The Forgotten
52 Preciso da Paz
Notas iniciais
Ser teletransportada com a Morte pareceu mais frio e escuro do que com Alex e Natália como se fantasmas estivessem nos perseguindo. Não ousei dizer isso em voz alta, se nem Alex fala algo diante de sua senhora quem sou eu para fazer isso?
– Sejam bem-vindos a minha residência – disse a voz familiar.
Destino usava uma blusa social branca com um colete preto e calça da mesma cor, os cabelos estavam perfeitamente penteados e o nó da gravata dele parecia estranho. Aquele estilo parecia formal demais.
A sala aonde chegamos é circular com as paredes pintadas de cinza que possuem diversos cabos de cores diferentes que se movendo sozinhos, ligando-se a outros cabos, entradas ou caindo e desaparecendo quando ficam pretos. Todos os cabos começam o caminho na base, o chão, e vão subindo até o teto tão alto que mal posso enxergar.
Os cabos que caem são longos, médios e pequenos, todos com etiquetas trazendo informações que não consigo ler. Me pergunto se são pessoas morrendo.
Não vi o exterior da casa do Destino, mas apenas pela sala onde estamos posso ter uma noção da magnitude do lugar. O Imortal não sorri ou demonstra qualquer sentimento que não seja tédio por nos receber.
– É tão bom ver que você está tomando banho, irmãozinho – Morte sorriu. Seus caninos afiados pareceram ameaçadores como os de um vampiro – Trouxe a garota Knight, meu servo cuidou dela como você pediu. Temos um acordo?
Olhei confusa para Alex que abaixou a cabeça escondendo o rosto com os cabelos enquanto Natália parecia muito entretida em contar as manchas no chão.
– Do que ela está falando, Alex?
Destino e Morte me olharam surpresos. Legal, existe mais uma coisa acontecendo na minha vida e eu não faço ideia do que é.
– Deu ordens para o garoto não falar nada? – perguntou o Imortal.
– Sim – respondeu a Morte – Achei que assim seria melhor.
Destino suspirou, passou a mão direita pelos cabelos que ficaram bagunçados de um jeito muito bonito. Depois terei que interrogar meu namorado imortal.
– Venha comigo, Alice – não havia ameaça no sorriso que ele direcionou a mim.
Destino não me esperou antes de se virar e caminhar até o lado oposto da sala. Precisei apressar o passo.
Quando o alcancei, ele tinha parado bem na frente de uma parede e com apenas um movimento fez surgir uma porta nela por onde passamos. Não sei se é besteira ficar surpresa com isso, afinal ele é um Imortal todo poderoso e abrir passagens não deve ser nada, mas o meu lado que sonha com a faculdade de arquitetura ficou empolgadíssimo com isso.
A passagem se fechou assim que passamos por ela e uma luz se acendeu revelando o que imagino ser o quarto do Destino.
Não vou detalhar sobre as invejáveis estantes cheias de livros ou os outros objetos de decoração incríveis do lugar que devem ter séculos de vida, a peça que merece o foco era a gigante tapeçaria que ocupava uma parede inteira do cômodo.
A casa do Destino era muito alta, chuto que o teto deva estar a pelo menos cinco metros de altura. Aquela magnifica tapeçaria começava no teto e descia pela parede. Tive que jogar minha cabeça para trás e me afastar até encostar a parede oposto para conseguir ver pequenos homens das cavernas descobrindo o fogo. Antes dessa cena existiam outras que não pude distinguir.
A tapeçaria tinha como tema grandes momentos da história da humanidade, vi diversas civilizações antigas retratadas e momentos que marcaram a história junto com outros que mostravam a história dos sobrenaturais. Reconheci cenas da Revolução Francesa, meu período favorito, e até mesmo das Guerras Mundiais com lobisomens nos campos de batalha. É impossível não reconhecer o bigode de Hitler.
As cenas continuavam, misturando as da humanidade com os sobrenaturais até chegar aos dias atuais onde a tapeçaria acabava em um monte de linha solta. Estava inacabada.
– Aproxime-se – Destino pediu.
A última cena começava familiar, um local escuro com três corpos imóveis no chão cobertos com panos brancos, uma garota ruiva deitada em um tipo de cama e um homem azul a torturando. Reconheci imediatamente, aquela era a cena da morte da minha família.
– Por que isso está aqui? – perguntei. Gostaria de tocar o tecido, porém, estava alto demais para que meus dedos chegassem perto.
– As coisas que Marloc e a Organização fizeram afetaram o mundo sobrenatural de forma marcante. Sua escolha em descobrir mais sobre o passado de seus pais vindo até aqui decidiu o papel principal dessa trama como sendo seu Alice – os olhos verdes se fixaram em mim – Não falta muito para que a guerra bata a sua porta. Prepare-se.
Senti meu estômago se revirando dentro de mim.
