The Divorce
23 Capítulo vinte e dois
Aquela tarde estava testando todos seus limites. Acabara de sair de um atendimento que durara exatamente uma hora e meia, tudo por causa de uma brincadeira mal sucedida com um porco espinho enfurecido. Saíra da sala em passos pesados, seus pulsos doíam e sua cabeça começava a latejar. Draco saiu de um consultório e riu de seu desânimo.
— Dia difícil, Granger?
Caminharam juntos até o balcão central e deixaram os prontuários com a auxiliar que os aguardava com uma nova prancheta, um novo atendimento.
— Eu tirei 228 espinhos do corpo de um homem, e ele resmungou em cada um deles!
A rosto de Draco expressou exatamente o que sentia naquele momento.
— Vá para casa, eu fico com esse último. — Pegou o novo prontuário, abrindo-o em seguida para analisar a situação do paciente. — Além do mais, sua carona chegou.
Seguiu o olhar de Draco por cima do ombro e encontrou Harry caminhando em sua direção. Devia ter saído do Ministério, pois ainda vestia sua capa de auror, podia até mesmo ver a ponta da varinha presa no coldre em sua perna. Há alguns metros do balcão parou e colocou as mãos nos bolsos a calça, a esperaria ali. Demorou-se um pouco, no entanto, pois percebeu que fazia algum tempo que não o olhava realmente. O cabelo bagunçado para cima e a barba por fazer tinham um certo charme, tinha de admitir.
— Você vai lá, ou...? — Olhou para Draco e sacudiu a cabeça em concordância. — Até amanhã, Granger.
Aproximou-se de Harry, enterrando as mãos nos bolsos fundos do jaleco, buscando algum apoio.
— O que faz aqui?
— Vim sequestrar minha melhor amiga. — Abriu os braços, quase frustrado com a situação em que estavam.
— Harry...
— Só vou sair daqui com você, posso esperar o tempo que for necessário. — Cortou-a, já deixando claro que não desistiria. — E então?
— Eu só ia dizer que preciso me trocar. — Percebeu em seu semblante o exato segundo em que ele compreendeu que o acompanharia. — Cinco minutos.
Em exatos cinco minutos voltara para encontra-lo, e seguiram juntos lado a lado para fora do hospital.
— Por que veio me buscar, Harry?
Continuou seus passos curtos enquanto esperava pela resposta, mas notou que Harry parara no exato momento em que o questionara. Virou-se então para olhá-lo, aguardando.
— Porque eu não fazia ideia se você estava viva! — Seu tom tinha uma severidade que Hermione nunca vira. — Faz duas semanas que você tem saído cedo e voltado tarde, cheia de desculpas para evitar qualquer tipo de interação comigo. Acho que tenho o direito de saber o que está acontecendo.
— Harry, eu...
— Seja sincera, Hermione. — Pediu, diminuindo a distância em dois passos. — Por que está me evitando?
Seu coração pulsava um pouco mais rápido do que o normal, queria fugir daquela conversa. Ao menos, era o que vinha fazendo há duas semanas, e por mais que entendesse a frustração de Harry, ainda não encontrara uma resposta para o que acontecera. Prometa a si mesma que quando compreendesse o que se passara dentro da cabine telefônica, sentaria e tentaria explicar para ele, mas o tempo foi passando e agora estava aqui. Presa. Sem saída a não ser conversar.
— Naquele sábado em que fomos ao cinema. — Começou, e já podia sentir o rosto avermelhar-se. — Choveu na saída e nós entramos numa cabine telefônica até que pudéssemos desaparatar. Nós quase nos beijamos.
— E qual a ligação entre isso e duas semanas de silêncio? — Cruzou os braços sobre o peito.
—Eu não entendia, ainda não entendo, o que foi aquilo. — Corrigiu-se. — É confuso, Harry. Esse tipo de coisa não deveria acontecer!
— E por que não?
Percebera que Hermione estava bastante nervosa, suas mãos moviam-se durante sua explicação confusa e havia um leve tremor em seus gestos exagerados. Isso é claro, sem contar o rosto encantadoramente ruborizado pelo constrangimento de entrar naquele assunto. Aproximou-se mais um passo, olhando-a nos olhos, para que não percebesse o espaço diminuindo.
Interrompeu-a.
— Na primeira vez em que saímos com Draco você bebeu demais, choveu enquanto voltávamos para casa. — Contava com um tom bastante brando, como se explicasse para uma criança assustada. — Enfiei você dentro de uma cabine telefônica... Você me beijou naquela noite, um pouco antes de vomitar e apagar.
— Por isso me perguntou se eu lembrava daquele dia. — Passou a entender melhor a situação. — Por isso você estava nervoso quando foi me levar aspirina!
Bagunçou os cabelos e sorriu sem jeito.
— Foi bastante frustrante você ter esquecido de tudo. — Confessou. — Não quis contar porque achei que iria fugir, e durante essas duas semanas fiquei imaginando se você havia lembrado.
— Me desculpe, Harry, mas não lembro daquela noite. — Dizia a verdade, sua memória parava em determinado ponto. — Me desculpe por beijá-lo, sei que estava bêbada, mas não devia ter feito isso.
Segurou-lhe o braço, não com força, mas com a firmeza necessária para mantê-la no lugar.
— Você não está entendendo. — Disse e aproximou-se mais um passo. — Eu tenho pensando no beijo desde aquela noite, Hermione. Preciso... Eu preciso entender!
As últimas palavras foram sussurradas, justificadas pelo seu olhar que pousou nos lábios de Hermione, indecisos sobre o que fazer. No entanto, ouvi-la murmurar seu nome foi o estopim para que todo o controle que tinha, desaparecesse. Juntou seus lábios rapidamente, com um contato brusco e rápido, como se não pudesse esperar mais nenhum segundo. Suas mãos buscaram a cintura fina como se já conhecem o caminho a trilhar, e abraçaram-na ali, juntando seus corpos.
Antes que conseguisse aprofundar o contato um pouco mais, Hermione o empurrou com delicadeza e afastou-se alguns passos. Precisava de alguns segundos para pensar e juntar as peças daquele quebra-cabeças que sequer havia começado e ser montado. E tampouco sabia se queria juntá-las, estava tudo confuso.
— Hermione, eu...
— Conseguiu entender? — Virou-se abruptamente e olhou-o.
Não gostou do modo que Hermione o olhava, como se tivesse sido traída. Imaginou se fora precipitado, se devia ter pedido permissão ou tentado argumentar antes de simplesmente beijá-la. Não queria afastá-la ainda mais, precisava apenas descobrir o que significava aquilo tudo, e apesar de já ter uma vaga noção, não poderia falar. Não agora quando ela o olhava daquele jeito.
— Nem um pouco!
Hermione assentiu, como se esperasse por uma resposta melhor ou, ao menos, algo que também pudesse usar como explicação.
— Você quer jantar? — Voltou a olhá-lo, mas algo mudara.
Concordou e voltou a caminhar ao lado de Hermione.
Sabia que não devia tocar no assunto, a clausula estava implícita no convite para jantar. E pelo o menos naquela noite, evitaria voltar no assunto.
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