The Fallen Of Light
25 Queda
Notas iniciais
— Não importa quantas vezes você volte, L. No fim a minha Justiça sempre vai vencer e você é descartado do jogo. Simples assim.
(...)
(Light)
Apesar das circunstancias alarmantes em que eu me encontrava, eu me sentia razoavelmente bem. Eu tinha meu caderno, o que garantiria o seguimento dos meus planos. E eu tinha Near, que bloqueava qualquer tentativa impensada de seu mentor de resgatar o caderno á todo custo, pois sabia que o preço seria mais sangue derramado. Sob meu punho, o coração do garoto palpitava fortemente, inundando o quarto com seus nervosos sons cardíacos. Esconder desespero com um ódio requintado era um talento que ele dominava.
Talvez eu nunca pudesse me livrar de L realmente, mas se isso significasse ele ficar assistindo minha ascensão sem poder fazer nada, então não era tão ruim assim. Era até gratificante ver a batalha da indecisão nos olhos dele.
Segundos se arrastaram enquanto L ainda tinha a mão no peito com uma luz branca escapando entre os dedos.
— Seria sensato mandar você ir embora com o pretexto de que se for, eu livraria o garoto da morte. Mas eu sei que você vai saber que isso não passaria de um jogo, é muito óbvio para ambos que não existe salvação para ele, do mesmo modo que não houve para você.
Se ele teve alguma reação com o que eu havia dito, como sempre, não demonstrou. Ao invés disso, deu um passo.
— Você não vai matá-lo. – disse, mas para minha surpresa as palavras não soaram nem um pouco ameaçadoras, mas sim como algum tipo de lembrete óbvio que eu havia esquecido. Consegui não franzir o cenho e manter minha satisfação estampada no rosto.
— Não contaria com isso se fosse você.
— O único motivo dele ainda estar vivo é que você tem um fio de esperança de que isso me afastaria do caderno e de tudo o mais. Sabe que se o assassinasse agora eu não teria nenhum impedimento de caminhar até você e te destruir agora mesmo.
Era tão odiável quando ele jogava meus pensamentos contra mim. Dois batimentos cardíacos ecoaram e eu sabia que se continuasse em silencio, L saberia que estava certo. Foi então que ouvi um click vindo da direção do garoto. Despreguei automaticamente os olhos do detetive e fitei o sucessor. O ódio de antes fora substituído por sua eterna impassividade. Sua mão pousada na maçaneta já abaixada.
— Apenas perdedores se esquecem dos detalhes. – Near falou. E antes que eu pudesse fazer alguma coisa sensata, a porta no qual suas costas se apoiavam se abriu. Foi o que faltava para o garoto fazer menção de sair desgovernado corredor afora.
Apenas uma tentativa fracassada, pois agarrei-lhe a mão. Ou ao menos a manga chamuscada, que certamente era grande demais para ele. Esse meio segundo de distração foi o suficiente para por tudo á perder. Subitamente, a proximidade de L se fez presente. Mal tive tempo de perceber que meu Death Note me fora tomado por ele quando recebi uma cotovelada pouco abaixo do pescoço. Dei uma leve cambaleada e minha mente ficou enevoada. A manga branca correu para fora de meus dedos.
Era como se pequenos rios de lava serpenteassem por todo meu corpo. Minha energia parecia ter sido ofuscada por uma terrível fraqueza. E então eu soube que a mão dele estava rudemente fixada no meu coração, onde as rachaduras voltavam á se rasgar. Senti um leve empurrão, mas foi o bastante para eu acabar caindo no chão num baque surdo.
Encarei o teto enegrecido e num átimo que pareceu durar uma eternidade, minha mente voltou ao normal. Num salto, fiquei de pé. Ainda podia ouvir os passos deles numa fuga orquestrada. Saí do quarto e no final daquele corredor, eu os vi.
L me encarou e balançando o caderno sorriu em puro desafio.
— Ryuuzaki!- a palavra que resumia todos os meus problemas saiu estrangulada pela raiva.