– A diretora Black me pediu para vir aqui descobrir quando essa guerra vai chegar.
Destinou balançou a cabeça.
– Lembra quando disse que você viria ao meu encontro em breve? Eu não disse o dia. É assim que as coisas funcionam com o destino, sei o que vai acontecer, mas não quando.
– O senhor é um Imortal onisciente e onipotente, como pode não saber disso?
O pensamento parece tolo, não existe criatura mais poderosa que o homem diante de mim e ele não pode prever algo tão simples.
– Acha que seria fácil saber as datas exatas em que cada coisa no mundo aconteceria? – ele pareceu irritado – Os humanos alteram seus caminhos o tempo todo, não tenho como prever quando algo importante vai acontecer. Também não teria como continuar sano se soubesse de cada passo de mais de sete bilhões de pessoas ao mesmo tempo.
Senti como se fosse uma idiota e murmurei um pedido de desculpas para o Imortal.
Essa coisa de Imortais parece ser mais confusa do que eu imaginei no início, a diretora Black está me devendo um favor bem grande e uma indenização em lasanha por ter conhecido a Morte. Quero dizer, eu conheci a Morte devo merecer uma indenização por isso.
– Não peça desculpas – ele me abraçou e afagou meus cabelos, um Imortal bipolar – Você vai me ajudar a reencontrar uma grande amiga.
– Vou? – perguntei confusa – Quem?
Ele se afastou e estalou os dedos, a imagem de uma mulher negra com os olhos verdes e cabelos cacheados bem cheios surgiu como um holograma diante de mim.
– Essa é a forma humana que a Paz usava, ela desapareceu durante a Segunda Guerra Mundial e acredito que você possa trazê-la de volta se vencer a guerra que se aproxima. É por isso que pedi para a Morte enviar seu servo para proteger você..
Franzi o cenho. Consegui uma resposta e quinze novas perguntas.
– Se a Paz sumiu, o mundo não deveria estar em guerra?
– Alguns resquícios dela continuam aqui – Destinou sorriu como se estivesse se lembrando da imortal desaparecida – E os sentimentos bons estão conseguindo manter as coisas nas rédeas, porém, isso não será para sempre.
Se a Paz estivesse presente quando meus pais foram assassinados, tenho certeza que teria evitado. Não posso fazer nada pelos mortos, contudo, posso salvar muita gente se conseguir trazer a imortal de volta.
– Como eu vou encontra-la? – olhei para o rosto do Imortal, por que não existem Imortais feios?
– Quando o bem vencer, ela vai aparecer – ele sorriu – Conheço minha amiga, ela só está esperando a hora certa para renascer. É muito importante que a Paz retorne, até mesmo os imortais estão entrando em guerra.
A lembrança da Morte chamando a vida de vadia me veio à mente.
– Você está falando sobre a Morte e a Vida?
Destino ficou triste como se eu tivesse acertado onde doía, ele estava ponderando se devia responder ou não minha pergunta.
– No início dos tempos, Vida e Morte eram namoradas – não consegui evitar minha cara de espanto com a informação – Entenda que nós, Imortais, não temos sexo e podemos mudar de homem para mulher quando desejamos. Na época, Morte era um homem negro com dois metros de altura e Vida um garoto magricelo e albino. Os “vivos” que morriam eram presentes que Vida dava para Morte, já que minha irmã sempre foi solitária. O relacionamento acabou quando Vida criou o Narcisismo, e passou a se achar superior a todos e que todos a invejam.
– As pessoas que morriam eram presentes? – a ideia me pareceu fofa e mórbida.
Imagine como devia ser a reação da Morte ao abrir a porta de casa e se deparar com uma caixa fofa decorada com um lindo laço cheio de pequenas almas humanas? Fofo e mórbido.
– A Morte não tinha o poder de ter servos na época – ele ressaltou – Vida e Morte passaram a se odiar após o término e temo que minha irmã Morte esteja sendo influenciada para acabar com a outra.
– Não se pode acabar com a Vida – a expressão dele me dizia o contrário, fiquei apavorada – O que aconteceria se a Vida não existisse por um dia?
– O caos mais puro que esse mundo já viu. Ninguém nasceria e nenhuma planta iria florescer. Um dia apenas de Morte. Se a Paz retornar, sei que vai conseguir apaziguar a briga das duas.
Fiquei em silêncio sem palavras diante da importância do pedido dele. Aquilo estava muito além de apenas trazer uma amiga de volta.
Caminhamos até a parede onde uma porta surgiu, Destino me deteve antes de atravessar.
– Estou confiando em você jovem Knight. Ajude-me a reencontrar minha velha amiga.
Aquilo não era uma ordem ou um pedido, era uma suplica.
– Sei como é perder uma amiga querida. Prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para ajuda-lo.
