The Devil Wears Prada
30 Capítulo XXX - "The Iron Lady".
Notas iniciais
POV Regina
Já era noite quando cheguei em casa. Fiquei na Mills até tarde; além de gostar bastante do meu escritório, não conseguia me sentir confortável com a presença da minha ex-mulher tão perto de mim. Assim que entrei em meu apartamento, apenas uma das luzes permanecia acessa e, ainda assim, estava com uma iluminação fraca. A sala e os cômodos estavam quase uma penumbra e aquilo me tranquilizou: Rose estava dormindo. Antes de acomodar a bolsa em cima do sofá, chequei meu celular uma vez mais e não havia nenhum sinal de Emma. Entrei no escritório e servi um copo com gelo e whisky para mim. Dirigi-me à varanda, um dos meus lugares preferidos, mesmo que minha presença tivesse pouca frequência ali, e apoiei o copo na madeira do parapeito. Meu olhar vagava por Nova Iorque, ou pelo menos uma parte dela, enquanto os goles da bebida percorriam garganta a dentro. Ouvi alguns passos e não me virei, minha expectativa era baixa.
– Chegou tarde e nem me deu notícias sobre seu paradeiro. – A voz de Rose vinha ficando mais alta, sinal de que estaria se aproximando. – Foi encontrar sua namoradinha? – Revirei os olhos, sem olhar para ela.
– Fui almoçar com a minha mãe e estive na Mills até agora. – Fiz uma pausa, repensando em minha resposta. – Não que eu lhe devesse alguma resposta, é claro.
Rose parou logo atrás de mim, apoiando suas mãos sobre meus ombros e massageando-os.
– Rose. – Virei-me para ela. – O que houve com você? – Ela me olhou com uma expressão confusa, então tentei explicar melhor. – Digo, quando nos conhecemos, você era sempre alegre, cheia de vida... Não era o que é hoje. O que aconteceu? – Perguntei uma vez mais.
– Regina Mills. – Rose respondeu com um golpe que me atravessou. – O que houve, Regina, foi Regina Mills.
Voltei a me apoiar no parapeito, ficando de costas para ela.
– Então sou eu a grande culpada por tudo que vem acontecendo?
– Não é você. – Ela se apoiou no parapeito, postando-se bem ao meu lado. – São as suas escolhas que causam prejuízos tão grandes. – Seu olhar vagava em frente, junto ao meu.
– Desculpe-me por fazê-la ser tão infeliz. – Tentei uma trégua. Estava cansada... Cansada de Rose, cansada de Emma, cansada de tudo o que me cercava. – Eu nunca quis fazer isso. – Abaixei os olhos, procurando algum conforto na imensa altura que nos separava da rua.
– Não desculpo, Regina. – Sua voz carregava toda a mágoa que tinha dentro de si. – Só desculparei quando você voltar para mim de verdade.
– Isso não seria possível... – Deixei de lado meu tom agressivo, apenas desabafando. – Você sabe que tudo nessa vida muda, não sabe? O amor não é diferente dos demais momentos que vivemos. – Suspirei. – Lembrava de você com muito carinho, só que o amor... – Fiz algum gesto com a mão, tentando puxar algumas palavras que me servissem naquele momento. – O amor não sobrevive a tantos danos.
– Você a ama, Regina? – Sua pergunta foi um tiro certeiro.
Sem dizer nada, virei o resto de whisky que se movia em meu copo. Fitei-a uma vez mais e, ainda em meu silêncio estritamente particular, retirei-me da varanda, deixando Rose e suas perguntas conversarem por conta própria.
+++
POV Emma
A luz da manhã começava a banhar a sala através dos enormes vidros. Tentei voltar a dormir, mas um barulho irritante me atazanava. De repente, Zelena se levanta em um pulo, quase me matando de susto.
– Santo deus, Emma! – Gritou. – Estou atrasada. Perdi o horário do despertador. Droga! – Ela tentava ajeitar sua roupa toda amassada por conta da noite. – Regina vai me matar!
