The Evil Within
33 O Aluno e a Nova Professora

Jimin observava a jovem à sua frente com curiosidade nos olhos grandes e brilhantes.
— Olá! O nome do Jimin é Jimin — disse, estendendo a mão num gesto gentil e caloroso.
A moça hesitou por um instante, claramente tão tímida quanto ele, mas logo correspondeu ao cumprimento.
— Oi, Jimin. Eu sou a Jisoo. É um prazer te conhecer.
— E eu sou o Jungkook — completou ele com um sorriso acolhedor. — Entre, Jisoo, sinta-se em casa.
Jisoo fez uma leve reverência, retirou os sapatos com cuidado e calçou as pantufas deixadas estrategicamente na porta. Jungkook a conduziu até a sala, que exalava o aroma doce de cookies recém-assados.
Ela olhou em volta, encantada com o ambiente aconchegante e bem decorado. Acima da lareira, os porta-retratos exibiam momentos felizes de Jimin e Jungkook juntos. Sorrisos sinceros, abraços espontâneos, carinho. Pareciam um casal completo.
Enquanto Jisoo observava, Jimin continuava encarando-a com curiosidade genuína.
— Quantos anos você tem, Jisoo? — perguntou, inclinado para o lado, curioso.
Jisoo respirou fundo. Suas mãos tremiam levemente, e havia uma hesitação em seu olhar.
— Eu tenho... vinte anos.
Jimin a analisou por um momento, com o queixo apoiado na mão. Havia algo em seu jeito que não o convencia.
— Hum... você parece mais nova.
— Eu uso muitos cremes no rosto — respondeu ela com um sorriso nervoso.
Ele entendeu que havia algo que ela preferia não contar, e embora tivesse notado a mentira, escolheu respeitar.
— O Jimin tem dezessete — contou, com um pequeno sorriso.
— Você também parece mais jovem — comentou ela, suavizando o clima.
— Obrigado! — Jimin sorriu, depois voltou a perguntar: — Você mora sozinha?
— Não, moro com a minha irmã mais nova.
— Quantos anos ela tem?
— Dez. É super esperta, você ia adorar conhecê-la — disse, orgulhosa.
— Então traga ela um dia pra comer cookies com a gente — sugeriu Jimin, gentil.
— Vou adorar trazer sim — respondeu Jisoo, e naquele instante seu sorriso saiu mais leve, mais verdadeiro.
Jungkook apareceu na sala com um pano de prato sobre o ombro, sorrindo.
— Os cookies estão prontos! — anunciou, orgulhoso.
A mesa foi posta com os cookies ainda quentinhos e suco de laranja. Jisoo sentou-se tímida, mas Jimin, animado, tomou a frente da conversa. Era sua primeira amiga, e ele queria saber tudo sobre ela.
— Você faz faculdade? — perguntou com os olhos brilhando de curiosidade.
— Faço sim, estudo bastante — respondeu ela, ajeitando os óculos.
— Deve ser legal estudar... — Jimin murmurou, desviando o olhar para o chão, um pouco cabisbaixo.
Jisoo notou seu tom e, num gesto gentil, tocou em seu braço.
— Eu vou te ajudar, Jimin. Um dia você também vai estar lá, numa faculdade bem linda, estudando tudo o que quiser.
— Obrigado, Jisoo... — disse ele, com um sorriso tímido. — Mas conta como é! O que você aprende? Você conhece muitas pessoas lá?
Jisoo respondeu com paciência e carinho. Falou sobre as aulas, os professores, os trabalhos difíceis e os amigos engraçados. Jimin a ouvia com atenção, rindo às vezes, admirando. Seu desejo de estudar crescia a cada palavra.
Mais tarde, Jimin fez questão de mostrar a Jisoo o seu quarto. Cheio de livros, desenhos e papéis com palavras que ele havia aprendido com Jungkook. Era como exibir um pequeno mundo que ele estava construindo aos poucos.
Quando o relógio começou a marcar o fim da tarde, Jisoo se levantou para ir embora.
— Amanhã eu volto, Jimin. Preciso buscar minha irmã na escola.
— Tá bom... Mas tem que voltar mesmo — disse ele, segurando a manga do casaco dela.
— Eu prometo. Amanhã vamos aprender muitas coisas juntos.
— O Jimin já tá ansioso...
— Eu também, Jimin. Até amanhã.
Jisoo se despediu com um sorriso, e Jungkook a acompanhou até a portaria.
Jimin ficou olhando pela janela, com o coração aquecido. Era estranho, mas bom, ter alguém novo no seu mundo.
Quando Jungkook voltou para o apartamento, foi recebido com uma tempestade de beijinhos de Jimin.
— Vejo que alguém está animado — disse Jungkook, sorrindo ao ser praticamente atacado de carinho.
