Notas iniciais
Fiquem a vontade em ler.

– É a segunda vez que você aparece nessa semana – diz uma jovem mulher, com cabelos longos e coloridos em azul e roxo. Seus olhos estavam presos no rapaz ao qual se dirigiu; orbes azuis e brilhantes, acompanhados de um sorriso simpático.

O rapaz suspirou e olhou em volta. Não gostava de multidões, mesmo em um restaurante, em que as pessoas ficavam agrupadas em suas mesas e havia espaço para se locomover pelos ambientes. Ele sorriu levemente para a jovem, que se virou e seguiu caminho até uma mesa distante da entrada.

– O que lhe traz aqui, querido James?

– Meus dias de folga – Ela sabia que não era por isso, mas James não gostava de dizer os motivos reais que lhe levavam aos lugares.

Os olhos dela decaíram sobre ele por alguns milésimos de segundos, mas fora o suficiente para James perceber que ela sabia o real motivo. Ele nunca conseguira esconder nada dela, mesmo depois do ocorrido.

Ambos se sentaram a uma mesa. James teria sido cavalheiro em ajudá-la a se sentar, mas ela brigaria com ele, dizendo que não precisa de ajuda pra sentar, pois não estava inválida e cavalheirismo era algo inútil ao seu ponto de vista. Ele ainda se lembrava de quando a jovem recebera flores e não as jogou fora por achar um desperdício, mas odiou a regalia vinda de um senhor que a cortejava fazia anos.

– Diga-me, está aqui para me levar?

Com a jovem iniciando a conversa direto ao ponto central, James não teve escapatória e nem poderia usar sua arte da embromação.

– Não tenho essa autoridade – ele cruzou as pernas folgadamente e olhou para o palco em que jovens tocavam violino. – Mas você deveria comparecer quando eles fazem um pedido.

A jovem sorriu e estendeu a mão, pegando uma taça de vinho tinto da bandeja que o garçom acabara de trazer. James deixou-se ser servido e viu o cardápio sendo posto a sua frente. Ele não tinha o menor interesse em comer, mas uma bebida não faria mal, ainda mais com a mulher com quem se encontrava.

– Diga ao Conselho que não quero mais receber memorando para ir vê-los. Não foram eles mesmos que me expulsaram? Por que me querem agora?

Ela bebericou o vinho e James observou os modos dela. Era uma mulher em plena juventude. Qualquer homem que a visse se sentiria no mínimo atraído, outro poderia cair de amores se fosse sensível a sua beleza – Não era exagero o rapaz pensar dessa forma levando em consideração que a mulher, com quem ele estava dividindo a mesma, não era apenas linda, mas dotada de muitos mistérios e uma história inteiramente escrita na força e coragem.

– Não deveria ignorar. Eles continuarão a mandar mais memorandos caso você não responda.

– Não devo nada a eles. Pelo contrário – ela deixou a taça sobre a mesa e olhou diretamente para James – Foram eles que me tiraram tudo e me deixaram a mercê pela vida. Tive de reconstruir minha vida.

“Claro” pensou James. Ela não era apenas uma simples mulher. Um dia fora uma pessoa altamente influente na sociedade em que vivia, mas seus dias de glória acabaram depois de uma escolha que todos julgaram errada.

– Ainda está a procura? – James decidiu que era hora de beber um pouco do vinho. Não tinha lembranças agradáveis da última vez que o tomara, porém não pretendia passar de uma taça naquela noite.

– Sempre estive, porém não posso rastrear por sangue. Se eu tentasse, eles tornariam minha procura mais difícil do que é.

James concordava com o receio dela. O Conselho era capaz de tudo para manter seus interesses e ela não estava nele e muito menos suas vontades. Era cruel a forma como uma organização trabalhara para ajudar a todos, mas que um dia se vira contra a quem deveria ser apoiado.

– Eu poderia fazer por você, Estela. Consigo encontrá-la...

Ela levantou a mão e James parou de falar.

– Não se arrisque. Isso foi algo que causei e preciso terminá-lo. Apenas siga seu caminho. Aceito que venha me visitar e faça companhia a essa alma atormentada, mas não se intrometa em coisas que só cabem a mim.

