The First Survivor
1 Capítulo 1 - Uma nova esperança
Notas iniciais
A porta foi aberta com violência. Por ela surgiu a figura alta e encorpada do delegado, com o rosto tão pálido que parecia difícil reconhecê-lo. Suas vestes já pareciam folgadas graças ao seu corpo cansado e sua mente abalada, que lhe conferiam um ar pesado de desesperança e desolação. Em contraste com este seu espírito, seus olhos arregalados e atentos estavam como se enchergassem além da realidade:como se, mesmo que nada mais importasse, ainda havia algo que ele acreditava ser destinado a fazer.
– Jennifer!Adam!Cadê vocês?Corram pra cá,rápido!
–Estamos indo,espera, por favor! — respondeu a esposa, com voz trêmula e coração inconsolável.
Não demorou para mulher e filho descerem as tortuosas escadas que davam á sala de estar.O pai e marido os esperava, com os olhos lacrimejados e uma voz que lutava para sair.Nem os braços ensanguentados,ou as pernas desgastadas , nem mesmo o coração que lhe tirava o ar e lo fazia ofegante: nada disso importou quando ele abraçou sua família o mais forte que podia.Sabia que nunca mais os veria.Sabia que este adeus duraria para sempre.Sabia que seu futuro seria vaguear como aqueles errantes sem cérebro, e que aqueles dois pedaços de seu coração que tanto protegera agora só estariam seguros longe de seu alcance. Mas nada disso passou pela sua cabeça naquele abraço.Nada podia.
–Querido...esse sangue...
–Não importa, não importa!Vai ficar tudo bem,eu prometo!
Seus olhos agora voltavam-se para o filho.
– Adam,ei,Adam,olha pra mim!Lembra quando eu te ensinei a jogar beisebol,e você corria de um lado a outro do campo pra pegar a bola,heim?Quero que corra desse jeito se vir uma dessas coisas!.Finja que estou logo atrás de você,gritando seu nome,comemorando cada passo que você der!Sempre acreditei em você, e acredito mais do que nunca agora!Você vai sair dessa como o campeão que sempre foi!
A despedida da mulher não foi além de declarações apressadas de amor e um beijo ardente como nunca fora.Motivada pelas ordens ofegantes do marido,ela pegou o filho pelas mãos e entrou com ele no carro que a pertencia.O caos já havia tomado conta das ruas:nada mais era de ninguém.Ela acelerou enquanto olhava para trás e via o rosto desesperado do amante.Expressava-se como se tudo lhe havia sido tirado da noite pro dia;e, da forma como ocorreram os fatos, não se podia tirar outra constatação.
Riggs esperou até que o carro se perdesse de vista.Não poda perder um só segundo dos últimos instantes os quais sentiria-se perto daquelas pessoas que tanto amara.Tudo se passava pela sua cabeça:o primeiro encontro, o nascimento do filho,o último jantar.Ele ajoelhou-se e,por poucos minutos,desabou-se em uma tempestade de emoções.Mas acreditava que haveria muito tempo para resgatar as memórias quando sua alma já não mais estivesse aqui.E,enquanto o corpo lhe permitia,desejava terminar seus dias da melhor forma que podia.
O carro que era de seu irmão lhe serviu bem aos costumes.Enquanto acelerava,buscava não enchergar mais nada além do velho depósito de cargas na segunda avenida.Não queria olhar para os lados;não queria ver o que lhe era reservado após sua inevitável degradação.Mesmo com todo o caos,mesmo com todo o desespero,ele tinha um só objetivo.Era último.Era simples.Pelo menos isso,ele tinha que fazer certo.Ainda conseguiu tempo — e força — para tirar do bolso seu telefone e discar o número do único que podia lhe dar uma boa notícia naquele momento.
–Alô,Shane?Você viu ele?Como está?
–Ele...ele não conseguiu,Bryan.
–Não...droga...
–O exército invadiu o hospital... — disse o homem,com a voz baixa — antes de sair dalí,fui até o quarto dele...ele não respirava.Eu devia ter tentado,eu...não sei.
– Eu fui mordido,Shane.
O delegado já não mais segurava as lágrimas.
–Me desculpa — continuou.Foi uma honra trabalhar com você.
–Eu...sinto muito.Você é um dos melhores homens que conheci, delegado.Saiba disso.
Bryan agradeceu e,sem se despedir,desligou o telefone.Finalmente, havia chegado ao seu destino, e não havia tempo disponível para cobrí-lo com despedidas.Com passos largos e apressados,adentrou o depósito com a íris agitada,como se procurasse desesperadamente encontrar algo no local.E encontrou.
–William!William!Estou aqui,meu irmão!Eu disse que ia voltar,não disse?
Dirigia-se a um homem de baixa estatura,que jazia com o corpo confortavelmente debruçado sobre o chão frio em que se encontrava.Este deixou com que a mão direita,antes comprimindo com força parte de sua perna contra o cimento que compunha a estrutura do edifício, escorregasse devagar,deixando á mostra o ferimento.As mordidas em seu entorno doíam,não pelo incômodo físico,mas pelo destino o qual estas lhe fadavam.
–Filho da mãe,você voltou mesmo...
Levantava agora o rosto,comprimindo os olhos para certificar-se de que era a figura de seu irmão que jazia agachada, próximo de seu corpo.Sua face redonda não mais escondia os ossos sob sua pele;sua expressão não era de alguém que havia sido derrotado pelo fracasso,mas sim de um homem que estava prestes a dar a vida pela vitória.Irradiava esperança como que repentinamente iluminado por um último propósito,como se,pela última vez,deixar-se levar tornava-se egoísmo.
–Jennifer e Adam estão seguros;acho que essa era a minha missão,e agora estou em paz pra morrer com você,irmão...pelo menos meus últimos segundos serão de paz.
–Não,não,me escuta...isso não pode fazer nada com você,você tem algo especial cara...mas você não vai me ouvir, ninguém vai.E não tenho tempo pra tentar te convencer agora;eles já chegaram.
Como se arrancasse força do espírito,o antes debilitado rapaz segurou firme um pedaço de madeira esquecido no chão do depósito e o desferiu com força moderada na cabeça do irmão.Enquanto o via tombar sob seus pés,levantava-se com dificuldade,tentando jogar o peso que podia na perna menos machucada.Ainda consciente,Bryan conseguiu vê-lo cambalear até a porta, e recuperar o que podia de sua compostura perdida antes de abrí-la e deparar-se com a temida figura do coronel Mason,autoridade absoluta de seu departamento.
–Não há nada mais a ver aqui, senhor.Dei um tiro de misericórdia no último infectado que jazia de pé.
–Meus respeitos á sua atitude Riggs,mas sabe o que devo fazer agora.
Um tiro foi ouvido.Bryan já não mais conseguia distinguir o que era sonho do que era realidade,mas conseguiu ver um corpo desabar e os homens de farda se afastarem antes de ceder ao peso dos seus olhos.Nunca soube se sua vontade de correr aos braços de seu irmão foi vencida pela exaustão ou pela desesperança.Só se lembra de fechar os olhos e esperar pelos próximos ruídos.Mas nada se ouviu por um longo tempo.
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