Sem se preocupar em tirar o sorriso do rosto, ele pegou Near com o braço livre e de repente, numa chuva de cacos, eles atravessaram a janela e se foram pelo céu que começara á nublar.
“... Malditos.”
(...)
Meus punhos se fecharam e não precisei pensar duas vezes antes de sair voando á procura deles. O sol forte estava escondido por grossas nuvens tempestuosas e fiquei surpreso por não encontrar nenhum sinal de L. Era como se tivesse evaporado. Talvez Ryuuzaki pudesse voltar ao seu Mundo do nada, mas tinha certeza de que o garoto ficaria para trás se ele o fizesse.
As nuvens se escureceram desprendendo raios e relâmpagos ocasionais. Parei num campo aberto e enevoado. Debaixo de uma árvore os minutos se passaram com as rajadas de chuva transpassando as folhas. Ponderava onde podia procurá-lo, mas todos os lugares pareciam óbvios demais. Encostei a parte de trás da cabeça no tronco e fitei o céu tempestuoso. Havia ficado próximo de possuir dois Portadores á meu comando e agora não tinha nada.
“Por enquanto...”
Quando baixai os olhos pude distinguir pedaços de pedra lisa flutuando na neblina. Lápides de mármore sendo surradas pela chuva.
Deparei-me com L com sua impassividade nata.
— Já deixou seu filhote á salvo? – zombei.
L alçou voo e uma espada luminosa agora estava em uma das mãos. Antes que eu pudesse ligar o surgimento da arma com a marca negra que antes estava em sua pele, ele investiu contra a mim, lâmina na altura do meu rosto. Em menos de um átimo, desviei para o lado e agarrei o punho e o lancei para longe. Saltei para perto, mas quando seus pés tocaram o chão, ele girou e a espada cortou o ar. Abaixei-me e vi alguns dos meus fios vermelhos caírem diante de meus olhos. Tentei dar-lhe uma rasteira, mas ele já havia se erguido nos ares.
Materializei minhas asas e subi pelo ar chuvoso. Bati as asas com força e parti em sua direção em boa velocidade como um carro desgovernado. Quando cheguei perto o suficiente, desviei do esperado arco feita pela espada e indo para trás dele, puxei suas asas alvas. Antes que ele fizesse algo, girei-o uma vez e o joguei com força para baixo. Seu corpo atravessou o ar e se chocou lá embaixo entre duas sepulturas. Um trovão distante ecoou.
Meus pensamentos estavam desconexos. Sabia que ele era imortal, irônico, mas era. Havia tido todas as provas disso, porém eu não conseguia enxergar outra escolha se não me impelir a atacá-lo. Aterrissei na cratera que ele havia formado quando caíra, mas L não estava mais lá. Gostava cada vez menos de sua habilidade de sumir num piscar de olhos.
Girei o corpo e olhei ao redor. Lápides, sepulturas, árvores, muros distantes e neblina. As coisas passavam em borrões solitários enquanto meus olhos caçavam. A chuva engrossou ligeiramente e dentro da mórbida realidade avistei meu nome.
YAGAMI LIGHT
Encarei a lápide sem reação. Havia flores daqueles que também haviam sonhado com um mundo novo, havia pichações dos que me odiavam. E havia a névoa que parecia mais densa naquele local. Aproximei-me alguns passos, não sabendo exatamente o que estava sentindo. E então estaquei.
Escutei algo cortando o ar e fui para frente, ao olhar para trás pude ver a espada terminando o arco que não me acertou. Ele cravou a lâmina no chão e sem que eu pudesse antecipar qualquer coisa, o detetive se apoiou na arma prateada e marcou-me com um chute no coração. Senti apenas as costas batendo na lápide. Olhei para cima.
— Admirável como as pessoas se sentem tentadas á olhar seus nomes nos cemitérios – comentou. A ponta afiada estava imóvel na frente do meu rosto, podia sentir a eletricidade que ela emanava.
Não respondi. O cerco estava se fechando e não me daria ao luxo de dizer as palavras erradas que fariam com que aquela ponta diminuísse a distancia até mim. Respirei fundo e entrelacei os dedos nas flores encharcadas. Uma ideia aparentemente estúpida surgiu.
