The Disappearance Act
1 Prólogo
Notas iniciais
Já chovia há dias quando Victoria desapareceu.
A floresta que cercava o campus da Universidade de East Woods havia se tornado lamacenta naquela semana, de forma que os estudantes deixaram de frequentá-la. O sol sequer conseguia transmitir qualquer calor por dentre as nuvens ao longo do dia, o que era incomum para Connecticut naquela época do ano, e o consenso entre os moradores da cidade era, cada vez mais, que eles estavam sendo coletivamente punidos por algo horrível.
Na sexta-feira anterior, Olivia afundara seu sapato numa poça antes de tocar a campainha da casa de Victoria. O poste de luz da rua havia parado de funcionar e ela mal podia enxergar onde pisava. O jardim de entrada cheirava a manjericão fresco e grama molhada. Era o princípio de abril e a primavera insistia em se anunciar apesar das tempestades.
A sacola de pano em seu ombro parecia cada vez mais pesada com as duas garrafas de vinho que ela trazia. O ar gelado da chuva fazia suas pernas tremerem e ela se arrependeu de insistir em vestir uma saia. Apesar disso, antes mesmo de a convidarem para entrar, ela já havia removido seus sapatos ensopados e suas meias brancas, posicionando-os na varanda de pedra, ao lado da porta.
Olivia sabia que era a última a chegar e estava ansiosa. Victoria alugava um quarto em uma casa próxima ao campus, que pertencia a uma senhora que raramente estava na cidade, o que dava a ela o ambiente perfeito para fazer reuniões com seus amigos.
A casa era muito antiga, em estilo georgiano com paredes verdes claras, mas fora reformada alguns anos atrás, e tinha agora um ar suburbano sofisticado, invés de apenas velha e inadequada. Tinha dois andares e janelas grandes, além de um jardim charmoso que complementava a aparência convidativa do local.
Foi Theo quem abriu a porta, sorrindente, e deu espaço para Olivia entrar. Ele tinha olhos gentis e escuros, em formato de amêndoas. Era o único que vestia uma camiseta de manga curta, indiferente ao frio, o tecido branco fazendo contraste com sua pele bronzeada. Teria cortado o cabelo recentemente, ela notou, seus fios negros e lisos tão escuros que, por certos angulos pareciam azuis como o céu noturno.
Olivia beijou sua bochecha e foi imediatamente tomada pelo calor confortável da sala de estar. Theo se ofereceu para ajudá-la com a capa grossa que vestia, que já não era mais necessária. A lareira de pedra estava acesa, dando um ar ainda mais aconchegante ao espaço, e iluminava todo o ambiente. Uma vela pingava diretamente sobre a madeira na mesa de centro.
A sala era pequena e agradável, dois sofás estavam dispostos em “L”, um ao lado, contra a parede, e um em frente à lareira, com a mesa de centro entre eles. As paredes eram enfeitadas por quadros de estilo renascentista, emoldurados em madeira maciça, a maior parte retratando mitos gregos. Se não soubesse que o ambiente era alugado, Olivia deduziria que Victoria o teria decorado sozinha.
A aniversariante estava sentada no chão, de pernas cruzadas sobre o tapete macio. Já tinha uma pequena taça de vinho em mãos, e ria levemente de algo que Íris tinha dito.
— Tranque a porta, Theo. — ela pediu, e ele obedeceu imediatamente. — Liv! — exclamou então, dirigindo seu olhar para Olivia, e deu uma batidinha no espaço vago ao seu lado, indicando que era ali que ela deveria se sentar — Estou tão feliz que você chegou.
Olivia cumprimentou os outros primeiro, guardando Victoria para o fim.
Íris estava recostada no sofá em frente à lareira. Suas pernas, cobertas por uma meia calça quase transparente, estavam estendidas ao seu lado. Ela abraçou Olivia com alegria, seus movimentos mais lentos e suaves que o normal pelo efeito da bebida, os olhos redondos e grandes como jabuticabas se aparentavam mais pesados. Íris vestia um cardigan grosso de lã amarela e tinha seus cabelos, pretos e cacheados, soltos: um ar despojado raramente visto nela que evidenciava o quanto aquela sexta-feira era uma sexta-feira. Seus lábios brilhantes pelo gloss marcaram a bochecha de Olivia sutilmente.
