Quinta-feira era um dia geralmente atribulado no escritório, exatamente porque a maioria dos funcionários tentava deixar o mínimo de tarefas pendentes para a sexta-feira e assim, se possível, sair um pouco mais cedo.

Por isso, foi definitivamente estranho quando Toshiya apareceu na mesa de Kaoru, todo sorridente, dando-se inclusive ao trabalho de contornar a divisória ao invés de ficar apoiado em cima da mesma como sempre fazia. O homem de cabelos roxos ergueu uma sobrancelha ao olhar para o colega.

— Está tudo bem, Totchi?

— Hai! Kaoru-kun, eu estava apenas pensando se... Você não gostaria de sair mais cedo hoje, ou alguma coisa assim.

A caneta que estivera entre os dedos da mão direita de Kaoru servindo para batucar contra a sua mesa suavemente segundos antes rolou para o chão.

— Totchi... Por que está me dizendo isso?

— Não sei... Talvez você possa usar o tempo livre de hoje para adiantar seus projetos para Matsumoto-san? — ele então abriu mais um sorriso brilhante e que parecia honestamente carregado de boas intenções. O oposto dos sorrisos de Die.

...E por que diabos ele havia acabado de pensar em Die?

Sacudindo o ruivo para fora dos seus pensamentos, Kaoru olhou para o seu monitor, em seguida para Toshiya e então virou a cabeça para lançar um olhar rápido na direção de Shinya, que coincidentemente observava a cena entre os dois publicitários.

Aquela oferta de Toshiya parecia ter sido motivada por Yoshiki. Então, de alguma forma, seu chefe preferia que ele desse atenção aos projetos do amigo ao invés dos que ele mesmo mantinha em andamento? Muito bem. Se era de uma instância superior que a ordem estava vindo, quem era Kaoru para argumentar, certo?

— Tudo bem!

Toshiya sorriu de novo:

— Pode ficar tranqüilo, Kao! Eu vou deixar tudo em ordem aqui, do jeito que você gosta.

— Está certo, Totchi. Bom trabalho, então. Me ligue se precisar de alguma coisa.

— Sem problemas. — o homem de cabelos azuis deu mais um sorriso que ia de uma orelha a outra, observando Kaoru recolher suas coisas e finalmente deixar seu cubículo. Olhando para trás, o homem de cabelos roxos viu seu colega fazer um sinal de positivo para Shinya, que logo em seguida pegou seu telefone e comunicou alguma coisa a alguém.

É, era isso mesmo. Yoshiki havia decidido lhe ajudar, mais uma vez. Realmente, Hayashi Yoshiki era o patrão dos sonhos.

Kaoru chegou em casa mais rápido do que de costume, justamente por ter evitado o horário com trânsito mais carregado que ele geralmente enfrentava. Afrouxando a gravata enquanto girava a chave na sua maçaneta, ele inclinou a cabeça para a sua esquerda ligeiramente; Ayame cantava no apartamento do lado junto com o rádio, ainda ajeitando toda a sua mudança. Pelas contas do publicitário, ela deveria terminar tudo naquela noite ou então na sexta-feira.

Finalmente entrando em casa, Kaoru utilizou alguns segundos para deixar seus sapatos e então prosseguir para a sala de estar, onde largou sua pasta antes de rumar para seu quarto. Depois de pegar uma muda de roupa, ele entrou imediatamente no chuveiro, ficando por aproximadamente quinze minutos debaixo da água.

Tirando o shampoo do seu cabelo, o publicitário não percebeu que havia começado a cantar também, reproduzindo a letra da antiga abertura de um anime que ele adorava quando criança. Devido ao som da sua própria voz aliado ao da água, ele também não ouviu a porta da sala ser aberta novamente, admitindo o mais novo morador daquele apartamento.