Enquanto encarava aqueles olhos escuros, peguei uma única flor. Branca e levemente apodrecida.
— Apenas digamos que você não está vivo o suficiente para julgar outros mortos – falei, e joguei a flor em seu rosto.
Aquela mínima distração já era o suficiente. Ou pelo menos, achei que seria. Levantei-me num salto, mas antes que tomasse a arma, ele desferiu um golpe com o punho de prata me acertando no rosto. Virou a espada e desferiu um golpe reto. A flor que caia foi cortada e quando a ponta atingiu onde ele queria, senti um estremecimento tomar meu corpo.
A espada havia transpassado uma das minhas asas, prendendo-a na lápide de pedra. Um sangue negro agora corria entre as penas e pingavam nas flores quase mortas. Tentei desfazer as asas, mas fora inútil. A dor lacerante quase me fez acreditar que eu ainda possuía nervos. Apertei fortemente os punhos. Vi de relance o detetive cruzando os braços.
Passados alguns muitos segundos, ele se aproximou e puxou a lâmina. Uma torrente de sangue enegrecido despencou e tive dúvidas se morreria de hemorragia. Ele tirou as penas ensanguentadas da arma e apontou a ponta suja para o meu rosto novamente.
(...)
A lâmina fria pressionava pouco abaixo do meu queixo, mantendo minha cabeça erguida me obrigando a encará-lo. Podia sentir o ódio borbulhar feroz em todo meu corpo, minha respiração saía entre dentes em silenciosos grunhidos. Mesmo já sabendo o que aconteceria, não queria pensar á respeito. Não queria acreditar.
Tudo que eu havia feito não valera nada!? Todo o tempo apenas construindo os alicerces de um mundo novo, e morrido por eles não fora o bastante!? A resposta surgiu como um tapa em minha mente.
“Não. Tudo aquilo nunca fora o bastante.”
E ajoelhado ali, a resposta parecia verdade. Eu havia morrido afinal de contas, e minha morte ao invés de me erguer numa revolução, havia me colocado num segundo fracasso. E porque tantos contratempos ocorriam me levando sempre ao fracasso?
“Por culpa dele.”
E enquanto fitava-o, com a mente distante de qualquer possibilidade de fuga, vi alguma coisa nos olhos dele. A crueldade em seu olhar, pouco a pouco sumia, dando lugar á incerteza.
Porque ele hesitava?
Sempre soube que Ryuuzaki não era o tipo de pessoa que perdoava, mas de repente, essa ideia me deu uma sensação de alivio. Se ele hesitava, a ideia de me destruir o atormentava mais do que ele gostaria, o que poderia ser uma forma divertida de escapar daquela situação. Eu ainda não me sentia certo sobre isso, quer dizer, ele havia parecido convencido em matar ao me atacar tantas vezes naquele cemitério. Mas foram vezes demais para ele errar todas. Eu já poderia estar morto se ele quisesse, porém a espada sob meu queixo estava forçadamente sem uso.
O que poderia ser aquilo senão a primordial incerteza de matar?
Eu poderia enganá-lo e tomar a espada e o caderno. Iria despistá-lo e logo em seguida encontrar um bom Portador e dar-lhe o Death Note como presente. Era tão simples.
— E depois de todo esse tempo você é incapaz de matar- falei, escondendo minhas emoções na voz.
Para minha surpresa, um sorriso se desenhou em seu rosto.
— Com todas as almas que seu rei possui, não demorará até ele transformar outra pessoa num shinigami, recomeçando tudo. Poucas pessoas podem ter seu entusiasmo em criar verdadeiros massacres, mas suponho que a maioria os faria se isso os fizesse sair do Vazio.
— O que quer dizer!?
— Não vou permitir que esse ciclo continue. – a voz era cuidadosa.
Jogou o caderno na minha frente e desceu a ponta da espada, perfurando-o.
(...)
