The Final Solution

1 Capítulo único


"Truly rare is the one that chooses death while not running from the pain of life."

— Autor Desconhecido.

Melissa olhava para fora da janela do carro com uma expressão de desinteresse em seu rosto. Ocasionalmente um dos amigos comentava algo com ela, e a garota então se esforçava para sorrir de maneira um pouco forçada. Era claro que eles percebiam isso; a maioria deles a conhecia há mais de uma década. Eles estiveram ao seu lado em seus piores momentos, a conheciam por inteiro, do avesso.

A área em que o grupo dirigia era bastante deserta, com um ou outro carro passando ao seu lado ocasionalmente, mas sempre na direção contrária a que eles estavam indo. Melissa sentiu-se um pouco inquieta com isso, mas não expressou essa emoção. Apesar de tudo, ela sentia-se protegida na presença dos amigos. Enquanto ela estivesse ao lado deles, nada de ruim aconteceria.

Quem dirigia a van era Benji, namorado de sua amiga Luba. Melissa o conhecia há um bom tempo, desde que os dois começaram a namorar, mas ainda existia uma aura de desconforto entre eles. Luba era a mais fiel escudeira de Melissa, de modo que ela estivera ao seu lado em seus piores momentos. Fora a garota quem segurara seu corpo ensanguentado em uma das últimas vezes em que ela decidiu acabar com sua vida. Fora Benji quem dirigira as duas até o hospital mais próximo, mesmo que naquela ocasião ele não passasse de um desconhecido para a garota. Era difícil iniciar uma amizade com alguém cujo primeiro encontro aconteceu quando ele te salvou de uma tentativa de suicídio. Além disso, existia a sensação nunca falada em voz alta, de que era Melissa quem estava atrasando a vida de Luba. Era ela o motivo dos dois ainda não terem começado a morar juntos, já que a amiga precisava estar constantemente vigiando-a. Devia ser difícil para Benji, Melissa compreendia.

Melissa virou seu rosto para frente e seus olhos encontraram-se com os olhos puxados de Benji pelo espelho retrovisor. Ela percebeu que ele sorriu educadamente, mas não tinha forças para retribuir o gesto, de modo que desviou o olhar.

Os cabelos castanhos de Luba voavam através da janela entreaberta, no banco do passageiro. Fazia bastante calor naquele dia, o que os psiquiatras diziam ser bom para Melissa. A garota estava sentada com as mãos em cima das coxas, cobertas pelo pano florido de um vestido de tecido fino. Luba por sua vez, vestia-se com uma camisa de seda sem mangas e uma bermuda jeans de corte justo. Já Benji estava com uma camisa xadrez vermelha, uma bermuda cáqui e óculos escuros no topo da cabeça.

Ao lado de Melissa estava Jewel, sua outra melhor amiga. As duas e Luba se conheciam desde o início do ensino médio. Jewel costumara ser a queen bee do colégio, de modo que colocar as duas debaixo de suas asas significara um tormento a menos na vida de Melissa. Ela acreditava piamente que sem a proteção de Jewel naquela selva adolescente, as coisas teriam descarrilado muito antes, ainda em seus quatorze ou quinze anos.

Jewel era uma party girl nata por fora, mas uma romântica incorrigível por dentro, o que sempre surpreendia aqueles que não a conheciam bem. Esse era um lado que a loira escondia de quase todos, com exceção dos amigos mais próximos. Eram só eles que sabiam, também, que o último namoro de Jewel havia terminado de maneira traumatizante. Primeiro coisas pequenas, como ser proibida de sair com os amigos. Depois, a violência verbal, o que não demorou a evoluir para algo físico. Quando a garota sentiu que tivera o suficiente de tudo aquilo e decidiu terminar o namoro, o seu inferno apenas começou.

Seu ex-namorado a perseguia em todos os lugares para onde ela ia. Ligava tarde da madrugada, de números diferentes e desconhecidos. Deixava bilhetes na sororidade em que ela vivia, e notas ameaçadoras em seu armário no vestiário. Quando Jewel decidiu contar sobre tudo aquilo para os amigos, Melissa imediatamente recorreu ao pai, um policial da cidade, e elas conseguiram obter uma ordem de restrição contra o stalker. Ainda houve alguns pequenos transtornos depois disso, mas eventualmente as coisas se acalmaram. Melissa sabia o quanto Jewel era grata a ela.

No fundo do carro, nos últimos bancos, estavam Johnny e Topher. O amigo de Melissa, Jewel e Luba estava deitado com as pernas esticadas e a cabeça no colo do namorado. Topher por sua vez olhava para o lado de fora da janela, acariciando os cabelos escuros de Johnny. Melissa reconfortava-se ao olhar para os dois. Diferente de sua relação com Benji, Topher a conhecera quando ela já estava relativamente bem, já fora da reabilitação, onde ficara internada por meses. Os dois tinham várias coisas em comum e se deram bem logo de cara.

Johnny era bastante pequeno de estatura, aparentando ter bem menos que os seus vinte e um anos. Ele conhecia as três garotas também desde o ensino médio, e fora outro dos protegidos de Jewel. Melissa acreditava que ele era uma das pessoas mais carinhosas, engraçadas e sensíveis do mundo, de modo que a garota não se acanhava em pedir sua ajuda quando precisava.

Topher, ao contrário, parecia uma figura mais séria. Naquele momento ele vestia-se com uma camisa social branca com as mangas dobradas e um par de bermudas de linho escuras. Em seu pulso esquerdo havia um opulento relógio dourado, um dos inúmeros sinais de sua condição financeira. No começo, Melissa e as amigas desconfiaram que Johnny não gostasse realmente do novo namorado, mas do que ele o proporcionava. Com o tempo, porém, começaram a conhecê-lo melhor e viram que Topher era um verdadeiro príncipe. Pelo menos era o que aparentava.

Era quase fim de tarde e o sol estava se pondo ao longe. Melissa observou com atenção quando a van passou ao lado de um posto policial, onde uma viatura um pouco antiga (porém aparentemente funcional) estava estacionada. Ao lado dela, um homem fardado e de bigode parecia estar fumando. Melissa lembrou-se imediatamente de seu pai, mas tentou afastar aquele pensamento. Ela não se atreveria a voltar a machucá-lo. Sua mãe já fazia isso o suficiente pelas duas.

— Ainda falta muito? — Jewel perguntou, erguendo o rosto do celular em mãos.

— Uns dez minutos. — Benji respondeu, consultando o GPS.

Luba virou-se para trás e perguntou:

— Você ainda está com sinal, Jew? O meu celular morreu já faz algum tempo.

A loira checou o aparelho e percebeu que não havia nenhuma barra de sinal. Frustrada, respondeu:

— O meu também está morto.

Topher pareceu ter ouvido a conversa e ergueu o seu celular e o de Johnny, mostrando que ambos também não tinham sinal. O mesmo valia para o celular de Benji, colocado dentro do porta-luvas. Apenas Melissa não tinha um aparelho. Seu último celular havia sido destruído durante sua última tentativa de suicídio, e desde então ela não se preocupara em comprar outro. Luba estava sempre ao seu lado, de modo que se alguém quisesse entrar em contato com ela, era só ligar para a amiga.

— Eu avisei vocês. — Johnny disse, ainda deitado no colo do namorado. — Da última vez que eu e o meu irmão viemos até aqui, eu tive de ficar lendo uma enciclopédia durante todo o final de semana. Eu não sei como vocês podem gostar de fugir da civilização dessa forma.

Luba voltou a virar-se para trás, dizendo em seu tom de voz calmo:

— Dessa vez nós vamos ter o que fazer.

— Monopoly? — Jewel perguntou, animada.

— Strip poker! — Topher respondeu, obtendo um aceno entusiasmado de Luba.

Johnny arqueou as sobrancelhas e abriu um sorriso divertido. Jewel também caiu na gargalhada, preenchendo todo o ambiente do veículo com a sua animação. Benji, porém, apenas direcionou um olhar até o espelho retrovisor, os seus olhos novamente encontrando-se com os de Melissa. Dessa vez, porém, a garota não os desviou, olhando fixamente para ele até que o asiático se rendesse. Não demorou muito, e logo seus olhos estavam de volta na estrada.

Eles estavam viajando até a casa de férias da família de Johnny, a qual estava fechada havia alguns anos, desde que ele e o irmão quase incendiaram toda a propriedade durante uma festa. Os pais então apenas pagavam para um casal bastante simpático checar a propriedade uma vez por mês e garantir que tudo estava em ordem. Eles não eram responsáveis por limpá-la, porém, então o grupo estava resignado a encontrar uma casa bastante empoeirada.

Nenhum deles havia dito aquilo em voz alta, mas o motivo da viagem muito provavelmente era Melissa. Os remédios que o psiquiatra havia receitado para ela estavam funcionando, mas ele dissera que era essencial que a garota fizesse algo fora de casa. Uma viagem, mesmo que fosse para uma cidade vizinha. Alguns minutos no sol por dia podia fazer milagres, segundo ele. Luba não precisou ouvir aquela recomendação duas vezes, e logo ela e Johnny começaram a planejar aquela viagem. Melissa animara-se com a perspectiva de uma experiência nova. Ela acreditava que aquilo a faria bem. Talvez ela até conseguisse terminar os estudos no começo do ano letivo seguinte.

Melissa havia abandonado o college logo quando a sua crise de depressão se intensificou. Ela estava no último semestre de Literatura, perto o suficiente para sentir o gosto do diploma. Paralelamente, a garota escrevia de maneira constante, postando quase todo o seu material em um blog com um número relativamente grande de seguidores. Surpreendentemente, o conteúdo de seus escritos era o completo oposto de sua vida. Histórias de amor com finais felizes; aventuras épicas em terras distantes; fábulas coloridas de animais fantásticos. Para aqueles que a conheciam online, Melissa aparentava ser alguém bastante feliz.

Ao contrário dela, todos os amigos já haviam se formado. Luba era uma recém-diplomada professora de crianças com necessidades especiais, uma profissão que parecia amar mais do que tudo. Jewel havia se formado em Direito, mas não parecia ter vontade de exercer a profissão. Ao invés disso, ela ganhava a vida como maquiadora e fotógrafa de casamentos. Johnny era um desenhista e designer bastante proeminente, trabalhando majoritariamente para grandes blogs de entretenimento. Entre os seus amigos, era correto dizer que Melissa havia ficado para trás.

