The Evil Within

28 O ponto fraco de Victor



Victor trouxe uma pilha de livros para Yoongi, falando com entusiasmo enquanto fazia um breve resumo de cada um. Sua animação era quase infantil, como se estivesse compartilhando um tesouro. Yoongi, por outro lado, apenas o observava, tentando entender como alguém podia ser tão ingênuo — ou fingir tão bem. Perguntava-se como Namjoon havia sido enganado por ele. Ainda assim, manteve um sorriso falso nos lábios, interagindo com Victor no momento certo. Se queria conquistar sua confiança, precisava jogar o jogo.

Victor, alheio ao que se passava na mente de Yoongi, ajeitou os travesseiros na cama com um cuidado exagerado, garantindo que ele pudesse se deitar no máximo conforto. Como se pequenas gentilezas pudessem apagar o fato de que Yoongi estava preso ali.

— Está confortável assim? Precisa de mais alguma coisa?

Yoongi preferia mil vezes estar confortável ao lado de Taehyung, mas precisava fingir inocência e fofura. Colocou a mão na barriga e fez beicinho.

— Eu queria sentir os meus bebês, mas ainda não consigo — Disse todo manhoso.

— É porque você está de cinco semanas. Tenha paciência, logo você irá senti-los.

Yoongi se aproximou de Victor e pegou na sua mão, colocando-a em sua barriga e alisando. Victor congelou.

— V? Acha que minha barriga já está crescendo?

Victor deslizou a mão sobre sua barriga, os dedos pressionando levemente enquanto mordia os lábios. Yoongi não perdeu nenhum detalhe, percebeu o momento exato em que ele engoliu em seco, como se estivesse tentando conter algo.

Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Ali estava. A fraqueza de Victor. Ele sabia exatamente como poderia usá-la contra ele.

Para começar, decidiu encenar. Fechou os olhos por um instante, levando uma das mãos ao ventre enquanto franzia levemente a testa, como se uma onda de mal-estar repentino o tivesse atingido. Deixou seu corpo pender sutilmente para frente, soltando um suspiro entrecortado.

— V... — Disse dengoso — Está tudo girando, eu, eu acho que vou... — Fingiu que suas pernas bambearam apenas para que Victor o pegasse.

Deu certo. Victor o pegou no colo e o colocou na cama.

— Vou chamar o médico...

— Não precisa, V. É só um mal-estar, logo passa. Só fica aqui comigo.

Victor o abraçou, Yoongi revirou os olhos e sentiu seu estômago embrulhar, mas se conteve.

— Eu sei que é ruim ficar aqui sozinho. Vou ficar com você até você dormir.

Yoongi se deitou lentamente, os olhos fixos em Victor, um sorriso meigo adornando seus lábios, tão suave quanto calculado.

Seus olhares se encontraram por um breve instante, mas Victor foi o primeiro a desviar. Olhou para baixo, inquieto, como se aquele simples contato visual o expusesse de uma forma que ele não sabia lidar.

Yoongi percebeu.

Victor, que sempre parecia ter o controle da situação, agora hesitava. Nunca em sua vida havia sido intimidado por alguém, e, no entanto, ali estava ele, incapaz de sustentar o olhar de Yoongi.

Era quase engraçado.

Yoongi apenas sorriu um pouco mais, saboreando sua pequena vitória silenciosa.

— Sabe o que é bom nisso tudo? — Perguntou Victor, queria usar seu velho humor para tentar disfarçar seu nervosismo idiota.

— Hum... O que?

— Os bebês vão se parecer comigo — Ele riu.

Yoongi odiava admitir, mas aquele sorriso era idêntico ao do homem que amava. Era desconcertante. Seu coração vacilou por um instante, um frio na barriga o atingiu ao encarar a imagem perfeita de Taehyung à sua frente. Parecia cruel que algo tão familiar pudesse ser, ao mesmo tempo, tão errado. Porque, por trás daquele sorriso bonito, havia algo podre. Havia maldade e manipulação. Uma sombra que corrompia tudo o que deveria ser genuíno.

A repulsa tomou conta de si, misturada a um amargo senso de ironia. Ele tentou rir. Uma risada forçada, artificial.

— É, sim. Eles vão se parecer com você.