– Foda-se a Regina. – Resmunguei, cobrindo meu rosto com uma almofada. – Se quiser roupas e maquiagem para se arrumar, é só subir as escadas. No final do corredor tem uma porta, o meu quarto, pode ficar à vontade para se arrumar. – Minhas palavras ainda sonolentas fizeram a manhã de Zelena muito mais alegre. Ela subiu as escadas como um furacão e foi se aprontar.
Com a mão esquerda, apalpei o tapete do chão em busca do meu celular. Peguei-o e, aos poucos, fui tirando a almofada de meu rosto, tentando fazer com que meus olhos se acostumassem a claridade. Nenhuma mensagem de Regina, nenhuma ligação de Regina, nada, absolutamente nada de Regina. Joguei o aparelho na poltrona e sentei no sofá. Inclinando o pescoço para os lados, fiz o meu pequeno alongamento matinal e fui para a cozinha. Ao abrir a geladeira, uma jarra de suco de laranja me apeteceu logo de cara, mas peguei a garrafa de gim que ficava na porta. Foda-se se eram quase 9h da manhã. Ao contrário do que Fiona disse, decidi não trabalhar até o ano-novo. Merda! Com a história toda de Regina, acabei esquecendo de planejar o que faria na minha virada de ano. Pensei em ir à casa de Fiona, mas muito provavelmente a “Dama de Ferro” e a filha da puta estariam lá. Logo tirei essa ideia da cabeça. Faltavam três dias e eu já não fazia mais questão de comemorar, para ser sincera. Meu ano estava acabando uma droga e, diferente do que a maioria pensa, não acho que uma “virada” muda alguma coisa na vida das pessoas. Dei os ombros. Depois resolveria isso.
– Emma! – Zelena voltou com outra cara e se surpreendeu ao me ver sentada no banco da bancada. – Bebendo gim a essa hora?! – Na verdade, sua surpresa foi causada pelo conteúdo em meu copo.
– Deixa para lá, Zelena... Eu não quero estar sóbria. – Dei os ombros novamente, tomando outro gole.
– Eu só deixo porque sei o quão ruim pode ser essa fase. – Ela se aproximou de mim. – Mas que passe logo, pois não é fígado que aguente! – Deu um beijo em minha bochecha e eu achei muita graça daquilo. Estava acostumada com uma Zelena totalmente diferente dessa. Ela virou para sair, mas chamei sua atenção uma vez mais.
– Zelena! – Ela me olhou. – Depois me conte como Regina está, pode ser?
– Claro. – Zelena assentiu e saiu às pressas.
O resto do meu dia foi arrastada. Eu ia da cozinha para o sofá e do sofá para a cozinha. Por mais que tentasse, minha vontade e meu ânimo me traiam, deixando muito a desejar sobre seus respectivos potenciais. Regina, tudo era Regina! Assim que a noite caiu, peguei meu celular e liguei para Zelena.
– Alô? – Seu tom tinha voltado a ser o da Zelena, secretária de Regina Mills. – Diga.
– Oi. Só queria saber como Regina está. – Mal acabei minha frase, quando ouvi a voz de Regina brigando com alguém ao lado de Zelena.
– Péssima! – Ela cochichou. – Seu mau humor aumentou e seu olhar parece sempre vazio. Está horrível o clima aqui hoje. Por conta do meu atraso, vi quando ela chegou e você acredita que Rose a trouxe até aqui? – Arregalei os olhos ao ouvir aquilo.
– Então elas estão de casalzinho?
– Não, Emma. – Zelena bufou. – Rose tenta controlá-la, mas bem reparei quando Regina desceu do carro a passos largos, sem ao menos olhar para trás.
– Ótimo! – Meu coração recebeu um pouquinho de conforte. – Mantenha-me informada, tá? – Ela concordou e desligamos.
Ri bastante ao saber que Regina não ligou para a presença de Rose, porém, logo o riso foi substituído por lágrimas. Meus dias estavam assim: eu ria e chorava. Era tão cômico e, ao mesmo tempo, tão cruel. Notei que haviam várias notificações em meu celular. Nenhuma de Regina. Nenhuma de Fiona também, o que me pareceu estranho. Suspirei e o coloquei na mesa de centro; não queria ver ou falar com ninguém que eu não quisesse.
