The Dying Ladies
3 O lance da Jenna (e da Spencer)
Notas iniciais
O sol havia nascido mais uma vez. Passado uma semana desde que entregou seu trabalho, Spencer Hastings praticava seu melhor sorriso no espelho para parecer orgulhosa de si mesma e não devastada por ser incapaz de escrever um simples artigo. Desceu lentamente as escadas de sua casa e olhou confiantemente para seus pais, como se fosse aquele dia o mais alegre de sua vida. Aparências: era disso que Spencer vivia.
– Bom dia. – disse seu pai bebericando o café.
– Bom dia a todos. – respondeu Spencer ajeitando sua saia.
Sua mãe lhe deu um miúdo sorriso, as coisas pareciam estar se reajustando. Ainda tinha problemas com Melissa, a mesma não podia olhá-la nos olhos e bufava sempre que chegava. De qualquer forma, tinha dificuldades de lembrar-se do dia em que não teve problemas com sua irmã. Não era sua culpa, tampouco culpa da Melissa, a única e pura verdade era que culpava os pais. Os dois sempre tentavam arrancar o melhor das filhas, sem se preocupar o que isso iria custar no futuro. Desde pequenas competiam e não somente pelo controle da TV como os outros irmãos, também pelo melhor desenho e caligrafia, melhor comportamento, melhor brinquedo, melhores notas mesmo em turmas diferentes, melhor filha e, por fim, melhores namorados. Quer dizer, Spencer querendo competir a ponto de subconscientemente se apaixonar pelos namorados de Melissa.
– Qual o motivo de tanta felicidade? – Peter Hastings perguntou enquanto deixava sua caneca de café de lado para morder uma panqueca gigante.
– Tenho meus motivos pai. – se nada desse certo para ela, talvez se tornasse atriz. – Digamos que hoje recebo minha nota de um trabalho importantíssimo.
– Então alguém se deu bem! – exclamou Veronica Hastings sua querida e, por poucas vezes, amável mãe.
– Acho que um A está a minha espera. – ela jurou que achou ironia na própria frase.
– Boa sorte. – sussurrou Melissa com todo seu tom sarcástico.
– Obrigada Melissa. – Spencer ignorou o tom magnificamente debochado da irmã.
– Tudo bem, a princesa acertou uma.
– Melissa! – Veronica disse encarando-a expressando desagrado.
– Por favor! Eu tirei as melhores notas na família, eu fui para a Universidade da Pensilvânia, eu fiz tudo certo. Eu noivei com um cara promissor, vocês tinham que estar orgulhosos de mim e não dela. Ela estragou o meu noivado!
– Já chega Meli...
– Mãe, para! – Spencer urrou – Melissa se você quer saber eu não simplesmente beijei Wren. Já disse que ele me beijou, ele quis. Não vou mentir falando que eu não gostei que não sou uma pecadora como ele ou como qualquer um. Se você não quer me perdoar o problema é seu, apenas me deixe ter o meu momento. – suas últimas palavras foram lentas, demostrando cada sílaba mentirosa. – Isso não tem nada a ver com você.
Melissa deixou a mesa do café e subiu as escadas forçando os pés.
– De um tempo para Melissa. – falou seu pai se encaminhando para a garagem levando consigo sua grande companheira: a mala de trabalho.
Juntamente com Veronica, Spencer comia as panquecas que sobraram após o confronto matinal. As duas mantinham-se caladas, ouvindo apenas o som da mastigação. Foi a filha que quebrou o silêncio.
– Você acha que um dia ela vai me perdoar?
– Eu não sei querida. – respondeu mexendo com o garfo. – Talvez sim, só de tempo e espaço para ela poder se recuperar.
– Pode ser. – suspirou.
Após comer e escovar minuciosamente seus dentes, Spencer pegou as chaves do carro e dirigiu até o colégio. Rosewood High parecia ser comum, mas não era. Dentro daqueles corredores havia tantos segredos que, no caso de uma repentina descoberta, deixaria a cidade de pernas para o ar. E um deles naquela manhã parecia vir a sua mente por razão alguma: o lance da Jenna. Enquanto estacionava o carro ainda podia recordar, parecia que foi ali no outro dia. Ainda podia ouvir os gritos de Jenna Marshall.
A noite mal tinha começado e Alison já havia soltado duas ou três piadas de gorda para Hanna. Não era de se estranhar, pois as amigas experimentavam novas roupas e nenhuma delas provavelmente iriam ficar bem ajustadas ao corpo da mais cheinha. Emily tentava bisbilhotar a líder do grupo, o que só fez sentido para Spencer naquela hora quando o flashback passava por sua cabeça. Aria estava desatenta por motivo desconhecido e apenas se olhava no espelho tentando fazer seus seios se encaixarem melhor ao vestido.