Mesmo sabendo que isso não é apenas uma busca por uma amiga desaparecida, completei mentalmente.
Destino sorriu abrindo a porta que nos levou de volta para a sala onde a Morte e seus servos aguardavam.
– Espero que não se importe, mas comi seus bolinhos – Morte anunciou com o rosto sujo da cobertura dos doces. Natália rapidamente materalizou um guardanapo e limpou o rosto sujo da Imortal.
– Queria saber tudo que acontece no mundo ao mesmo tempo – ele murmurou ao meu lado com os olhos faiscando de raiva – A garota está dispensada, Morte. No entanto, desejo falar a sós com você.
Morte sorriu como o gato de Cheshire.
– Alexander e Natália, escoltem-na de volta para aquela escola nojenta. Vou ficar um pouco mais.
Nem tive tempo de dizer “adeus” antes de ser engolida pela escuridão.
Meus pés estavam sob o colchão da minha cama no Instituto, Alex segurava a minha mão com a dele entrelaçando os dedos e Natália estava sentada com a bunda no chão do quarto.
– Nunca mais deixo o Alexander controlar a viagem – Natália murmurou massageando a nádega direita – E me recuso a segurar vela para vocês, adeus.
O pequeno rastro de fumaça negra foi tudo o que ela deixou para trás.
– Acho que ela ficou chateada por ter nos encontrado aos beijos hoje mais cedo – comentei com uma risada tímida.
– Também acho – a voz dele estava monótona, quase mecânica. Ele saiu de cima do colchão
– Ei – chamei pouco antes de pular nas costas dele, automaticamente seus braços se ajeitaram para que eu ficasse na posição correta – O que você tem?
– Você não está muito velha para brincar de cavalinho? – perguntou.
– Eu fiz a pergunta primeira – senti que ele estava rindo.
– Acho que a Morte sabe sobre nós – ele murmurou.
– E isso é um problema?
Alex não me respondeu com palavras, o espelho do quarto refletiu seu rosto preocupado e isso foi o suficiente.
Sim, isso é um problema. Ou pode se tornar um.
Preciso da Paz.
(Autora)
Destino encarava a caixa vazia que sua amada havia trazido e a irmã que o olhava enraivecida.
– NÃO IR ATRÁS DA ALMA DESSA GAROTA? É ISSO QUE ME PEDE? – Morte gritou em plenos pulmões, mesmo sem precisar dos órgãos ainda os tinha – COMO VOCÊ SE SENTIRIA SE EU TE DISSESSE QUE NÃO PODERIA CONTINUAR OBSERVANDO UM DE SEUS PRECIOSOS CABOS DE VIDA HUMANA, O QUE FARIA?
– Morte, se acalme – Destino apertou a ponte do nariz, os ataques da irmã estavam começando a tira-lo do sério – Você está sendo muito drástica, a alma dela não interfere em nada para você.
– Você perdeu todo o seu bom senso para uma babaquice pregada pela Amor, meu irmão – as palavras foram cuspidas no rosto do Imortal – Está pensando com o coração e não com a razão.
– Da mesma forma como você e Vida um dia pensaram – ele retrucou.
Morte sentiu um aperto em seu simbólico coração, um órgão que não batia há milhares de anos. As recordações dos séculos passados com Vida e o amor que compartilhavam eram recorrente como um eterno tapa na cara dela. Morte conhece bem a forma como Destino está pensando agora, bem até demais.
– E nós dois sabemos como as coisas terminaram – rosnou virando-se de costas, pensando se devia ir embora ou não. Destino mora em uma fortaleza, é quase impossível encontrar a casa sem que ele deseje isso.
Destino não sabe como é ruim ter um coração partido, Morte pensou. Não sabe como é doloroso ser rejeitado por quem ama. De todos os Imortais, ele é o único que eu queria proteger dessa decepção.
– Se você não jurar em nome do nosso pai que não vai atrás da alma dela e vai deixa-la viver comigo, eu não te ajudarei.
Olhe só para você, me implorando para ajudar uma qualquer a partir seu coração por milênios.
– A solidão o enlouqueceu, irmão – Morte murmurou – Eu juro em nome do poderoso Universo que não tocarei na garota enquanto ela estiver ao seu lado – então a Imortal sorriu com os caninos afiados saltando para fora – O que significa que se ela te deixar, eu vou esquarteja-la e usar a carcaça de seu corpo como decoração da minha sala de chá.
Destino suspirou aliviado.
– Ela não vai me deixar.
Morte sorriu maliciosamente imaginando as milhares de formas para torturar a pobre alma da amada de seu irmão caso ela o magoasse.
– É o que veremos.
Cada ideia era mais tentadora que a anterior e a Morte estava disposta a esperar milênios se necessário para usa-las.
A paciência é uma virtude que ela admira muito e ser paciente para torturar alguém, ah, isso a Morte tem prazer em esperar.
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