The End Is Coming
4 Fuçando Onde Não Devia...
Notas iniciais
Em dois ou três dias saí o capítulo cinco o/
Na manhã seguinte, durante o intervalo, não dei um segundo de paz ao Sam, perguntei se ele não poderia me deixar ver aquelas fotos novamente. Eu precisava ter certeza do que era aquela sombra vermelha, eu estava altamente interessada naquilo e não o deixaria em paz até desvendar esse mistério:
–Por favor, Sam, me deixa ir lá de novo? Eu quero pesquisar mais... Talvez eu e Chris possamos ajudar seus pais na busca, além disso, eu também conheço outras “pessoas” que poderiam ser úteis.
–Não Aya, já disse, meus pais vão estar em casa pelos próximos quinze dias, eles estão preparando uma nova expedição, só poderei te levar lá novamente quando eles saírem.
–Mas aí já estaremos de férias, como eu vou fazer pra ir até sua casa?
–Ora, da mesma forma que da outra vez, é só usar as pernas...
Senti vontade de chama-lo de idiota, de bater nele ou algo assim, mas tudo o que consegui foi ficar em silêncio por um tempo e abaixar a cabeça desanimada. Como eu iria contar pra ele que, se eu saísse de casa no meio das férias, meus pais achariam extremamente estranho? Como eu poderia explicar que ele era o primeiro amigo que fiz em anos?
–Que foi Aya, você tem algum plano para as férias? Vai visitar algum parente distante?
Continuei em silêncio, encarando o chão, lógico que eu não tinha nenhum plano para as férias, apenas o de sempre, ir a algum museu com meus pais, ir comprar livros com minha mãe, talvez visitasse minha avó...
–Já sei! Você arrumou um namorado não foi? Provavelmente vai passar o inverno juntinho com ele e por isso não terá tempo.
Idiota! Não era nada daquilo... Cerrei meu punho com força, eu podia sentir minhas unhas cortando a palma da minha mão... Senti a primeira lágrima escorrer por um de meus olhos, ir até a ponta do nariz e cair no chão. Depois disso foi inevitável, comecei a chorar pela pessoa insignificante que eu era... Sam finalmente percebeu que estava me machucando, tentou levantar meu rosto, desviei:
–Aya, você está bem? O que houve?
Acenei um “sim” com a cabeça. Eu não conseguia fazer as lágrimas pararem. De repente começou a chuviscar de leve, como estávamos em uma área descoberta do pátio Sam me levou para dentro do prédio. Felizmente a chuva, que já estava forte o suficiente para molhar meus cabelos, me ajudou a disfarçar as lágrimas. Finalmente tive forças para responder a Sam:
–Está tudo bem, eu apenas me lembrei de algo... Nada importante...
Durante a aula fiquei imaginando como marcar com Sam durante as férias sem ter que pedir a minha mãe. Ela, com certeza, não iria permitir que eu me encontrasse com uma pessoa que ela nunca viu, muito menos sendo um garoto.
No caminho para casa, como sempre, fui conversando com Sam:
–Sabe, acho que eu talvez devesse te explicar o que aconteceu naquela outra hora...
–Se você não quiser não precisa, tá tudo bem...
Pensei por um minuto, eu realmente estava com vontade de contar a ele:
–Eu... Eu prefiro contar a você, sabe, é algo meio vergonhoso e triste, mas acho que é melhor que você saiba... Assim você talvez me entenda um pouco mais...
–Tudo bem Aya, Estou ouvindo.
Respirei fundo e comecei a contar toda minha história patética:
–Sabe, eu nunca tive muitos amigos... Na verdade acho que em toda minha vida, além de você, eu só tive um único amigo há anos atrás... Nós estávamos sempre juntos também, algumas vezes ele ia até a minha casa para lermos gibis e jogar vídeo game, ele era importante, eu gostava dele, não como namorado é claro, eu tinha apenas dez anos... Um dia, depois de eu já ter conhecido Christinne, resolvi contar a ele sobre ela. – Respirei fundo novamente. – Ele riu de mim, achou que era uma brincadeira no começo, mas depois, como eu conversava com ela durante nossas brincadeiras e continuava tentando fazê-lo entender a existência dela, ele começou a se afastar de mim, a dizer que eu era louca e não sabia o que dizia... Ele se afastou mais e mais até que parou de falar comigo totalmente quando eu tinha uns doze anos... Aquilo foi muito triste, tão triste que eu resolvi que nunca mais faria um amigo, apenas para não ter que sofrer tudo isso de novo.
Parei de falar um momento, Sam estava com a expressão séria. Continuei:
–Até o dia em que você apareceu e resolveu falar comigo... Acho que eu estava com tanta saudade de conversar com alguém mais que não parei de falar um só minuto... A sua amizade é algo realmente bom, mas por outro lado me entristece... Muitas vezes imagino que um dia você vai se afastar... Que algum dia você vai esquecer que existo...