O ruivo também deixou os sapatos e o casaco na sala, sorrindo, no entanto, assim que ouviu a voz do seu antigo subordinado ecoando pelo pequeno corredor do apartamento. Embora o quarto de Kaoru fosse uma suíte, o banheiro de lá há muito estava com problemas para aquecer a água, coisa que nunca acontecera com o menor do corredor. Por isso, o homem de cabelos roxos sempre havia tomado banho por lá, e era também o mesmo banheiro que Die vinha utilizando.

Silenciosamente, o homem mais novo se aproximou da porta do cômodo ocupado pelo publicitário, constatando com uma felicidade imensa que ela estava apenas encostada; Kaoru detestava quando o vidro do espelho embaçava, então ele geralmente deixava uma fresta na porta para evitar que isso acontecesse. Era um hábito que ele havia abandonado desde que Die se mudara para sua casa por medo do que o outro poderia fazer, mas naquele dia...

Ele não fazia idéia de que o ruivo também chegaria mais cedo. O lado bom de ser seu próprio chefe e poder se dispensar.

Ainda sorrindo, o ex-chefe interino de Kaoru começou a prestar atenção na música que não era mais de anime e sim rock internacional, cantada em um inglês que tinha um pouco de sotaque nipônico, mas sem que comprometesse a compreensão da letra.

E que letra.

— ...You got my shoelaces undone, take my shirt, go on, take it off me, you can tear it up if you can tie me down...

Die escolheu aquele momento para abrir a porta do banheiro, apoiando-se no batente e sorrindo para o outro homem:

— Do you feel loved... Kaoru?

— Daisuke! — veio o grito cheio de horror, enquanto a toalha que estivera pendurada no box era retirada do seu lugar de descanso e enrolada no corpo do outro. O chuveiro havia sido desligado no susto — O que você está fazendo aqui?

O primeiro pensamento de Die foi que Kaoru era realmente adorável quando corava. Ele não sabia se o rubor no rosto do outro era porque a água estivera quente, porque ele fora pego sem roupa ou porque estivera cantando algo como aquela música.

Provavelmente todas as alternativas anteriores.

— Eu moro aqui. — o outro respondeu com um sorriso preguiçoso, usando a mão direita para também afrouxar sua gravata e começar a abrir a camisa social que usava — E Kami-sama, Kao. Será que sou eu... Ou aqui está mais quente?

Os reflexos de tempos antigos como jogador de basquete vieram a calhar quando um frasco de condicionador de repente voou na sua direção, sendo seguido por vários outros produtos pesados e que poderiam causar um bom estrago. Die desviou de todos com habilidade, vendo dois deles se espatifarem contra a parede branca do hall.

— Sua parede está bonita, Kao! Branca, azul e rosa, sem contar que tem um agradável aroma de morango. Você usa shampoo de morango, Kao?

Naquele momento, a porta do banheiro bateu e o som da chave sendo girada na porta fez o ruivo gargalhar. Sacudindo a cabeça, Die se foi para o seu quarto improvisado, separando as roupas para o seu próprio banho enquanto um pequeno suspiro escapava dos seus lábios.

Alguns minutos depois, Kaoru estava sentado no meio da sala. Ele havia deixado todas as peças de roupa que ele havia encontrado do ruivo no quarto dele, e levado sua própria pasta para a mesa do seu quarto. Estranhamente, a parede do corredor estava branca novamente; só poderia ser obra de Die, que havia limpado a bagunça causada por ele mesmo.

Um ruivo solidário e solícito não estava nos planos de Kaoru, que admitiu que a idéia não era de toda má. Surpreso, ele tentou se concentrar no trabalho, cruzando as pernas sobre o tapete da sala de estar e fechando os olhos, pensando em como ele poderia completar o trabalho para o cineasta.

No entanto, todas as suas tentativas de brainstorming foram interrompidas por Die. Embora o ruivo estivesse no banho, teoricamente inofensivo e afastado de Kaoru, ele também decidira cantar. Mas curiosamente, parecia que o outro homem só começava a cantar quando o dono do apartamento tinha alguma idéia que valia a pena ser investigada a fundo.

