The Flamboyant
1 Something New
Notas iniciais
– Amy, escute a mamãe. — Molly se inclinou sobre a mesa de desenhos da filha. — Você precisa se livrar deles. De novo.
– Mas mamãe… — Manifestou-se de imediato. Não queria mais que sua mãe jogasse todos os seus desenhos fora. — Eu não entendo. O que há de errado com eles? Por que o papai não gosta dos meus desenhos? Por que você continua jogando-os fora antes que ele veja? É isso, não é? Você esconde meus desenhos todos os dias antes que o papai chegue... Achou que eu não fosse perceber isso?
– Não há nada de errado com seus desenhos, Amelia. – Molly acariciou os cabelos castanhos da filha. – O problema é a cabine azul. Seu pai... Nós temos alguns antigos problemas com a imagem da cabine azul... Acho que já é hora de te contar. Não poderia guardar isso comigo para sempre, poderia?
Como esperado, ela não disse mais nada. Era uma Holmes, afinal. Sabia que ganharia mais ficando em silêncio e escutando sua mãe. Balançou a cabeça, amassou seu último desenho da grande cabine de polícia azul e sentou-se em sua cama. Molly sentou-se ao seu lado, segurou suas mãos e olhou em seus olhos azuis. A mesma velha expressão de dor que via nos olhos de seu marido. Desde a infância, até hoje... O mesmo brilho triste. O brilho de quem havia visto a caixa. Visto a caixa azul e o homem louco. “Aqui vamos nós, Molly.” Ela pensou. Era hora de contar a longa – muito, muito longa – história que temia por anos que um dia tivesse que contar para alguém. “E é tudo culpa dele, do Doutor.”
*
Nós mal nos falávamos naquela época, Sherlock e eu. Mas depois daquele dia não nos separamos mais. Não que ele tivesse feito amizade comigo, ele não era esse tipo de criança. Eu tinha apenas dez anos e também não sabia fazer amigos – e era tímida demais para falar com um garoto mais velho e tão bonito quanto ele. Mas, quem se aproximou de mim foi ele.
Tentava chamar a atenção dele o tempo todo. Não estudávamos na mesma escola – apesar de morar praticamente no mesmo local – então tudo o que eu tinha eram as janelas dos nossos quartos, que eram de frente uma pra outra. Havia uma Flamboyant enorme que ligava nossas janelas e isso só me deixava ainda mais tentada à falar com ele... Mas poucas vezes o vi na janela. Sempre as luzes apagadas. Sempre vazio. William nunca estava em seu quarto. Para um garoto de doze anos, aquilo não podia ser algo normal.
E então naquele dia em especial, vi uma luz intensa vindo de lá. E eu me atrevi... Sim, subi na árvore com toda a coragem que tinha e fui aos poucos me aproximando. A luz piscava de maneira intensa e fazia um barulho escandaloso. O cachorro de pêlos brilhantes latia loucamente e eu podia ver a sombra do garoto tentando acalmá-lo. Tentei me aproximar mais da janela, quando me desequilibrei e quase caí – ou melhor, fiquei pendurada.
Ainda via claramente o que acontecia dentro do quarto. A luz não piscava mais, não havia barulho, o cachorro não latia mais. Havia uma cabine azul e um homem magro saiu de dentro dela. Ele era alto, muito branco e pálido... Tinha um cabelo engraçado e usava uma gravata borboleta. Olhou por um momento para William, para o cachorro e colocou as duas mãos na cabeça, como se estivesse tentando se lembrar de algo.
Então virou-se para mim. “Molly!” Ele gritou e correu até a janela do quarto, abrindo-a. Pude ver a expressão de horror no rosto do dono do quarto e não consegui deixar de me sentir envergonhada. Pendurada em um galho, quase caindo e sendo flagrada observando pela janela... Como aquele homem sabia que eu estaria ali?
– Você precisa subir ali e ajudá-la. – Ele conseguiu piorar minha situação de vergonha. Por que William teria que me ajudar e não ele? – Se eu subir na árvore, as chances de o galho ceder são muito maiores.
O garoto de cabelos cacheados olhou diretamente dentro dos meus olhos. Eu desviei o olhar e encarei o homem de gravata borboleta. Ele piscou para mim e sorriu. Por que ele faria isso? Ele achava que eu queria ser salva... Quem eu queria enganar? Eu queria ser salva pelo Holmes. Sorri de volta para o estranho antes do garoto dos meus sonhos ajeitar o cabelo e se esgueirar para perto de mim.