Benji também estava no caminho das ciências humanas, assim como os outros. Por ser um pouco mais velho do que a namorada, ele já exercia a profissão de historiador há algum tempo, chegando a dar aulas em uma universidade comunitária. E então havia Topher, que era dono de seu próprio negócio, um foodtruck que parecia estar indo de vento em popa. Johnny inclusive havia prometido que o namorado cozinharia para eles durante todo o final de semana.

Jewel virou-se para trás e começou a conversar com Johnny e Topher a respeito de alguma coisa sobre a qual Melissa não estava interessada, enquanto Luba checava sua aparência no espelho. Benji dirigia de maneira atenta, tendo abaixado os óculos por conta dos raios de sol refletidos no vidro. Melissa encostou a cabeça na janela e sentiu-se um pouco sonolenta. Deviam ser os remédios, ela imaginava. Sem importar-se muito com o restante do tempo que faltava para chegarem até a casa, a garota deixou-se levar pela sensação gostosa do sono chegando.

X-x-x-x-x

Luba carregou as malas para fora do carro em direção à casa de férias da família de Johnny. A propriedade era um sóbrio e aconchegante sobrado de madeira, no meio de uma enorme área florestal, sendo que apenas o verde conseguia ser visto por vários e vários metros. Do lado esquerdo havia o começo do que aparentava ser uma clareira, onde, mais adiante, havia um riacho. Johnny havia prometido que lhes mostraria o caminho no dia seguinte.

Naquele momento havia esfriado, e a garota começava a sentir um pouco de frio. Ela abraçou seus braços descobertos e caminhou até a porta. Jewel e Johnny já estavam lá dentro, enquanto Benji e Topher retiravam o restante da bagagem do veículo. Melissa ainda dormia tranquilamente, com a cabeça encostada no vidro.

— A gente acorda ela? — Benji perguntou, ao passar ao lado da namorada.

— Não, não. Deixa ela dormir. É só deixarmos os vidros abertos e fica tudo bem.

Benji sorriu em resposta e continuou seu caminho, colocando as malas no meio da sala. Topher veio atrás, acenando com a cabeça e depositando mais algumas coisas no chão, incluindo algumas caixas de jogos de tabuleiro. Luba passou por eles e notou que, enquanto Johnny inspecionava os cômodos pra ver se havia eletricidade e as coisas não estavam muito sujas, Jewel abria as janelas pra deixar o ar entrar no casarão.

— Wow, essa casa é linda. — Luba comentou, observando o cômodo onde estavam.

Johnny agradeceu a amiga, e ela continuou olhando para todos os lados. Tudo ali lembrava uma cabana aconchegante, com piso e paredes de madeira, sofás e cadeiras escuras e decorações de caça na parede, incluindo uma espingarda. Luba tinha pavor de armas, de modo que aquela visão deixou-a um pouco desconfortável.

— Ela não tem balas, não se preocupe. — Johnny comentou, notando a reação da amiga. — Elas ficam guardadas no cofre, dentro do guarda-roupa do quarto dos meus pais. Você sabe, só por precaução.

Luba meneou a cabeça positivamente, mas então questionou:

— Precaução contra o quê? Existem animais por aqui?

Johnny deu com os ombros.

— Não desde que eu comecei a vir até aqui. Mas o vovô me disse que costumávamos ter algumas visitas indesejadas vindas da floresta...

Ao ouvir a fala do amigo, a morena sentiu uma onda de eletricidade passar por todo o seu corpo. Luba não tendia a se assustar facilmente, especialmente porque estava acostumar a ser a responsável por acalmar e apaziguar seus alunos. Uma professora de necessidades especiais que se assustasse com facilidade não era uma boa professora. Mesmo assim, havia algo a respeito do mundo animal que a fazia sentir-se aterrorizada. Que pensamento bobo, Luba, a garota pensou consigo mesma. O pior que pode aparecer por aqui são alguns esquilos.

Benji e Topher já tinham terminado de deixar as bagagens na sala de estar e surpreendiam-se com a visão do cômodo. No carro, Melissa ainda dormia, uma leve brisa mexendo seus fios de cabelo. Luba sentiu-se compelida a ir até o veículo e colocar alguma coisa em cima do corpo da amiga, mas refreou esse sentimento. Ela precisa ser independente. Se você continuar tratando-a como uma boneca de porcelana, ela vai continuar achando que quebrará se ficar sem você. Luba suspirou.

— Bom, sobre os quartos. — Johnny declarou, olhando para todos como se fizesse um anúncio. — Eu e o Topher vamos ficar no quarto dos meus pais, porque eu sempre quis dormir naquela cama enorme e eles nunca me deixaram. — O rapaz comentou, rindo em sequência. Jewel revirou os olhos e abriu um sorriso. — Luba e Benji, vocês podem ficar no quarto de visitas, porque as duas camas de solteiro de lá podem facilmente ser juntadas pra se tornarem uma. — O casal concordou com um aceno de cabeça. — Jewel, minha flor. Você e a Melissa vão ficar no quarto que costumava ser meu e do meu irmão. Lá só tem um beliche, mas eu acho que serve né?

A loira concordou, fingindo estar chateada. Johnny falou:

— Desculpa abelha rainha, mas essa aqui é a minha colmeia.

— Ouch! — Luba comentou instantaneamente, caindo na gargalhada. Benji e Topher acompanharam o riso, enquanto Jewel fazia-se de ofendida.

X-x-x-x-x

Luba fechou a porta do quarto e caiu na cama, suspirando. Ela imaginara que os lençóis dali fossem estar empoeirados depois de tanto tempo, de modo que havia trazido alguns de casa e já havia os trocado. Benji colocava as roupas dentro da pequena cômoda de maneira metódica, dobrando-as num padrão bastante peculiar.

— O que é isso, meu amor? — A garota perguntou, abraçando-o por trás.

— Oh. — Ele exclamou, sorrindo. — É coisa de chinês. Minha avó me ensinou a dobrar as roupas assim e eu meio que me acostumei.

Luba concordou com um aceno de cabeça.

— Três anos e ainda existem algumas coisas que eu não sei sobre você. Fascinante.

Benji deu com os ombros, parecendo estar um pouco tímido. Ele sempre fora alguém de poucas palavras, o que Luba atribuía à sua cultura oriental e à maneira como fora criado, dentro de uma família chinesa bastante conservadora. Ela ainda lembrava-se da primeira vez que visitara a casa dos Huang, e de como os avós de Benji reagiram ao vê-la. Eles sabiam que ela não era chinesa, mas com certeza esperavam uma típica garota norte-americana, de cabelos loiros e olhos azuis. Eles esperavam alguém como Jewel, não uma garota mulata. Por mais que eles tivessem tentado esconder o seu racismo velado, Luba havia o percebido. Ela tentou ignorar aquilo, já que se tratava se um casal de mais de oitenta anos nascido na China. Ela poderia viver com aquele desconforto.

— Por falar em coisas que eu ainda não sei sobre você... — Benji começou, dando uma pausa em sua fala, talvez para ver se a namorada percebia ao quê ele se referia. Não funcionou. — Nós não precisamos fazer isso esse final de semana, meu amor. É sério. Eu sei que você disse que está pronta, mas nós não precisamos fazer isso.

Luba meneou a cabeça positivamente, sentindo-se grata pelo namorado que tinha. Aquele era um assunto que a deixava um pouco constrangida, e sobre o qual apenas Melissa, Jewel e Johnny sabiam. Luba era virgem. Não havia um motivo concreto para isso, como religião ou promessa. Apenas... Acontecera. Depois de um tempo de namoro, aquilo deixara de fazer diferença, e não era algo sobre o qual ela ou Benji falavam. Eles já haviam visto um ao outro nu, e costumavam dormir abraçados. Mas nunca haviam feito sexo.

No começo ela achara que aquilo seria algo desconfortável para o namorado, de modo que tentara fazer sexo com ele logo no primeiro mês de relacionamento. Mas então se sentiu desconfortável com a situação e acabou desistindo. Benji compreendeu. Por conta de sua criação e cultura, o sexo sempre fora um tabu na vida dele. Fazer sexo estava relacionado com a culpa e o pecado, de modo que o rapaz parecia reagir de maneira diferente à castidade dela. Qualquer outro homem na idade dele provavelmente já teria a pressionado. Mas não Benji. Ele era especial.

— Não, eu quero. — Luba disse de maneira decidida. — Eu te amo, Benjamin.

Benji abriu um sorriso e murmurou:

— Eu também te amo.

Os dois compartilharam um beijo delicado, e então ouviram batidas na porta.

— Pode entrar. — Benji falou.

Topher abriu a porta de maneira lenta, entrando de olhos fechados e com dois coquetéis em mãos, decorados com dois pequenos guarda-chuvas. No andar inferior, uma música animada já conseguida ser ouvida, bem como as vozes animadas de Jewel e Melissa. Luba não conseguiu evitar que um sorriso surgisse em seu rosto.

— Pode abrir os olhos, nós estamos vestidos. — Luba falou, brincando.

O outro rapaz sorriu e entregou as bebidas para o casal. Disse:

— Bom, antes de vocês provarem dos meus dotes culinários, eu decidi lhes apresentar o meu lado bartender. Essa bebida é uma criação original minha, então espero que gostem. O Johnny me avisou que você não é muito fã de álcool, Benji, então o seu drink está bem fraquinho. Tudo bem?

— Wow, e ainda é personalizado! Obrigado, cara. — Benji respondeu, dando dois tapinhas no ombro de Topher.

Luba agradeceu também, e então o rapaz saiu do quarto. No andar de baixo, ele viu que Jewel e Melissa já dançavam com dois drinks em mãos, enquanto Johnny cortava e montava alguns aperitivos em uma tábua de madeira. Topher seguiu até o quarto onde ambos ficariam e prostrou-se diante do espelho, desabotoando a camisa e jogando-a em cima da cama. Subitamente, o rapaz sentiu uma sensação estranha. Era como se houvesse alguma coisa muito perto dele, a qual ele não conseguia identificar.