E assim aconteceu com as últimas três coisas que surgiram na mente do publicitário, todas interrompidas por clássicos que iam da abertura de Pokémon até o maior hit de Gloria Gaynor, I Will Survive. O que inevitavelmente deixou Kaoru grunhindo, deitado de barriga para baixo no tapete sala e enumerando mortes dolorosas para seu colega de apartamento.

O homem de cabelos roxos só voltou a prestar atenção na realidade quando um longo assobio chegou aos seus ouvidos. A voz zombeteira de Die veio em seguida; Kaoru conseguia ouvir o sorriso do outro quando o ruivo falou novamente:

— Sabe, Kao... Deveríamos ir para a praia quando for verão. — até aí Kaoru ignorou a voz do outro, ou pelo menos tentou — Já vi você com os trajes adequados e agora, na pose certa para um bom bronzeado... Você anda meio pálido, sua mãe iria concordar comigo e sugerir um passeio ao litoral.

Percebendo que Die provavelmente observava a parte de trás do seu corpo do banheiro, o publicitário fez questão de rolar no chão e sentar-se rapidamente, erguendo o rosto para brigar com o ruivo e...

Sentir seu queixo bater no chão e voltar.

— Die, você...

O ruivo havia acabado de sair do banho, trajando apenas uma única toalha branca, enrolada na sua cintura. O cabelo flamejante do outro estava úmido, ficando ligeiramente mais comprido que o normal e tocando os seus ombros.

Ombros, aliás, que estavam enfeitados com pequenas gotas d\'água, que formavam ocasionais filetes que serpenteavam por toda a parte superior do corpo de Die. Agora Kaoru tinha certeza completa de que aqueles músculos à vista eram pura sorte genética dos Ando, porque o ruivo não fazia qualquer exercício fora do trabalho.

A toalha felpuda era a única barreira que amparava a água depois de fazer seu delicioso percurso pelo abdômen do homem mais novo, indo até a metade das coxas do outro. Coxas, essas, que Kaoru lembrava muito bem de serem firmes e algo sensacional quando tocadas. Elas davam lugar então ao restante das pernas fortes e bem torneadas do outro, que também eram uma visão e tanto em calças justas.

Mas naquele momento, Kaoru tinha certeza de que o objeto mais sortudo do mundo não eram as incontáveis peças indecentes que o ruivo tinha no seu guarda-roupa, e sim a toalha que ainda estava presa à cintura do outro, cedendo um pouco do lado esquerdo conforme Die adiantou-se dois passos na direção do publicitário.

— O quê você dizia, Kao?

Kaoru teve então de subir o seu olhar para o rosto do seu hóspede, há muito esquecido em favor do resto do seu corpo descoberto. O sorriso que o homem mais novo exibia deixava claro que ele também sabia por onde os olhos castanhos do dono do apartamento haviam andado, e aquela pequena informação era a fonte de um prazer que Die não fazia a mínima questão de esconder.

Erguendo os braços e enterrando seus dedos no cabelo úmido para penteá-los de forma provisória, Die continuou parado na sala enquanto Kaoru piscou ao ver os músculos do peito do ruivo em movimento, finalmente abrindo a boca para responder à pergunta do outro para então lembrar que ele não sabia qual era a questão.

E já que a sua boca estava aberta, era melhor ele falar alguma coisa. E rápido.

— Você está molhando o carpete da sala, Daisuke.

— Ah, mesmo? — o ruivo então diminuiu o sorriso, mantendo-o restrito aos olhos enquanto girava no seu próprio eixo, a toalha cedendo mais alguns centímetros escandalosos — Não tinha reparado...

A voz do ruivo não tinha a mínima nota de surpresa genuína, deixando transparecer sem vergonha alguma todo o fingimento das suas palavras e não precisando olhar para trás para perceber a irritação do outro. Sorrindo de leve para si mesmo, ele inclinou levemente o seu corpo para frente, fazendo a curta toalha subir na parte de trás.

Kaoru parou de respirar.

