The End
1 Un.
Depois dessa saída repentina, o resto dos alunos confusos se levantaram as pressas pra ver o que acontecia no meio caos, e logo depois alguns correram a fora, outros sacaram seus telefones a fim de ligar para os pais, alguns sem entender nada gritavam sozinhos e sacudiam os que entenderam, e outros como eu e Carolina observamos Arthur subir na mesa do professor e jogar uma carteira no chão, a bagunça foi se acalmando de acordo com que as pessoas se viravam para nós. O professor tinha saído junto com metade da sala e sobraram dez pessoas lá, contando comigo.
No fundo, Jack estava com os pés em cima da mesa olhando pra nós com os olhos mesclados de verde e castanho esperando nossa ação, ele não tinha parentes na cidade nem irmãos, igual nós três, e no meio da bagunça, os irmãos gêmeos Nicolas e Rafael estavam dando tapas e explicando o que estava acontecendo pros alunos que estavam em pânico:
´´Você já viu o filme Zumbilândia? Então pelo que parece daqui, é tipo isso. ´´
Era engraçado ver a reação das pessoas, mesmo percebendo que todos estavam assustados, aí Arthur chamou atenção deles e disse:
´´ Se vocês querem ir embora, procurar irmãos, ou achar um jeito de ir pra cidade, a hora é agora, a porta está ali. ´´
Em seguida saíram alguns alunos carregando suas mochilas, ficaram os gêmeos, Jack e mais um casal nos olhando.
A menina possuía um rosto angelical, com olhos cristalinos e cachos dourados, e seu aparente namorado era negro e esguio, com uma massa de músculos adquirida através de anos de treino e a mantinha em seus abraços deixando-a ainda menor, apesar de ela parecer mais mortal que ele logo depois de sacar uma pistola Glock 26 da mochila e a pôr no cós da calça e escrever algo rápido num papel e pôr no bolso.
´´ O que vamos fazer agora? ´´ ela disse. ´´Ir no supermercado é o mais aceitável. ´´ todos concordaram em seguida, sem coragem pra perguntar o porquê de ela ter uma arma.
´´Não se esqueçam de esvaziar as mochilas, vamos pegar alimentos e o que mais acharmos necessário´´ completei.
Desprendi meu casaco da cintura e o vesti, deixei somente meus lápis e meu caderno de capa de couro dentro da mochila, depois de estar pronta eu me posicionei na frente deles e dei uma olhada no rosto de cada um, os gêmeos estavam levantando algumas das cadeiras derrubadas, Jack brincava com seu canivete suíço, o casal conversava baixo e ela parecia preocupada. Carolina prendeu seus cachos revoltos em um rabo de cavalo e se posicionou ao meu lado, Arthur me mostrou seus dentes num sorriso discreto quando meu olhar caiu sobre ele, e eu sorri de volta.
Desviei meu olhar para a porta, feita de aço com uma janelinha no meio, pintada de verde, dei uma olhada pela janela e abri ela sem nenhum ruído, aprendi quando pequena como não deixar portas rangerem, só pra ir assistir desenho de madrugada sem acordar ninguém, é só saber aplicar a força certa nas dobradiças.
Do lado de fora o clima permanecia o mesmo, alheio ao cheiro de sangue e ao caos que se espalhava do outro lado da escola, estávamos na área do prédio reservada para aulas extras, sendo pra pessoas que precisam por notas baixas, ou que querem por fome de conhecimento, e nessa sala eram aceitos alunos de todas as idades, até mesmo os que já eram formados, se pagassem a matricula. Ela foi criada recentemente, e por isso era mais afastada do portão, e em cima dos quartos dos professores, alguns moravam no internato devido a suas vidas se resumirem a ele.
As cinco pessoas de nosso pequeno grupo seguiam a mim e a Arthur, que me flanqueava a direita, o caos que existia a cinco minutos se resumiram a gemidos manhosos de seres alheios a nós, aparentemente, após todos que estavam ao alcance da horda fugir ou morrer eles pararam de atacar, se guiando através de sons soltos por pássaros ou de quando um deles tropeçava e caia na grama, alguns gritos humanos aterrorizantes eram escutados além dos portões, sendo eles o único que era novo aos meus ouvidos, o grande chafariz que enfeitava o meio do pátio se encontrava afogado no meio de cabeças carecas e sujas, viradas para os gritos, perdidas nos instintos recém adquiridos.