— O Jimin tá muito feliz! Adora aprender coisas novas. O Jimin quer fazer faculdade… quer trabalhar… — Ele parou por um instante, olhando nos olhos de Jungkook com um toque de insegurança. — Kookie… você acha que o Jimin consegue?
Jungkook se sentou no sofá e puxou Jimin para seu colo com delicadeza, acariciando seus cabelos com os dedos.
— É claro que consegue. Você é muito inteligente, Jimin. Vai conquistar o mundo. E eu vou estar do seu lado, sempre.
— Então o Kookie vai se orgulhar do Jimin?
— Eu já me orgulho de você, meu amor — disse Jungkook, depositando um selinho carinhoso em sua testa.
— Obrigado, Kookie... — Jimin sorriu, se aninhando mais no colo dele, repousando a cabeça contra seu peito. — E os documentos do Jimin?
— Ficam prontos na semana que vem. Aí a gente vai buscar juntos, tá?
— Será que o Jimin ficou bonito na foto?
— Claro que ficou. Você é lindo.
— Você também é — disse Jimin, dando-lhe um beijo doce e suave.
— Você é mais — Jungkook respondeu, mordiscando de leve sua bochecha.
Jimin riu baixinho e ficou ali, nos braços de Jungkook, sentindo-se seguro, amado e pronto para tudo que a vida trouxesse. Passaram horas assim, abraçados, com o coração tranquilo e cheio de planos para o futuro.
...
— Onde estão seus pais, Chae?
A diretora, com expressão impaciente e olhar severo, fitava a menina parada na entrada da escola.
— Me chame de Rosé — corrigiu a pequena, com a voz baixa.
— Que seja. Não podemos esperar o dia todo.
Rosé permanecia parada, os olhos atentos a cada carro que partia. Um a um, os alunos iam embora com suas famílias, deixando o pátio vazio. Ela sentia o nó na garganta apertar, a vontade de chorar ia crescendo. O peso da mochila pressionava seus ombros doloridos, e seu estômago roncava de fome.
A diretora, impaciente, ligou para Jisoo. Do outro lado da linha, Jisoo confirmou que já estava a caminho. Corria pelas ruas próximas, com o coração apertado, sabendo que estava atrasada e que Rosé provavelmente a esperava triste e preocupada.
Chegou ofegante, sem fôlego de tanto correr.
— Rosé, me desculpa! — falou entre respirações curtas — Me atrasei um pouquinho.
— Que isso não se repita, Jisoo. Aqui não é um hotel — retrucou a diretora, ríspida.
— Sim, senhora. Me desculpe, não vai acontecer de novo — respondeu Jisoo, curvando-se levemente com respeito.
A diretora bufou e entrou de volta na escola, fechando a porta com força atrás de si.
Jisoo se ajoelhou diante da irmãzinha, procurando seu olhar.
— Está com frio, Rosé?
— Não... eu tô bem — disse ela, com os olhos marejados.
Jisoo tirou o cachecol do pescoço e o enrolou com cuidado no pescoço da irmã. Ao notar as lágrimas silenciosas no rostinho dela, limpou-as com carinho.
— Ei... por que você está chorando?
Rosé hesitou, mas depois murmurou:
— Você demorou... Achei que tinha me abandonado, igual o papai e a mamãe.
O coração de Jisoo apertou. Ela a puxou para um abraço apertado, envolvendo Rosé em todo amor que tinha.
— Nunca, Rosé. Eu sou sua irmã e sua amiga. E amigos não abandonam uns aos outros. Eu sempre estarei com você. Sempre vou cuidar de você.
Rosé, ainda com a voz trêmula, respondeu:
— Eu também quero cuidar de você, Jisoo. Quero crescer logo pra te ajudar.
— Você já me ajuda só por ser essa menina incrível. Agora só precisa continuar sendo uma boa aluna, certo?
— Certo! Eu vou ser a melhor — disse Rosé, com um sorriso tímido.
— Vamos pra casa, tá ficando tarde.
As duas seguiram juntas pela calçada, de mãos dadas.
...
Ao chegarem em casa, Jisoo pediu que Rosé fosse direto tomar banho. A pequena casa em que viviam era simples, mas organizada, cheirava a limpeza e aconchego. Um refúgio construído com esforço e amor. Enquanto Rosé cantava baixinho no chuveiro, alheia ao peso do mundo, Jisoo foi até a cozinha procurar algo para preparar.
Abriu a geladeira. Só havia uma garrafa com um restinho de água. Verificou os armários, as prateleiras estavam vazias, sem um único pacote de arroz, bolacha ou macarrão.
O desespero apertou seu peito. Sentiu os olhos arderem, mas se obrigou a engolir o choro. Não podia chorar naquela hora. Não na frente da Rosé.
Encheu um copo com a água da geladeira e tomou em goles longos, como se pudesse beber junto a angústia. Precisava pensar rápido, disfarçar, manter a normalidade.