Topher saiu porta a fora, ainda sem camisa, e olhou para todos os lados. Benji e Luba já desciam as escadas, cantarolando a música que tocava. Não havia mais ninguém naquele andar. Frustrado, o rapaz voltou a entrar no quarto e retirou as calças, jogando-as ao lado da camisa. Ele então abriu sua mala e retirou peças de roupas mais leves dali, adequadas para o clima ameno do casarão. O seu celular, colocado ao lado da bagagem não tinha sinal algum, embora ainda tivesse bateria. O relógio dourado em seu pulso indicava que eram 21:13.

Do lado de fora da janela, a lua brilhava, refletindo no vidro. Topher esticou os braços e tateou a cicatriz no pulso esquerdo, debaixo do relógio, tocando-a de maneira leve. Por alguns segundos, ele refletiu se Melissa tinha as mesmas cicatrizes. Provavelmente sim, já que ele conseguira notar, nos dois pulsos da garota, delicadas tatuagens. Ele optara por um caminho diferente, porém. Gostava de mantê-las ali. Elas eram as suas marcas de guerra. As marcas de uma batalha difícil, mas vencida.

X-x-x-x-x

Jewel dançava ao som da música proveniente do iPhone de Topher, conectado à um alto-falante que ficava em cima da bancada da cozinha. Os movimentos da loira eram lentos e sensuais, ganhando os olhares, assovios e aplausos dos amigos. Melissa balançava a cabeça de maneira ritmada, sentada no sofá com os olhos fechados. Luba, Benji e Topher estavam perto da lareira recém acesa, conversando, enquanto Johnny não parecia estar no campo de visão de nenhum deles.

E então a música mudou.

I come home in the morning light my mother says

"When you gonna live your life right?"

Oh mother dear we're not fortunate ones

And girls they wanna have fun

Oh girls just wanna have fun

— Yes we do! — Melissa exclamou, soltando um gritinho e levantando-se para dançar ao lado da amiga.

Luba viu a cena e se afastou dos rapazes, seguindo para perto das meninas. As três se movimentavam de maneira animada, como se aquela fosse uma música importante pra elas. Por mais que Benji e Topher as olhassem de maneira um pouco confusa, elas sabiam o que aquela música significava. Havia sido aquela música que libertara Jewel de diversos relacionamentos destrutivos. Havia sido aquela música que salvara Melissa de sua corrida contra a vida. Havia sido aquela música que permitira que Luba percebesse que não havia problema em ser da maneira que era. Sempre que uma delas sentia-se em seu pior, as outras colocavam “Girls Just Wanna Have Fun” no volume máximo, e todas as suas angústias eram abandonadas por ao menos alguns minutos.

Some boys take a beautiful girl

And hide them away from the rest of the world

I wanna be the one to walk in the sun

Oh girls they wanna have fun

Oh girls just wanna have

Benji sorriu diante da visão de Luba dançando com as amigas. Ele então pediu licença à Topher e se afastou, seguindo em direção ao banheiro. O rapaz atravessou o corredor que saía da sala de estar e levava até o lado de fora, onde o pequeno banheiro estava localizado. Ele não queria utilizar o banheiro do segundo andar, sentindo-se desconfortável por algum motivo que não conseguia explicar direito.

Do lado de fora, Benji conseguiu ouvir o barulho de grilos ao longe. Mesmo com o baixo nível de álcool em seu sangue, ele estava um pouco zonzo por conta dos drinks, de modo que imaginou que, em minutos, Jewel e Melissa estariam desmaiadas no sofá. Luba provavelmente ficaria bem, já que havia bebido apenas um drink, se ele notara corretamente. Topher parecia ter um fígado de aço, e Benji não notara se Johnny estivera bebendo.

O banheiro era uma pequena casinha de madeira, a qual tivera a lâmpada trocada por Johnny logo quando eles chegaram. Benji abriu a porta de maneira lenta, tateando pelo interruptor ao mesmo tempo em que abria o zíper da bermuda. Alguns metros além, ele conseguiu notar uma espécie de alçapão de aço no meio da floresta, com um pesado cadeado, brilhando a luz da lua. Com exceção de um pedaço de seu topo, o local parecia quase que totalmente encoberto por folhas e vegetação rasteira. Distraído com isso, o rapaz sentiu uma coisa fria e úmida sendo tocada por seus dedos. Ele afastou-os imediatamente, ouvindo o barulho característico do animal diante do gesto.

Benji caiu de costas para fora do banheiro, tropeçando em suas bermudas. A cobra rastejou para fora em sua direção, de modo que o rapaz apressou-se em engatinhar para longe. Quando ele estava perto da porta do casarão, virou-se e fechou o zíper. Atrás de si, o asiático ouviu gargalhadas facilmente identificáveis.

— Taí uma cena curiosa. — Johnny falou, ajeitando os óculos em seu rosto.

Benji virou-se, um pouco envergonhado, e então se colocou de pé.

— É comum ter cobras por aqui?

Johnny meneou a cabeça negativamente.

— Nessa época do ano, não. Meu irmão e eu raramente víamos alguma quando passávamos as férias aqui. — Ele então ficou alguns segundos em silêncio, mas depois falou: — Por que você veio no banheiro daqui de fora?

Benji ficou um pouco constrangido em responder aquilo, de modo que gaguejou algumas vezes e acabou ficando em silêncio. Johnny não se incomodou com isso, continuando a conversa:

— Eu encontrei uma coisa no sótão e queria mostrar pra alguém. As meninas parecem estar se divertindo na sala, então eu não quis incomodá-las. E o Topher é muito impressionável.

— Que coisa? — Benji perguntou, curioso.

— Uns papéis. Você é historiador, certo?

Benji meneou a cabeça positivamente. Johnny falou:

— Então eu acho que você poderá me dizer exatamente o que eles significam!

X-x-x-x-x

Benji entrou no sótão um pouco apreensivo. O local parecia estar coberto de poeira por todos os cantos, mas a iluminação proporcionada pela lâmpada recém colocada por Johnny contribuía para diminuir a atmosfera sufocante do local. Ali em cima fazia ainda mais calor que o andar inferior, de modo que Benji rapidamente tirou a sua camisa xadrez e amarrou-a ao redor da cintura, ficando apenas com uma regata branca.

— Holly Batman! — Johnny comentou, arregalando os olhos. — Acho que o Topher tem alguma competição sobre quem tem os maiores bíceps...

O asiático ficou envergonhado com aquela fala, fazendo suas bochechas ficarem imediatamente vermelhas. Johnny meneou a cabeça de maneira brincalhona, como a pedir que ele não levasse aquilo a sério. Benji gostava do rapaz, mas algumas vezes sentia-se sem saber o que dizer ou fazer em sua presença. Seus avós haviam lhe ensinado desde muito cedo que a homossexualidade era um pecado, embora aquilo nunca tinha parecido correto na visão do rapaz. Para ele, tudo o que importava era ser alguém bom. Mesmo assim, a sua criação conservadora surgia algumas vezes, fazendo com que ele não soubesse como reagir a situações daquela natureza.

Johnny tentou ignorar o assunto, de modo a fazer o asiático ficar menos envergonhado.

— Esse sótão tem coisas desde a época do meu tataravô. Foi ele quem comprou essa casa, logo depois da Primeira Guerra. Ela tem mais de um século, mas o meu bisavô e especialmente o meu avô fizeram várias reformas durante todos esses anos. A cada nova reforma, eles guardavam tudo o que parecesse importante aqui. Eu subi pra tentar encontrar alguns álbuns de foto que meus pais me pediram pra levar pra casa, mas acabei encontrando algo... Bizarro.

Benji franziu o cenho, sem saber direito como responder. Johnny seguiu até perto de uma pilha de caixas de papelão e pegou uma com a inscrição em caneta preta, do lado de fora: “Endlösung”. Benji não sabia alemão, mas ele conhecia muito bem aquela palavra, porque havia a estudado de maneira extensiva durante o college. Por alguns segundos, o rapaz sentiu-se incrivelmente animado com a perspectiva do que poderia haver ali. Se a casa pertencia à família de Johnny há tanto tempo quanto ele dizia, aqueles poderiam realmente ser documentos históricos.

— Os seus pais são alemães? — O asiático perguntou.

Johnny colocou a caixa no chão e sentou-se com as pernas cruzadas, retirando pilhas e mais pilhas de papeis lá de dentro. Ele ergueu a cabeça e meneou positivamente, explicando:

— Não exatamente. O meu tataravô era alemão, e o meu bisavô nasceu na Alemanha também. Mas o meu avô e os meus pais são norte-americanos mesmo. E não, eu não sei alemão. Então eu não tenho ideia do que significam esses papeis, mas eu reconheci um dos símbolos...

E então o rapaz estendeu um papel para Benji. O asiático pegou a folha e notou imediatamente a suástica localizada no lado direito do topo da página.

— Eu não posso acreditar... — Ele murmurou consigo mesmo. E então continuou, diante da expressão de confusão de Johnny: — Esses são documentos da Segunda Guerra. Mais especificamente documentos nazistas. Você já ouviu falar de uma coisa chamada “Final Solution”?

Johnny meneou a cabeça negativamente, de modo que Benji respondeu:

— Em resumo, se trata de um plano, ou melhor, de vários planos, elaborados pelo Terceiro Reich para exterminar os judeus durante o período da Segunda Guerra. Auschwitz e os campos de concentração e tudo aquilo que a gente aprendeu nas aulas de História. Existem algumas cópias desses papeis em museus, e eu cheguei a estudar alguns deles quando estava escrevendo a minha tese, mas... Eu nunca imaginei que houvesse documentos ainda não descobertos. Isso é... Cara, eu não sei como colocar em outras palavras. Essa é uma descoberta fascinante.

Nenhum som foi audível pelos segundos seguintes. Mas então Johnny abriu um sorriso malicioso e Benji soube que as coisas começariam a ficar mais divertidas. E diversão era algo com o qual ele não sabia lidar muito bem.

