The Forest City
13 Capítulo 13 - Preferida
Notas iniciais
Depois de uma semana morando na casa de Daniel e de acordo com Seth, "deixando as coisas mais interessantes" por lá, resolvi ir pra casa.
Estava com saudades do meu pai (não havíamos nos falado nesse período), com saudades do meu quarto e de tomar o caminho de sempre para a escola. Notei que nunca sentira saudades de nada antes, em toda a minha vida.
Era verdade também que eu gostaria de especular algumas coisas discretamente. Como por exemplo o que exatamente meu pai era. O especialista no assunto de raças era Seth, e ele sempre avisava que a informação teria um preço. Da qual eu sequer procurei saber qual era.
– Bem vinda de volta — disse meu pai com um sorriso amarelo no rosto.
Sorri de volta e lhe dei um abraço apertado.
Daniel surgiu atras de mim e pude ver o desconforto entre os dois. Ele entregou minha mala ao meu pai sem qualquer contato físico e eu franzi o cenho, dando de ombros logo depois.
– Ela se comportou muito bem, senhor Red! — gritou Yukina de dentro da caminhonete de Daniel e buzinando.
Ele riu para ela e bagunçou meu cabelo.
– Nos vemos amanhã na aula — eu me despedi de Daniel e Yukina e eles assentiram acenando.
– Pode picar as cebolas? — pediu meu pai.
Assenti erguendo as mangas do meu suéter velho e desfiado. Teríamos torta mista (receita original de família) para o jantar e meu estômago roncava ansioso. Aviso: conviver com dragões e feiticeiras não fazem bem para a dieta de ninguém.
Enquanto eu picava as cebolas, podia sentir meu pai me observando pelo canto do olho. Me preparei para o assunto aleatório que ele puxaria a qualquer momento, para finalmente ele perguntar o que tanto lhe incomodava. Tentei manter a calma.
– Você parece... feliz — ele comentou num muxoxo.
– Sempre fui feliz, pai — suspirei pacientemente e enxuguei as mãos num guardanapo de florzinhas.
– Mas seus amigos parecem completar você — ele cutucou o tomate com a ponta afiada da faca e um liquido escorreu.
– De certo modo — respondi dando de ombros e tomando o tomate e a faca de sua mão — deixa que eu cuido disso.
Ele não protestou, mas não saiu do lugar. Parecia deslocado.
– O que minha mãe queria aqui? — perguntei para quebrar o gelo.
Hahah. Eu estava falando da minha mãe para quebrar o gelo!
– O mesmo de sempre — ele resmungou mau humorado e mexeu a carne com molho no fogão — você falou com sua irmã?
– Solara? Um pouco... — respondi — nos demos bem.
Uma tonelada de preocupações parecia ter saído de seus ombros e ele abriu um sorriso contente.
– Gostaria de vê-la mais vezes — comentei para continuar no clima.
Não que não fosse verdade. Solara fora agradável e era uma cópia perfeita de mim exceto pela pele bronzeada e seus cabelos negros. Mas de mudanças em minha vida eu já estava farta. Adicionar um membro na família então? Pensaria duas vezes ou mais nisso.
Continuei picando os tomates em pequenos cubos perfeitos e logo passei para o dramático processo de terminar as cebolas. Elas sempre ficam mais lacrimejáveis quando chegam na metade. Fiz uma careta de irritação.
– Aquele Daniel... — meu pai começou, inseguro.
– Sim? — perguntei fungando e com os olhos úmidos.
– Sua mãe disse que vocês pareciam bem íntimos quando viu vocês juntos — ele terminou batucando a beira da panela com a colher de pau.
Suspirei. Era só aquilo?
– Você queria que eu tivesse amigos — disse eu me virando para ele — agora eu tenho e você os questiona.
Ele se encolheu culpado e desligou o fogo azul do fogão, experimentando o molho. Parecia tão frágil, tão... humano.
– Tem razão — ele disse — estou sendo ciumento.