O clima estava tenso, porém James não seria calado pela vontade de Estela. Ela queria resolver por si só, mas desde que fora expulsa do Conselho, perdera privilégios e o direito de fazer o que quisesse.

– Você assim como eu temos a eternidade pela frente. James, você tem o mesmo olhar que eu tive alguns anos atrás. Imortalidade não é algo benéfico para seres como nós, que fazemos nossas próprias escolhas.

Os pensamentos de James voaram para um tempo antigo, onde ele andava pelas trilhas na mata, acompanhado de uma garota com seus dezesseis anos. Ele não queria relembrar e por isso bebeu mais um gole de vinho.

– Quando perceberem que você não envelhece, questionarão o motivo. Estela, você, na aparência, tem a mesma idade que a minha.

– Os dias de hoje são fáceis de viver. Diferente da Idade Média, em que minguávamos atrás de comida – James se lembrava bastante desse tempo. – A imortalidade lhe foi dada. A minha continua como castigo para eu viver como humana e me lembrar de que errei. Quando minha idade tiver de ser mudada, farei. Não se preocupe, criança.

Ela nunca o chamava de criança a não ser quando queria transmitir imposição ao seu desejo. Sem forma de contrariar, James aceitaria, como sempre fazia toda semana desde que começara a freqüentar o restaurante dela.

– Não sou criança.

– Todos são crianças diante a mim – ela se levantou e ajeitou o vestido. – Preciso ir. Hoje eu canto para meus clientes. Fique e me escute. Pode pedir o que quiser a conta já está paga por mim.

Uma moça surgiu e sussurrou ao ouvido de Estela, que saiu em direção a uma porta. Ela olhou para James e seus olhos se cruzaram.

– Não deveria voltar aqui. Sempre que aparece, ela não consegue ser a Estela que sempre foi.

– Estela pode confiar em você, mas eu não. Sabemos muito bem o que somos e não permitimos confrontos, mas se você sair da linha...

Ela aproximou-se, confrontando-o de frente e quase na mesma altura.

– Preconceito por eu ser meio demônio? – Ela tocou no braço de James e ele sentiu o lugar formigar e surgir um desejo de continuar a olhar a moça, porém ele sabia que era induzido.

Afastando-se dela, ele tirou algumas notas de valores altos e deixou embaixo do cardápio. Sabia o que Estela pensaria sobre aquilo, mas James vivia a vida de sua forma e não gostava de favores dos outros, mesmo que fossem coisas pequenas.

– Se quer ajudá-la. Não venha mais aqui.

Com a moça saindo, James ficou algum tempo em pé, vendo a melodia suave da voz de Estela. Ela cantava alguma música que ele desconhecia, mas sentia cada palavra em seu corpo. Não era a música que fazia isso e sim Estela, que podia usar a voz para transmitir o sentimento que quisesse. Ele olhou em volta e viu todos sorrindo e olhando para o pequeno palco, assistindo a cantora com sua bela voz.

Ele havia prometido, mas tinha lacunas que não aceitava. O Conselho tinha uma história para a expulsão de Estela, enquanto ela própria contava outra completamente diferente. As duas tinham o ponto central certos, porém Estela não foi excomungada por ter se aliado a um demônio, mas por ter aceitado ele em sua vida. James não conseguia entender como alguém poderia se apaixonar por esse tipo de criatura, mas talvez fosse da mesma forma que se apaixonavam por anjos.

Sorrindo ao se lembrar de Lisa, saiu do restaurante e seguiu caminho até seu apartamento do outro lado da cidade. O percurso era longo, mas ele tinha a noite toda e queria relembrar somente os melhores momentos, antes de fazer o que pretendia. Tinha algumas coisas que queria experimentar antes de seu fim.

Talvez fosse o começo da vida que ele queria antes de ter ganhado sua imortalidade. O destino era algo misterioso pra ele e não pretendia confrontá-lo, mas fazia anos que via Estela fingindo felicidade e queria fazer isso antes de partir para sempre.

“Esse vai ser meu presente pra você, Estela Seles, Primeiro Escalão dos Ceifeiros”.

Com um sorriso bobo no rosto, James vagou pelas ruas, cantando uma canção que aprendera quando criança, cantada por sua mãe.

Notas finais
Espero que tenha sido do agrado
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.