1997

Nasci das cinzas de um antigo livro escrito pelo tempo...

Cresci com os ressoantes tambores que cortavam o fino vento.

Andei sob um céu estrelado que me guiava através da Lupus.

Conheci alguns mistérios escondidos profundamente sob o oceano.

Acolhi as olheiras das noites sem sono e sem sonhos.

Perdoei os causadores de minhas próprias dores,

Mas vinguei aqueles que um dia trouxeram-me flores.

Sobrevivi em uma selva cinza de pó e concreto.

Cacei como um caçador sedento nos dias de fome.

Plantei meu futuro em uma terra árida,

E colhi seus frutos com força ávida.

Encontrei as pedras que atirei pelos caminhos,

E despejei-as no rio que ao meu lado corria vivo.

Eu almejei as cartas que em outro tempo foram minhas,

Mas que nesses pertenciam à minha concubina.

Atravessei desertos, savanas e florestas.

Deitei-me sob a árvore célebre, com os olhos sempre alertas,

E provei também a maçã proibida.

Viajei para o mais longe, esperando encontrar o que estava perto.

Errei meus erros de garoto incerto.

Aprendi com o tempo os diversos dialetos,

E esqueci-os quase todos, decerto.

Amei algumas garotas que me pareceram perfeitas,

Mas compreendi o quão tolo é tentar encontrar a perfeição,

Em uma raça tão estranha como a nossa.

Enxerguei a última fronteira entre a ignorância e a razão,

E então vi que um dos lados estava deserto.

No fim, eu vivi a tudo que era necessário viver...

Através de letras escritas em um papel,

Que alguns sábios chamaram livros.

E isso fora suficiente para entender,

O complexo plano por trás de sobreviver.

Talvez por isso eu queira viver...

Pois viver é a essência do meu conhecer,

É a primazia do meu saber,

A veemência do meu querer.

Para assim criar o meu verdadeiro mundo,

Onde vivo sob céus de um estranho azul profundo.

~Gabriel.