O andar onde me encontrava possuía duas escadas, uma de frente pro pátio onde se subia para o refeitório e atrás do refeitório estava as salas de aulas extras, tendo elas a própria escada, que seguia para o jardim dos fundos.
Desci as escadas na ponta do pé sendo seguida por Arthur e o resto, andamos suavemente pela grama, protegidos dos seres novos pelos dois andares de tijolos onde estávamos a meia hora atrás.
"Eu vou ver se tem algo útil nos quartos dos professores."
"Vou com a Clarisse." disse Jack me seguindo.
"Nos esperem prontos pra pular o muro, voltamos daqui vinte minutos." completei me virando para os conjuntos e pisando no cimento de novo, não tinha nada como arma então Jack foi na frente com seu canivete.
As portas estavam quase todas trancadas, mas isso não foi um impedimento, arrombamos a primeira do corredor verde virado pro jardim, girei a maçaneta devagar, acendi as luzes e Jack foi revistar a cozinha e o quarto enquanto eu fechava a porta atrás de mim.
"Limpo!" ele gritou do quarto, e eu fui logo pra cozinha, abri a geladeira e peguei umas caixas de suco, e depois pra dispensa, achei um monte de garrafinhas de academia no armário, as enchi com água potável, peguei alguns enlatados, duas panelas, um saco de copos descartáveis e uns talheres, enquanto Jack revistava o quarto passei por ele direto pro banheiro, procurando nas gavetas tudo de útil, achei três escovas de dentes fechadas e dois tubos de pasta de dente, guardei na minha mochila e peguei uns sabonetes e shampoos.
Quando eu voltei ele tinha encontrado uma faca com dois gumes e um cabo de osso, e me meu ela com a capa pra prender, eu agradeci e fomos pra sala, ele estava com os braços cheios, tinha uns edredons de tecido quentinhos, peguei um de solteiro, enrolei e guardei no fundo da mochila que achei na sala, tipo uma de viajar, o resto eu coloquei na minha mochila de escola pra distribuir pro pessoal, nessa época do ano as noites são bem frias.
Passamos pro próximo duplex, antes de abrir a porta eu escutei um vaso caindo e depois quebrando, seguido de nenhuma exclamação, então eu tive uma ideia e pedi pro Jack ficar do lado da porta, eu bati nela e logo o corpo de dentro se atirou rosnando em minha direção, então eu abri a porta e pus o pé na frente, a criatura caiu e nem nos viu quando Jack afundou a bota em sua cabeça, manchando nossas calças com o sangue preto e denso.
"Parece o Sr. Foggins." disse ele com um meio sorriso, me fazendo rir.
O Sr. Foggins foi um dos professores que tivemos a uns cinco anos a trás. Eu vivi minha vida inteira com Jack, devido a minha guarda ter ficado com a mãe dele depois dos meus pais morrem num acidente de carro, nossas mães foram amigas desde pequenas e nós fomos criados como irmãos, e eu me adaptei bem rápido a minha vida sem meus pais, sempre que eu ficava triste ele aparecia me chamando de boba e dizendo que eles iriam me querer feliz, e então íamos brincar.
Fomos em mais dois lugares, eu achei alguns tacos de baseball do treinador, daqueles de metal, amarrei eles na minha costa e seguimos para o muro.
Ele não tinha mais que dois metros, e Arthur estava sentado em cima de costas pra nós, olhando pra mata que se estendia atrás da escola, o supermercado ficava a uns quinze minutos de caminhada da escola até lá, o resto do pessoal já tinha pulado e estavam do outro lado, Jack me empurrou e Arthur me deu a mão e em seguida ajudou Jack, joguei as mochilas pro Nico, os tacos pro Rafa e desci sozinha. Escutei Jack pulando e em seguida Arthur, peguei a os edredons e distribui, fiz igual com os tacos e com as garrafas d’água.