Por instinto, abriu o micro-ondas. E lá estava: um pedaço esquecido de pão amanhecido. Respirou fundo, segurando aquele pão como se fosse ouro. Esquentou o pão, colocou-o no prato e posicionou um copo com água ao lado, sobre a mesa posta com carinho.
— Rosé, venha jantar!
A menina apareceu segundos depois, com a toalha enrolada na cabeça.
— Deixa eu te ajudar — disse Jisoo, ajoelhando-se para secar os ouvidos da irmã com cuidado. — Tem que secar bem, senão você fica dodói.
Rosé sorriu, fechando os olhos enquanto a irmã cuidava dela com ternura.
— Jisoo... se eu me comportar bem, no ano que vem eu ganho um presente de aniversário?
A pergunta caiu como uma flecha.
— Desculpa, meu amor... — Jisoo respondeu, tentando manter a voz estável. — Esse ano não deu... Mas no seu aniversário de onze anos, eu vou te dar um presente bem bonito.
— Uma boneca?
— Sim. Uma boneca.
— Bem grande?
— Bem grande e bem linda.
Rosé sorriu largo, seus olhinhos brilhando.
— Você é a melhor irmã do mundo. Eu te amo, Jisoo.
— Eu também te amo, minha flor. Agora venha, vamos jantar.
Sentaram-se à mesa. Rosé pegou o pão com fome, mordeu devagar. Estava duro, mas ela nem ligou. O estômago falava mais alto.
— E você, Jisoo? Não vai comer?
— Estou de dieta — ela mentiu com um sorriso.
Depois do jantar simples, Jisoo a acompanhou até o banheiro, ajudou a escovar os dentes e a colocou na cama. Cobriu-a com cuidado, acariciando seus cabelos até que adormecesse.
Quando o silêncio tomou conta do quarto, Jisoo foi até a janela. A rua lá fora estava escura, vazia e fria. Ela se abraçou, como se quisesse proteger a si mesma da incerteza.
“Como vou alimentar ela amanhã?” — pensou.
O cansaço venceu. Deitou-se ao lado da irmã, escutando sua respiração tranquila. E mesmo com tantas perguntas sem resposta, permitiu-se adormecer. Pelo menos por esta noite, estavam juntas. E isso ainda era o suficiente para continuar lutando.
...
Na manhã seguinte, as batidas na porta foram tão fortes que pareciam um trovão quebrando o silêncio.
— Eu sei que está aí, Jisoo! Abre essa porta! — a voz rouca e irritada do dono da casa soava do lado de fora.
Jisoo se levantou num pulo, ainda tonta de sono. Fez um sinal silencioso com o dedo para que Rosé permanecesse deitada. A menina a obedeceu, cobrindo-se até a cabeça.
Ao abrir a porta, o homem a empurrou com tanta força que Jisoo cambaleou para trás, quase tropeçando no tapete.
— O aluguel tá três meses atrasado! — ele esbravejou, os olhos faiscando de raiva.
— Eu sei… eu vou pagar. Só preciso de um emprego… me dá mais um pouco de tempo, por favor — Jisoo implorou, com a voz trêmula, os olhos marejados, mas determinada a não desmoronar na frente dele.
— Tempo é dinheiro, garota. E você já gastou o que não tinha. — A voz dele foi cortante. — A casa já foi alugada. Vocês têm que sair agora.
— Mas… nós não temos pra onde ir…
— Problema seu. Cadê seu pai?
Jisoo cerrou os punhos. Queria gritar. Queria desaparecer.
— Eu não sei.
— Tanto faz. Vá pra uma delegacia com sua irmã. Sei que você também é menor de idade. Lá eles dão um jeito.
— Não! — disse com firmeza. — Eles vão separar a gente. Vão tirar a Rosé de mim…
— E o que eu tenho a ver com isso? Saiam daqui. Agora. — Ele bateu a porta atrás de si depois de sair.
Jisoo ficou parada por alguns segundos, encarando o vazio. O coração batia tão alto que ecoava nos ouvidos. As lágrimas, finalmente, caíram. Mas só por alguns instantes. Respirou fundo e enxugou o rosto com a manga do casaco.
Foi até o quarto. Pegou a mochila de Rosé e começou a guardar suas roupas dobradas com pressa. Depois fez o mesmo com a sua. Colocou também a escova de dentes da irmã, um caderno, e o único livro de contos que ela adorava ouvir antes de dormir.
Rosé, ainda confusa, saiu da cama esfregando os olhos.
— Jisoo… o que está acontecendo? A gente vai viajar?
Jisoo forçou um sorriso e se agachou para olhar nos olhos da irmã.
— Sim, vamos sim. Só nós duas… Vai ser uma aventura.
— De verdade?
— De verdade, minha pequena. Vai ser divertido. Mas você precisa confiar em mim, tá bom?
— Eu confio — Rosé assentiu, ainda sonolenta.
Jisoo a abraçou forte, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro.
— Nós vamos ficar bem. De algum jeito… a gente vai ficar bem.
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