Daniel estava sentado no outro sofá, contra a parede, e bolava um cigarro de haxixe em suas mãos, interrompendo o processo apenas para receber também um abraço de Olivia. Ele vestia uma calça xadrez e um suéter bege, que cheirava a nicotina e amaciante. Daniel parecia ter ganhado vida a partir de um catálogo da Ralph Lauren e, então, cambaleado para fora desnorteado, sem nunca conseguir se adequar direito ao mundo normal. Seus cabelos, de um castanho desbotado, passavam sempre impressão de que ele acabara de acordar, dando-lhe um tom de charmosa irresponsabilidade que apenas alguém com tanto dinheiro quanto ele poderia exibir.
Só então Olivia sentou-se no tapete para abraçar a aniversariante.
Victoria vestia um cachecol vermelho escuro naquele dia, do mesmo tom que seus lábios. Tinha os cílios longos e as pupilas dilatadas. Seus cabelos ondulados, de um castanho mel, estavam soltos e muito cautelosamente bagunçados. Ela levava a própria beleza como quem carrega um acessório: propositalmente. Assim de perto era possível ver que seu rímel estava borrado apenas o suficiente apenas para fazer você se perguntar, no fundo de sua mente, se ela teria se aventurado num boquete de média dificuldade alguns momentos atrás. Seu cabelo cheirava a baunilha, mas suas palavras já estavam perfumadas pela acidez do vinho.
Ela tocou o rosto de Olivia com as duas mãos, os anéis dourados que usava gelaram sua pele. Olivia notou uma correntinha dourada em seu pescoço, com uma medalha de ouro na ponta e, nela, um santo que não reconhecia.
— É novo? — questionou, tocando o colar
— Lindo, não é? — Victoria disse, expondo mais o pescoço. — Dan que me deu. Para me proteger.
De seu lugar no sofá, Daniel sorriu para ela, lambendo a seda em suas mãos em seguida
— Também te trouxe um presentinho. — Olivia disse baixinho, fazendo Victoria sorrir
— Ponha em meu quarto. — ela pediu.
Olivia subiu as escadas ao lado da cozinha rapidamente e atravessou o corredor que levava ao quarto de Victoria. O ambiente era espaçoso e cheirava a incenso de lavanda, a única fonte de luz ali era um abajur cor de rosa, ao lado da imensa cama de casal, que estava apoiado sobre uma cópia antiga de Ada, de Nabokov na cômoda. As duas grandes janelas na parede direita estavam fechadas e o vidro era chicoteado pela chuva sob o tecido rosa claro das cortinas. Sobre a cama, coberta de almofadas, estava o que ela reconheceu como a pilha de presentes.
No edredom cinzento havia uma caixa escura, já aberta e vazia, que Olivia presumiu ser a embalagem do colar que Dan a dera. Embaixo, havia uma caixa de chocolates e um envelope grosso de papel escuro escrito em caneta preta “de: Theo T.”, uma sacolinha azul clara ao lado era certamente o presente de Íris. Olivia colocou o livro embrulhado ao lado do resto e, por um instante, se arrependeu do gesto e pensou em levá-lo para casa e fingir que tinha esquecido. Mas, por fim, apenas rezou para que Victoria gostasse. Sua escolha tinha sido Orlando de Virginia Woolf.
Desceu de volta ao primeiro andar em seguida. Música tocava ao fundo, mas Olivia não reconhecia a banda. Lá fora, os trovões furiosos pareciam querer chacoalhar a casa. Novamente, Victoria deu duas batidinhas no tapete quando a viu, indicando que deveria se sentar.
— Ouvi dizer que conseguiu o papel principal. — comentou Theo, continuando uma conversa que ela havia perdido.
Victoria sorriu em resposta, antes de estender a mão para tocar a de Íris.
— Is será minha substituta. — respondeu.
Íris sorriu entredentes antes de levar sua taça de vinho aos lábios novamente
— Giselle? — Daniel sugeriu da janela, onde fumava sentado no batente, ignorando as gotas d’água que molhavam suas calças.
— Não, A Bela Adormecida— respondeu Íris.
— Você fará uma bela Aurora. — ele comentou distraidamente, sem enunciar com qual das duas estava falando.
Victoria estendeu sua taça para Theo, que compreendeu que deveria enchê-la novamente, e entregou-a para Olivia em seguida:
— Aqui. Beba, beba.
Ela obedeceu. Perguntou-se se aquele seria um daqueles dias em que ficam bêbadas de vinho e se beijam. Tinha que ser vinho pois Victoria nunca a beijara com cerveja, nem qualquer outra coisa.
Olivia tinha certeza de que, se permitisse, tornaria-se alcóolatra facilmente. A ideia a preocupava e, por isso, ela evitava beber quando estava sozinha ou quando estava muito triste. Mas se permitia, num dia como aquele, divertir-se, ou beber o suficiente para que se visse mais livre de suas neuroses e alcançasse um estado que gostava de pensar como sendo a sua versão mais autêntica. Poderia me sentir sempre assim, costumava pensar após duas ou três taças de vinho (ou então um comprimido de Vallium), o que ela sabia não ser um bom sinal de saúde mental.