X-x-x-x-x

Os seis estavam reunidos ao redor da mesa de madeira da sala de estar, onde a caixa com os papeis escritos em alemão estava colocada. Melissa parecia sonolenta, brincando com alguns clipes e elásticos encontrados em meio aos documentos, enquanto os amigos pareciam bastante interessados no que haviam encontrado. Johnny, Topher e Luba reviravam os documentos, separando os que tinham coisas legíveis daqueles que já haviam apodrecido com o tempo. Benji por sua vez, fazia uma espécie de “triagem”, separando-os em categorias incompreensíveis para os outros. Por fim, Jewel traduzia, da melhor forma que podia, o primeiro papel encontrado por eles, ainda no sótão.

— Aqui não tem nada muito diferente do que você já identificou, Benji. — A garota disse, entregando o papel para o asiático. — É uma espécie de protocolo de admissão de algum paciente em Auschwitz. Pela descrição, um homossexual que iria começar um tratamento de recondicionamento... — Ela falou, sentindo o peso das palavras ao deixarem sua boca. Johnny e Topher entreolharam-se de maneira desconfortável.

Benji meneou a cabeça positivamente, observando a pilha de fotos que tinha diante de si. Ainda incerto do que deveria fazer, ele começou a distribuir os papeis entre os amigos, prestando atenção em suas reações. O rapaz não se chocava com a brutalidade daqueles achados, porque já havia visto diversas imagens semelhantes em seus estudos, mas imaginava que elas fossem impactar os outros.

Ele estava certo.

— Meu Deus, isso é horrível! — Melissa exclamou, jogando a foto em cima da mesa. — Que tipo de... Coisas... São essas?

Benji pegou a foto deixada pela garota em cima da mesa. Tratava-se de uma imagem de dois garotos, aparentemente gêmeos, desacordados em cima de uma maca branca, ao lado de três ou quatro homens vestidos com jalecos da mesma cor. O bizarro, porém, é que eles pareciam estar sendo costurados pelo crânio, deitados ao lado de uma discreta poça de sangue. Os horrores não paravam por aí.

Entre as fotos, havia todo tipo de cena grotesca envolvendo experimentos nazistas realizados em Auschwitz e outros campos de concentração. Cabeças decapitadas de cachorros ligadas a fios elétricos; corpos esqueléticos e pálidos pendurados em ganchos de açougue; uma porção de membros amputados reunidos em uma pilha ao lado de um sorridente homem de bigode; olhos humanos perfurados por agulhas... A lista parecia sem fim. Benji tinha noção de todas aquelas coisas, já que elas tinham sido relatadas em documentos conhecidos, mas quase todas as imagens ali pareciam ser originais, jamais antes descobertas.

— Eu não sei se estou mais chocado ou fascinado. — O asiático admitiu. — Todos esses experimentos foram realizados nos campos de concentração durante a Segunda Guerra. Eles faziam parte do que o governo alemão chamou de “Final Solution”, a solução final para o “problema” judeu. Isso é, a sua existência.

Luba sentiu-se zonza com o discurso do namorado, bem como com as fotos que tinha diante de si. Elas eram todas em preto e branco, mas a garota conseguia pintar a carnificina com os frios tons de sua imaginação. Era brutal demais.

— E como isso foi parar no seu sótão, boo? — Topher perguntou ao namorado.

Johnny deu com os ombros.

— Talvez o meu bisavô os tenha comprado em algum leilão. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo. Ele era alemão, no fim das contas.

Benji concordou com um aceno de cabeça. Ele estava pronto para aceitar aquela possibilidade, quando notou a expressão de horror no rosto de Jewel, que folheava diversos papeis que ele havia separado para ela. A garota parecia ler rapidamente, eventualmente arqueando a sobrancelha ou tapando a boca.

— O que está escrito aí, Jew? — Melissa perguntou, arqueando-se perto da amiga.

Jewel meneou a cabeça negativamente e balbuciou:

— O nome do seu bisavô era Erich van Schuldt, certo Johnny? — A loira arriscou, lembrando-se vagamente do sobrenome da mãe do amigo, o qual não havia sido dado a ele.

O rapaz concordou com um aceno de cabeça, franzindo o cenho. Ele perguntou:

— Por quê? Você encontrou o nome dele nesses documentos?

Jewel engoliu em seco. Melissa chacoalhou a cabeça, tentando afastar o sono, e pegou a caixa de papelão em mãos, começando a vasculhá-la de maneira curiosa. Nenhum dos outros deu atenção a esse fato, ansiosos pela resposta da outra garota. Depois de alguns segundos em silêncio, a loira falou:

— O nome do seu bisavô aparece em cerca de 75% desses documentos. Segundo essa lista de funcionários de Auschwitz, ele foi um médico lá durante o período do Holocausto... — Jewel então entregou um papel com vários nomes para que o amigo lesse.

Johnny observou o papel com uma expressão vazia em seu rosto. Benji e Luba pareciam tão surpresos quanto ele, enquanto Topher fazia movimentos delicados no ombro do rapaz, como a confortá-lo.

— Eu... Nunca soube disso. — Ele murmurou em voz baixa.

Benji meneou a cabeça positivamente, sem saber direito o que falar. As barbaridades realizadas em Auschwitz e outros campos de concentração eram demais para a cabeça do asiático. A maneira como os médicos nazistas lidavam com os humanos com os quais tinham contato era brutal. Animais destinados ao abate recebiam mais respeito do que eles. O rapaz sentiu uma fúria crescendo dentro de si, mas ela rapidamente foi substituída pela frustração. Erich van Schuldt, assim como quase todas aquelas pessoas, estava morto. Ele não pagara pelo que fizera em vida, mas Benji desejava com todas as forças que ele estivesse num lugar muito, muito pior.

Johnny interrompeu os pensamentos do asiático, dizendo:

— Isso me faz lembrar de uma ocasião, quando eu tinha quatro ou cinco anos, em que eu encontrei uma fotografia em preto e branco caída atrás da lareira. Na época eu não consegui entender do que se tratava. Era só a imagem de três garotas enfileiradas com roupas listradas. Eu me lembro disso até hoje, porque a expressão no rosto de uma delas parecia muito triste. Eu acabei não dando importância praquilo e joguei a foto no fogo. Mas essa é provavelmente a lembrança mais antiga que eu tenho da minha infância...

Topher abriu um sorriso consternado e beijou o topo da cabeça do namorado. A música tocando ao fundo subitamente tornou-se inapropriada, e o momento melancólico fez com que todos acabassem ficando um pouco mais sóbrios e atentos. Não por conta de Johnny, que mal conhecera o bisavô, mas por toda aquela história. Pelas vítimas de Auschwitz. Pelo passado.

Enquanto Luba, Benji, Jewel e o outro casal estavam imóveis e sem saber o que dizer, Melissa parecia encantada com uma coisa que havia encontrado. Em suas mãos ela girava uma chave enferrujada, porém bastante bonita. Lembrava-lhe vagamente o desenho que ela tinha tatuado em seu pulso, o que poderia ou não ser efeito do álcool em seu sangue. Por algum motivo, porém, a garota imaginou que aquele objeto parecia ser importante. Ele estava muito bem escondido, debaixo de um fundo falso na caixa. O seu espírito curioso e aventureiro subitamente começou a crescer.

— Vocês... — Ela começou, atraindo a atenção de todos. — Sabem onde essa chave se encaixa?

Johnny franziu o cenho, tentando lembrar-se de algo. Mas então a visão do alçapão do lado de fora surgiu na mente de Benji.

— Eu sei! — O asiático exclamou. Seus olhos encontraram-se com o de Melissa e, por alguns instantes, a garota sentiu simpatia por ele.

X-x-x-x-x

Do lado de fora ventava um pouco, deixando o clima mais ameno. Melissa esfregou os braços e olhou para trás. A porta do casarão ainda estava aberta, deixando que a luz da cozinha iluminasse um pouco a distância entre a propriedade e o alçapão. Apesar disso, Topher seguia à frente do grupo com seu celular em mãos, guiando os amigos. Atrás dele estava Johnny, seguido por Benji e Luba. Jewel era a mais próxima de Melissa, parecendo um pouco apreensiva.

— O que você acha que tem lá embaixo? — A loira perguntou.

— Provavelmente mais documentos sobre Auschwitz. — Melissa arriscou. — Nada muito chocante, eu imagino.

Jewel concordou com um aceno de cabeça, embora parecesse bastante assustada. Melissa esticou o braço e segurou sua mão de maneira firme, tentando acalmá-la. Aquilo pareceu funcionar, já que um suspiro de alívio saiu da boca de Jewel. Elas assustaram-se quando ouviram um estrondo próximo, notando posteriormente que se tratava da porta do alçapão sendo aberta. Benji retirou a chave do cadeado e guardou-a no bolso de sua bermuda.

— Algum de vocês vai descer comigo? — Topher perguntou, virando-se para trás.

Benji ofereceu-se prontamente, sendo seguido por Johnny. Melissa também gostaria de ir, mas não se sentia confortável em deixar Jewel sozinha. Foi quando Luba piscou para a amiga e segurou a mão da loira em seu lugar.

— Certo, nós quatro. — Topher falou, assumindo a liderança. — Nós já voltamos, meninas.

Luba sorriu e acenou com um gesto delicado. Jewel chacoalhou a cabeça, tentando escapar de sua distração. Disse:

— Vocês se importam se nós esperarmos no carro? Eu estou com medo de ficar aqui fora ou dentro daquela casa enorme. O carro me dá uma sensação de... Segurança. É só nós trancarmos a porta e nós estamos seguras.

— Isso é bizarro, amiga. — Johnny palpitou.

— Cala a boca. — Melissa disse, reprimindo-o. — Claro, Jew, é uma boa ideia. Mas olha pra mim. — E encarando os olhos azuis da amiga, continuou: — Você não precisa ter medo. Não tem nada demais ali embaixo ou na floresta. Uns animais, no máximo. Mas nenhum deles páreo para nós. Vai ficar tudo bem.

Jewel concordou com um aceno de cabeça. Melissa tinha razão. Talvez fosse o álcool que estivesse deixando-a assustada daquela forma. Não só o álcool, mas a mistura dele com os remédios que vinha tomando. Jewel não havia contado pra nenhum dos amigos, mas há alguns meses ela havia se viciado nos remédios que encontrara no armário do banheiro de sua mãe. Começara tomando-os para se acalmar das perseguições de seu ex-namorado, mas subitamente a garota viu-se sem saber lidar com qualquer conflito em sua vida sem tomar alguns comprimidos. Aquela era a primeira vez que ela os combinava com álcool, e temia que o seu medo e paranoia fossem consequência disso.

