisse – Mas vou estar ao seu lado te dando apoio.
Assenti agradecendo pelas palavras mesmo não encontrando conforto nelas.
Todo o grupo caminhou até o refeitório onde os alunos deviam estar jantando, Zero e Red abriram a porta entrando sem qualquer cerimônia.
– Eles voltaram! – alguém gritou.
Uma salva de palmas e assobios começou enchendo o espaço com o som animado dos sobrenaturais. Eles não haviam visto o resto de nós, não estavam vendo que Morfeu não estava conosco. Nem mesmo um corpo temos.
Natália foi em seguida, cumprindo com seu papel de vigilante dos dois assassinos e carregando Nana no colo. Pudim e Melody entraram depois, o rosto de ambas estava inchado o que fez o barulho diminuir, mas não totalmente. Foi apenas quando eu entrei no refeitório com Alex ao lado que todos pararam a comemoração.
– Onde está o Morfeu? – Lucas perguntou sentado ao lado dos seus amigos lobisomens. A aparência dele havia melhorado bastante.
– Ele...– ele o quê? Morreu para me salvar? Estava em um lugar melhor? Comecei a chorar, balançando a cabeça para os lados desesperada sem conseguir formular as palavras. Alex me ajudou, segurou meu braço e fez com que eu caminhasse até a mesa da diretora.
– Ela está brincando! – uma garota gritou – Todos estão! O Morfeu não iria morrer, deve estar escondido.
– Então vou encontrá-lo! – um dos colegas lobisomem de Lucas se manifestou.
O garoto começou a farejar o ar buscando qualquer traço do cheiro de Thomas, outros do bando fizeram o mesmo. Nenhum barulho além do farejar dos lobisomens podia ser ouvido no lugar, percebi que até mesmo a diretora Black estava farejando qualquer traço do Morfeu que pudesse ter no local. Um dos lobisomens começou a andar em minha direção, ainda farejando, parou ao meu lado e começou a chorar.
– Ele não está aqui – gritou com a voz desesperada – O único rastro do cheiro dele vem dela.
O lugar foi preenchido pelos sons de soluços, fungadas e gritos desesperados pedindo que aquilo fosse uma mentira. Eu queria que fosse.
Gostaria que toda essa situação fosse uma grande brincadeira, que Thomas passasse pelas portas com um de seus radiantes sorrisos nos lábios e usasse Encanto novamente. Queria voltar para o dia em que ele esbarrou em mim na fila da comida e evitar que tivéssemos nos conhecido, assim ele estaria vivo.
– Thomas Bluemarker veio a falecer essa tarde de forma honrosa e heroica. A missão de resgaste da senhorita Anna Chaves e o assassinato de David foram um sucesso – Alexander informou para a diretora.
– Um sucesso? – alguém gritou, pouco depois a figura saiu da multidão. Era Daniela – O Morfeu está morto. Como você acha que isso é um sucesso?
– A minha senhora o escolheu e acolheu, tenho certeza de que ele irá ressuscitar em alguém destinado a atos grandiosos.
– Você é um louco, servo da Morte! – Daniela havia esquecido completamente sobre qual dos dois era mais forte e que ela deveria temer o Alex – Ao menos trouxeram o corpo dele para enterrar?
O silêncio entre todos que foram para a missão foi a resposta que ela precisava antes de cair de joelhos e chorar.
Você sabe o que é estar em um local cheio de adolescentes chorando? Não pense que é como na televisão quando reúnem um grupo de fãs histéricos para conhecer seus ídolos, é pior. Todos começaram a chorar e se abraçar, até Melody perdeu o controle e chorou nos braços da Pudim. Não havia nenhuma pessoa naquele local que não estava chorando pelo Thomas, com exceção dos dois anjos da Morte, os dois assassinos e eu.
Aproveitei a distração de todos para sair do refeitório e ir embora. Assim que cheguei longe o suficiente para que ninguém me visse, comecei a correr desesperada para o dormitório.
O vento frio batia em meu rosto tornando as lágrimas que caíam ainda mais incomodas, mas não me importei. Corri até chegar onde queria e subi sem nem me dar ao trabalho de cumprimentar a recepcionista esqueleto.
Uma vez que as faíscas de proteção saíram da maçaneta eu a tranquei com força escorrendo até o chão com as costas apoiadas na porta.
