The Fall of Dead Minds
11 Capítulo X
Notas iniciais
Clint se arrependia dez vezes de não ter concordado com a anestesia. A sensação de ter sua pele e carne se regenerando em alguns segundos, quando o certo seriam semanas, era tão pior quanto a que sentiu tendo a carne ferida.
— Eu disse que a dor era horrível — Bruce sussurrou, sem tirar os olhos do ferimento.
Seu estômago se contorcia e a sala girava de maneira violenta, como se estivessem dentro de um globo de neve de uma criança. Podia sentir o gosto do vômito na língua.
— É uma versão do Extremis mais simples e menos... Explosiva. Só regenera pequenos ferimentos, não partes inteiras e as chances de ser rejeitada são muito menores.
Clint fazia esforço para ouvi-lo por cima do chiado dos ouvidos. Achava que já tinha sentido dores horríveis, mas nada se comparava.
— A dor vai passar logo. Você vai ficar enjoado e vai se sentir um pouco febril. Mas é apenas momentâneo, eu acho — Bruce enfaixava a coxa do amigo com cuidado, sabendo da sensibilidade da pele machucada. — Você é basicamente a primeira pessoa em que testo isso de verdade, todos eram apenas cortes bastante superficiais. Então, qualquer coisa anormal que sinta, quero que me relate.
Clint assentiu e, em seguida, apagou.
Acordou em seu quarto, usando algo como um pijama. Sentou-se com dificuldade, tentando manter a perna dolorida reta. Tinha a língua pegajosa e a garganta seca como o deserto. Um copo e um comprimido o encaravam no criado mudo e ele os engoliu rapidamente.
Sentia-se dopado e turvo, sem conseguir colocar pensamentos numa linha do tempo. Pegou o celular sobre o criado mudo e conferiu as horas. Tinha dormido por seis horas.
— Bom dia agente Barton — J.A.R.V.I.S falou.
— Bom dia — resmungou.
— Tomei a liberdade de avalia-lo enquanto dormia para checar como seu corpo reagiu ao Extremis.
Clint arqueou uma sobrancelha quando esfregava os olhos. Um par de muletas o esperava perto da cama.
— Algum problema?
— Pressão arterial e sinais vitais normais. Não há nenhuma evidência de alteração negativa; o Extremis foi aceito com sucesso por seu organismo. Devo informar Dr. Banner a respeito?
O arqueiro concordou e o sistema não disse mais nada. Levantou-se e ignorou as muletas, mancando em direção ao banheiro. Quase podia andar normalmente.
Despiu-se e retirou as faixas com delicadeza, para logo depois encarar a pele sensível. Já não existia mais nenhum ferimento ali, apenas uma cicatriz rosada e uma dor latente, mas branda no local. Fez um lembrete mental para agradecer a Bruce pela ajuda.
Tomou um banho rápido e depois de se vestir, sentou-se na cama, pensando.
Onde estavam se metendo? Já haviam enfrentado tantas coisas, todavia fracassavam para alguém que ainda nem sabiam quem era. Suas defesas, seus métodos, o jeito Vingadores de lidar com as coisas estava falhando miseravelmente.
Clint esfregou o rosto, tentando tirar o peso daquela preocupação em sua expressão. Estava cansado, porém sem sono. Tinha algo em mente e sabia que precisava fazê-lo.
Ergueu-se determinado e passou reto novamente pelo par de muletas. O remédio já fazia efeito, a dor era apenas uma lembrança a cada passo e ele não queria aparentar esse nível de fraqueza enquanto estivesse morando com “deuses”.
Mancou pelo corredor até o elevador. Forçou a memória e apertou o botão do andar.
Não sabia se batia ou se entrava sem se anunciar. Resolveu bater e Natasha apareceu à porta rapidamente, porém sua expressão não foi a que ele esperava.
— Atrapalho? — perguntou, enfiando as mãos nos bolsos.
— Oi.
Em resposta, Steve surgiu atrás de Natasha e cumprimentou o arqueiro com um aceno, enquanto passava por ele, rumo ao elevador.
— Continuamos depois — disse ele antes de entrar no elevador.
Barton arqueou a sobrancelha.
— Visitas?
— Não seja estúpido — deu passagem para que ele entrasse. — Pensei que estivesse numa cama lamentando pela sua perna... Mas você nem está mancando.
Clint olhou para onde ela olhava, para a coxa coberta com a calça jeans.
— Bruce aperfeiçoou o Extremis — explicou.
Ela ergueu uma sobrancelha antes de se virar para fechar a porta.
— Espero que você não exploda — comentou.
— Eu também.
Natasha andou na frente dele e sentou-se num sofá escuro, indiferente ao olhar dele em si. Clint seguiu seus movimentos e acomodou-se.
