The End - O crepúsculo do Mundo
1 O crepúsculo do Mundo e o alvorecer dos Mortos
Sempre achei que brasileiros poderiam sobreviver a qualquer coisa, que éramos um povo preparado contra qualquer ameaça. Esse pensamento se dava, principalmente, devido as nossas moradias, que parecem fortes de guerra. Muros altos e portões de aço circulam o perímetro residencial. Em algumas casas, janelas com grades e cercas elétricas — ou, na maioria delas, vidro quebrado sobre o muro, que é uma opção mais barata — são um aviso muito claro: fique longe.
No bairro em que morei, me recordo de ver olhares desconfiados dos moradores, enquanto estes abriam a fechadura do portão para se recolherem depois de mais um dia de trabalho. Por lá esse comportamento era normal — é preciso tomar cuidado quando se mora no Brasil, principalmente quando a sua casa fica próxima a uma boca de fumo que recebe os tipos mais diversos de andarilhos maltrapilhos.
Alguns são inofensivos e ficam satisfeitos quando ao pedir uma quantia, recebem algumas moedas. Mas outros, por estarem no transe que os entorpecentes lhe proporcionam, ou por malícia, podem ser insistentes em seus pedidos, e não raro, violentos. Não foi uma surpresa, portanto, quando os primeiros casos da Praga surgiram, ela ter sido popularmente batizada de Doença do Nóia.
"Nóia", como é chamado o indivíduo viciado em drogas que perdeu sua dignidade e vive marginalizado, pareceu o nome perfeito para batizar àqueles sujeitos claudicantes e malcheirosos que atacavam a qualquer um com fúria assassina.
Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo no início. Nas grandes capitais, como no Rio de Janeiro e São Paulo, os jornais passaram a noticiar os frequentes ataques como uma "escalada lamentável de violência". Lamentável é quando seu sorvete cai no chão. Quando um sujeito é morto pela polícia após ser flagrado mastigando o rosto da esposa, enquanto a filha pequena assiste a cena, escondida e traumatizada, tentando não fazer barulho, isso é uma brutalidade alarmante. Mas por alguma razão, a maioria das pessoas pareciam anestesiadas e só criaram senso de urgência tarde demais, quando o caos foi instaurado e hordas de mortos-vivos começaram a vagar pelas ruas, em números cada vez maiores, até que a nossa ordem social foi pro beleléu.
Lembro-me de certa vez, pouco antes do apocalipse descambar, ver, na internet, uma imagem editada da bandeira da República com os dizeres "Desordem e Regresso". Na época fazia sentido achar que éramos um país sem jeito, fadado ao fracasso moral e cívico. Mas isso era algo com que já estávamos familiarizados, ora! era apenas mais uma de nossas verdades, latente, domada. O que a Praga trouxe, ou revelou, foi pior, muito pior.
Os desordeiros oportunistas que aproveitaram o foco da polícia em combater os mortos foram os primeiros a abalar nossa segurança. Casas eram invadidas à luz do dia sem pudor algum; estabelecimentos comerciais, também: depredados e diversas vezes queimados para satisfazer a desejos piromaníacos. Bancos fecharam suas portas após arrastões e situações frequentes com reféns. Depois, aplicativos bancários começaram a apresentar mau funcionamento e cair. A Casa Econômica Federal, que no início contou com guardas municipais para proteção do patrimônio e seus funcionários, fechou após 2 semanas (sendo exemplo para várias outras instituições financeiras, que fizeram o mesmo), causando uma onda de terror naqueles que não podiam sacar seu dinheiro. Com os caixas eletrônicos vazios e as pessoas cada vez mais desesperadas, os preços nas prateleiras aumentaram.
Se é verdade que não existe vácuo absoluto, também deve ser fato que não existe vácuo de poder. Quando os primeiros quartéis da polícia começaram a ceder ante o aumento de turbas criminosas e a hordas crescentes de mortos-vivos, as Forças Armadas foram colocadas em ação através de Lei Marcial. O pau comeu, e por um breve período uma réstia de esperança reluziu, fraca, pelo paredão escuro e fumacento do medo.
Se foi por corrupção, falta de treinamento ou simplesmente ausência de precedentes para se basear em como lidar com uma hecatombe apocalíptica — ou uma combinação fatal de tudo isso -, ninguém sabe, mas o exército, que das 3 Forças foi a última remanescente, também caiu. E com ele, todo resto de ordem estava oficialmente morta.
O presidente da República foi evacuado às pressas para o Forte Caxias, em Brasília, logo após a Sala de Situação improvisada no Palácio da Alvorada ter sido comprometida. De forma repentina e nebulosa, o presidente teve sua morte anunciada por um porta voz do governo federal num plantão televisivo de emergência, que também anunciou o incidente que deixou flagrante a falência da segurança do país: toda a principal linha sucessória estava morta ou desaparecida.
Em um movimento previsível, os militares tomaram, oficialmente, o poder. O Chefe do Estado-Maior do Exército, um carrancudo e sedento por controle senhor de cinquenta anos, tinha ficado conhecido, nas semanas que precederam a Queda, por proferir ataques verbais claros às Instituições democráticas, dizendo que seus planos de gerenciamento de crise foram toscos e falhos. Alguns comentaristas já apostavam que a tensão entre os Poderes e as Forças Armadas era sinal patente de uma futura intervenção militar — coisa que acertaram. Os miseráveis não puderam nem conter a ereção que o poder absoluto lhes causou.
Sem um governo e com a ordem social esfacelada, vimos queimar e tornar em cinzas nosso contrato social, e com isso inauguramos uma nova Era. Mas esquecemos de consultar os recém eleitos senhores da Terra — os mortos. Eles, sim, tinham uma só lei, simples e bem estabelecida: devorar qualquer coisa viva.
Fale com o autor