The Forgotten
39 Aquilo que nunca foi dito
Notas iniciais
Observei enquanto Lucas, ainda inconsciente, respirava lentamente com algumas fadas curandeiras ao seu redor trocando curativos ou renovando feitiços. Os ferimentos em sua garganta são a pior parte e a que mais preocupa todo mundo, principalmente eu.
– Alice? – virei na direção da voz baixa da minha querida amiga lobisomem.
Por estar se curando melhor que os outros pacientes, Melody estava sentada em uma cadeira de plástico branca com as bordas desgastadas. O braço direito dela estava imobilizado por uma tipoia branca, o tom rosado de alguns leves arranhões já cicatrizando decorava sua pele.
A enfermaria estava cheia de sobrenaturais machucados e outros andando de um lado para o outro com livros de feitiços para cura, o local grande parecia pequeno com aquela quantidade de pessoas que não paravam quietas. As paredes eram brancas com estantes de vidro distribuídas em intervalos iguais para que todo o espaço tivesse ervas e remédios, cortinas brancas que iam até o chão davam privacidade para os leitos daqueles que estavam em pior situação enquanto outros, como Melody, sentavam-se em cadeiras e bancos aguardando a liberação para sair daquele lugar.
– Como você está? – perguntei com um sorriso de alívio no rosto que a animou.
– Estou ótima, tirando a minha experiência de quase morte, é claro – ela fez cara de pensativa – E a comida daqui que, por sinal, é horrível.
– Imagino que seja pior que a da Pudim – ambas fizemos careta ao relembrar do bolo que a bruxa tentou fazer um dia e que mais se parecia um tijolo com morangos por cima.
Melody seguiu com os olhos alguém que passava atrás de mim, por impulso me virei para ver quem era. Daniela foi até o leito onde Lucas estava com uma bandeja cheia de curativos e vidros de remédio. A aparência dela também não estava das melhores.
– Acredita que essa vaca ajudou a salvar a vida do Lucas?
– Sério?
– Sim – Melody fez careta – Pelo menos ela tem alguma utilidade além de me infernizar.
Pudim saiu de um leitor nos fundos da enfermaria, a roupa era diferente, mas o cansaço aparente em seu rosto era o mesmo. Assim que nos viu, veio em nossa direção.
– Vocês estão bem? – perguntou parando ao lado da Mel.
– Melhor do que você – respondeu a loba acariciando o braço da bruxa.
– Alguém tem que cuidar dos feridos.
– Falando em feridos – Melody olhou bem nos meus olhos – Você não deseja nos explicar como conheceu um anjo da morte e por que todo mundo está comentando que a assassina de ontem é sua irmã?
– Irmã? – fingi estar assustada. Como os sobrenaturais são fofoqueiros!
– Aquela psicopata maluca e sem cérebro é sua irmã? – Pudim pareceu assustada.
– Ei, não a chame de sem cérebro – disse sem querer, mas pela a minha lógica se uma gêmea não possui cérebro a outra também não tem e eu tenho cérebro.
– Então aquela garota é sua irmã, caso contrário você não a defenderia – pude ver o triunfo brilhando nos olhos da loba.
– Como você pode ser irmã daquela máquina de matar? – Pudim não parecia tão satisfeita com a descoberta quanto Melody.
– Ela foi adotada – ambas ergueram uma sobrancelha deixando claro que a resposta não as agradou – Certo, eu conto a história para vocês quando não estivermos mais em um lugar cheio de sobrenaturais com super audição.
Não preciso dizer que elas fizeram milhares de perguntas que me deixaram cansada e com a garganta seca de tanto falar. Estávamos jogadas pelo quarto da Melody, o único lugar livre de sobrenaturais fofoqueiros. Quando terminei de relatar tudo o que aconteceu na minha vida fui abraçada.
– O que? — gaguejei um pouco assustada pelo contato físico com as duas. Em especial, com a Pudim.
– Você devia ter nos dito que era uma sobrevivente – Pudim murmurou contra o meu cabelo – Assim como eu.
– Você também teve sua família morta? – perguntei.
Ambas se afastaram, pude ver tristeza no olhar de cada uma.