Quando a lâmina foi retirada, algo entre fumaça e líquido negro saiu do rasgo. Formou um redemoinho á nossa volta, uma verdadeira roda de massa preta. Nossos cabelos voavam com a ventania. Vi o Death Note abrindo suas páginas furadas. Ele folheou-se rapidamente e as páginas voaram em círculos. De súbito, elas caíram como chumbo. Pegaram fogo e todo o redemoinho de massa escura foi sugado pelas chamas. O cemitério ao nosso redor ficou novamente visível e um buraco avermelhado se formou onde as páginas haviam se queimado.
— Deve gostar de saber que todas as Almas escritas no caderno foram livradas da posse do Rei Shinigami e banidas pro meu Mundo. A destruição do caderno ás tirou do Mundo Shinigami – balançou a cabeça – Ozaru não deve estar nada feliz.
Ele me pegou pelo braço e obrigou-me a ficar de pé. Levou-me até o buraco avermelhado. Meus pensamentos pareciam congelados. Tudo havia ficado muito mais que pior. Pior seria um elogio. Porque em minha frente, eu via apenas o nada. Todos os meus planos de sair daquela situação convergiram em nada. Sem meu caderno não havia um mundo restaurado e eu duvidava que Ozaru me desse outro se visse meu... Fracasso. E eu sabia que seria difícil roubar um, já que minha existência estava mais ameaçada do que nunca. Não via a espada em lugar nenhum, mas de alguma forma isso acentuou a sensação de fim que me tomou.
Olhando para dentro do buraco, percebi que era um portal. Havia sombras ao fundo. Ainda sentia dor, o sangue ainda gotejava. Era como se uma parte de mim havia sido queimada junto com o Death Note. Bastou apenas um toque ligeiramente mais forte nas minhas costas vindo de L, para eu me ver despencando naquela realidade vermelha.
(...)
Aterrissamos num chão rochoso. Me levantei com dificuldade. As rochas se estendiam numa amarga planície. Apenas o céu carmesim e o chão cinza. Infinitamente. Olhei para trás e vi L olhando as redondezas, provavelmente se situando. Minha atenção foi atraída pela paisagem atrás dele. Muito ao longe, a cor vermelha do céu se desbotava, dando lugar á cores infinitas. Jurava que podia ver constelações de estrelas no meio daquela aquarela celeste. Encarei de novo o lado oposto. Vermelho e rochas.
Com certeza poucas pessoas escolhiam o caminho das rochas.
— Esse é meu Mundo antes que pergunte.
Fingi surpresa.
— Então é lá onde você comia doces pela eternidade enquanto torcia pra Mello e Near me matar? – disse fitando o céu colorido ao longe.
— Estamos no Sul, bem distante dos moradores. Então não se preocupe, ninguém vai te obrigar a tocar uma harpa.
A vontade de ir até lá desvaneceu quando me senti ainda mais fraco. O frio daquele lugar me encobriu e parecia levar o resto de minha energia embora. Mal tive força para impedir que L me arrastasse pelas infinitas rochas, absolutamente longe da passividade dos lugares adornados pelo céu fantasioso.
A caminhada foi realmente longa. E penosa. Cada vez mais me sentia cansado e derrotado. L havia murmurado que o tal Mundo dos Arcanjos era tão terrível para mim quanto o Mundo Shinigami era para ele. Havia ficado em silencio. Com o tempo, uma subida estrondosa apareceu. Subimos nela.
Quando a longa subida íngreme acabou, o chão rochoso caía num obscuro abismo. Conseguia ouvir o som longínquo de água corrente lá embaixo. Deixei-me cair de exaustão. Minhas costas bateram nas rochas negras e suguei uma respiração queimante. Olhei o céu avermelhado com nuvens cinza espalhadas. Ao longe ouvia assovios soprados pelo vento quente. Com dificuldade me sentei e bem distante, além da borda do penhasco, havia uma ilha. Não tinha muita certeza, já que mais parecia um pedaço negro que surgia da água vermelha. Naquela região, o céu se avermelhava tanto que parecia uma bolsa de sangue prestes a rasgar.
Recordei-me da presença de L e senti certo amargo. Estava de pé ao meu lado, fitando o ponto escuro da ilha com seriedade. O Mundo dos Arcanjos iria certamente me dar um fim se ficasse por lá. Mas eu não sabia como podia voltar e mesmo se soubesse, L não facilitaria as coisas pra mim. Ele provavelmente queria dar o troco na mesma moeda.