Na noite anterior a ida para o castelo do Drácula, Thomas dormiu comigo nesse quarto. Posso sentir seu cheiro espalhado pelo lugar como um lembrete do que acontece com aqueles que se envolvem comigo. Eles morrem.
Lembro com clareza das caricias que ele fez no meu cabelo, na maneira como me abraçou quando estávamos deitados e beijou o topo da minha cabeça imaginando que eu estava dormindo.
– Thomas, por que você me deixou? – corri os dedos das duas mãos pelos cabelos. Não preciso me olhar no espelho para saber que estou com uma aparência terrível. Comecei a soluçar enquanto chorava com a bunda doendo por estar sentada no chão frio.
Um pouco cambaleante, consegui ir até a minha cama e caí sobre a mesma abraçando o Senhor Pikachu em busca de algum consolo. Meu travesseiro ainda tem o cheiro de Morfeu, meus cobertores, meu pikachu e até mesmo eu.
Eu gostaria de conhecer um feitiço que possa me levar de volta no tempo para reviver todos os momentos felizes que passei com ele ou evitar me envolver tanto com o loiro. Tenho certeza que ele estaria vivo se não fosse por minha causa.
As lágrimas deixaram uma mancha úmida no travesseiro. Será possível morrer de tanto chorar? Meus olhos doem e parece que meu cérebro irá explodir, mesmo assim não acho que isso seja possível. Talvez eu fique desidratada e morra para encontrá-lo.
– Não – murmurei rouca – Eu não posso morrer.
De olhos fechados pude ver o sorriso dos meus pais e o rosto do Morfeu. Enxerguei do mesmo jeito que quando o conheci, tão belo que não parecia ser real. Vi seu sorriso debochado, sua expressão inocente, galanteador, bobo, apaixonado…
Morfeu. Thomas. Morfeu. Thomas. Morfeu. Thomas.
Thomas. Thomas. Thomas. Thomas. Thomas. Thomas. Volte, por favor.
–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Se você acha que não existe algo pior do que perder o último pedaço de pizza que tanto queria, é porque nunca chorou tanto que terminou desmaiando sem perceber e desejo que você nunca saiba como é isso.
Tomei um banho rápido e mesmo depois dele meus olhos continuavam inchados com um tom avermelhado realmente assustador. Não me importei em tentar disfarçar a minha aparência com maquiagem ou fazer algo para domar o meu cabelo que estava bagunçado.
A dor não pode ser escondida, deve ser mostrada e sentida.
Vesti um vestido preto simples de corte reto e calcei um par de sapatilhas também pretas. Não sei porque coloquei meia calça, mas pareceu correto. Hoje seria o enterro do Thomas e não parece certo que eu vá sem estar vestida de preto. Penteei o cabelo e o prendi em um rabo de cavalo baixo.
O que será que ele diria vendo meu rosto abatido? Será que brincaria com as minhas roupas pretas? O que ele diria nessa situação?
Não sei quanto tempo fiquei parada em frente ao guarda-roupa com essas questões rondando a minha mente, apenas sai desse devaneio quando ouvi a voz de Melody me chamando.
Melody e Pudim estavam de preto como eu. De alguma forma a loba conseguiu tingir seu cabelo de preto, talvez fosse a forma dela de homenagear o amigo que perdeu.
Caminhamos até o santuário da Morte que ficava no meio do bosque do Instituto, eu não sabia sobre esse lugar até agora há pouco.
O lugar tem o mesmo estilo dos templos da Grécia, mas com uma diferença: suas pilastras são pretas e o chão vermelho. Fileiras de bancos de madeira se estendiam com jovens sobrenaturais sentados em cada centímetro delas, alguns já haviam se conformado em fica em pé.
Na frente havia um vitral representando a imagem de um ceifeiro com uma caveira na mão direita e um saco cheio de almas na esquerda e um altar onde a diretora Black estava com alguns professores ao lado.
Assim que entramos, vários rostos se viraram em nossa direção. Algumas pessoas conversavam brevemente conosco murmurando palavras de consolo ou expressando como se sentem tristes, eu não prestei atenção em nada e apenas murmurei “obrigada” quando parecia a coisa certa a se fazer.
Eles não queriam em consolar, mas sim a si próprios. Quando você tenta ajudar alguém sua mente fica mais leve e os sentimentos ruins se tornam fracos, foi isso o que aconteceu aqui.