— Eu vou tomar conta dela, eu prometo. — Luba garantiu.

Melissa concordou com um aceno e deu um beijo no topo da cabeça da loira. Jewel sorriu em retribuição.

— Obrigada.

Benji então se aproximou de Luba e lhe deu um delicado beijo. No mesmo instante em que seus lábios se tocaram, o rapaz sentiu-se zonzo, como se fosse capaz de desmaiar a qualquer momento. Era uma sensação ruim, agourenta. Wow. Muitos drinks, senhor Huang. Atribuindo o mal estar à bebida, Benji chacoalhou a cabeça e despediu-se da namorada. Ele conseguiu ler seus lábios quando ela sussurrou “te amo”, retribuindo as palavras com um coração feito no ar. E então Jewel e Luba se afastaram, seguindo na direção do carro estacionado na frente do casarão.

— Bom, então é isso. — Topher falou, descendo o primeiro degrau.

X-x-x-x-x

O alçapão levava a um lugar semelhante a uma caverna. Topher caminhava na frente do grupo, com a lanterna do celular ligada e apontando para todos os lados. Ali o sons naturais eram muitos e diversos, dificultando que eles prestassem atenção em várias coisas ao mesmo tempo. Tudo parecia estar constantemente sendo colocado no lugar, com pequenos barulhos surgindo de todos os lados. Seus passos também ecoavam pela ambiente, tornando a experiência ainda mais desconfortável. Melissa sentiu o ar tornando-se cada vez mais esparso, conforme eles caminhavam em direção ao fim do túnel.

— Você sabia da existência desse túnel, Johnny? — Benji perguntou.

O outro rapaz meneou a cabeça negativamente.

— Eu me lembro do alçapão, mas nós sempre achamos que era alguma coisa inutilizada. Na época das Guerras esse tipo de coisa era bem comum, então nós nunca demos muita atenção pra isso e nem tentamos encontrar a chave.

O asiático concordou com um aceno de cabeça, mas não quis corrigir o amigo. A verdade era que aquele tipo de abrigo não era comum nos Estados Unidos, sempre bastante distante das guerras ocorridas majoritariamente na Europa. O mais provável era que aquele fosse um bunker destinado a tornados, mas Benji também não acreditava naquela teoria. Por algum motivo, ele tinha a sensação de que aquele túnel tinha sido construído para manter alguma coisa guardada, não para abrigá-los.

O corredor foi tornando-se cada vez mais estreito conforme eles adentravam em sua profundidade. Ali os barulhos eram menos intensos e a sensação de claustrofobia era maior. Johnny sentiu-se tremendo levemente, e segurou o braço de Topher de maneira instintiva. Foi quando o rapaz ouviu o grito estridente de Melissa e deu um pulo no mesmo instante. O seu coração estava disparado.

A garota apontou para o chão e Topher iluminou o lugar com a lanterna. O que havia ali fez o rapaz sentir todo o seu corpo atingido por uma onda de eletricidade. Em um canto do túnel havia uma pilha de ossos na qual Melissa havia tropeçado. Pelo seu formato, era difícil saber se eles eram humanos ou animais, já que não havia nenhum osso reconhecível.

— Você consegue ver do que se trata, Benji? — Topher perguntou. — Eu sei que isso é trabalho de arqueólogo, mas...

O outro rapaz concordou com um aceno. Ele não conhecia muito a respeito de ossos, mas estudara um pouco algumas descobertas arqueológicas durante o college. Benji acreditava que era capaz de, ao menos, identificar se aquilo se tratava de ossos animais ou humanos. Pegando o celular da mão do outro rapaz, o asiático iluminou a pilha que tinha diante de si. Não foi necessária uma inspeção muito minuciosa. Em segundos ele identificou um fêmur, o seu tamanho e formato bastante distinguíveis. Aquilo foi o suficiente para fazer o seu estômago embrulhar.

— Vocês ouviram isso? — Melissa perguntou, olhando para a escuridão ao seu redor.

Nenhum dos rapazes respondeu. Ao longe, vários e vários metros a frente de onde eles estavam, a garota conseguia ouvir um distinto ruído, semelhante ao que já ouvira alguns guaxinins fazerem debaixo da janela de seu quarto, em sua casa. Por algum motivo, porém, Melissa não acreditava que havia qualquer guaxinim ali. Suas suspeitas aumentaram quando Topher iluminou o que havia diante deles. O corredor, mais estreito do que nunca, revelou um enorme caminho de ossos, de todos os tipos e tamanhos. A garota foi capaz de reconhecer somente um deles.

Um crânio estava colocado de maneira metódica em cima de uma pedra. Aquele não parecia o trabalho de um animal, mas algo... Pensado. Algo planejado. Algo humano.

A próxima coisa que Melissa ouviu foi o grunhido ensurdecedor, e então tudo ao seu redor se tornou um borrão. Para Benji, porém, aquele momento passou em câmera lenta. Em milésimos de segundos ele foi capaz de captar, ver e compreender um milhão de coisas diferentes. A memória do que viu diante de si provavelmente assombraria seus pesadelos pelo resto de sua vida. O horror. O horror...

A figura aparentemente humana vestia um sobretudo de couro preto, com uma bandana vermelha e o desenho de uma suástica amarrada em seu braço. Seu rosto era acinzentado e decrépito e em suas mãos havia algo semelhante a enormes garras metálicas. Aquela criatura parecia fazer parte de um pesadelo, não da vida real. Apesar de sua aparência, o grunhido proveniente dele não era nada que um ser humano fosse capaz de reproduzir.

O coração de Melissa disparou e ela achou que fosse incapaz de manter-se de pé. Mas então o grito de Johnny fez a adrenalina tomar conta de seu corpo.

— Corram!

Melissa disparou para longe sem olhar para trás, correndo na completa escuridão na esperança de encontrar a saída. Ela conseguia ouvir os passos e a silhueta de Topher e Johnny atrás de si, mas não viu Benji. O asiático ainda estava agachado de frente à pilha de ossos, olhando para a criatura com horror e fascínio. E então ele foi atingido por um violento golpe que o fez voar alguns metros, batendo a cabeça na parede do túnel e caindo no chão com um baque surdo. Uma quantidade pequena de sangue escorreu de sua boca, e a última coisa que o rapaz sentiu foi o gosto de terra em sua saliva.

Topher notou que o asiático não os acompanhava, exclamando:

— O Benji! O Benji!

Mas então ele ouviu os passos pesados atrás de si e soube que a criatura não estava mais perseguindo Benji. Era tarde demais para ele. Sem pensar duas vezes, Topher continuou a correr o mais rápido que podia, arrastando Johnny consigo. O outro rapaz não conseguia acompanhar os passos do namorado, mas tropeçava para longe dali da melhor maneira que conseguia. A sua respiração tornou-se mais rápida e ele sentiu a dor da falta de ar em seus pulmões. Mesmo assim, continuou correndo.

Melissa sentiu-se aliviada quando enxergou a luz iluminando os degraus. Ela correu na direção deles, o seu vestido esvoaçando e tocando suas coxas sujas de poeira. Seus cabelos curtos estavam completamente encharcados com seu suor, colando em seu rosto. Ela não conseguia ver nada de maneira nítida, mas sabia que estava perto da salvação. A garota subiu os degraus com rapidez e viu a luz da lua iluminando seu rosto e a brisa leve do começo da noite secando seu suor.

Johnny caiu. Topher notou a cena no mesmo instante, sentindo um puxão para trás quando o namorado tombou ao chão. O rapaz bufou de maneira nervosa e tentou erguer o corpo do outro com a maior força existente em seu corpo, mas a criatura já estava diante de si. O monstro ergueu seus braços e desferiu um golpe certeiro na direção de Johnny. Mesmo distante, Melissa conseguiu ouvir um som semelhante ao de um pano sendo rasgado. A única coisa que Johnny sentiu foi a dor lancinante, e então o sangue quente escorrendo pelo chão de terra.

A perna de Johnny havia sido amputada logo abaixo do joelho. O rapaz gritou em horror, incapaz de compreender com clareza o que havia acontecido. Topher, tomado pela adrenalina, ergueu o namorado com a maior força que conseguiu e virou-se de costas para a criatura, não se importando com mais nada. Tudo o que ele conseguia pensar era em sair dali com vida e ao lado de Johnny. Topher correu até enxergar a luz nos degraus. Ele os subiu como se estivesse subindo as escadas para o paraíso. Johnny gemia e chorava, o sangue sujando a roupa de ambos.

Acima da terra, Melissa puxou os braços de Johnny ao vê-lo surgindo do alçapão. Topher aos poucos sentiu o peso do corpo do namorado desaparecendo à medida que ele seguia para sua salvação. A sensação de alívio e torpor tomou conta de seu corpo, e foi então que a adrenalina desapareceu e deu lugar ao medo congelante. Johnny engatinhou na superfície, obtendo a ajuda da amiga para isso. Sua mente era um borrão, incapaz de raciocinar com clareza.

Melissa olhou para baixo a tempo de ver a criatura surgindo atrás de Topher. E então ela viu quando suas garras se cravaram no topo da cabeça do rapaz, perfurando seu crânio. Ainda com Topher preso, o monstro abriu a boca, seus dentes afiados brilhando a luz da lua, e mordeu o topo da cabeça dele. O sangue respingou nas escadas e no rosto de Melissa, próxima o suficiente para sentir o calor da última respiração do amigo. Topher não emitiu qualquer ruído. A criatura grunhiu e retirou suas garras, fazendo a cabeça de Topher vir junto, abandonando seu corpo decapitado. Ele jogou o crânio ao chão e encarou a garota nos olhos. O sangue escorria por seu rosto deformado.

