The Forest City
53 Capítulo 53 - Gargalhada
Notas iniciais
– Mais para cima — a voz de Solara tilintou em meus ouvidos, me corrigindo pela milésima vez — se você mirar reto, vai acabar acertando mais abaixo do que pretendia.
Me segurei para não revirar os olhos. Aquilo era meio óbvio e eu realmente teria melhores resultados se ela saísse de cima de mim.
Irritada, atirei de qualquer jeito e acabei acertando mais perto do centro do alvo do que em qualquer tentativa séria anterior.
– Muito bem — ela saltitou feliz com o avanço e se dirigiu para dentro da casa — continue assim!
Depois do ocorrido na Floresta Negra, Daniel propôs a ideia fantástica — não tão fantástica assim — de eu investir no treino de arco e flecha. Claro que quando isso chegou aos ouvidos dos outros, acabei sendo gentilmente obrigada a fazê-lo todos os dias depois de correr. Mas com um arco “de verdade”, e não de sombras.
Frustrante. Eu tinha começado a gostar de controlá-las.
Bufei e mirei novamente, dessa vez com a flecha alguns centímetros acima do meu alvo verdadeiro. Soltei a fina corda improvisada (cuja procedência eu não gostaria de saber) e me transformei de forma que apenas os meus olhos mudassem. Eu estava ficando boa no controle das minhas transformações e pretendia tirar o máximo proveito daquilo.
Observei o trajeto da flecha pelo ar. Quase como em câmera lenta e com a visão aguçada, notei como a fina haste era um pouco torta, fazendo com que a flecha acertasse mais para a esquerda do que deveria.
Senti o vento fraco em meus cabelos. Fraco, mas o suficiente para fazer com que a flecha fosse direcionada mais abaixo do centro.
Respirei fundo, coloquei os cabelos atrás da orelha e posicionei mais uma flecha no arco. Flexionei a corda para sentí-la e puxei a madeira do arco até seu limite. Quando me senti pronta, atirei.
Acompanhei o trajeto da flecha para ver onde errei caso não acertasse o alvo principal. Mas eu acertei em cheio.
Um gritinho muito maricas de animação saiu dos meus lábios, que logo se abriram num sorriso satisfeito.
– De novo — eu disse sozinha.
Dessa vez me permiti fazer ao modo automático. Sem olhos aguçados. Queria que se tornasse algo natural.
Minha mão já doía e tinha farpas devido ao atrito com a madeira e os músculos dos meus braços já protestavam por ter que flexionar o arco e a corda.
Sem pensar nessas coisas, puxei a corda e a soltei de repente, mas de forma suave.
Logo, a flecha estava fincada no alvo central e a felicidade me inundou novamente.
– Você aprendeu mais rápido do que todos nós juntos — a voz de Seth soou atrás de mim.
Me vire e franzi o cenho. Então porque Solara ficava tão irritada quando eu errava o tempo todo?
– Ela tem o jeito dela de fazer as coisas por você — Seth respondeu, notando minha dúvida silenciosa — sua irmã se importa demais, mas não pode agir diretamente na sua vida por regras idiotas que sua mãe e seu pai impuseram…
– Ah. — respondi somente e encarei o céu azul repleto de nuvens brancas.
– Agora precisa se desenferrujar com a foice — ele bateu as mãos nas calças jeans, como se as limpasse — você fica mais sexy com ela.
Abafei o riso e forjei minha foice de sombras. Notei um pouco de dificuldade da minha parte, pois estava de dia e apesar de a abundância de nuvens ajudarem, me dei conta do quão mais habilidosa eu era a noite.
Ao contrário de Solara, que atingia seu máximo ao meio dia.
É irônico, pois somos gêmeas e contraditórias. Deixei escapar um sorriso com esse pensamento.
– É bom te ver animada assim — Seth sorriu e avançou com as garras à mostra — coloque animação na luta, assim eu posso me divertir também.
– Manda ver — incentivei e soltei uma risada sonora.
Pensei que Seth fosse me atacar de mãos limpas. Antes, a coceira e irritação na pele que nosso contato físico causava gerava feridas, mas com o tempo me habituei. Yukina tinha dito certa vez que meu corpo tinha criado resistência e tenacidade aos venenos mais fracos de Seth, mas que ainda devia ter muito cuidado.
Me surpreendendo, ele atirou bolas de fogo lilases, quase acertando meu rosto.
Girei a foice a tempo de barrar o caminho e apagar as chamas antes de me atingirem.
– Você é louco? — me assustei.
– Eu disse pra usar sua empolgação na luta — ele deu de ombros — estou colocando a minha.
Trinquei o maxilar e finquei a foice no chão.
Fechei os olhos e senti o ar se movimentar com o aproximamento de Seth.
Me transformei e mais rápido do que imaginei que poderia ser, desviei e evitei o que provavelmente seria uma Selene estrangulada: Seth queria me pegar pelo pescoço. Aquilo me deixaria com marcas de veneno e queimaduras que deixariam Daniel irado.
– Eu odeio lutar de dia — resmunguei e Seth riu.
– Claro que odeia, você é uma garotinha obscura — ele ironizou.
– Cala a boca — murmurei e joguei sombras pontiagudas em sua direção.
Dei uma rápida olhada no céu e quando uma nuvem estava prestes a esconder o sol, aproveitei minha deixa para juntar mais sombras. Quando nublou, isolei Seth entre três paredes negras e direcionei uma estaca em seu estômago.