Aquela agradabilíssima noite em amigas não poderia ser estragada, pensou Spencer quando Alison começou a gritar com a janela.
– Eu posso te ver! – gritava atônita.
– O que houve? – as três perguntaram em coro.
– Aquele maldito Toby Cavanaugh, aquele estranho estava nos olhando trocar de roupa!
– Ai meu Deus! – preocupou-se Hanna se cobrindo com sua roupa usual.
– É melhor deixarmos as cortinas fechadas. – Aria disse fechando-as.
– Ou nós podíamos dar um jeito nele. – retrucou Alison.
– O que você quer dizer com isso? – articulou Emily, amedrontada.
A angelical moça deu um diabólico sorriso e desceu até a garagem. As meninas apenas a seguiam com medo do que estava por vir, se olhavam sem entender muito e então viram os olhos de Ali se acenderem como fogos de artifício. E era exatamente isso que ela tinha em mãos. As três começaram a negar, tentando mudar a ideia da amiga, mas uma vez que tomou uma decisão, Alison não voltava atrás.
– Se vocês não vierem comigo, eu vou sozinha!
Então ela foi e em seguida todas foram. Nunca deixariam sua abelha rainha em situação tão tenebrosa sozinha.
Na ponta dos pés, atravessaram a rua. Era mesmo azar de a Alison morar em frente à casa de um tarado em potencial como Toby. Ao chegarem do outro lado, devagarzinho Ali abriu a porta da garagem da família Cavanaugh/Marshall. Ninguém nunca compreendeu, porém ao colocar o rosto dentro da casa, ela abriu a boca e arregalou seus olhos azulados. E então jogou a bombinha e correu como nunca havia corrido antes, parecia ter visto algo que a mataria.
Foi quando Spencer notou que talvez isso a matou. Jenna Marshall, meia irmã de Toby Cavanaugh, graças aquele infeliz incidente se tornou cega e seu irmão levou sobre si a culpa. Jenna agora estava em um colégio para cegos e Toby em um reformatório para menores infratores. De repente Spencer acordou de suas memórias jurando ver um rapaz alto bem parecido com Toby entrando na escola. Descartou essa possibilidade e saiu do carro avistando Aria acenar perto da porta.
– Acho que estou f-ficando m-maluca A-aria. – balbuciou assustada.
– Por que?
– Estou até vendo fantasmas.
O sinal tocou e Aria partiu para sua aula de geometria enquanto Spencer foi se deliciar com sua bela nota de história.
***
Os alunos chegavam rapidamente e Julie Smith quase roubou o último assento na frente. Com todos os anos praticando Hóquei, a Hastings se tornou uma das mais velozes nerds já vista, logo a outra aluna não tinha chances contra ela. Abriu seu material e continuou praticando mentalmente sua expressão de orgulho, de gozo. Senhor Johnson chegou com uma pasta em mãos, aquela pasta cor de areia que deixava todos os alunos que se importavam eufóricos – ou até mesmo neuróticos. Após colocar o material em sua mesa, o professor então começou a discursar.
– Bom dia. – seu sorriso era maior que o rosto – Hoje vou entregar as notas da turma e estou muito satisfeito com o que encontrei e uma principalmente. – nesse momento ele encarou alguém em especial na fileira da frente. – Conforme chamo os nomes, venham pegar.
Por cada nome que passava, por cada rosto que via – de tristeza ou de felicidade – mais Spencer queria se jogar janela abaixo. Ela não se sentia bem, suas forças pareciam esvair-se e sentia a sala rodar. Ao ouvir seu nome todas aquelas sensações pareciam triplicar e ao andar até seu professor pode sentir a turma inteira checando sua reação, fitando suas costas. E o professor parecia mais feliz do que de costume.
– Parabéns Senhorita Hastings! – congratulou-a entregando seu A. – Depois da aula, temos que conversar sobre sua nota.
E todas aquelas sensações triplicadas pareciam então quadriplicadas ao ouvir aquela última frase. Forçou um sorriso e voltou à mesa. Encarou o trabalho e passou a lê-lo devagar e quando ia relê-lo viu o fantasma novamente e ele não estava sozinho. Toby Cavanaugh vinha em direção à sala guiando Jenna Marshall para a cadeira mais próxima.
– Perdoe-me o atraso Senhor Johnson, tive um problema na papelada e meu irmão veio me ajudar.
Assim que seu nome foi tocado, ele cumprimentou Senhor Johnson com um leve sinal e foi embora. Pura coincidência ou não, mas os dois haviam voltado duas semanas depois do enterro de Ali. Pura coincidência ou não, os dois haviam voltado justamente pouco depois de –A aparecer em suas vidas. E isso deixou Spencer tão acovardada que as sensações quadriplicadas foram tão grandes que vomitou ali mesmo, em seus sapatos de camurça.
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