+++
Os dias se passaram arrastados, tanto para Emma, quanto para Regina. A modelo parecia engolir sua dor em porres homéricos regados a muito álcool. Os planos para o ano-novo lhe fizeram mudar de estratégia. Passaria a virada do ano em seu apartamento e iria viajar no dia seguinte. Pouco importava se estava sozinha ou não, tudo o que Emma queria era esquecer Regina e, ao contrário do que dizem, sua dor só foi aumentando com o passar das horas, que mais pareciam meses caminhando lentamente.
Regina, por sua vez, estava cada vez mais rígida. Demitiu quase cinco pessoas em dois dias na Mills. Tudo o que não fosse de seu agrado era imediatamente descartado, o problema era que nada lhe agradava nos últimos dias e isso era a desculpa para sua postura de “Dama de Ferro”.
– Bom dia, senhorita Mills. – A mesa de reuniões estava pronta para ela. Todos a saudaram e ninguém, nem mesmo Killian obteve uma resposta. Ela se sentou e fitou os demais participantes da reunião de pauta.
– Hoje é dia 30, alguém pode me dizer o que isso significa? – Perguntou a morena com o seu tom calmo e ríspido de sempre. Nenhuma manifestação. – Ninguém? – Encarou todos ao seu redor. – Ótimo! Estou cercada por incompetentes. – Regina percorria os rostos assustados com os olhos, parando em um homem que tentava desviar o seu olhar. – Você. – Apontou para ele. – O que significa hoje ser dia 30 e estarmos fazendo essa reunião?
– Eu? – Ele começou a gaguejar. – É, dia 30, certo? – Perdia-se em sua própria fala.
Um outro homem, que estava ao seu lado, falou baixinho “significa que estamos trabalhando na véspera de ano-novo”, ele riu sozinho e logo ganhou a atenção de Regina.
– Como é? – A “Dama de Ferro” perguntou, olhando no fundo que seus olhos, que agora competiam a atenção dos outros com algumas gotas de suor em seu rosto.
– Nada, eu não disse nada. – O homem afundou na cadeira, arrependendo-se amargamente da piada infame que fizera.
– Dia 30 significa que temos apenas um dia para fechar a edição de 2014/2015. – Falou para todos, voltando o olhar para o homem. – Eu estou aqui perdendo minha véspera de feriado e sabe o motivo disso? – Estreitou o par de olhos. – Porque vocês são todos uns incompetentes. – As pessoas presentes seguiram o movimento do colega e se afundaram em suas devidas cadeiras. – Porque eu não posso ter um minuto de paz sem que sejamos massacrados pelas revistas concorrentes. Porque homens como este. – Apontou para o piadista da mesa. – Não levam o nosso trabalho a sério, além de não ter o menor respeito. – Regina apoiou os ante braços na mesa, inclinando seu corpo para frente. – Diga-me, querido, você acha que isto é uma brincadeira? – Não deixou que ele respondesse. – Ou você acha que eu sou uma brincadeira? Se o seu chefe fosse um homem, você faria piadas dessa forma ou é só mais um machistinha nojento querendo a atenção alheia por meio de piadas infames? – O homem engoliu seco. – São indivíduos como esse que nos atrasam. – Dirigia-se agora a todos os presentes. – É exatamente esse tipo que tenta fazer chacota, só que, querido, — voltou a fitá-lo – dessa vez, quem virou motivo de chacota foi o senhor mesmo. Sabe o porquê? Vou lhe explicar. – Fez uma pausa. – Porque homens assim nunca chegaram aos meus pés. Porque eu sempre soube o que falar e quando falar, não sou burra a ponto de não medir minhas palavras e o momento correto para usá-las. Parabéns, a sua burrice e incompetência farão com que comece 2015 sem um emprego.
– O quê?! – Ele alongou o corpo e arregalou os olhos. – Por favor, senhorita, Mills... – Ia começar a implorar, mas ela o interrompeu.
– Não me venha com pedidos ou desculpas. A sua burrice, porque é isso que você é, vai te levar ao fundo do poço e duvido muita que consiga de levantar de lá. – Pausou o discurso por um momento, retomando-o em seguida. Os outros a olhavam amedrontados. – Você está demitido e não terá nenhuma carta de recomendação. – O homem tentou protestar, só que ela prosseguiu. – É só isso.