Abaixei a cabeça quando terminei de falar aguardando a resposta de Sam, levou alguns segundos até ele dizer:
–Eu não acho você louca Aya, nem vou me afastar de você nunca... Pode ter certeza, sempre vou estar ao seu lado quando você precisar.
Aquelas palavras me deixaram extremamente feliz... Era ótimo poder acreditar nisso.
–De verdade, Sam?
–Sim Aya, de verdade.
Até as férias chegarem nada de importante aconteceu, eu passei a maior parte do tempo tentando imaginar uma maneira de ir até a casa do Sam sem ter que dar muitas explicações. Cada dia que passava eu ficava mais ansiosa para rever aquelas pesquisa e fotos. Enfim, era o último dia de aula, ainda faltavam dois dias para os pais de Sam viajar, mesmo assim não deixei de lembrá-lo:
–Vou tentar ir até sua casa nas férias, você prometeu que me deixaria ver as fotos de novo, não se esqueça.
–Aya, eu não te prometi nada, apenas disse que deixaria. Além disso, você será bem vinda lá em casa quando quiser, sinta-se à vontade.
Nos despedimos sorridentes e continuamos nosso caminho até nossas casas.
Eu havia planejado minha saída “escondida” de uma forma bem simples, já havia chegado o dia em que a casa do Sam estaria livre então coloquei um jeans qualquer, uma blusa de malha e calcei meu tênis. Eu já estava na porta quando ouvi minha mãe:
–Aonde vai querida?
Parei por um minuto para criar coragem, respirei calmamente e respondi:
–Vou até a biblioteca, chegaram alguns livros novos, acho que vou pegar algum deles emprestado.
–Quer que eu leve você?
–Não! – Respondi rapidamente, quase com um grito. – Digo, não precisa, eu quero andar um pouquinho. Até mais tarde.
–Tudo bem meu amor, mas não volte tarde, quero você em casa às seis.
–Ok mãe. Tchau.
Peguei minhas chaves e fui andando até a casa de Sam, assim que cheguei em frente ao portão toquei a campainha, Sam veio atender:
–Puxa, não esperava você aqui tão rápido! Pode entrar.
Entrei meio sem jeito e fiquei parada na varanda com o olhar ansioso para ver o porão, Sam pareceu notar e disse:
–Calma criatura, temos tempo ainda, o que você acha de a gente tomar um sorvete antes?
–Não, eu quero ver logo as fotos, preciso muito vê-las, além disso, eu não tenho tanto tempo assim, são duas da tarde e eu preciso estar de volta em casa antes das seis.
Ele deu um sorriso e foi andando em direção aos fundos da casa.
–Tudo bem Aya, vamos lá embaixo.
Quando entramos no porão notei que havia alguns mapas novos, provavelmente da viagem que os pais de Sam estavam fazendo, após dar uma ligeira olhada neles fui para o mural das fotos, tirei algumas e perguntei ao Sam se eu poderia copiá-las, assim eu não teria que ficar indo à casa dele sempre.
–Ok, meu pai tem uma impressora que tira Xerox no escritório, você pode tirar umas cópias das fotos e carregar com você já que te interessaram tanto.
Junto das fotos coloquei também algumas anotações e mapas, coisas que me pareciam importantes. Depois de tirar todas as cópias e colocar os originais nos locais certos, eu e Sam nos sentamos na mesinha da varanda para tomarmos sorvete, já eram quase cinco da tarde então eu não tinha mais muito tempo para ficar ali. Enquanto tomávamos nosso sorvete eu olhava para aquela fonte de dragões no meio do jardim, ela realmente me intrigava.
Você que está aí me ouvindo pode imaginar: “Ora, mas é só uma fonte, várias pessoas tem fontes em seus jardins!” Mas aquela era estranhamente diferente, nela parecia haver algo de importante, eu não resisti a curiosidade, deixei todos os meus papéis em cima da mesa e caminhei até ela para observar mais de perto.
A fonte era toda branca, redonda embaixo, talvez tivesse um metro de diâmetro ou um pouco mais, os dragões estavam bem no meio, entrelaçados, com as bocas jorrando água para lados opostos, uma coisa que realmente me chamou a atenção foi que no encontro dos corpos dos dragões a pedra estava ligeiramente gasta, como se eles tivessem sido afastados e reunidos muitas vezes.
Na parte de baixo, onde ficava a água, havia vários símbolos, me abaixei para olhar melhor e notei que eram runas, eu tinha algum conhecimento sobre isso, comecei a lê-las, não da forma como eu havia aprendido, mas de um modo que eu não fazia ideia de que conhecia. De repente os dragões começaram a se afastar, dei uns passos para trás assustada, Sam levantou da mesa e veio até mim:
–O que você fez?
–Eu não faço ideia...
Ficamos parados com cara de idiota e ao mesmo tempo medo observando os dragões chegarem cada um a uma borda da fonte e inclinarem-se de modo que formavam um arco com a água que jorravam esta, quando se encontrava no topo do arco, caía de um modo que qualquer físico diria ser impossível, ela em vez de cair em linha reta, espalhava-se formando algo que lembrava uma porta. Olhei para Sam como quem pergunta “E agora?”.