— Não me matou quando teve a chance só pra me assistir desfalecer lentamente?Uma boa vingança vindo de você.
Sua cabeça baixou um pouco, mas seus olhos permaneceram fixos no horizonte carmim. Não disse nada.
— Você conseguiu sobreviver aquilo de alguma forma, então acho que posso sobreviver também. – continuei, percebendo a lógica.
Ozaru jamais o deixaria sair do Mundo Shinigami. Antes de ter ido embora, tinha certeza que L desfaleceria em segundos, isso era certo. Mas ele escapou, o que me deixava com a mínima chance de que poderia escapar também. Mas se ele sabia disso, porque se deu o trabalho de me levar até lá?
— Você está certo – respondeu de repente – Esse mundo não te afeta como afetaria um shinigami normal.
— Então porque estou aqui? Por acaso me perdoou e resolveu me deixar aqui pra tirar férias!?
Isso o tirou de seu estado impassível.
— Está vendo aquela ilha? – perguntou serene.
Assenti confuso.
— Lá tem um portal que leva para Geena. Inferno se preferir.
(...)
— Você não pode! Não faria isso...
Me levantei recuando, sua expressão nada convidativa. Nunca tinha nem ao menos imaginado que as coisas chegariam aquele ponto, era improvável demais. Mas era real, tremendamente real. A única solução possível seria uma fuga, já não era mais uma questão de covardia e sim de sobrevivência. Porém, a cada segundo o resto de minhas forças se esvaiam e eu duvidava que conseguisse ir muito longe. Talvez eu pudesse me afastar apenas por tempo suficiente de desvanecer e me tornar um fantasma. Era a melhor opção do que ficar trancafiado numa dimensão feita de sangue, não é?
— Nunca diga que eu não posso fazer alguma coisa, Kira. É por esse erro recorrente que está aqui. — cruzou os braços.
Lá embaixo, a arrebentação das águas contra o rochedo se enfureceu. Me atirar naquela escuridão molhada parecia uma saída abrupta de tudo aquilo. Apertei os punhos enquanto olhava o horizonte. Há alguns dias meus sonhos eram muito bem tangíveis e agora diante das ruínas fugir como um perdedor era o que restava. E toda a culpa sempre girava no mesmo ponto, rodopiando onde o detetive estava. Como se toda sua vida tivesse sido feita para o único propósito de me derrotar. Até quando tudo havia acabado para ele, L não parou. Sempre continuava, nunca desistia e vendo-o tão impassível com minha possível estadia no Inferno, quase sentia pena dele. Aquele ódio passou a ser tão costumeiro que eu passara a enxergar o quão débil era tudo aquilo. Ter como único objetivo derrotar alguém que sempre parece inatingível... A maioria das pessoas desistiria, mas ele não era uma pessoa comum. L gostava de vencer. No alto do penhasco estava só cumprindo seu dever? Ou algo mais profundo, uma vingança escondida?
Não importava. Ele não era um herói apesar de tantas tentativas de se tornar um. Encontrei seus olhos me analisando.
— Deve estar pulando de felicidade por dentro. – fiz questão de demonstrar minha frieza.
— Na verdade, não.
— A única coisa que eu queria era um mundo melhor. Fazer com que os bons não sofressem, mudar o mundo pra isso...
— Mas foi ele quem te mudou.
— Você é sempre assim. Na sua concepção não passo de um assassino, e você tem medo que eu não seja só isso. Tem medo de errar.
Sua expressão rebelde não concordava em nada com minhas palavras. Não sabia ao certo do por que dizia isso, provavelmente a chance de tudo acabar com uma imagem de mim unicamente sanguinolenta não parecia certo. Queria de alguma forma explicar, não por me importar com que o detetive achava, mas por mim mesmo.
— Não é mais uma questão de estar certo ou errado – ele retomou.
— Finalmente disse algo não-desperdiçavel.
