The Diary Of Gui

10 Vida Ou Morte: Sonho & Realidade


Te amo... Foi o que ele me disse, durante todos esses anos ele me disse essas palavras e eu acreditei, acreditei porque estava perdidamente apaixonado por ele, mas agora não sei se elas foram verdadeiras. Eu o amo, mas será que ele me esqueceu? Foi essa a ideia que mantive em minha mente durante nossos anos separados, sempre esperei que voltássemos apesar de odiá-lo o amava ao mesmo tempo. Hoje, na posição em que me encontro, não tenho duvidas de que sempre imaginei meu grande e lindo relacionamento com Luan quando ele nunca existiu quem sabe por quanto tempo eu fiquei em coma. Aqui, parado sem saber o que fazer, caminhando em direção à luz, entre esses dois mundos. Vivi uma vida boa isso não posso negar e também em coma realizei meus sonhos, posso dizer que o coma é um jeito que as pessoas têm de resolver assuntos inacabados, coisas que os prendem ao mundo antes de morrerem para sempre, nesse coma as pessoas sonham com os assuntos inacabados e tem a chance de fazer a coisa certa, eu só gostaria de ter filhos e netos para compartilhar essa magnifica experiência...

Ouço vozes ecoando na sala do hospital, conversando sobre mim, ouço pessoas chorando e lamentando pelo o que os médicos estão prestes a fazer. Apesar de ouvir tudo o que eles falam eu sou incapaz de reagir para demonstrar que estou ali, que ouço tudo que estou vivo... -Oh! Sim, estou vivo. Se eu estou vivo o que será que acontecerá quando desligarem as maquina, vai doer?- penso comigo mesmo, sem reagir-.

Eu quero morrer, mas eu não quero a dor. Pensar agora não me ajuda em nada, mas ficar deitado navegando entre dois mundos me ajuda menos ainda.

–É isso senhora, chegou a hora de todos vocês se despedirem dele, ele pode estar ou não ouvindo. Bem para falar a verdade acredito que não seja possível, mas creio também que tenham suas crenças e não quero palpitar sobre o que vocês acreditam. Vou deixa-los a sós com ele... Em dez minutos voltamos para desligar as maquinas- disse o medico com uma voz longe-

Ele saiu junto aos enfermeiros e enfermeiras que ocupavam a sala junto a minha família e amigos.

Pessoas se aproximam e lamentam em cima de mim, posso senti-los, suas mãos encostando-se ao meu peito, em minha perna, acariciando minha cabeça. Não reconheço as vozes que veem até mim e não posso velos e nem chorar junto a eles, nem ao menos dizer que estou vivo. Um desespero invade meu corpo uma sensação entra em meu corpo como uma cobra espectral fria... Não! Congelante, embrenhando dentro de mim, se enrolando em meu coração e apertando forte. Então, sinto como se uma lagrima escorresse em meu rosto, saindo do meu próprio olho, fico confuso, penso não ser mais uma de minhas ilusões devido ao coma. Mas logo descubro que essa sensação e verdadeira, isso realmente aconteceu, eu ouço pessoas falando assustadas sobre esta lagrima. Uma voz que conheço bem fala ao longe, forço minha audição para tentar ouvi-la, focando somente na voz ela torna a ficar mais alta e então consigo ouvir a seguinte afirmação – Ele chorou ao me abraçar! Será que vocês não veem o quanto ele me amava e o quanto eu o amava, isso não significa nada para vocês? Não importa se vocês não aceitavam ou não aceitam neste momento o que importa e a felicidade dele e o que eu puder proporcionar para que ele se vá em paz!- Sim, é o Luan com sua voz agradável, descubro que fora ele quem me abraçará enquanto aquela lagrima escorrerá em meu rosto, como a minha ultima chance de vida...

Os médicos voltam prontos para desligar os equipamentos, minha vó grita desesperadamente – Não! Vocês ficaram loucos? Essa lagrima é a certeza de que ele está vivo! Como podem pensar em desligar o equipamento após verem claramente está lagrima escorrendo por seu rosto, saindo do seu próprio olho. Não tem como dizer que esta lagrima é de outra pessoa, não tem como ser, está descartado esta possibilidade. Luan secou seu rosto antes de abraça-lo e as lagrimas estão claramente saindo de seu olho.

– Eu não havia reparado, perdoe-me senhora, foi erro meu – disse o medico lamentando-se – Bem diante disso, muda tudo, não podemos desligar a maquina sem a certeza de que ele está morto ou sem possibilidades de vida e nem sem o consentimento da família. – disse o medico com um olhar determinado e extremamente profissional-.

– Sim! – grita Luan –

Todos na sala param e o olham freneticamente, fazem uma pausa sincronizada e logo retornam os olhares para mim.

Esforço-me cansativamente para abrir os olhos e me mover, mas nada acontece. Paro de me esforçar em tentar escuta-los e manter-me acordado, adormeço um pouco e volto a ver o mundo em que eu mesmo criei, lá estavam todas as pessoas presentes na sala do hospital, mas não eram eles, não sei como explicar, mas os traços eram diferentes... Do nada, eles começam a queimar, tudo começa a pegar fogo e eles começam a se tornar caveiras sombrias, uma coisa muito macabra começa a aparecer em meio a todo aquele fogo, eles ainda se mexem mais são apenas ossos com as roupas deles. Volto à consciência com a voz de Luan me fazendo um pedido – Gui, abra seus olhos e volte para mim – sua voz tremula e chorosa ecoa em minha cabeça.

Reagindo com a emoção tento mais uma vez abrir meus olhos e para minha surpresa e a de todos meus batimentos cardíacos voltam a se acelerar normalmente e meus olhos se abrem novamente depois de muito tempo fechados. Olho para todos naquela sala reconhecendo alguns, sou surpreendido por gritos alegres e choros emocionados e por um incrível abraço apertado de Luan que estranhamente estava exatamente mudado do jeito que eu lhe imaginei em meu sonho durante o coma. – Eu nem acredito que você voltou, depois de tanto tempo esperando por isso você está de volta. Durante um ano te visitando e fazendo-lhe carinho, trocando suas flores e esperando qualquer reação que pudesse esboçar finalmente valeu a pena esperar porque agora você não só se manifestou, mas como também, acordou de seu sono prolongado. — disse Luan com uma voz tremula enquanto chorava em cima de mim.

– Talvez! Ainda não tenho certeza disso, ainda me sinto entre a vida e a morte... Entre o sonho... E a realidade! – Digo com uma voz rouca e embaçada de quem não falava nada há muito tempo.

Eu ainda não saí dos dois mundos!