Melissa pensou em correr, e depois pensou em trancar o alçapão e deixar a criatura ali para sempre. Mas ela não tinha forças para isso. Tudo o que podia fazer era arrastar Johnny para longe dali e rezar para sobreviver. E foi isso que ela fez. A garota puxou o corpo do amigo para cima, fazendo com que ele ficasse de pé em uma só perna. Johnny estava extremamente quente e vermelho, provavelmente em choque. Melissa gritou:

— Nos ajudem! Luba, Jewel!

A alguns metros dali, Luba subitamente olhou para fora da janela do carro, onde Girls Just Wanna Have Fun tocava. Ela conseguiu ver somente as costas de Melissa, e uma silhueta semelhante a Johnny. Jewel também notou aquela cena, e prontamente abriu a porta do carro para ver o que estava acontecendo.

A loira foi capaz de ver a criatura gigantesca surgir do alçapão e por alguns segundos sua mente não conseguiu compreender do que aquilo se tratava. A brisa da noite tocou seu rosto como os dedos delicados de um amante, mas o soco da realidade a faz lembrar-se do quão doloroso isso era. Tomada pela adrenalina, ela correu para perto da dupla, enquanto observava o monstro os seguindo de maneira lenta. Era como se estivesse provocando-os. Era claro que ele sabia que conseguiria capturar os dois, mas essa não parecia ser a graça da coisa. Era quase como se ele sentisse prazer em vê-los correndo por suas vidas.

Jewel colocou um dos braços de Johnny ao redor de seu pescoço e notou que ele não tinha uma das pernas, o sangue escorrendo e sujando o chão. Ao mesmo tempo, no carro, Luba digitava com rapidez o número da polícia, esquecendo-se da falta de sinal. Ela então abriu o porta-luvas, procurando um rádio que Benji havia trazido por precaução. O monstro ainda não havia percebido a sua presença no carro, de modo que a garota tentou pensar com racionalidade. Assim como Topher, ela sentiu a adrenalina tomar conta de seu corpo. Apesar de não entender o que estava acontecendo, seu instinto de sobrevivência era maior do que tudo.

Benji e Topher não estavam em seu campo de visão. A garota pensou no pior no mesmo instante, mas uma força maior a fazia pensar em sobreviver. Ela teria tempo para o luto depois, o que quer que houvesse acontecido. Do lado de fora, os olhos de Melissa encontraram-se com os seus. E então ela conseguiu ler quando a amiga disse, através de seus lábios mudos:

— Fica aí. Vá buscar ajuda.

Luba sabia que aquela era a única alternativa. Junto deles, ela estaria tão indefesa quanto todos os outros, incapaz de ajudá-los. Eles não conseguiriam correr até o carro a tempo, mas estavam há apenas poucos metros da porta aberta do casarão. Se fossem capazes de entrar na propriedade, poderiam proteger-se até que ela voltasse com ajuda. Luba lembrava-se do posto policial pelo qual eles haviam passado quando estavam chegando ali. Ela conseguiria dirigir até lá e voltar com a polícia. Além disso, havia a espingarda na sala. Luba rezou para que Melissa e Jewel soubessem onde estavam as balas da arma, porque isso significaria a sua sobrevivência. O código do cofre era apenas uma sequência de zeros.

A garota deu a partida no carro e não olhou para trás. Dirigiu o mais rápido que podia, o seu coração acelerado e as mãos suando. Oh Benji. Benji... Eu espero que você esteja bem, meu amor. Por favor, fique bem. Me espere. Oh, eu estou com tanto medo! Essa era a maior verdade de todas. Luba tinha medo. Um medo tão grande que era capaz de abafar a adrenalina e deixá-la em pânico. Mesmo assim ela continuou dirigindo, o pé firme no acelerador e o olhar fixo na estrada de terra diante de si.

Jewel e Melissa carregavam Johnny com dificuldade, cada uma delas com um braço dele apoiado por cima de seu ombro. O rapaz cambaleava de maneira atordoada, suando muito e fechando os olhos. Melissa sabia que ele estava começando a delirar por conta do ferimento. Uma trilha de sangue pingava por onde eles passavam, deixando seu rastro na grama. A garota sabia que aquilo poderia matá-lo. Se ele perdesse sangue demais, não haveria nada que elas pudessem fazer.

Atrás deles, o monstro caminhava a passos lentos, emitindo grunhidos estranhos a cada intervalo de segundos. Melissa ousou olhar para trás e viu seu rosto deformado contorcendo-se um pouco, como se ele estivesse os farejando. A criatura parecia agir como um animal de caça, brincando com a sua presa e deixando-a assustada antes de finalmente matá-la. Ao mesmo tempo, tudo o que a garota conseguia pensar era na morte dolorosa que teria se ele as atacasse. Ela vira a maneira como a cabeça de Topher havia sido brutalmente devorada. A expressão de choque em seu rosto, no momento em que teve consciência de que estava morrendo...

E então o gritinho de Jewel foi ouvido e Melissa acreditou que era o fim. O monstro emitiu um barulho ensurdecedor e se jogou na direção dos três. Eles caíram no chão quase que imediatamente, e Melissa sentiu o gosto de ferro em sua boca, bem como o sabor salgado da grama. Mas então nada mais aconteceu. A garota levantou-se com dificuldade, ao mesmo tempo em que Jewel erguia Johnny, e olhou para trás. O que ela viu fez seu coração encher-se de esperança, antes de ser engolido pela culpa. Tudo aconteceu em frações de segundo.

Benji agarrou o monstro por trás, sua aparência completamente suja e com sangue seco escorrendo de seu rosto. Então, sem pensar duas vezes, o asiático puxou a criatura, jogando-se dentro do alçapão aberto enquanto o abraçava, levando-o consigo. Antes de cair, porém, Melissa viu seus olhos cruzarem-se mais uma vez com os de Benji. Era quase como se houvesse um controle remoto invisível atraindo seus olhares nos momentos mais inoportunos. Ela esperava que tivesse soado gentil dessa vez.

Tudo ficou em silêncio. Jewel chorava copiosamente, erguendo o corpo fraco de Johnny com dificuldade. Ela havia visto a cena do sacrifício do asiático, mas era incapaz de fazer qualquer coisa a respeito disso. Melissa subitamente voltou a sentir-se tomada pela adrenalina e decidiu agir. A garota ergueu o corpo do amigo com força e as duas começaram a arrastá-lo até o casarão. Assim que elas entraram pela porta da cozinha, Melissa deixou que Jewel o levasse até um lugar confortável, enquanto tentava encontrar alguma maneira de bloquear a porta. Não funcionaria por muito tempo, mas se a criatura estivesse viva, isso poderia atrasá-la.

Melissa pediu que Jewel bloqueasse todas as portas e janelas, o que a amiga começou a fazer no mesmo instante. Ela própria então se dirigiu ao gabinete do banheiro e encontrou o que procurava: o kit de primeiros-socorros. Johnny estava deitado no sofá da sala de olhos fechados, mas com o peito se movendo, sinal de que ainda respirava. Aquilo era o suficiente. Se a garota conseguisse estancar seu sangramento até que a ajuda chegasse, ele sobreviveria.

— Johnny-boy, meu amor, você consegue me ouvir?

— Mamãe...? — O rapaz murmurou, ainda de olhos fechados.

Melissa sentiu um nó na garganta e as lágrimas se formando em seus olhos. A aparência pequena, frágil e pálida de Johnny era suficiente para fazê-la sair de seu estado de adrenalina e ser tomada por uma onda arrebatadora de desânimo.

— Isso mesmo, meu amor. — Ela mentiu. Você consegue fazer uma coisa pela mamãe? — O garoto meneou a cabeça positivamente. — Não durma, tudo bem? A mamãe precisa que você fique acordado. Pode continuar com os olhos fechados, mas não durma.

O rapaz meneou a cabeça positivamente uma segunda vez. Melissa suspirou. Ela lembrava-se vagamente de ouvir a mesma coisa de um paramédico, quando foi salva por Luba e Benji. “Não durma, Melissa”, foi o que eles disseram. Não durma... Mas era difícil, ela sabia. Tomando coragem, a garota abaixou-se e olhou para o ferimento na perna de Johnny. O monstro havia a cortado de maneira nada cirúrgica, de modo que tudo o que a garota conseguia enxergar era uma confusão vermelha, com nervos, músculos e veias pendurados e pingando sangue. Não importava. Ela deveria estancar seu sangramento mesmo assim.

— Mamãe? — Ele chamou mais uma vez, ainda de olhos fechados.

Melissa chacoalhou a cabeça, afastando todos os pensamentos.

— Sim, meu amor?

— Eu estou com sono. — Ele disse numa voz calma e tranquila.

Oh. Conforme a adrenalina diminuía, Melissa foi trazida de volta à realidade com um soco no estômago. Johnny não sobreviveria. Por mais que ela conseguisse estancar seu sangramento nos próximos segundos (o que achava que conseguia, já que não havia se passado nem dois minutos desde que eles haviam entrado no casarão), ele havia perdido sangue demais. Melissa reconhecia aquela sensação de sono. Ela sabia o que aquilo significava.

Naquele momento, Melissa desejou ser capaz de dar sua vida pela vida do amigo. Não era justo. Johnny era novo e cheio de vida. Ela estava morta por dentro. Ele tinha muito a viver. Ela estava satisfeita com o tempo que tivera. Ele faria bem às outras pessoas. Ela só atrapalhava a vida daqueles com quem entrava em contato. Ele lutava. Ela fugia. Não havia nenhuma lição a ser aprendida ali, apenas a presença inexorável e implacável da morte.

— Dorme, meu amor. — Melissa disse entre murmúrios. Jewel surgiu em seu campo de visão e abaixou-se na altura do amigo, começando a passar a mão em seus cabelos escuros. — Dorme. A mamãe logo vai estar com você. Eu te amo.

Pareceu que ele havia esperado somente a autorização de sua mãe. Assim que Melissa proferiu a última palavra, o peito de Johnny parou de se mover. Jewel deitou-se em seu ombro, ainda ajoelhada, e começou a chorar. Melissa aproximou-se da amiga e a abraçou por trás. Os três ficaram naquela posição por vários e vários segundos, sem que nenhuma delas se desse conta do tempo. Do lado de fora, havia somente o silêncio e a escuridão da noite sem estrelas.