Ele nada disse. Baixou a cabeça e eu também. O frio serpenteava por minha pele e por debaixo dela. Meus cabelos, agora palidamente vermelhos, balançavam com a ventania. L jamais admitiria a mínima possibilidade de eu ter tido razão. Ou ao menos, parte dela. Talvez até ele tivesse, uma parte realmente bem menor de razão, mas tinha. Uma razão ilusória que ele se agarrou até depois de morrer. Era estranho pensar nisso.
Quando se sabe que o fim está próximo, você passa á pensar por outros meios. Mas eu sabia que se tivesse outra chance, provavelmente repetiria tudo de novo. Salvo é claro, que numa outra chance, eu certamente conseguiria o que desejava. Um sorriso fraco escapou de meus lábios.
— Sabe, você disse á pouco que me levaria ao Inferno, mas ao invés disso, está parado. Pensativo. Se realmente quisesse me ver arder, eu já estaria lá.
— As pessoas não ardem. Elas não têm um corpo, seria impossível...
— Lawliet, você sabe o que quis dizer.
Estreitou os olhos ao ouvir o próprio nome falado por mim. Depois, retomou a inexpressividade latente.
— Se pudesse viver de novo, faria alguma coisa diferente?
Consegui não arregalar os olhos de surpresa. Ele não era um telepata, mas era fácil deduzir os pensamentos de alguém está no fim, seja ele metafórico ou não.
— Na verdade, sim. – encontrei seus olhos – iria me comprometer a não ser pego de novo.
— Certifique-se de ficar longe do Matsuda. – seu meio sorriso era um misto de uma maldade e travessura.
Desviei os olhos. A vermelhidão do céu parecia estar mais profunda, jurei poder distinguir pontos pequeninos nas águas escuras que se assemelhavam a barcos. A pergunta dele significava algo que eu queria ter certeza. De repente, um outro caminho se formava a diante. Eu poderia tramar contra ele, me aproveitar de sua fraqueza. Mas meus pensamentos foram redirecionados para um lugar diferente, inexplorável. Eu havia perdido o Death Note, estava perdendo minha identidade de Shinigami e em breve perderia a liberdade. Minha revolução sucumbiu. E então, no meio da escuridão, uma possibilidade surgiu. Não uma luz, mas uma possibilidade igualmente atraente.
O que eu faria a seguir? Nunca havia pensado na ideia de renascer e diante dela, parecia ser a solução óbvia. Como se á todo momento ela estivesse lá, só esperando para ser usada. Iria ter a chance de me vingar apropriadamente de L? Ou iria agradecê-lo?
Meu Novo Mundo se desenhava diante de meus olhos. E por alguma razão, tinha certeza que L sabia o que se passava na minha cabeça. Mas eu ignorei. Ignorei também o fato de ser quase impossível ter a sorte de apanhar um caderno caído do céu de novo. O que importava era viver. Viver era o começo, viver era o ponto de partida para um mundo novo.
— Você não vai se lembrar de nada – a fala de L me arrancou do meu próprio arquétipo. Porém, minhas próximas palavras vieram naturalmente.
— Não importa. Serei o mesmo, porém humano. Você é proibido de interferir na vida humana, Anjo Detetive.
— Nate River ainda está vivo. E você pode não ser o único á voltar, Light.
Antes que eu pudesse responder, senti um golpe frio nas costas. Depois, senti as rochas deixando meus pés, as águas se aproximaram. A encosta corria e cada vez mais se escurecia. O mar ônix chegou perto e entrar nele não foi uma lasca de gelo como imaginei.
Suas águas eram mornas. Era confortável. Parecia não ter fundo, mas era bom. Não era preto, mas esverdeado. Ao longe, eu via outros mergulhando esperançosos. Então, distingui coisas dançando na água. Eram brancas como neve e deslizavam em ondulações antes de se queimarem.
Quando as penas se desintegraram em farfalhos brilhantes, minha mente ficou escura. Mas não sem antes ter a certeza de que depois de tudo, um certo detetive ainda não desistira de tornar minha vida um pouco mais difícil.
Ou mais interessante.
終わり
THE END
Fale com o autor