– Todos estão aqui? – a diretora perguntou, um professor se aproximou de Melody, Pudim e eu e nos levou para perto do altar – Muito bem – a diretora fez um ruído limpando a garganta – Vamos dar inicio ao enterro simbólico de Thomas Bluemarker, um fiel amigo e grande aluno. Na primeira vez em que o vi eu pensei que ele seria um problema e isso logo se confirmou…
A cerimônia seguiu com relatos dos professores e alunos sobre o Thomas, até mesmo eu tive que falar algumas coisas, porém, nada depois de “Eu o amei até seu último instante e ele a mim” pode ser compreendida porque terminei caindo no choro e sendo retirada do local pelos professores.
Uma lápide foi feita para ele no lado de trás do templo. As meninas me explicaram que no passado grandes heróis eram enterrados lá e que essa era a maior honra que alguém poderia ter no Instituto. Enquanto todos iam até a lápide para se despedir, eu corri até o bosque colhendo de árvores e arbustos as flores mais belas que encontrei. Não parece certo deixar alguém tão lindo partir sem nenhuma flor.
Quando cheguei até a lápide encontrei Melody, Pudim e Lucas abraçados.
– Vamos te deixar só – Lucas murmurou levando as garotas para longe.
Ajoelhei diante da lápide deixando as flores ao seu lado, me permitindo sentir a dor em sua forma mais nua e crua.
Thomas Bluemarker
Amado herói, amigo, namorado e aluno.
O dono do sorriso mais alegre que esse lugar já viu.
Soube imediatamente que foi a diretora quem escolheu o que escrever, apenas ela daria importância para o único namoro que ele teve na vida.
Mesmo que eu soubesse que aquela lápide era uma mentira e que aquele enterro era apenas para que todos pudessem sentir que haviam se despedido a dor era tão real. Uma dor sufocante, excruciante que me deixa tão atorada. Sinto o desejo de gritar, quero correr e fugir dessa dor. Será que ela irá me perseguir se eu for para longe? Essa dor irá sumir se eu morrer?
– Basta – me assustei com a voz grossa e irreconhecível de um homem atrás de mim – Vá embora e deixe a garota em paz.
–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
(Autora)
Destino caminhava pela sua sala tricotando sem parar, entregando o fado que cada ser vivo deveria carregar. O dia estava agitado e o pobre Imortal só havia conseguido tomar uma xícara de chá porque a fez flutuar até seus lábios.
– Destino! – ele reconheceu a voz e se virou para ver aquela que tanto amava chorando.
– O que houve, meu amor? – o Imortal correu até a pequena figura encolhida no chão que chorava como se não houvesse amanhã.
– Thomas Bluemarker morreu para salvar a garota Knight – os olhos sempre tão alegres estavam profundamente tristes e avermelhados.
– Esse não era o destino dele.
O Imortal correu até a parede com os fios se conectando e procurou pelo nome do metamorfo, realmente ele havia morrido. Diante de seus olhos ele viu todo o destino que fora cuidadosamente traçado para o garoto se desfazer. Não iria mais se casar com a garota Knight , libertar sua família da maldição e nem ter a filha ruiva de olhos âmbar que tanto desejava em segredo.
– Como isso aconteceu? – Destino murmurou.
Braços pequenos abraçaram a cintura do homem.
– Você está certo – sua amada murmurou em suas costas – A garota Knight é especial.
Destino engoliu em seco percebendo que as consequências que essa garota estava trazendo poderiam mudar tudo o que ele planejava.
–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
(Alice)
Olhei para o homem diante de mim que encarava algo ao meu lado severamente. Olhei para o local e tive o vislumbre de uma garota cinza dando as mãos para um garoto da mesma cor. Eles desapareceram logo em seguida como dois fantasmas.
– Quem é você? – perguntei secando as lágrimas.
O homem parecia jovem, perto dos vinte anos. A pele era bronzeada, os olhos verdes e a sombra de uma barba começa a aparecer em seu rosto. Vestia uma calça jeans escura com uma mancha que parecia ser ketchup, uma camisa social com os botões no lugar errado e um cachecol vermelho que ele continuava a tricotar. Parece esquisito, mas esse visual e o cabelo preto despenteado caíam bem nele.