X-x-x-x-x

Tudo ao redor de Benji era composto por escuridão, exceto o corpo da criatura caída logo a sua frente e iluminada pela fraca luz da lua que atravessava o alçapão. O asiático não acreditava que ele estava morto. O corpo decapitado de Topher, caído debaixo dele, era a prova cabal de sua força. Benji sentiu-se próximo de vomitar quando viu o corpo do rapaz, assim que acordou do seu desmaio. Agora, porém, tudo o que ele conseguia sentir era a inabalável vontade de sobreviver. E o medo. O medo do que poderia acontecer quando aquele monstro acordasse.

A suástica amarrada em seu braço deixava claro que aquela criatura pertencia a Erich van Schuldt, o bisavô de Johnny. O que Benji não compreendia, porém, era como tudo aquilo podia estar acontecendo. O que é essa criatura? O que ela está fazendo aqui? Como ela sobreviveu todos esses anos debaixo da terra? Os ossos encontrados pelo túnel indicavam que ele havia se alimentado, sim, mas aquilo devia ter sido há vários e vários anos. Por algum motivo, ele não morrera. Não que isso surpreendesse o asiático. Era claro que aquela criatura não era humana.

Luba, Jewel, Melissa e Johnny ficariam bem, desde que ele mantivesse a criatura ali. Isso significava que tentar sair do túnel seria uma péssima ideia. Ele poderia acabar acordando o monstro ao passar por cima dele, e esse seria o fim seu e de todos os outros. Tudo o que restava a ele fazer era ficar ali, quieto, esperando a ajuda chegar. Eles tinham um carro, poderiam ir atrás da polícia.

Talvez Benji pudesse fazer mais. Talvez ele pudesse tentar matar a criatura. Mas com o quê? Não havia nada naquele túnel, pelo menos até o ponto em que eles exploraram. Eu preciso ir além. Se eu encontrar qualquer coisa que seja, talvez eu consiga matá-lo. Pensando nisso, Benji lembrou-se dos ossos no fim do túnel. Algum deles devia ser pontiagudo o suficiente para o rapaz conseguir afundar no crânio daquele monstro.

Decidido, Benji caminhou com rapidez através do túnel, tentando não fazer barulho. Sua cabeça doía de maneira infernal, mas ele sabia que ficaria bem. O sangue que escorria de sua testa estava seco, indicando que o ferimento não fora muito grave. Seus passos na terra fina se tornaram cada vez mais rápidos a medida que ele se afastava do monstro, sentindo a poeira batendo em panturrilha. Benji não conseguia ver nada à sua frente, mas a medida que o túnel ia ficando estreito, não havia como ele se perder.

Quando Benji alcançou o ponto com os ossos, continuou caminhando. Poderia haver qualquer coisa além dali. Talvez até mesmo algumas respostas. Ele não esperava descobrir o que aquela criatura era, especialmente porque o que sabia a respeito dela era suficiente. Erich van Schuldt trabalhara em Auschwitz durante o período da Segunda Guerra. Ele fizera parte da equipe responsável por desenvolver a “Solução Final”. Aquela criatura tinha uma suástica. Bastava que Benji ligasse os pontos. Aquele monstro muito provavelmente era a tal solução. De alguma forma Erich tinha sido capaz de surrupiar seu experimento e trazê-lo para a América, mantendo-o selado debaixo da terra até sua morte, provavelmente inesperada. E então aquela criatura ficara trancada por dezenas e dezenas de anos, crescendo em fome e raiva.

Benji poderia concluir, também, que aquela criatura não morria de fome. Mais do que isso: que durante o tempo em que esteve vivo, Erich o alimentara. Com humanos, era claro. Humanos que, se a Alemanha tivesse saído vitoriosa da Segunda Guerra, muito provavelmente seriam judeus e outros povos indesejados. Aquilo era mais brutal do que Benji podia suportar. Não havia mais quem pudesse pagar por aquilo. Erich van Schuldt estava morto. Boa parte daqueles condenados nos Julgamentos de Nuremberg estavam mortos. O que restava era aquele monstro, sem qualquer consciência.

Não foi difícil encontrar um osso pontudo, embora a vontade de buscar respostas houvesse desaparecido completamente. Benji agachou-se e começou a tatear às cegas, buscando a melhor arma que pudesse encontrar. Ele sentia suas mãos arderem quando o sangue de seu machucado entrava em contato com a terra. Mesmo assim, o asiático continuou procurando. Até o momento em que seus dedos encontraram algo muito melhor do que ele poderia esperar. Uma faca.

X-x-x-x-x

Melissa olhou pelo lado de fora da janela do casarão e suspirou. Ela conseguia ver o seu reflexo na janela, mas a garota refletida ali parecia apenas um fantasma de si mesma, completamente suja e exausta. Jewel estava encostada no sofá ao lado do corpo de Johnny, olhando para o infinito. Ela havia questionado Melissa brevemente, querendo saber a respeito do que era aquela criatura, mas era claro que a amiga sabia tanto quanto ela. A única coisa que Jewel ficara sabendo era que Topher estava morto. Em estado de alerta constante, a garota notou a espingarda pendurada na parede. Uma chama de esperança se acendeu dentro de si.

— Melissa, a arma. — A loira disse, apontando para o objeto.

A amiga olhou para a parede e concordou com um aceno de cabeça, embora mostrasse mais resignação do que qualquer coisa.

— Eu imagino que ela esteja sem balas. Os pais do Johnny não seriam doidos de deixar uma arma carregada no meio da sala de estar.

Jewel concordou com a amiga no mesmo instante, sentindo o pânico voltar a crescer. Mesmo assim, a garota sentia-se forte. Mais forte do que imaginou ser capaz de sentir-se, especialmente depois de ter preferido esperar dentro do carro quando o quarteto entrou no túnel. Como se lesse seus pensamentos, Melissa falou:

— Continue forte, Jew. Eu preciso de você.

A loira concordou com um aceno, abrindo um fraco sorriso. O relógio na parede indicava que fazia pouco mais de dez minutos que tudo havia acontecido. Luba provavelmente tinha acabado de chegar até a estrada principal, e ainda levaria minutos para que ela contatasse a estação de polícia e então voltasse com ajuda. Do lado de fora, através da janela da cozinha, elas conseguiam ver o alçapão aberto, mas nenhum sinal da criatura. Mas havia algo diferente.

— Melissa... — Jewel falou, caminhando na direção da cozinha. — Você se lembra de ter visto o relógio de ouro do Topher quando nós corremos para a casa?

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A outra garota tentou lembrar-se daquilo, o que foi surpreendentemente fácil. As memórias daqueles fatídicos segundos de luta passaram na cabeça de Melissa como um filme em câmera lenta, sua memória mais clara do que nunca. Não. Não havia relógio algum.

O objeto brilhando do lado de fora, próximo do alçapão, foi a última coisa que elas viram antes do baque forte contra a porta da cozinha. A cabeça de Topher arrebentou a madeira como uma bola de boliche, rolando através da cozinha e indo parar no meio da sala. Jewel e Melissa gritaram em uníssono, sendo seguidas pelos grunhidos do monstro que acabara de chegar no casarão. Ele estava de cócoras em cima da mesa utilizada como barreira para evitar sua entrada, farejando-as como um animal.

— Corre! — Melissa exclamou.

Sem pensar duas vezes, a garota começou a subir as escadas, já que era impossível escapar pela porta da frente, protegida por um pesado sofá. Ela ouviu passos atrás de si e rezou para que fossem de Jewel. A loira estava bem próxima da amiga, mas então ela sentiu alguma coisa puxando-a para trás pelos cabelos. Num baque surdo, Jewel caiu. E então sentiu seu corpo sendo arrastado através do chão de madeira, ao mesmo tempo em que se debatia e gritava.

— Me ajudem! Me ajudem!

Melissa virou-se para trás e voltou a descer as escadas. A criatura arrastava Jewel para fora da casa, ao mesmo tempo em que a amiga chutava o ar e tentava se desvencilhar dele. Foi então que os olhos da garota cruzaram-se com os de Benji, escondido ao lado do batente da porta da cozinha. Ele colocou o dedo em cima da boca, em sinal de silêncio, e seguiu na direção do monstro.

Num golpe único, Benji fincou a faca no topo da cabeça da criatura. O monstro grunhiu, soltando Jewel, mas não por muito tempo. Ele virou-se furioso e desferiu um único golpe, cortando a garganta de quem estava atrás de si. O sangue de Jewel respingou em seu rosto em jatos, fazendo-o grunhir de excitação. Benji gritou de maneira raivosa, retirando a faca da cabeça da criatura com raiva. Jewel tapou sua garganta com as mãos e caiu no gramado, afogando-se com o próprio sangue.

Melissa tapou a boca, sentindo os olhos enchendo-se de lágrimas. Benji ergueu a faca uma segunda vez, mas quando tentou acertar o monstro, ele simplesmente segurou seu braço, fazendo um filete de sangue começar a escorrer. O asiático ficou parado alguns instantes, hipnotizado com a criatura. Ele estava pronto para morrer naquele exato momento, encarando a feição deformada de uma arma de destruição nazista. Mas o monstro somente grunhiu e, num movimento rápido, jogou-o com força para dentro do alçapão ainda aberto.

Melissa soube que seria a próxima. Ela não seria poupada como Benji.

Mesmo assim, ela não aceitou aquele destino. A garota virou-se sem olhar para trás e começou a correr na direção da estrada. Ela sabia a velocidade com a qual aquela criatura poderia correr, mas não se importou. Naquele momento ela corria por sua vida. Corria por Johnny e por Jewel. Corria pela dor da morte, talvez pela apreciação da vida. Suas pernas doíam e seus pés pareciam prestes a desistir de obedecê-la, mas Melissa não se importava. Tudo o que ela queria era correr para longe dali.

O monstro a derrubou com um chute nas costas. Melissa caiu com o rosto no chão, mais uma vez sentindo o gosto salgado da terra. Ela então sentiu uma dor lancinante nas costas, e imaginou que tivesse sido perfurada pelas garras do monstro. Mas não havia calor e nem sangue. Quando a garota tomou coragem para virar para trás, viu que a criatura estava de pé em suas costas, tentando torturá-la.