Como previsto, ele desviou para se esgueirando para baixo e saindo das três paredes. Sorri de lado e avancei sobre ele, dessa vez com duas lâminas na foice.
Xeque mate — eu disse empolgada, vendo um filete de sangue quase negro escorrer do pescoço de Seth.
– Ainda tem muito o que melhorar — ele sorriu de lado ignorando o pescoço ferido e suas asas roxas se abriram, me envolvendo por inteira.
As pontas impossivelmente afiadas nas extremidades me colocaram em uma posição perigosa. Se eu me mexesse, seria perfurada. Pensei ter visto algo escorrer da ponta da asa direita e cair no chão com um chiado.
– Mas você se saiu bem — ele concluiu, recolhendo as asas — melhor do que eu esperava.
Pisquei confusa e atordoada. E se aquilo escorresse em mim? E se eu fosse perfurada?
– Daniel me mataria se minhas asas sequer tocassem em você — ele resmungou mais para si mesmo do que para mim.
Soltei uma risada nervosa e o acompanhei para dentro da casa.
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Eu balançava os pés, sentada no iate enquanto esperava Yukina sair da cabine.
Estávamos finalmente voltando para casa e aquilo me causava um certo aperto no coração e embrulho no estômago.
Os momentos que eu tive com Daniel na ilha talvez não fossem se repetir mais. Aquele era o motivo do aperto maricas no coração.
E a saudade de casa (do meu pai, até da floresta e das pessoas petulantes daquela cidadezinha miserável) me causava embrulhos no estômago.
– Ansiosa? — Iria apareceu de repente, me fazendo pular.
Me virei para vê-la e uma pontada de culpa me atingiu. Ela usava tapa-olho.
– Não se preocupe com isso — ela apontou para o olho esquerdo e sorriu, jogando os cabelos para trás — eu fico muito sexy assim.
Revirei os olhos e não consegui segurar o sorriso.
– Você realmente me salvou lá — ela continuou, agora séria — não quero que sinta culpa por isso.Te devo muito, mas vou te dizer uma coisa: isso não muda o fato de sermos rivais no amor — ela deu uma piscadela do tipo vadia e se sentou ao meu lado.
Mexi na barra da canga, sem jeito.
Era constrangedor estar ao lado de alguém que deveria me olhar com raiva. Meio que aumentava a minha culpa, a multiplicando em mil.
Dei de ombros como quem não me importava e logo ela saiu dali.
– E aí nova arqueira da Cidade Floresta! — Yukina cumprimentou num tom de voz alto, como se estivéssemos longe.
Ela se jogou no chão branco-impecável do iate e colocou os pés para fora como eu, sentindo respingos de água salgada na pele.
– Eu ainda prefiro a foice — resmunguei e sorri.
Eu andava sorrindo bastante naqueles tempos. O pensamento passou pela minha cabeça e torci o nariz numa careta de protesto. Se a antiga Selene visse a si mesma naquele estado, faria piadas piegas de como ela se parecia Elena de The Vampire Diaries. Ou com Mary, de Reign. Ou qualquer outra garota de seriados que de início é alguém interessante mas se torna completamente previsível e patética ao se apaixonar.
A diferença era que eu não estava apaixonada pelo irmão do meu namorado.
– Claro, claro — ela revira os olhos — uma vez Selene, sempre Selene.
– O que quer dizer com isso? — franzi o cenho confusa.
– Você evoluiu tanto — ela sorriu de um jeito maternal e colocou minha franja atrás da orelha — cresceu, ficou forte, se apaixonou… Mas uma grande parte da antiga Selene ainda está aí.
Trinquei o maxilar. Eu estava sendo tão… Boba? Adolescente? Estava tão na cara assim?
– Não se preocupe com isso — ela riu, adivinhando meus pensamentos — sei disso porque somos melhores amigas, não porque está na cara ou porque estou lendo sua aura, na verdade eu quase nunca a leio. Também sei que você odeia quando seu coração pula apaixonado por Daniel e como acha desagradável o fato de estar sorrindo mais fácil. Mas você ainda é você, Sel. Ainda gosta de animes, video-games e Ben 10, ainda odeia garotas de triângulos amorosos na TV e detesta sua mãe, ama lasanha, não vê graça nos seus olhos, anda desarrumada. Certas coisas na vida nunca mudam e isso é o que nós, imortais, temos em comum com humanos. Os mortais tem a dádiva de terem sentimentos sem optar por desligá-los, ao passo que nós, quando atingimos uma certa idade já não os temos mais. Você é do tipo que traz sentimentos à todos à sua volta, Sel. Eu estava frígida, Daniel estava frígido. E você nos fez sentir e trouxe à tona os resquícios de humanidade que se esvaíam de nós. Não se julgue como patética por conseguir sorrir, se apaixonar ou sentir medo. Seja a elfa com coração humano que você sempre foi, sem se preocupar com quem você era. Você ainda é, sua personalidade não mudou, só se adaptou às mudanças que têm acontecido ao seu redor, e muito bem na minha opinião.
Encarei as ondas do mar à nossa frente sem saber o que dizer depois do discurso de amizade comovente de Yukina.
– Ah. — foi só o que eu consegui dizer.
Olhamos uma para a cara da outra, constrangidas. E de repente, estávamos gargalhando. Rolando no piso lustroso, segurando a barriga e com lágrimas divertidas escorrendo dos olhos.
E qual era a graça?
Nada em especial.
A graça éramos nós.
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