Bebericou a bebida em suas mãos com certa urgência, ansiosa para que a embriaguez retirasse a tensão de seus ombros e silenciasse seus pensamentos ruins
— Por que demorou tanto, Liv? — Theo questionou, cutucando-a de leve com a perna de onde estava no sofá.
— Estava tendo uma aula. — ela se explicou — Filosofia Política — Aah — Daniel interviu em tom debochado da janela — É essa a turma com do professor gostosão?Victoria sorriu travessa, dando um gole da taça em seguida, mas Olivia apenas encolheu os ombros:
— Bem, eu suponho que você possa dizer isso.
— Ouvi dizer que ele dorme com as alunas. — Daniel comentou com seu cigarro entre os lábios.
— Quem disse isso? — Victoria indagou, mas ele deu de ombros — São só boatos, Vita. — falou Theo — Bem, ele é um ótimo professor. — Olivia concluiu — Aposto que é — implicou Daniel e Olivia sentiu as bochechas esquentarem, embora não tivesse motivo para constrangimento. — Devíamos jogar um jogo — sugeriu Íris após alguns segundos, mudando de assunto.Theo concordou e buscou um baralho na gaveta de um velho móvel de madeira próximo a porta. Daniel juntou-se a eles ao redor da mesa, sentando-se entre Íris e Victoria.
Não era possível jogar bridge em cinco, então sempre acabavam jogando poker, o que Olivia detestava, pois sempre ficava desconfortável, mas não reclamava.
— Aquela menina que mora aqui não está em casa? — ela perguntou, enquanto Theo embaralhava as cartas.
— Clara? Acho que não. — Victoria respondeu, sem dar muita importância ao tema.
Olivia só vira Clara duas vezes na vida, de passagem. Era uma moça franzina e pequena, que parecia constantemente assustada. Lembrava de vê-la certa vez numa aula de história, mas nunca havia falado com ela.
— Você a convidou? — Íris questionou num sussurro.
— Ah, sim. — Victoria deu de ombros, concentrada agora nas cartas que recebia — Acho que cheguei a comentar. Mas, sabe como é, ela é meio esquisita. Não interage muito.Eles não tinham as peças para brincar de apostar dinheiro e Íris nunca concordava em jogar strip poker, o que Victoria sempre sugeria mesmo assim. Por isso, acabavam apostando todo tipo de tranqueira que encontrassem no fundo de seus bolsos ou mochilas, a graça do jogo sendo quem conseguia pensar nas recompensas mais absurdas. Uma caneta sem tinta, um ingresso usado do cinema, 2 pílulas de ritalina, uma tiara de cabelo, um bloco de notas rabiscado, 1g de maconha.
As vezes, quando ficavam sem objetos físicos e entravam no campo da embriaguez que ultrapassava certos limites da realidade, acabavam apostando atos libidinosos ou até mesmo conceitos imateriais. Eu aposto minha dignidade, eu dobro sua aposta e coloco aquele sonho no qual sou perseguido por coelhos; eu aposto um abraço apertado, dois beijos, todo o meu amor.
Num dado ponto da noite, Victoria e Daniel se retiraram para cheirar cocaína no banheiro, com a discrição de quem tinha um segredo, apesar de todos saberem o que estavam fazendo. Olivia nunca provara cocaína porque não gostava da ideia, já Íris nunca tentara porque tinha certeza que iria gostar.
— Quais os seus planos para o verão, Liv? — perguntou Theo, sentado no tapete, com a cabeça apoiada nas pernas de Íris, que estava no sofá.
Ela estava entretida num livrinho surrado de poesias que tinha ganhado de Daniel na última partida
— Ainda não sei ao certo. Talvez eu viaje com a minha família. — Olivia respondeu — E vocês?
— Vou visitar meus pais no Michigan. — Íris disse — Mas só por algumas semanas.
— Eu vou continuar trabalhando na lanchonete — Theo disse — Espero. — complementou.
Victoria aumentou o som quando voltou e exigiu que todos dançassem com ela, puxou Íris do sofá pelas mãos e guiou-a até atrás dele, onde era mais espaçoso. Daniel puxou-a pela cintura e passaram a dançar uma espécie de valsa descompassada
— É verdade que ela terminou com Thomas? — Olivia perguntou baixinho para Theo, quase num sussurro, aproximando-se dele no tapete.