Victor pegou a mão de Yoongi e a levou até o próprio rosto, fazendo carinho em si mesmo.

— Yoongi, vamos fugir? Só você e eu? A gente pode ir pra Londres. Eu sou bilionário, tenho muito dinheiro, vou dar tudo do bom e do melhor pra você e pros nossos filhos — Beijou a mão de Yoongi.

“Calma Yoongi, controle a vontade de vomitar” — Pensou Yoongi.

— Sim V... Vamos fugir, só nós dois.

— Eu vou ser o homem mais feliz do mundo — Victor deu vários beijinhos na mão de Yoongi.

A semelhança entre Victor e Taehyung era assustadora. Cada traço, cada curva daquele rosto fazia Yoongi enxergar o homem que amava. Mas, por mais perfeita que fosse a cópia, não era o seu Taehyung. Porque o seu Taehyung estaria mais preocupado em fazê-lo feliz do que em ser feliz. E essa era a diferença que separava os dois como um abismo.

Taehyung o amava de verdade. Seu amor era genuíno, feito de cuidado, proteção e entrega. Ele se importava com o seu bem-estar, com o que Yoongi sentia, com quem ele era. Victor, por outro lado, não amava Yoongi, amava o efeito que ele lhe causava. Amava a ideia do que Yoongi representava, como se ele fosse um objeto precioso, algo para preencher o vazio e afastar a solidão.

Amor de verdade não era isso.

Yoongi fechou os olhos, respirando de maneira ritmada, fingindo ter pegado no sono. Sabia que, se quisesse que Victor se retirasse, precisava fingir que estava dormindo.

Funcionou.

Victor se levantou, observando-o em silêncio. Seus olhos percorreram cada detalhe do rosto de Yoongi. O contraste entre a pele pálida como porcelana e os lábios vermelhos e convidativos. Havia algo de doentio em seu fascínio. Então, ele se inclinou sobre seu corpo.

Yoongi sentiu o arrepio de repulsa percorrer sua espinha quando Victor passou a língua por seus lábios antes de selá-los com um beijo. Seu sangue ferveu, a vontade de empurrá-lo e dar-lhe um soco era quase incontrolável, mas ele se obrigou a permanecer imóvel. Não podia estragar o teatro agora.

Victor, satisfeito, inclinou-se ao seu ouvido e sussurrou um possessivo "você é meu". Com isso, afastou-se, saindo do quarto e trancando a porta atrás de si.

Assim que ouviu o clique da fechadura, Yoongi abriu os olhos e, discretamente, limpou a boca no lençol, engolindo o nojo. Sabia que estava sendo filmado. Mesmo sozinho, precisava manter a encenação.

...

No dia seguinte, Victor não apareceu no quarto de Yoongi. Estava ocupado com seus “negócios”, visitando clientes anônimos, lidando com assuntos que Yoongi preferia nem imaginar.

Hye Sung, por outro lado, passou o dia ao seu lado. Almoçaram juntos, conversaram, leram e dividiram momentos simples que, de alguma forma, tornavam o confinamento menos sufocante. Aos poucos, estavam se apegando um ao outro, ainda que nenhum dos dois dissesse isso em voz alta.

Quando a noite chegou, depois do banho, Yoongi se deitou na cama e, como já era hábito, começou a conversar baixinho com sua barriga. Era o único momento do dia em que se permitia alguma honestidade, longe de olhares invasivos.

Mas ele não podia se esquecer do mais importante. Precisava ver Victor. Precisava colocar seu plano em ação, sair dali e salvar a todos. E Victor, como ele já esperava, apareceu de madrugada.

Yoongi permaneceu imóvel na cama, atento ao som da porta se abrindo e sendo deixada apenas encostada. Victor não pretendia demorar. Guardou o cartão-chave no bolso do casaco e se aproximou, como sempre fazia, inclinou-se sobre Yoongi e roçou os lábios nos seus em um beijo suave. Mas, desta vez, Yoongi abriu os olhos lentamente.

Victor congelou.

O susto estampou-se em seu rosto ao perceber que Yoongi estava acordado, e que o encarava diretamente, sem piscar.