Zelena rapidamente se levantou e abriu a porta para que o homem saísse. Cercada de olhares atentos e apreensivos, Regina voltou ao tema da reunião de pauta e não houve mais uma piada ou risinho que fosse. Pouco tempo antes de acabar a redação, Regina retomou a fala.
– Amanhã quero todos aqui. – Alguns suspiros podiam ser ouvidos. – Não é “Dama de Ferro” o nome pelo qual vocês me chamam? Pois bem, darei motivos para honrar esse apelido. A partir de hoje, eu não tolerarei mais nada que saia da minha risca. Vocês se acham todos muito espertos e engraçados, não é? Veremos quem consegue ri mais do outro. – Fez uma pausa, levantando-se em seguida. – É só isso.
Regina deixou a sala e Zelena tratou de acompanha-la. Quando chegaram ao escritório da morena, ela passou alguns afazeres para a secretária e se trancou em sua sala. Assim que Zelena deixou o local, correu para a copa, levando consigo seu celular.
– Alô? Emma? – A ruiva ligou para a amiga, ela sempre a matinha informada sobre Regina. – Regina está terrível! – Cochichava. – Demitiu o Oliver hoje, sabe?
– Sim! Aquele que se achava engraçado? – A voz de Emma saia pelo outro lado da linha.
– Sim, um que sempre cantava as funcionárias. Você tinha que ter visto a forma como ela falou com ele... Nunca vi Regina ser tão dura e humilhar tanto alguém. – Zelena parou um pouco e pensou. – Se bem que ele merecia. Era um “machistinha nojento” mesmo. – Usou as palavras de Regina.
– Bem feito! Ela parece mal? – O tom de voz de Emma revelava sua preocupação para com a outra.
– Parece péssima. Não a vi sorrindo nem para Killian. – Aquilo causou espanto na loira.
– Bom, ela sabe o que faz. – Emma deu os ombros mais na tentativa de fingir para si mesma indiferença. – Ze, eu vou viajar no dia primeiro.
– Que delícia! Vai para onde? – Zelena perguntou toda animada.
– Vou viajar o mundo durante um ano. – A ruiva foi pega de surpresa.
– Um ano?! Como assim, Emma?!
– Exatamente assim. – Sua voz se mantinha impassível. – Não há mais nada que me prenda aqui, Zelena. Não quero ficar sofrendo, já chega. – Parecia decidida.
– Se é o que te fará bem, fico feliz. Posso passar aí hoje para fazer uma última noite de “girls just wanna have fun”? – Elas riram.
– Claro!
As duas conversaram mais algumas besteiras e desligaram. A viagem de Emma parecia uma fuga para Zelena e ela não queria que fizesse aquilo. Não por aqueles motivos.
– Regina? – Zelena empurrou a porta do escritório da morena, dando algumas batidas de leve. – Posso falar com você um minutinho?
– Claro. – Regina não tirou os olhos de seu computador. Zelena se aproximou, sentando em uma das cadeiras da frente.
– Emma vai embora. – Falou de supetão, ganhando a atenção de Regina.
– Embora para onde? – Endureceu a voz, fazendo parecer que aquilo não tinha a desconcertado inteira.
– Vai viajar o mundo por um ano. – Os olhos de Regina se encheram de tristeza e surpresa. – Ambas sabemos o porquê de ela querer isso. – Zelena parou por um instante, tomando fôlego para continuar. – Não deixe que isso aconteça. – Soltou aquilo com rapidez e nervosismo.
Regina ficou desconcertada com tudo aquilo. Emma não podia ir embora, não podia ficar sem vê-la por todo um ano inteiro, mas também não era justo que Regina a prendesse sendo que nada poderia fazer para melhorar aquela situação.
– Zelena. – Fitou a secretária. – Em nada me compete a partida de Emma. – Seu tom fez Zelena ficar perplexa com a frieza com que tratou o assunto. – Se Swan quer ir embora, deixe que vá. – Voltou os olhos ao computador. – Mais alguma coisa?
Zelena fez que não com a cabeça e saiu do escritório perplexa pela resposta que ouviu.
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