— Aparentemente, sim. — ele respondeu, olhando por cima do ombro por um instante, antes de tombar a cabeça para trás no acolchoado. — Você sabe por que? — Olivia questionou — Ela não me falou nada…Foi Íris quem me contou. — comentou então, com um tom de mágoa na voz.Theo apenas negou com a cabeça, mas pegou uma mão fina dela nas suas. A mão dele era quente contra a dela, e ela entrelaçou seus dedos com os dele
— Ela também não me explicou nada. — disse — Mas parece estar bem tranquila.
Olivia despejou o restante da garrafa que estava acima da mesa de centro em sua taça, e ajustou-se para sentar ao lado de Theo, com as costas apoiadas no sofá como ele
— Você sabe se ele está bem? — perguntou.
Thomas era capitão do time de futebol da Universidade, no qual Theo jogava como artilheiro.
— Não sei ao certo. — ele respondeu - Não somos exatamente amigos…inclusive acho que ele me odeia. — falou — Ele parecia bastante nervoso no treino de hoje, mas acertou uns bons gols.
Ela assentiu, movendo a cabeça para espiar os amigos dançando novamente.
— Dan parece contente. — comentou.
Theo deu uma risada breve.
— Quando que ele não está? — perguntou, ignorando sua insinuação.
— Venham! — Victoria interrompeu aparecendo ao lado deles, estendou os braços para alcançá-los. Theo soltou a mão de Olivia e deixou-se levar imediatamente.
Ela assistiu enquanto dançavam juntos, as mãos dela envolta da nuca dele. Enquanto isso, Daniel fingia não saber o que fazia e deixava que Íris o guiasse pela sala com sua precisão de bailarina.
Olivia tinha a impressão de que Victoria controlava a atmosfera, tinha poder sobre a velocidade com a qual o tempo passava e a forma como as luzes tremeluziam. Tentava estudá-la em suas palavras e movimentos, buscava se imaginar agindo como ela, com tanta naturalidade, mas nunca conseguia. Victoria conseguia criar intimidade com qualquer um, parecia ser capaz de dissipar qualquer resquício de receio ou estranheza entre as pessoas. Ela podia fazer o que quisesse e ninguém jamais acharia nada de errado, as vezes Olivia pensava que mesmo que Victoria matasse um deles na frente dos outros, os que sobrassem a defenderiam. Podia beijar seus amigos na boca e desfilar de mãos dadas com eles sem que se criasse qualquer estranhamento, nem seu recente ex-namorado ousara desafiá-la sobre essas atitudes, pois sabia que tê-la era um presente. Tinha um feitiço sobre eles.
Olivia imaginava-a como uma das bacantes nos quadros em volta, dotada de poderes dionísticos irresistíveis. Enquanto a via rodopiar nos braços de Theo pela sala, ela sentiu-se grata, jamais teria feito qualquer uma daquelas amizades se não fosse por Victoria.
— Eu amo vocês, pessoal. — Victoria falou calorosamente quando enfim cansou de dançar e se jogou sobre um sofá. — Amo tanto todos vocês. — repetiu fechando os olhos.
Todos responderam que a amavam igualmente, com o conforto em seus corações que ouvir tais palavras dela sempre traziam.
Conforme o tempo passava, a música ficava mais baixa e era cada vez mais difícil para Olivia manter seus olhos abertos. O calor da lareira ao lado confortava seu corpo, e o do vinho preenchia seu corpo de moleza. Lentamente, subiu no sofá e repousou a cabeça numa almofada. Theo, que estava sentado ao lado, estendeu a mão e acariciou seu cabelo de leve, apenas o suficiente para que fechar os olhos se tornasse irresistível.
Ela ainda podia ouvir a conversa de seus amigos ao fundo, cada vez mais distantes, Victoria ria baixinho.
Quando abriu os olhos novamente, a televisão estava ligada e a luz emanada pela lareira era quase imperceptível. Um filme francês passava na televisão, quase inaudível. Theo, deitado na direção oposta, dormia profundamente com as pernas de Olivia sobre as suas. Íris parecia prestes a cair no sono, deitava encolhida sob uma manta verde no outro sofá. Victoria ainda estava no tapete, deitada agora no colo de Dan, que acariciava seus cabelos. Olivia podia ver que estavam conversando, mas as palavras eram meros sussurros e ela não podia distinguir o que diziam. No fim, rendeu-se ao sono e sonhou que passeava com Victoria numa grande floresta lamacenta.
Uma semana depois, ela não estava mais lá, e tudo aquilo que parecia tão real e presente naquele momento, se tornava apenas uma memória longínqua, que corria o risco de deixar de existir.
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