"Certo, todos sabemos como isso funciona certo? Sem mordidas ou arranhões, golpes na cabeça pra matar." até Carolina que morria de medo de filmes de terror entendeu a seriedade do que eu disse.
Seguimos rente a estrada, escondidos na mata, vimos uns dois carros passando na direção contrária e um batido, seguimos em silêncio. Até o estacionamento do mercado ficar à vista.
" Eu sei onde podemos arranjar armas de fogo." disse Carolina, assim que todos a olhamos ela continuou. “Clarisse você lembra do meu tio Andy?" eu pensei um pouco e meus olhos arregalaram.
"Aquele que vive caçando nas férias? " ela sorriu e concordou.
Perto de uma certa época do ano, um tio velho dela vem nos visitar no internato e depois segue pra sua cabana no alto da colina, não é longe se você souber ir, e ela sempre ia levar compras pra ele não precisar ficar subindo e descendo a colina.
"Não vai dar tempo de pegarmos as armas e ir no supermercado antes do sol se pôr, e ainda precisamos achar um lugar pra dormir." Jack falou apoiando o taco no chão e pondo seu peso nele.
"Vamos nos dividir." disse Arthur, "Nos encontramos aqui, ele marcou a árvore que nos cobria com um X no meio.
"Certo." Carolina foi com Jack e os gêmeos em direção da colina e eu fui em direção do estacionamento com Arthur e o casal: Thomas e Mel.
Chegamos no estacionamento e tive a ideia de guardamos nossa mochilas nos arbustos pra não ficar muito pesado na hora de pegar as coisas, assim nós guardamos as coisas e seguimos pela porta dos fundos, as luzes estavam acessas e a porta destrancada, entramos e logo ouvimos algumas vozes discutindo e algumas coisas caindo no chão.
"Claro que nós não fomos os únicos que tivemos a ideia de vir pro supermercado, seu idiota, olha a bagunça que você fez Rike." uma voz feminina gritou e quem quer que fosse o acompanhante dela, ele não se pronunciou.
"Vou ver se pelos menos você fechou a porta direito!" a mesma voz foi chegando mais perto seguida.
Eu fiz um sinal rápido e desengonçado pro Arthur se esconder, Mel com a pistola em punho e Thomas com uma faca já estavam atrás de prateleiras separadas e eu fui pra trás do balcão com a faca de cabo de osso rente ao corpo, Arthur meio atrapalhado se escondeu atrás de uma pilha de colchões com 80% de desconto.
O silêncio foi interrompido por passos ficando cada vez mais altos, ela passou por mim, com o cabelo loiro comprido preso, e pude ver a pistola na sua cintura e o facão na mão manchado de sangue, o cara que a seguia levava um rifle pendurado nas costas e era mais alto que eu mas mesmo assim ela o fazia parecer pequeno com a postura autoritária que tinha.
Do meu ponto de vista eu via claramente as costas do cara, que estava na entrada do balcão olhando pra mulher enquanto ela ia fechar a porta, então soou o barulho de uma lata caindo, eu sabia de onde vinha, e eles já iriam descobrir, a mulher musculosa sacou a pistola atirou logo quando avistou Thomas, o tiro pegou no peito dele, e logo achou Mel se movendo entre as prateleiras, mais dois tiros.
Eu sabia que o cara não podia pegar o rifle, então eu fiquei em pé em silêncio, Rike não percebeu quando eu cortei sua garganta, logo se afogando no próprio sangue, mas foi suficiente pra ela tirar os olhos de Mel e mirar o revolver em mim, então eu me joguei pra trás e caí de costas no chão, então escutei mais um corpo caindo, a loira estava no chão, com uma poça de sangue envolta da cabeça.
"Que porra que tá acont…" uma foz furiosa foi interrompida pelo taco de baseball do Arthur, o homem que agora estava no chão era loiro e grande igual a mulher.