— Hmmm, Kao. — a voz do outro saíra como um gemido aos ouvidos do publicitário, embora a intenção original fosse expressar apenas hesitação — Não sei se é uma boa idéia enxugar isso agora. Melhor eu me trocar antes, não acha? — e o ruivo virou a cabeça para trás, satisfeito com o quê encontrou: Kaoru estava ainda na mesma posição de antes, sentado com as pernas cruzadas e o resto do corpo ereto, sua boca aberta desde o segundo em que o seu ex-chefe interino havia se inclinado.

Mas os olhos perspicazes do ruivo foram direto a um ponto específico da anatomia do homem de cabelos roxos, evidente agora mesmo sob o tecido da sua calça. Percebendo depois de alguns segundos para onde Die estava olhando, Kaoru assumiu em tempo recorde a cor dos cabelos do outro, ficando de pé em dois pulos e correndo para o seu quarto, onde bateu a porta em seguida.

O publicitário só voltou a ver o seu hóspede no dia seguinte.

A chegada do final de semana foi um alívio para Kaoru; na sexta-feira, ele havia evitado os olhares de Toshiya, Shinya e sobretudo de Yoshiki no escritório. Ele não havia utilizado em momento algum o tempo extra que lhe fora dado para trabalhar nos projetos de Matsumoto Hide, e embora ninguém soubesse daquilo, era como se ele estivesse recebendo olhares de censura de todos os outros trabalhadores ali.

Portanto, a calma do sábado era bem-vinda, e foi com um sorriso plácido que Kaoru saiu do elevador e se dirigiu à porta do seu apartamento, notando que Ayame estava colocando dois sacos plásticos para fora naquele mesmo momento.

— Ohayou, Kaoru-san! — ela curvou os lábios para cima delicadamente e o homem de cabelos roxos a cumprimentou com um aceno cortês com a cabeça, ajudando-a com os dois sacos que pareciam pesados — Já está acordado tão cedo?

— Decidi comprar algumas coisas para o café da manhã. — ele respondeu erguendo o braço direito e exibindo um par de sacolas idênticas que possuíam o logotipo de uma loja que ficava a dois quarteirões dali — Quer entrar e comer conosco? Acho que Daisuke já deve ter levantado.

— Ah, oni-chan não costuma acordar cedo nos finais de semana. — a jovem falou com um ar meio desanimado, sua voz soando como um pedido de desculpas — Mas posso entrar e acordá-lo para você, Kaoru-san. Com esses dois sacos de lixo, terminei a mudança.

Kaoru deu uma espiada para dentro do apartamento vizinho, seus olhos arregalando consideravelmente.

— A mudança é visível daqui de fora. Parece habitável e organizado, agora.

— Ahhh, Kao. Não fique falando mal dos outros pelas costas.

Os dois se viraram na direção na porta marcada com os números 304, que naquele momento se encontrava aberta de forma que Die pudesse ficar apoiado contra o batente esquerdo da mesma. A camisa que usava como pijama estava totalmente desabotoada, exibindo uma faixa do seu tórax enquanto a calça da mesma estampa estava ligeiramente abaixo da linha da cintura, provavelmente devido à ausência do elástico que o ruivo havia removido da peça.

Ele então mordeu uma maçã vermelha e lustrosa com vontade, ignorando o olhar de reprovação da irmã e o atordoamento do publicitário com aquela visão logo de manhã. Oferecendo a fruta mordida para ambos e ganhando uma recusa dupla em uníssono, Kaoru pareceu se recuperar do seu primeiro choque naquela manhã:

— Eu não estava falando mal de você, Daisuke. E muito menos pelas suas costas, já que você está aí ouvindo tudo.

— Oni-chan, Kaoru-san estava falando a verdade. Você nunca foi muito organizado em casa e eu levei um tempão arrumando esse apartamento. — Ayame reclamou fazendo uma careta que ganhou um sorriso enviesado do outro, que se manteve em silêncio e mordeu novamente a maçã.