Ele deu um sorriso deslumbrante de desculpas e eu revirei os olhos.
Sem toda a conversa enrolada, não demorou muito para a torta ficar pronta e nos empanturrarmos. Logo fiquei sonolenta (eu não andava sonolenta demais?), me despedi num muxoxo e fui dormir.
– Seleneeee! — gritou uma voz chorosa no final do corredor.
Tendo a reconhecido mesmo sem olhar para tras, ignorei. As pessoas olhavam para mim.
– Selene! Senti saudades — uma Yukina manhosa me abraçou enquanto eu tentava manter minha expressão nula.
– Yukina, eu te vi ontem — eu disse pausadamente.
Ela piscou seus olhos puxados e depois pareceu se lembrar, me soltando.
– Não a infernize tão cedo — resmungou Daniel me ajudando a fexar a porta do armário rebelde e me cumprimentando com um aceno firme.
Essa era a minha rotina. E eu jamais confessaria que não queria que mudasse tão cedo.
Sorri para Yukina que fazia caras e bocas enquanto passava batom durante a entrada da professora rechonchuda de Filosofia. Não que ela tenha tomado alguma providência em relação a isso.
– Você viu o aluno novo? — ouvi Michele sussurrar com veneno — totalmente pegável!
Não precisei olhar para imaginá-la se abanando. Franzi o nariz enojada.
– Temos um aluno novo, classe — anunciou a rechonchuda Hilson após um pigarreio — pode entrar, Seth.
Eu só torcia inconscientemente que esse tal aluno novo não fosse quem eu estava pensando que fosse. "Impossível, certo?", pensei relaxando.
E com um sorriso torto e olhos quentes, o tal Seth entrou na sala.
– Conto com vocês — ele disse e deu uma piscadela para a classe.
E claro que cada garota da sala suspirou. "Ele piscou pra mim!", elas deliravam e olhavam com cara feia e ultrajada quando alguém deixava escapar o mesmo. Não é necessário dizer que nosso novo aluno amou cada fragmento disso.
Mas não mais do que quando a passos lentos, ele se dirigia para o fundo da classe a fim de escolher uma carteira, ele parou na vaga atras de mim. Mesmo assim, permaneci imóvel e com expressão neutra. Talvez ele não me reconhecesse. A esperança é a ultima que morre!
– Olá, Selene — ele sussurrou no meu ouvido e eu podia sentir o sorriso na voz dele.
Daniel ficou tenso na minha frente e agarrou as beiradas da cadeira.
Bati a mão no ar onde senti o hálito de Seth e quase dei um tapa nele.
– Essa mosca é realmente irritante — comentei com Yukina, que concordou caindo na gargalhada sem se segurar.
Todos na sala estavam com expressões confusas quando se viraram para ver do que a japonesa baixinha tanto ria. A professora rechonchuda franziu o cenho e procurava desesperadamente saber se era ela o motivo da piada. A única que vira e ouvira tudo ali foi Michele.
E me olhava com um ódio mortal.
– Vamos ver quem o ganha, piranha — pude ler o que aqueles lábios escorrendo gloss disseram sem deixar escapar som algum.
Encarei o teto manchado pela umidade e suspirei. Senti que Michele ainda olhava para tras, mas não era para mim. Ela estava tentando chamar a atenção de Seth, que mexia nas pontas num loiro quase prateado (natural) do meu cabelo que estavam em sua mesa.
Seth a estava ignorando claramente e parecia ter mais interesse nas minhas pontas duplas do que na carranca oxigenada dela. Podia ser as pontas duplas de qualquer uma, menos a minha. Aquilo a deixou cega de fúria e eu tive certeza (de alguma forma) de que no próximo dia eu estaria na diretoria novamente. Suspirei e puxei meu cabelo para frente.
Mas não tinha importância. De qualquer forma, eu já estava com saudades de Coraline mesmo. Dessa vez, tinha grandes assuntos a tratar com uma tia nada responsável.
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