– Você deve me conhecer como Destino – ele não olhava para o cachecol enquanto tricotava.
– Aquele Destino? – perguntei surpresa, Outro Imortal vindo até mim? Coisa boa não deve ser.
– O próprio – ele sorriu mostrando as fileiras perfeitas de dentes brancos – Sinto muito pela forma como estou vestido, não esperava ter que sair de casa hoje.
– O que o senhor deseja comigo?
Destino tinha uma presença diferente da Vida. Enquanto a Imortal parecia intimidar e encantar ao mesmo tempo, o homem diante de mim parecia solitário de um jeito que encantava.
– Vim dar meus pêsames pela sua perda – pequenas manchas ao redor de seus olhos indicavam que ele não estava dormindo bem – Sinto muito pelo seu namorado e pelo incomodo que Dor e Solidão causaram a você.
– Dor e Solidão – repeti baixo.
– Sim, os sentimentos estavam bagunçando um pouco a sua cabeça. Tenho certeza que não irão voltar a fazer isso – ele sorriu amarelo.
Encarei os olhos verdes que tanto pareciam com os meus, mas possuíam a malicia dos de Lizzy e logo soube que havia segundas intenções naquela conversa.
– Você não veio apenas para me dar os pêsames.
– Garota esperta – ele continuava tricotando com habilidade sem desviar os olhos de mim – Thomas não devia morrer agora e isso me preocupa, de alguma forma você consegue alterar meus planos. Tem ideia de como isso é perigoso? – ele esperou que eu o respondesse, mas apenas desviei o olhar para a lápide diante de mim.
– Então foi mesmo minha culpa – rir amargamente.
– Não foi – ele respondeu – E antes que você duvide, não tenho motivo algum para mentir para você. Sinto que em breve você virá até mim buscando ajuda e só quero pedir que tome cuidado até lá, é perigoso brincar com o destino.
Olhei para ele novamente, ao seu lado haviam agora uma mulher extremamente bonita que sorria e um garoto que se vestia com as cores do arco-íris e não parecia ter mais do que nove anos.
– Quem são? – perguntei confusa olhando para os dois e me sentindo melhor.
– Eu sou Amor – respondeu a bela mulher – E esse é Felicidade – o garotinho acenou para mim – Resolvi trazê-lo para te ver já que você perdeu um grande amor.
Uma lágrima solitária escorreu pela minha face.
– Não chore, moça – Felicidade correu até mim e começou a pular ao meu redor – O garoto desejou sua felicidade, você quer mesmo decepcioná-lo chorando sem parar?
De perto, pude ver que os olhos do garotinho eram âmbar como os de Morfeu.
– Não – murmurei.
– Então viva e seja feliz – o garoto me abraçou enchendo meu corpo com um estranho calor – Essa é a minha benção para você.
– Obrigada – murmurei e logo os três imortais desapareceram.
Fiquei sozinha por mais alguns minutos até que Alex e Nana apareceram. Nem havia percebido que eles, minha irmã e Zero não estavam no enterro.
– Alice! – Nana gritou vindo em minha direção e me abraçando. Alguém emprestou uma calça jeans preta, uma blusa de frio e um sapato para ela da mesma cor.
– Nana – afastei um pouco nossos corpos para olhar ela melhor – Você está se sentindo melhor?
– Sim – ela respondeu animada – Eu sinto muito pelo seu namorado, Alice. –Se eu não estivesse presa ele estaria bem e…
– Não se preocupe com isso – balancei a cabeça – Eu estou bem, okay? Isso não foi culpa de ninguém.
– Eu sei, mas me sinto mal. De verdade – ela pressionou os lábios com força – Fui tão tola – suspirou – Eu estou indo ver meus pais.
– Já? – perguntei um pouco surpresa.
– Sim, há dois meses eles não recebem notícias minhas e devem estar preocupados.
– Então você vai à Sparks.
– Eu quero que você vá comigo – ela segurou minha mão – Não precisa ir até a casa dos meus pais, mas não quero voltar lá sozinha.
Pensei na proposta. Ir para a cidade minúscula onde passei anos sofrendo com as pessoas que me olhavam feio? O lugar que deixei por não ser mais seguro? Olhei para Nana, tão ansiosa pela minha resposta e sorri. Ela não é a única que não consegue voltar lá sozinha.
– Eu vou com você.
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