— Quem cala consente? — Kaoru perguntou, um olhar de diversão no seu rosto ao utilizar uma frase que o ruivo já havia jogado contra ele em ocasiões anteriores.

— Definitivamente, Kao. De qualquer forma, o quê você trouxe aí? Estou faminto. — o ruivo indagou, aproximando-se do publicitário e abrindo as sacolas, a fruta presa pelos seus dentes à sua boca e fazendo Kaoru se lembrar daqueles leitões que eram servidos em desenhos animados com maçãs nas bocas.

A idéia de um jantar com Ando Daisuke como prato principal era bem interessante.

— Oni-chan, deixe o Kaoru-san em paz! Já não é o bastante todo o trabalho que você está dando para ele?

O ruivo apanhou a fruta na mão direita:

— Trabalho? Eu não estou dando trabalho, estou dando... — Die fez uma pausa marota nessa parte, jogando a maçã para o alto antes de pegá-la novamente, piscando um olho para Kaoru — Diversão para a rotina monótona do Kao.

O publicitário rolou os olhos.

— Não conheço a palavra rotina desde que me mudei para cá, Daisuke. Vamos, eu estou com fome. — ele passou por trás do ruivo e já ia entrando no apartamento quando se lembrou do convite anterior feito à Ando mais nova — Vai comer conosco?

— Ah, eu já tomei café mais cedo. Duas amigas minhas vão passar aqui daqui a pouco; vamos a um parque de diversões que abriu mês passado! — ela exclamou com excitação e uniu as duas mãos espalmadas — Kaoru-san, venha conosco! E você também, oni-chan! — ela fez uma pausa e seu rosto exprimiu algo que ficava entre dúvida e preocupação — Deve fazer bastante tempo desde que saíram para se divertir, ne?

— Ótima idéia, Ayame-chan. — o ruivo concordou e deu dois tapinhas no ombro esquerdo da irmã enquanto dava uma última mordida na sua maçã, passando o braço esquerdo por trás do corpo de Kaoru logo em seguida — Toque a campainha quando estiver saindo que nós vamos junto!

— O quê? — Kaoru falou, virando-se para o lado e notando a repentina aproximação entre ele e Die — Eu tenho...

— Tempo livre para sair com seu melhor amigo e com a irmã dele. Sabia. A gente se vê daqui a pouco então, Ayame. — sorrindo para a irmã que retribuiu o gesto, ele empurrou Kaoru de volta para o apartamento que ambos estavam ocupando e bateu a porta.

O publicitário já havia escapado para a cozinha, onde desembalava as compras daquela manhã quando sentiu a respiração do ruivo no seu pescoço, congelando seus movimentos. O homem de cabelos roxos ficou parado até o outro rir suavemente próximo da sua orelha, sussurrando em seguida:

— Eu aposto que o dia de hoje será divertido... Kaoru.

Kaoru só não sabia para quem.

Foi Die quem dirigiu até o parque sugerido pelas amigas de Ayame; a própria e outras duas garotas conversavam animadamente no banco de trás, o silêncio intencional de Kaoru não sendo percebido por elas dessa maneira.

Assim que compraram as entradas e adentraram o parque, as três meninas saíram correndo na direção de uma montanha-russa, deixando os dois homens sozinhos. O ruivo parou e colocou os óculos escuros que tinha no rosto no topo da cabeça, o publicitário observando esse gesto com o canto do olho direito e inconscientemente achando que Die parecia um modelo de primeira grandeza daquele jeito.

— E aí, Kao? Aonde vamos? — o homem mais novo perguntou animado, parecendo ter a mesma energia que o sol daquela manhã; o vento ainda estava gelado, mas era cada vez mais tolerável com a chegada da primavera.

— Não sei. A idéia de aceitar o passeio foi sua. — o outro respondeu ligeiramente emburrado, notando os olhares de duas mulheres estrangeiras para o ruivo. Die pareceu não perceber, no entanto.