Moveu-se com bastante agilidade em cima da árvore, parecia conhecer cada canto e cada galho. Segurou minha mão e me puxou para cima, colocando-me de pé em cima do mesmo galho que ele. “Segure-se em mim.” Sussurrou e continuei imóvel.
– Já considerou que ela pode estar em choque? – Observou o homem da caixa azul.
Eu não sabia quem ele era. Não fazia ideia. Mas queria agradecê-lo. Eu nunca conseguiria me segurar... Nunca tinha tocado-o antes daquele dia. Era como se ele fosse tão distante, apesar de meu vizinho... E agora ele segurava minha mão e me mandava segurá-lo... Meu cérebro tinha se transformado em gelatina.
“Garotas...” Ele sussurrou baixinho e se virou para mim. “Por que subir na árvore, se não consegue descer?” Abri a boca algumas vezes, mas não saiu nenhum som. Ele riu. “Ela está em choque.” Segurou minha cintura com cuidado e trocou de lugar comigo, colocando-se atrás de mim. Aproximou-se do meu ouvido e sussurrou com calma: “Ande comigo, Molly.” Meu cérebro voltou a ficar alerta com sua voz tão perto do meu ouvido. “Ande junto comigo.”
Então ele deu um passo, empurrando minha perna junto com a dele. “Não olhe para baixo.” Sussurrou novamente e moveu a outra perna. E assim por diante. Demos alguns passos juntos e em alguns segundos estava dentro do quarto que eu sempre sonhei em conhecer. O garoto me sentou em sua cama e estalou os dedos.
– Ela está distante. – Ele riu. – Vou buscar água. Espere aqui, ouviu bem? Não se atreva a ir embora de novo...
O homem sem sobrancelhas balançou a cabeça e – espera aí, ele não tem sobrancelhas? Por que ele não tem sobrancelhas? Quando me dei conta, estava encarando-o com os olhos esbugalhados e ele sorria como se fosse natal. William tinha saído do quarto.
– Eu... – Gaguejei. – Eu... O que aconteceu com suas sobrancelhas?
– Você precisa aprender a fazer as perguntas certas. – Ele ergueu o que devia ser uma de suas sobrancelhas. – Amy não te descreve assim. Ela diz que você é a moça mais esperta do universo.
– Quem é Amy? – Ele conseguia me assustar ainda mais a cada momento. – Eu não conheço nenhuma Amy. Ou melhor, quem é você? Como você sabia que eu estaria na árvore? Como você sabia meu nome?
– Molly, Molly... São muitas perguntas que eu não posso responder agora. – Sorriu. – Só cuide do Holmes. Não deixe que nada o aconteça e esteja ao lado dele pelo resto das suas vidas. Promete?
– Eu... – Não tinha palavras. – Como posso prometer a alguém que nunca vi que estarei ao lado de um garoto que eu nem ao menos quero...
– Não minta para mim. – Ele me interrompeu e revirou os olhos. – Eu sei que você quer estar ao lado dele pelo resto de suas vidas. E o resto de suas vidas começa assim que ele voltar.
Ouvimos o barulho de um copo quebrando. Sherlock estava se atrapalhando lá embaixo.
– Parece que ele vai demorar mais alguns minutos. – Sorriu e ajeitou a gravata. – Você precisa me prometer que vai estar com ele. Vai garantir que tudo dê certo.
– O que tem que dar certo? – Eu não entendia uma palavra que saía da boca daquele homem.
Como poderia entender? Nada fazia sentido.
– Apenas seja você. Sherlock vai fazer a parte dele. – Se virou e abriu a porta de sua cabine azul.
Pude dar uma olhada no interior. Não era possível... Era enorme. E brilhante. E parecia uma caverna enorme e... Brilhante. Como ele conseguia fazer aquilo?
– Eu preciso ir agora. – Fez uma careta. Parecia triste. – Sherlock sabe o quanto gostaria de... Mas... Eu não posso explicar. Só diga-o que um dia ele vai entender, toda vez que perguntar por mim. Até um dia no seu futuro, Molly Hoper-Holmes!
– Espera! – Gritei, me levantando da cama e me sentindo tonta. – Quem é você?
– Ah! Eu sou o Doutor! – Foram suas últimas palavras antes de entrar na cabine azul.
Então William entrou pela porta correndo e juntos assistimos a cabine azul brilhar, fazer barulho e desaparecer gradativamente. Aquele dia permanece na minha memória como um sonho...
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