Eu corri limpando o sangue da minha faca na calça, Thomas estava estirado no chão do jeito que tinha caído, seu corpo estava frio e eu não tive dúvidas do que fazer depois, eu usei minha faca na lateral da mandíbula empurrando pra cima, foi o caminho mais fácil e mais digno do que pela base do crânio ou pelo olho, então com gestos eu disse pro Arthur fazer o mesmo com o Rike e com o homem, então eu fui atrás da Mel.
Por entre as prateleiras eu a achei escorada na parede com a roupa manchada de sangue, ainda tinha a pistola em punho, repousada no seu colo, eu cheguei mais perto e sentei no chão, ela olhou pra mim e tossiu sangue, se envergando com uma mão na barriga e a outra a sustentando no chão.
"Pegue o papel no meu bolso," ela disse jogando a pistola de lado manchando o chão de velho, eu tentei não sujar ele de sangue, segurando pelas beiradas e depois guardando no bolso.
"Minha irmã, diga que eu estava com vocês." eu fiz que sim com a cabeça, ainda com o coração a mil, e a vista embaçada.
"Eu acertei a desgraçada não foi?" ela perguntou com um sorriso frágil enquanto deitava de peito pra cima e olhava para as lâmpadas do supermercado.
"Bem no meio da testa, você é uma máquina." eu disse sorrindo de volta.
"Você não viu nada." ela fechou os olhos, eu observei a poça vermelha de novo, no momento que eu vi eu soube que não se pode perder tanto sangue e sobreviver, limpei minhas lágrimas o observei sua respiração ir parando devagar, então Arthur pôs a mão em meu ombro manchando mais minha camisa de rubro.
"Vá pegar algumas coisas, eu fico com ela."
Peguei a pistola dela e segui pros três mortos perto do balcão, revistei os três, achei uma chave de carro, uns cigarros com isqueiro, a pistola da loira e o rifle do Rike, o coldre do cara que Arthur matou estava vazio, então eu segui de onde o cara tinha vindo, e achei umas mochilas, peguei elas e coloquei em cima da cadeira, no canto do quarto tinha uma casinha de plástico de cachorro, e dentro tinha um filhote de Golden Retriver, ele não tinha mais de três meses, o peguei no colo com os dois braços cheios, então ele me lambeu e voltou a dormir, coloquei ele em cima de uma mesa que tinha e revistei as mochilas, tinha uma lanterna, munição do rifle e alguns doces, ainda cabia muita coisa, então eu peguei o cachorro e voltei lá pra baixo. Arthur tinha posto Thomas junto da mel e coberto os dois com uma lona azul.
Ele me olhou estranho por causa do cachorro e eu dei de ombros.
Fui primeiro na sessão de animais e pus uma coleira nele, entupi a mochila com umas barracas, peguei quatro sacos de dormir, e enchi outra mochila que achei com alimentos e ração.
Dei uma pro Arthur e fomos pro estacionamento. Estava quase vazio exceto pelo trailer verde que piscou quando eu apertei o botão na chave que peguei da loira.
Arthur abriu a porta com a pistola que pegou em punho, o trailer estava vazio, quase pensei que fosse dos três, mas aí vi a foto de dois velhinhos na bancada da cozinha.
"Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão." eu disse apontando pra foto, Arthur riu.
Ele dirigiu o monstro de metal até o lugar onde deixamos as mochilas, eu peguei elas e voltei pra dentro, dei água pro cachorro e fomos para o lugar marcado.
Estacionamos em frente a árvore marcada, eles ainda não tinham chegado, então eu deixei Arthur organizando as coisas que pegamos no trailer e subi no teto, peguei o rifle do Rike e tentei aprender como se usava, consegui colocar o silenciador, e treinei alguns tiros nos errantes que via pela estrada, errando bastante e as vezes tendo que descer pra acabar o trabalho, anotando o que aprendia no meu caderno, depois que cansei tirei dois cigarros do maço e escrevi num ´Para Mel.´ e no outro ´Para Thomas.´, acendi o primeiro e dei minha primeira tragada.
Logo quando chegaram perguntaram sobre o que aconteceu.
´´Não importa, agora nós temos onde dormir. ´´ eu disse apontando pro trailer. ´´E pra onde ir. ´´ lhes mostrei o papel.
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