— Por que você só me beija quando estou dormindo? — Yoongi não queria parecer rude, por isso forçou uma voz doce e um sorriso meigo.

— Não sou do tipo que teme a reação alheia. Sempre faço o que quero e pego o que tenho vontade. Mas… às vezes tenho um certo receio de você não gostar das minhas atitudes — Victor parecia um tanto aflito. Definitivamente insegurança não fazia parte de sua personalidade, mas Yoongi lhe causava isso.

“O cara é um grande babaca, invejoso e inseguro. O mais engraçado é que ele é lindo, gostoso e rico, não precisava aderir a tais métodos para seduzir alguém. Ele é só um grande bosta” — Pensou Yoongi, tentando não rir da ambiguidade de seu pensamento.

Yoongi se levantou, pegou na mão de Victor e o conduziu até o sofá.

— Sente-se — Ordenou Yoongi.

Victor se sentou, ainda sem entender exatamente o que Yoongi queria. Seus olhos se fixaram no rosto dele, tentando decifrar aquele sorrisinho enigmático.

Antes que pudesse reagir, Yoongi deslizou suavemente para o seu colo, posicionando-se com as pernas paralelas ao seu corpo. O ar ficou preso na garganta de Victor, que arfou diante do contato inesperado. Yoongi envolveu os braços ao redor de seu pescoço, mantendo um olhar firme e penetrante, como se estivesse no controle da situação. E estava.

Com movimentos sutis, Yoongi se mexeu em seu colo de maneira provocante, testando seus limites. Victor soltou um suspiro pesado, o corpo reagindo instantaneamente ao estímulo. Então, sem hesitar, Yoongi fechou os olhos e o beijou.

Mas, para conseguir suportar aquilo, precisou imaginar que estava beijando Taehyung. Apenas assim o beijo não pareceria tão forçado e poderia continuar com seu plano sem sentir o estômago revirar.

Victor o beijava com desejo intenso, quase desesperado. Era a primeira vez que Yoongi tomava a iniciativa, que o beijava sem resistência aparente. Para Victor, aquele momento significava mais do que um simples toque de lábios. Em sua mente distorcida, era a confirmação de que Yoongi poderia amá-lo, de que poderiam ser felizes juntos.

Finalmente, teria a vida que sempre invejou. Finalmente, poderia ser ele quem Yoongi escolheria e amaria.

Suas mãos grandes deslizaram pelo corpo de Yoongi, explorando cada centímetro com toques ávidos, como se quisesse memorizá-lo através do tato. Seus dedos o apertavam, marcando posse, tentando se agarrar àquela ilusão.

A pele macia de Yoongi, seu cheiro inebriante, cada movimento calculado, tudo o enlouquecia. Mas Victor não sabia que Yoongi estava no controle. Que cada toque, cada provocação, fazia parte de algo muito maior. E que, no fim, o único a ser enganado naquela noite seria ele.

A língua de Victor explorava cada detalhe da boca de Yoongi, seus beijos molhados transbordando desejo. Ele estava completamente imerso naquele momento, incapaz de perceber qualquer coisa além do corpo quente e sedutor contra o seu.

Yoongi manteve o ritmo, acariciando suavemente o rosto de Victor, seus dedos deslizando com delicadeza, como se estivesse retribuindo o carinho. Mas cada gesto era calculado. Para levá-lo ainda mais fundo na armadilha, começou a se mover lentamente em seu colo, soltando gemidos baixos perto de seu ouvido, chamando seu nome de maneira provocante. Sentiu quando Victor estremeceu sob ele, completamente rendido, dominado pelo êxtase do momento.

Era a oportunidade perfeita.

Enquanto Victor se perdia no prazer de seus lábios, Yoongi deslizou a mão lentamente até o bolso do casaco dele. Movia os dedos com precisão, sem pressa, sem hesitação. Quando sentiu o cartão de acesso entre os dedos, puxou-o com cuidado, prendendo-o discretamente na cintura da calça, escondendo-o embaixo da blusa. Victor não percebeu nada. Estava hipnotizado demais, completamente entregue. Agora, só faltava se livrar dele.

Yoongi se afastou de repente, levando uma mão ao estômago e a outra à boca.