– Sou uma descendente direta das primeiras bruxas, as fadas que se corromperam e deram origem a linhagem das bruxas. Vamos dizer que minha família não foi muito popular desde que isso aconteceu.
– A Pudim só chegou ao Instituto no ano passado – Melody a abraçou – Fui a única que quis se aproximar dela.
– Meus pais e alguns outros familiares estavam morando na cidade de Bethlehem que fica no estado da Pensilvânia. Vivíamos da forma mais comum possível até que um grupo de religiosos fanáticos descobriu sobre os nossos poderes. Pessoas com livros de feitiços que terminam destruindo a natureza ao seu redor deve ter sido uma boa dica para eles – ela riu amargamente – Se aproveitaram do ritual que estávamos fazendo para trazer saúde aos membros da nossa família e queimaram as casas de cada membro, os mais velhos morreram queimados já que não estavam no ritual – os olhos dela estavam marejados, queria dizer que não precisava conhecer sua história, mas soube que era importante para ela que eu soubesse – Os familiares restantes se dividiram em dois grupos: um queria matar aqueles que haviam nos atacado e outro queria fugir. Meus pais escolheram a fuga enquanto o resto da família preferiu assassinar os humanos.
– Se os seus pais fugiram, como morreram?
– No dia da vingança, recebemos uma carta de um dos parentes pedindo socorro. Meus pais foram averiguar o que era e me deixaram em casa – ela parou seu relato para secar algumas gotas de lágrimas que deslizavam por seu rosto.
– Era uma armadilha – murmurei.
– Sim – confirmou – Sou a única sobrevivente da minha família, do meu clã. Você tem a sua irmã agora, mas antes de saber que ela estava viva éramos iguais.
Soube naquele momento que era a minha hora de abraça-la.
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(Autora)
Destino não estava disposto para receber uma visita da sua irmã Morte, mas sabia que se recusar a receber uma Imortal tão poderosa quanto ele seria loucura.
Amor havia passado por sua casa para deixar uma caixa de bolinhos de morango que ela trouxe diretamente de Paris. Desde a conversa que tiveram sobre maldições a imortal passou a vê-lo com mais frequência. O que pode significar qualquer coisa já que antes ela não o visitava.
Destino sentia-se sozinho, mesmo com as visitas do sentimento imortal ele sentia um vazio que só podia ser preenchido por uma criatura que, infelizmente, não estava ao seu alcance.
Como ele desejava vê-la novamente, abraça-la e dizer que a amava até o fim dos tempos. Como desejava poder ter seus servos e conseguir ficar para sempre ao lado da sua amada.
– Você parece estar sofrendo, irmão – a voz monótona da sua irmã ceifeira o despertou de seus devaneios – Sinto o cheiro da Amor, não me diga que foi enfeitiçado por ela.
– Não, eu não estou enfeitiçado por ela – respondeu com sinceridade. Amor não o havia enfeitiçado, mas sim amaldiçoado sem dó ou piedade alguma – Devo admitir que a sua visita me surpreende, irmã.
– Devemos sempre cuidar da família.
Uma porta se abriu na parede revelando um cômodo com um grande e confortável sofá, duas poltronas dispostas uma em frente a outra e uma mesa de centro com os bolinhos que Amor trouxe em cima e utensílios para saboreá-los ao lado.
– De todos nós você é o que tem a melhor casa – Morte sorriu entrando no cômodo e admirando cada centímetro do local acinzentado. Ele a seguiu.
– Criatividade criou para mim – respondeu o imortal sentando-se em uma poltrona.
– Ela criou uma casa subterrânea para mim – Morte revirou os olhos e pegou um bolinho da caixa – Essa é a melhor confeitaria de Paris – apontou para o nome escrito na caixa – Você não acha?
– Nunca tive tempo de ir à Paris – respondeu secamente.
– Acho que eu devia ter trazido um balde d’ água para jogar em você porque está muito seco hoje.
– Eu não posso parar de trabalhar, Morte – Destino massageou as têmporas – Não tenho tempo para ficar enrolando – com você, completou mentalmente.
Todo o tempo que ele tinha para “ficar enrolando” pertencia a uma pessoa.
– Como você é chato – ela estalou os dedos com as unhas pintadas de preto e uma pequena imagem flutuando apareceu.