A lua brilhava alta no céu. Melissa sentiu quando o monstro se agachou, ainda em suas costas, e começou a grunhir em seu ouvido. Ele queria que ela sentisse medo. Ele se alimentava daquilo. Ele queria que ela temesse por sua vida, e que chorasse, gritasse e esperneasse. A sensação de humilhação era grande demais. Melissa não conseguiria evitar todos aqueles sentimentos.

De uma hora para a outra a garota não consegui ouvir mais nada ao seu redor. Ela apenas sentiu o metal afiado do monstro em seu rosto, cortando sua bochecha de maneira delicada o suficiente para deixar uma cicatriz, mas não para matá-la. Ela sentiu os movimentos em sua pele, o desenho se formando. Quando o monstro ergueu suas garras, Melissa exibia uma suástica ensanguentada em sua face.

Satisfeito com seu trabalho, o monstro então forçou a garota a esticar os braços. Melissa sentiu as lágrimas escorrendo de seu rosto, mas não fez barulho algum. Assim que ela olhou para frente, conseguiu ver o exato momento em que o monstro decepou dois de seus dedos com um único movimento de suas garras. Aquele foi o limite. Melissa emitiu um grito de dor ensurdecedor. A dor era lancinante, incomparável com qualquer uma que ela tinha sentido em sua vida. Era suficiente para que ela desejasse estar morta.

Os grunhidos se intensificaram. A garota sabia que a sua tortura estava só começando. Ela não podia aguentar mais. Tomada por uma força quase sobrenatural, Melissa ergueu os braços para trás, ainda de costas, e agarrou a cabeça da criatura com seus dedos. Ela não demorou à encontrar suas órbitas oculares, e sem pensar duas vezes fincou dois dos dedos restantes neles, imprimindo a maior força que conseguiu. O monstro emitiu um grito de dor e começou a se debater, atacando o ar. Em seu desespero, ele cortou as costas e braços de Melissa, atravessando o tecido florido e fazendo diversos filetes de sangue surgirem. E então caiu para trás.

Melissa levantou-se cambaleante e gritou. A criatura andava de um lado para o outro, cega, procurando a garota. Ele desferia golpes ensandecido no ar, mas a garota não se importava mais. E então ela viu a figura de Luba se posicionando exatamente em frente ao monstro, com a espingarda em mãos. A garota pensou em avisar a amiga que a arma estava sem balas e que ela corria perigo, mas subitamente o barulho do disparo interrompeu seus pensamentos.

Um tiro certeiro na cabeça do monstro. Ele deu dois passos para trás e então caiu, morto. Luba não estava satisfeita. Ela aproximou-se do corpo da criatura e desferiu mais dois tiros à queima-roupa, um em seu peito e outro no meio de sua testa. Esse segundo fez a cabeça dele explodir em uma massa vermelha e disforme.

Melissa correu na direção da amiga e abraçou-a com força. Uma visão atrás de si, por cima do ombro de Luba, a deixou perplexa. Benji estava parado com a faca em mãos, mas ele parecia diferente. Seus olhos... Eles estavam completamente brancos, como se o rapaz não tivesse mais íris, o tom leitoso tomando conta de suas órbitas. O asiático se mantinha reto e firme em sua postura, segurando a arma.

— Luba... — A garota comentou, murmurando fracamente.

A morena virou-se e soltou um grito. Naquele momento Melissa o viu em detalhes e teve certeza de que aquele não era Benji. Não mais. A pele do rapaz estava completamente pálida, e todas as suas veias eram visíveis, em um tom arroxeado. Nenhuma das duas conseguiu entender o que aquilo significava.

— Benji, meu amor... — Luba falou, tentando manter um tom de voz calmo. — Sou eu, a sua namorada...

Em vão. Melissa percebeu que o rapaz começaria a correr em sua direção, porque ele emitia o mesmo grunhido do monstro. Ela então puxou a amiga e começou a correr de volta na direção do casarão, olhando para todos os lados em busca do carro ou das viaturas de polícia. Não havia nada. Sua mão não doía mais, um torpor tomando conta de todo o seu corpo. Luba carregava a espingarda pesada com dificuldade.

— Cadê...? — Foi tudo o que ela conseguiu dizer, sem parar de correr.

— O alçapão! — Luba exclamou, sem responder.

As duas correram na direção do buraco e, sem pensar duas vezes, Luba atirou-se lá dentro. Caída no chão, a garota gritou:

— Fecha!

Melissa olhou para trás e notou que Benji corria na direção dela. Sem perder tempo, ela desceu alguns degraus da escada e então puxou a porta de aço do alçapão para baixo, fechando-a. Naquele ponto, Luba já havia subido alguns degraus e ajudava a amiga a segurar o buraco fechado. O corpo decapitado de Topher estava logo abaixo delas, fazendo o estômago da morena embrulhar-se. Ele era a única coisa visível, através de um pequeno feixe de luz que entrava da porta fechada.

— Nós ficamos sem gasolina. — Luba comentou, ouvindo os grunhidos do lado de fora. — O Benji tirou o galão de combustível que nós trouxemos do carro, com medo de que pudesse ser perigoso deixar alguma coisa inflamável lá. O carro morreu no meio da estrada. Eu só consegui contato pelo rádio que estava no porta-luvas, mas os policiais disseram que estavam vindo para cá. Nós só precisamos aguentar firme.

A outra garota concordou com um aceno de cabeça, compreendendo. Melissa olhou para baixo e notou que, ao lado do corpo de Topher, havia alguma coisa escrita com sangue na terra. Era uma frase pequena, impossível de ser lida de longe. Sem preocupar-se em ajudar a amiga a manter a porta fechada, Melissa desceu os degraus o suficiente para conseguir ler a mensagem. Estava escrito:

Mate-me. É contagioso. Benji.

Melissa gritou. No mesmo instante, Luba caiu ao seu lado, a espingarda voando alguns metros. A luz da lua entrou no alçapão, trazendo consigo a figura altiva daquele que costumara ser Benji. Assustada, a garota começou a arrastar-se na direção da arma, enquanto Luba olhava para o namorado com um misto de medo e surpresa. Ela nunca se sentira assim em sua presença. Aquele não era mais Benji. Tudo de bom que ele fizera com que ela sentisse por todos aqueles anos havia desaparecido.

Um grito alto saiu da boca de Melissa. Ela ergueu a espingarda com sua mão inteira e disparou um tiro na direção de Benji. A bala acertou seu ombro, fazendo com que ele recuasse alguns segundos e então voltasse a seguir na direção de Luba. Outro tiro, dessa vez em seu abdômen. Ele ainda caminhava. Um terceiro disparo, dessa vez acertando seu pescoço. O grunhido se tornou alto, mas ele não parou. Melissa precisava acertar aquele disparo. Sem ter qualquer noção de mira, a garota ergueu a arma e apertou o gatilho. O projétil atravessou o olho esquerdo de Benji e o fez cair no chão.

Melissa caiu de joelhos quase ao mesmo tempo. Luba continuou parada como estátua de sal, encarando o corpo desfalecido do namorado. Ela conseguiu ver a frase escrita bem ao lado da poça de sangue que começava a se formar ao redor da cabeça de Benji. Na cabeça de Melissa, tudo começou a fazer sentido. Aquele era o motivo do monstro não ter matado o asiático quando teve a oportunidade. Ele estava tentando manter seus genes, ou o que quer que fosse, vivos, utilizando o rapaz como hospedeiro. Fazia sentido. Benji era o mais forte deles. Aquele com mais chances de conseguir carregar aquela doença e transmiti-la para outros. Era isso que aqueles malditos nazistas faziam. Era essa a sua maldita Solução Final.

Ao longe, as duas conseguiram ouvir o barulho de sirenes se aproximando. Aquela seria uma história difícil de explicar, Luba sabia. A dor da realidade a atingia como um soco no estômago.

X-x-x-x-x

Melissa mexia com os clipes e elásticos de maneira distraída com a mão saudável. Do lado de fora da ambulância, ela conseguia ver Luba conversando com dois homens de terno e gravata. Eles pareciam ser detetives ou algo assim, embora um deles usasse um discreto broche com um símbolo que parecia ser uma estrela de Davi. Ao ver aquele símbolo, a garota sentiu-se completamente exausta, de uma maneira que nunca havia se sentido antes. Apesar disso, ela conseguia ver e ouvir melhor do que nunca, como se seus sentidos tivessem sido aguçados. Tudo parecia mais nítido.

Do lado de fora, Luba esfregava os braços, como se tentasse afastar, de maneira física, a melancolia que sentia crescendo dentro de si. O sol ainda estava longe de se por, mas a sensação era de completo desolamento. A garota conseguia entender o que aqueles homens falavam, mas ela não se importava com nada daquilo. Eles que lidassem com as consequências daquela descoberta nazista. Tudo com o que a garota se importava era com a morte de seus amigos. A morte de seu amor...

— Eu imagino como você deve estar se sentindo, senhorita. Eu realmente imagino. — O homem com a estrela de Davi falou. — Mas isso é muito importante. Nós precisamos obter o máximo de informações enquanto a sua memória ainda está fresca. Sua amiga não parece capaz de dizer qualquer coisa.

Pobre Melissa, Luba pensou. A amiga estava deitada e sedada dentro de uma ambulância, enquanto paramédicos tentavam lidar com o sangramento de seus dedos. A garota, porém, não compreendia porque ela ainda não havia sido levada até um hospital. Se eles continuassem ali, Melissa poderia acabar morrendo. Mas então Luba compreendeu. Revisando a história em sua cabeça, tudo fazia sentido. Aqueles homens sabiam com o que estavam lidando. Especialmente aquele com a estrela judaica em seu colarinho. Aquele era o seu trabalho. Buscar ameaças nazistas em pleno século XXI.

Os olhos de Luba encontraram-se com os de Melissa uma última vez, e ela viu imediatamente quando tudo aconteceu. A luz da lua iluminava o vidro da ambulância e tudo parecia mais claro do que nunca. Em um único segundo, os olhos da amiga tornaram-se completamente brancos. Ela estralou o pescoço como se estivesse se ajustando ao seu novo corpo. O fraco sorriso em seu rosto não era mais o de Melissa.

Fim (?)

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