— Eu… acho que vou vomitar… — murmurou, com a voz trêmula, como se estivesse realmente à beira do colapso — seu perfume está me dando enjôo — Yoongi correu pro banheiro, trancou a porta e fingiu vomitar. Tirou o cartão de dentro de sua roupa, sorrindo satisfeito de seu pequeno furto.

“Parece que os irmãos Kim não resistem ao meu charme” — Pensou, rindo baixinho.

Victor permaneceu no sofá, estático. Seu corpo ainda fervia com o desejo, mas sua mente estava vazia, sem reação. Demorou alguns instantes para processar o que havia acontecido. Quando finalmente se deu conta, soltou um suspiro frustrado e se levantou, saindo do quarto. A porta se fechou atrás de si com um clique seco, trancando-se automaticamente.

Com um semblante derrotado, caminhou até seu próprio quarto, os ombros caídos. Não tinha conseguido fazer amor com Yoongi como desejava, mas aqueles beijos… aqueles malditos beijos… tinham sido suficientes para enlouquecê-lo, para fazê-lo sentir que estava flutuando.

Ao entrar no quarto, tirou o casaco com pressa e o jogou em qualquer canto, sem se importar. Tudo o que antes parecia importante agora era irrelevante. Foi até o banheiro, abriu o armário e, sem hesitar, pegou seus perfumes caríssimos um a um, jogando-os no lixo sem remorso. O cheiro de todos eles já não significava nada, já que faziam Yoongi sentir enjoo.

Apoiou as mãos na pia e ergueu o olhar para o espelho. Seus próprios olhos brilhavam com uma felicidade boba, ingênua, quase infantil.

Ele não ligava mais para nada. Só queria Yoongi ao seu lado.

“Yoongi é meu, ele gosta de mim. Ele será meu pra sempre, só meu. Não permitirei que ninguém o tome de mim. Vou protegê-lo... nem que para isso eu precise prendê-lo aqui pra sempre. Seremos felizes”.

...

Yoongi saiu sorrateiramente de seu quarto, os pés deslizando pelo chão sem fazer barulho. O corredor estava escuro, um labirinto silencioso que o obrigava a se mover com rapidez. Sabia que Victor poderia estar vigiando pelas câmeras, mas teve sorte, nesse exato momento, ele estava cantarolando no chuveiro, completamente alheio ao que acontecia.

A lembrança do que Hye Sung lhe explicara mais cedo o guiou sem hesitação. Sabia exatamente onde encontrar o quarto dela.

Ao chegar, abriu a porta com cuidado e a despertou com um leve toque. Hye Sung arregalou os olhos, mas não precisou de explicações, entendia que aquele era o momento. Ela já estava ali há quase cinco meses. Conhecia cada canto daquele lugar, cada passagem, cada risco. Juntos, seguiram até os quartos onde os outros reféns estavam. Mas o coração de Yoongi se apertou ao perceber que agora restavam apenas três. Um já havia sido vendido.

Não havia tempo para lamentações.

Hye Sung pegou a criança menor nos braços, e Yoongi segurou outra pela mão. Sem trocar palavras, caminharam pelos corredores escuros, guiados pela necessidade urgente de escapar. O silêncio era absoluto, cortado apenas pelo som contido de suas respirações.

Ao chegarem no final do corredor, depararam-se com uma bifurcação. Yoongi, naturalmente, tomou a dianteira. Estava grávido, sim, mas ainda era um policial. Seu senso de dever e heroísmo falava mais alto do que qualquer medo.

Foi então que avistou um vulto se movendo à frente. Um segurança vinha em sua direção, segurando uma lanterna na mão. Se continuassem, dariam de cara com ele. E tudo estaria perdido.

“Eu não beijei aquele escroto a toa” — Pensou Yoongi.

Assim que o guarda apareceu, Yoongi chutou sua virilha, fazendo o homem cair no chão ajoelhado com a dor. O guarda sequer teve tempo de gritar, Yoongi envolveu os braços em seu pescoço cortando o oxigênio, até que o homem desmaiasse.

— Ali é a saída — Hye Sung apontou.

Só mais aquela porta e eles estariam livres. Yoongi sentia que estava cada vez mais perto de voltar para os braços de Taehyung.

Notas finais
Será que eles vão conseguir sair? 🤔