A imagem mostrava Red e Alice lutando na noite anterior, bem no momento em que Alice resolve asfixiar a assassina.
– As gêmeas Knight – murmurou.
– Em carne e osso, meu querido – com um novo estalar de dedos a imagem desapareceu – Imagino que esse reencontro cheio de violência tenha sido ideia sua em algum dos seus dias de TPM – Destino a olhou de forma repreensiva.
– Homem não possuem tensão pré-menstrual.
– Que seja – Morte apoiou seu rosto sobre a mão direita – Como pode ver, meu servo está protegendo Alice e agora Elizabeth está com ela, não tem como rejeitar minha proposta agora.
Destino recostou-se na poltrona onde estava dando um longo suspiro em busca de uma resposta para a infame proposta que sua irmã estava fazendo. Ajudar a desaparecer com a Vida, mesmo que por um ou dois dias era uma loucura sem qualquer limite.
– Você compreende as consequências que essa brincadeira pode trazer para o mundo? Consegue pensar em todas as crianças que nunca vão nascer porque a Vida não vai estar presente?
– Sim – respondeu com sinceridade – E não vejo mal algum nisso, existem humanos demais no mundo.
– Maluca – foi a vez de Destino revirar os olhos – Não pretendo te responder isso agora, quero saber se a garota Knight será útil para o que estou preparando para ela no futuro.
– Oh, isso me parece interessante – a pequena figura feminina espreguiçou-se voltando para a posição anterior – Conte-me mais sobre o que o grande Destino está preparando para a garotinha dos cabelos de fogo.
– Isso querida irmã é um segredo só meu – ele deu uma piscadela antes de se servir de um delicioso pedaço de bolo.
Qual graça a vida teria se o Destino não reservasse algumas surpresas?
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(Alice)
Coloquei minhas duas mãos sobre os olhos do meu metamorfo favorito numa tentativa de amenizar seu humor que não estava dos melhores. Ser derrotado faz muito mal para o ego de um metamorfo.
– Adivinha quem é – engrossei a minha voz da melhor forma que consegui.
– Se não for a namorada mais linda do mundo, é a irmã assassina dela – não precisei olhar para saber que ele estava sorrindo. Thomas sempre sorri.
Abaixei minhas mãos e o abracei por trás.
– Você é tão sem graça, Thomas.
– Culpe meu super olfato, querida – ele se virou e deu um rápido beijo no meu rosto .
De todas as histórias que eu teria que contar, explicar para Thomas como é a minha relação com Alex é a pior de todas. Sorri da forma mais doce possível me preparando para o discurso já ensaiado.
– Eu odeio estragar o momento, mas acho que você merece algumas explicações sobre o Alexander.
– Eu não queria pensar naquele babaca tão cedo, mas estou muito curioso.
Sorri sem graça enquanto caminhava com ele ao meu lado para o lugar mais distante que encontramos. Narrei toda a história da minha vida pela segunda vez no mesmo dia, enquanto Thomas ouvia a tudo atentamente sem interromper uma única vez.
– Nossa – ele disse quando terminei o relato – Sua vida é trágica.
– Obrigada pelo comentário animador – respondi com a garganta seca. Estava ficando cada vez mais desconfortável falar algo.
– Eu sinto muito, não sei bem o que dizer em uma situação como essa – ele me abraçou e beijou o topo da minha cabeça de forma carinhosa.
– Acho que ninguém sabe – suspirei.
– Só tem uma coisa que me intriga nessa história toda – ele se afastou e olhou diretamente em meus olhos – Se você tem um contrato com aquele cara e ele já cumpriu a parte dele, qual a sua parte a cumprir?
No início, a pergunta me deixou confusa. O que eu deveria fazer? Mas logo compreendi o que ele queria saber e com um assombro percebi que eu não tinha a resposta para essa pergunta. Em todas as conversas com Alex, todas as histórias compartilhadas essa parte sempre esteve omitida. O que ele pode querer de uma criatura como eu? Talvez tenha trocado a minha alma, meu pâncreas ou qualquer outra coisa.
– Eu não sei – respondi – Alex nunca me disse.
– Você tem que falar sobre isso com ele.
– Eu sei.
Pela primeira vez, espero encontrar Alex em meu quarto ao anoitecer.
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