Espelho

Naquele tempo, eu era você...

Como se ser alguém fosse fácil.

Como se a roupa saísse de um mesmo armário.

Como olhar num mesmo espelho...

E enxergar dele o reflexo,

Não tão complexo, de fato,

Mas amargo ao compreender o fardo,

De carregar um destino entrelaçado,

Pelo olhar que se encontrara no espelho.

Só vejo beleza quando acaba Fevereiro...

Você entende como a minha alma mente?

Ou tenta adivinhar minhas meias-verdades?

Será que entre nós existe vaidade?

Ou as palavras que sussurramos são nada mais que saudade?

Enfim, a vida imita a arte.

Pois certezas não se concretizam parte a parte...

Elas fazem sentido no contexto,

Da caneta hidrocor que substituiu o marca texto.

Uma história sublinhada e sublevada.

Pelos personagens secundários que criei,

E que, com seu aval, deixei...

Se espalhar e reproduzir.

Não há sentido em reprimi-los...

Deles sairão palmas que iremos ouvir.

No fim de nossa pequena peça de teatro,

Entre espelhos.

Em um set escondido na região metropolitana,

Corvos crocitam numa demente dança,

Enquanto o vento cobre de poeira o ouro das maçanetas.

A porta está trancada, apesar de o show estar lotado...

Tragam-me o último público da noite,

E irei dizer adeus a essa vida de artista.

Que finge a dor enquanto morre lentamente,

Chora lágrimas falsas enquanto os olhos secam deprimentes...

Conquistei meu lugar ao seu lado,

Eternizado para sempre em uma falida peça de teatro.

Entre espelhos...

Era pra ser um soneto?

Ou um monólogo?

Deveria contar sobre paixões?

Ou exemplificar ilusões?

Eis o adeus do palco...

Cansei de atuar ao seu lado,

Como o palhaço do circo,

Calado e sem graça,

Frente a um reflexo de um espelho mudo.

~Gabriel.