–Aya, você... Isso... Como?
–Não sei Sam, eu não faço ideia do que aconteceu...
Comecei a caminhar em direção à fonte, coloquei minha mão na porta que se formou com a água, eu podia sentir minha mão molhada, realmente debaixo d’água, mas quando Sam olhou do outro lado ela não estava lá, só havia uma explicação: de alguma forma eu havia aberto um portal para algum lugar, sem dúvida eu precisaria ver aonde aquilo daria.
–Sam, eu vou atravessar isso, quero muito saber o que vai acontecer.
–Você é louca? Você pode se perder por ai... Você nem sabe como vai fazer para voltar!
Naquele momento pensei que ele era um cara muito chato por não me deixar entrar ali, olhei para o relógio, cinco e quinze, se eu queria entrar ali ou fechar aquele treco teria que ser logo, eu precisava convencer Sam. Corri até a garagem, peguei uma corda que havia visto jogada por ali e amarrei na minha cintura.
–Olha, tá vendo isso aqui? Eu quero que você segure nessa ponta, se eu não voltar em cinco minutos você pode simplesmente me puxar, não vai acontecer nada de ruim.
–Você tem certeza que quer isso?
–Claro que sim, não é todo dia que se tem um portal aberto por aí dando sopa...
Sam suspirou dando-se por vencido.
–Ok, cinco minutos.
Certifiquei-me de que a corda estava bem amarrada e entrei. Pouco antes de eu entrar, algo que com certeza não era Chris, sugeriu que eu prendesse a respiração, fiz isso, quando senti que estava “do outro lado” abri os olhos, eu estava debaixo d’água!
Por um segundo abri a boca de espanto, senti o gosto de água salgada na minha boca, eu não conseguia enxergar nada, tudo estava turvo demais, tentei apoiar os pés em algo, não havia no que apoiar, comecei a perder o ar, nunca fui boa em mergulhar, menos ainda em nadar. Senti que iria começar a me afogar, tentei localizar o portal para sair dali, estava longe demais pensei: “E agora?”.
Eu não sabia quanto tempo estava se passando, só sei que parecia uma eternidade. Eu estava começando a sentir minha consciência ir embora quando senti alguém me abraçar e dizer:
–Tudo ficará bem, apenas acalme-se.
Era uma voz masculina, meio suave, eu nunca havia ouvido nada parecido... Quando abri os olhos eu estava deitada na varanda da casa de Sam, levantei meio atordoada, eu ainda não estava pensando muito bem, a primeira coisa que falei foi:
–Onde ele está?
Sam me olhou espantado.
–Aya, você está bem? De quem você está falando?
Senti minhas roupas molhadas grudadas no meu corpo, meu relógio de pulso havia parado, vi que havia suor na testa de Sam, ele parecia realmente preocupado.
–Tá tudo bem...
–E então, o que aconteceu dentro do portal?
–A saída dele, é no meio do oceano! Eu achei que fosse morrer, mas então alguém me abraçou e falou que ia ficar tudo bem e aí quando acordei eu estava aqui, do seu lado...
–Aya, você deve ter engolido muita água... Não havia ninguém com você... Eu apenas aguardei o tempo que você pediu e quando chegou a hora te puxei, você estava desacordada, levei quase meia hora até conseguir te reanimar...
Eu estava confusa, olhei para o lugar onde estava o portal, ele havia se fechado, com um pouco de dificuldade, fui até ele, tentei abri-lo novamente, sem sucesso, olhei para Sam e disse com um sorriso:
–Bom, acho que por hoje acabou nossa aventura né?
Ele me deu um peteleco na testa.
– E você queria mais o que? Anda, vamos entrar pra você se enxugar e ir pra casa...
Fiz uma careta pra ele e murmurei: “Chato!” ele apenas sorriu e entrou em casa. Quando olhei para o relógio no canto da sala de Sam só faltavam dez minutos para as seis, o relógio era daqueles enormes, antigos e de corda.
–Sam, me diz que você esqueceu de dar corda nesse relógio...
–Não Aya, não esqueci.
Droga! Eu ia realmente me encrencar se demorasse mais muito tempo ali. Sequei-me rapidamente, por sorte a blusa que eu usava era lisa, então apenas troquei por uma do Sam da mesma cor, assim apenas meus jeans e meus cabelos estavam molhados, isso provavelmente me salvaria de uma pneumonia, mas não da minha mãe. Despedi-me de Sam, peguei as Xerox e fui correndo para casa, por sorte, não havia ninguém lá, apenas um bilhete na geladeira da minha mãe dizendo que foi ao mercado com meu pai e que minha janta estava na geladeira. Troquei de roupa, joguei os papéis que trouxe no meu armário, jantei e larguei-me na cama e pensei em tudo o que tinha acontecido naquele dia, alguns minutos depois eu já estava dormindo profundamente.
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