— Ah, Kao. Parques de diversões são ótimos, vamos jogar esse seu mau-humor para escanteio.

— Você é a causa do meu mau-humor. — o publicitário replicou azedo, acirrando os olhos e apertando a jaqueta que usava em torno do próprio corpo — Eu tenho trabalho para fazer em casa que você não me deixou concluir.

— Eu não deixei? Por acaso eu roubei suas cartolinas ou o material de pintura?

— Não. — o homem de cabelos roxos replicou.

— Então não posso ter atrapalhado. Vamos na torre! — o ruivo exclamou e seus dedos fortes enlaçaram os de Kaoru, puxando o relutante homem de cabelos roxos na mesma direção em que ele ia — Sabe, Kao... A torre é um dos meus favoritos. — Die comentou assim que ambos entraram na fila — Há aquela subida lenta, vagarosa, e você sente cada pedaço do seu corpo se enchendo de excitação e adrenalina, torcendo para que essa dolorosa subida termine para que possamos finalmente gritar e descer... Para subir e recomeçar tudo até não agüentarmos mais.

O brilho nos olhos do outro homem indicava que Ando Daisuke certamente não falava do brinquedo em questão, causando um rubor na face do publicitário. Suspirando e olhando para o lado, Kaoru tentou não pensar nas comparações do outro, mas era quase impossível. Ainda mais quando ambos foram colocados juntos no brinquedo, Die na extremidade direita da torre enquanto Kaoru ocupava o assento imediatamente ao seu lado.

O ruivo manteve um estranho silêncio durante a subida, enquanto a maioria das pessoas conversava animadamente. Porém, assim que o brinquedo parou, anunciando que a queda repentina estava para acontecer, o homem mais novo inclinou-se o máximo permitido pela trava de segurança, chegando perto do ouvido do outro:

— Que nome você vai gritar agora, Kaoru?

Algo úmido então foi pressionado contra a sua orelha, e o publicitário olhou horrorizado para o lado quando percebeu que tinha sido lambido pelo sorridente ruivo. Furioso, o outro fechou os punhos:

— O quê você pensa que está fazendo, Da...

De repente eles despencaram, a descida que do lado de fora parecia tão pequena parecendo eterna a Kaoru naquele momento. A boca que ele abrira para esbravejar com o seu vizinho manteve o formato, sua voz saindo descontroladamente por entre seus lábios enquanto Die apenas sorria, sentindo o vento contra seu rosto.

Assim que desceram do brinquedo, o ex-chefe interino do publicitário tinha um sorriso maligno porém satisfeito no seu rosto, aproveitando a sensação de tontura que havia se apossado do homem de cabelos roxos para passar um de seus braços pela cintura de Kaoru, sob a falsa pretensão de ampará-lo. Caminhando para fora da área da torre, o homem mais velho só se deu conta da mão do ruivo na sua cintura quando esta encontrou uma brecha na jaqueta do publicitário e começou a acariciar a pele macia que estava por baixo do tecido.

— Daisuke!

— Hmmmm. Bom grito, Kao. — o outro comentou com um movimento afirmativo de cabeça — Mas aquele na torre superou; maior até do que o daquela noite na minha festa. Imagine se nós tivéssemos tentado uma rapidinha na torre? — ele piscou um olho enquanto Kaoru mudava de cor, fumegando de raiva ao perceber que Die havia manipulado-o de forma a gritar o nome completo do outro na descida do brinquedo.

— Escuta aqui, Daisuke. — o homem de cabelos roxos perguntou, ficando frente a frente com o ruivo e notando, atrás do mesmo, que um grupo de garotas olhava para ele com interesse. Rolando os olhos, ele prosseguiu — Você se acha muito esperto, não?

— Eu me acho muitas coisas, Kaoru... — veio a réplica em uma voz baixa e quente, os olhos penetrantes de Die repentinamente sobre a figura do seu ex-vizinho e atual colega de apartamento — Mas no momento, eu me acho apenas o cara mais sortudo de Tokyo.

