The Forest City
63 Capítulo 63 - Confortada
Tentei me lembrar das instruções vagas de Pedrita. Qualquer coisa, qualquer mesmo me ajudaria naquele momento.
“Quando estiver perto o suficiente dele, estenda em sua direção e pronuncie as palavras que surgirem em sua mente”, lembrei.
Gritei de frustação e raiva.
– Mais vago que isso não dá! — exclamei e parei atrás de uma árvore, respirando com dificuldade.
Senti que ele estava perto. E eu precisava que ele estivesse para tentar pronunciar qualquer baboseira que surgisse em minha mente, então respirei fundo e saí do meu esconderijo não tão efetivo assim.
Fiquei cara-a-cara com o dragão dourado que me encarava, surpreso com a coragem surgida num momento tão idiota.
Fechei os olhos com força, pronta para morrer. Não tinha nada na minha mente.
Já podia sentir o calor do fogo no meu rosto e meus cabelos cheirarem mal quando uma frase completamente estranha me veio à mente.
E eu não pensei duas vezes para pronunciá-la:
– Edepol qui cum dracone, et facta hominum,
Segurei o ar que deveria ter expirado e abri um olho para ver se algo acontecia.
Nada.
Daniel simplesmente fechara a boca e me encarava com uma interrogação no olhar. Quase como se estivesse zombando.
– Não me culpe por tentar — resmunguei e dei de ombros.
Quando pensei em correr novamente, um som doloroso de se ouvir veio do dragão.
Como quando Daniel se transformara, ossos, pele, músculos e tendões se rasgavam, quebravam e mudavam de lugar. Era uma agonia de se ouvir e parecia não ter fim.
Me afastei e cobri os ouvidos com as mãos, enquanto esperava a tortura acabar. Me convenci de que aquilo o traria de volta a si, e que era para o bem de todos.
O silêncio que surgiu depois foi surpreendedor. Como se alguém tivesse apertado o botão de mudo da TV e ninguém ousasse desfazê-lo.
Me aproximei da forma humana de Daniel e senti meu coração apertar. Nunca esteve tão bonito… Mesmo coberto de sangue, pele rasgada e cabelos anormalmente compridos.
Seus olhos se abriram abruptamente, e estavam dourados.
Quando me encontrou, a repulsa tomou conta de seu olhar e se levantou dolorosamente, mas o mais rápido que podia.
– Daniel… — chamei, mas fui interrompida quando ele agarrou meu braço com força e o torceu.
– Você — ele sibilou com ódio num sotaque estranho — o que fez comigo e quem é você?
Mordi o lábio inferior, na esperança de que aquilo cobriria a dor do meu braço quase sendo arrancado e impediria as lágrimas patéticas que ameaçavam cair.
Daniel torceu meu braço com mais força ainda e deixei um gemido escapar, o que fez ele sorrir.
– Selene — respondi — sou Selene.
– O que uma elfa de merda como você fez comigo? — ele sibilou impaciente.
– Eu… — engoli em seco — precisava que você voltasse à forma humana.
– Para quê? — ele me puxou para encarar meus olhos ameaçadoramente.
Pensei no que diria.
“Ah, porque você é meu namorado e eu prefiro você assim”.
Quase bufei diante da minha babaquisse.
– Bem… — mordi o lábio inferior — eu fui culpada pelo seu sumiço, então me senti no dever de te trazer de volta…
– Culpada? — ele franziu o cenho — nós nos conhecemos?
Abaixei a cabeça e ignorei a franja recém cortada que pinicava meus olhos, aumentando minha vontade de chorar.
– O seu eu humano me conhece — respondi somente.
– Bem, elfa Selene — ele começou — vamos esclarecer uma coisa aqui: eu não sou humano, e seja lá o que meu outro ego patético significava para você, é melhor esquecê-lo para sempre, porque ele se foi.
Ergui a cabeça e sustentei seu olhar, confusa.
– Eu deveria te matar — ele rangiu os dentes — me confinou nessa forma patética e ainda é uma elfa.
Me encolhi. Sabia que ele era capaz daquilo perfeitamente, e não me importava em morrer. Mas queria AQUELE Daniel de volta antes.
Daniel me jogou no chão e caí desajeitada, ralando o joelho e as mãos.
– Não sei o que aquele cara via em você — ouvi ele murmurar enquanto ia embora.
E aquilo foi o fim do muro que criei pras minhas lágrimas.
Como conquistar o coração de alguém que nem tem um?
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Talvez eu tenha ficado cerca de duas horas no mesmo lugar, tentando não pensar em nada e parar de chorar.
– Chega de manha — uma voz familiar soou atrás de mim.
Me virei sobressaltada e encontrei Seth com um olhar triste.
– Por que eu sempre estrago tudo? — perguntei, sentindo-me mais idiota ainda.
– Você não estragou nada, Selene — ele revirou os olhos e se sentou do meu lado, me abraçando — o que você acabou de ver é a verdadeira natureza de um dragão.
Balancei a cabeça negativamente.
– Daniel é assim, eu sou assim — ele insistiu — não espere me ver como seu amigo para sempre, eu também tenho os meus altos e baixos.
Apoiei minha cabeça sobre o ombro de Seth e parei de chorar.
– Ele se lembra de você — Seth quebrou o silêncio depois de alguns minutos — mas é como se fossem memórias de outra pessoa, e Daniel sabe que era ele mesmo, o que o deixa confuso.
– Então por que ele é tão… Insensível? — perguntei puxando os cabelos da minha nuca.
– Ouça, Selene — Seth puxou meu rosto para encará-lo — é muito difícil para mim estar perto de você, controlar meus instintos. E eu só tenho uma consciência. Eu sou apenas dragão. Tecnicamente somos inimigos naturais.
Assenti para que ele continuasse.
– Tente imaginar como é confuso para ele. Ter duas consciências brigando dentro da mente e se controlar para poder estar com você. Ele é humano, Selene, mas é dragão também. Não espere apenas sentimentalismo vindo dele.
Fiquei em silêncio por algum tempo. Pensava no que Seth havia me dito.
– Desculpe — pedi enquanto ele me levava pra casa — eu não fazia ideia de como são as coisas pra vocês.
Seth deu de ombros e sorriu. Ignorei o fato de ele ter pegado na minha mão e aquilo ser intimidade demais até mesmo para o meu suposto cunhado.
– Está tudo bem, Selene — ele disse e parou quando chegamos em casa — as coisas vão se resolver.
Assenti e entrei na casa, fechando a porta com cuidado.
Fiquei observando a silhueta de Seth ir embora pelo olho mágico e me encostei na porta quando ele se foi.
As coisas estavam se tornando cada vez mais confusas e caóticas.
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