— Tudo bem? — perguntou por costume; era sempre o que fazia após lutarem.
— Só preocupada. Acho que estamos pegando a merda com as duas mãos.
Ele assentiu, coçando o queixo.
— Thor foi surrado por um deles. Quase agradeço por ter tido apenas um ferro fodendo minha perna.
Natasha nada disse, mas era o que pensava. Um silêncio se instalou e Barton não conseguia quebrá-lo, pensando no que os dois poderiam estar fazendo anteriormente nesse mesmo sofá.
— Eu soube.
Ela franziu o cenho, todavia sabia do que ele estava falando. Ele não resistiria a mais uma briga.
— Sobre você e Steve.
— Pensei que não importasse — declarou apática.
— Porque faz tanta questão de tornar tudo tão difícil? — Clint esfregou o rosto.
— Por favor, Clint. Você já não está saturado disso? Somos apenas cacos do que sobrou, e ainda tentamos nos ferir com eles; é ridículo.
Silenciaram-se. Ambos não sabiam o que dizer agora. O moreno se ergueu.
— É estranho... — Natasha começou, chamando a atenção de Clint que já ia em direção a porta. — Antes podíamos ser qualquer coisa... E agora, não somos nada.
— Não faça pouco caso do que fomos, Natalia. Ainda somos muito mais do que éramos antes de sermos nós.
Natasha se levantou e as palavras de Clint pareciam ter acendido um pavio imaginário.
— Nós nunca deveríamos ter tentado — concluiu amargurada.
Ele a olhou pela última vez antes de sair e não sentiu vontade de respondê-la. Aquilo ainda não tinha terminado.
Clint não pensou duas vezes: seguiu para a garagem, em busca de sua moto, para tomar rumo a um bar.
— Agente Barton, o jantar será servido em minutos — anunciou J.A.R.V.I.S.
— Eu irei comer fora.
Não se importava com o que os outros pensariam. Eram seus colegas, que tirassem suas próprias conclusões, diferença não faria. Naquele momento, só não queria pensar.
Foi a primeira vez em muito tempo em que Clint se permitiu chorar.
Ж
Com o passar dos anos, Steve descobriu que uma das principais qualidades de um soldado e até de um homem, era ser observador. Notar algo diferente no ambiente, independente do que fosse, era questão de vida ou morte.
Primeiro, a ausência de Clint no jantar. Ele parecia muito magoado nos últimos dias e ainda mais quando o viu hoje à tarde, saindo do apartamento de Natasha. Pensando bem nisso, não se impediu de sorrir. Não gostava de ser motivo de intriga ou coisa assim, mas agora era sua vez de tornar as coisas interessantes.
Thor também estava ausente, mas de espírito. Em seu rosto, podia-se ver o quanto estava intrigado. Comia sem prazer — o que era verdadeiramente estranho, já que o costumeiro era que repetisse, pelo menos, umas cinco vezes, todas regadas a elogios. Vigiava o irmão com olhos de águia; contudo Loki parecia muito mais maravilhado com seu purê de batatas e ervilhas para se importar com Thor.
Natasha estava mais silenciosa que o habitual. Não retrucava os comentários idiotas do Stark e nem reclamava do tempero fraco. Apenas se alimentava em silêncio.
Já Tony e Bruce comiam e conversavam como normalmente, em sua própria bolha de conhecimento, aparentemente alheios as diversas circunstâncias que os rodeavam.
— Alguém pode me alcançar o sal? — Steve pediu e apesar de estar rodeado por seus colegas, foi como falar sozinho. — O sal, alguém?
Loki ergueu a cabeça e olhou para os lados, procurando pelo saleiro. Estava na ponta da mesa, perto de Tony. Com os olhos, moveu-o até a mão de Rogers, que o mirava um pouco espantado. Não estava acostumado com saleiros voadores.
— Obrigado — seu agradecimento soou mais como uma interrogação, porém Loki dispensava qualquer tipo de gratidão vinda de algum dos Vingadores.
Salgou sua salada e jantou sem se importar em ser deixado sozinho na mesa, restando apenas Loki a algumas cadeiras de distância, que já terminado sua refeição há algum tempo.
Steve passou a recolher os pratos e Loki o ajudou, o que foi muito estranho para o Capitão.
— Minha mãe me ensinou a ter modos à mesa — pronunciou, incomodado com o olhar do homem.
Ambos ajudaram um ao outro a levar a louça até a cozinha onde a própria Torre e suas mordomias tecnológicas se encarregaram de lavar, limpar e arrumar todos os lugares da Torre.
— Capitão? — Loki chamou.
Steve virou-se e o outro parecia encabulado.
— Onde posso conseguir um pouco daquela coisa gelada com gosto de morango? Acho que se chama sorvete.
Fale com o autor