Kaoru sentiu parte da sua raiva ir embora para dar lugar a uma grande confusão mental, parcialmente esclarecida quando o homem mais novo se aproveitou da pouca distância entre os dois para beijá-lo rapidamente. O contato entre as duas bocas havia sido breve, mas não por isso menos intenso do que qualquer coisa que vinha de Die.

O publicitário ficou atordoado, sem ação por alguns segundos enquanto seus olhos buscavam por eventuais testemunhas de tudo aquilo. O grupo de senhoritas de antes havia se retirado, possivelmente depois de presenciar a cena; no entanto, ninguém mais parecia ter notado qualquer coisa por ali.

— Trem-fantasma!

E mais uma vez Kaoru se viu sendo arrastado na direção de outra atração do parque, curiosamente sem fila dessa vez. Os dois foram colocados juntos em um carrinho com apenas dois lugares, e assim que a trava havia sido fechada, o brinquedo começou a andar.

O publicitário nem teve tempo de entender o que estava acontecendo direito quando de repente um vulto pesadamente maquiado de forma assustadora se jogou na direção deles enquanto o carrinho fazia uma curva, mandando o coração de Kaoru praticamente boca afora junto com um grito esganiçado.

No entanto, o quê verdadeiramente assustou o homem de cabelos roxos foi notar, segundos depois, de que ele havia praticamente voado no colo de Die com o susto, seus braços presos de forma eficiente e firme ao pescoço do ruivo, trazendo a cabeça do outro para perto do seu próprio pescoço. Um dos braços do homem mais novo estava apoiando as suas costas, de forma que no descuido seguinte de Kaoru, Die aproveitou para forçar o corpo do outro ligeiramente para frente de forma a roubar um segundo beijo do seu ex-vizinho.

O fantasma que estava esperando na próxima curva foi completamente ignorado pelos dois, ambos perdidos no beijo trocado na escuridão do brinquedo. Dessa vez, a trava de segurança era menos rígida e permitia uma leve rotação da parte superior do corpo do ruivo, possibilitando que a sua normalmente habilidosa língua fizesse maravilhas na boca de Kaoru.

O publicitário estaria mentindo para si mesmo se dissesse que tentou se desvencilhar do outro; Die havia derrubado todas as suas defesas com a facilidade de uma chama para derreter o gelo. A comparação era adequada, na mente de Kaoru; o outro homem parecia arder com uma volúpia e desejo permanentes, e já fazia algum tempo que resistir a tudo isso havia se tornado uma tarefa quase impossível.

O contato se quebrou de repente, deixando o publicitário arfando e com uma sensação de perda inexplicável. Nenhuma alteração facial era visível no ruivo, com a exceção dos seus lábios que estavam ligeiramente mais brilhantes e inchados, além de curvados no que só poderia ser descrito como um sorriso de pura e genuína satisfação.

Os funcionários da atração ajudaram Kaoru a sair do carrinho, atribuindo seus sintomas aos sustos provocados pelo brinquedo e não pelas atividades do seu companheiro. Die não perdeu tempo, novamente arrastando seu ex-vizinho para vários brinquedos em série, esgotando o homem mais velho com cada ataque surpresa que ele executava.

Por volta das quatro horas da tarde, os dois já haviam andado em todos os brinquedos, embora as experiências de Kaoru fossem ocasionalmente nubladas por beijos e carícias absolutamente inebriantes do ruivo. Cansado, o publicitário havia implorado por um descanso, e agora os dois se encontravam na praça de alimentação do parque.

O refrigerante gelado que o homem mais velho havia pedido encontrava-se praticamente vazio agora, cada gota refrescante sorvida com avidez por Kaoru por dois canudinhos. Apesar do vento, o mais velho da dupla sentia calor, e estava se abanando com um panfleto que lhe havia sido entregue momentos antes por uma funcionária do local.

Do outro lado da mesa, Die havia deixado seu copo também de refrigerante pela metade, indo atrás de algo para comer. O ruivo voltou minutos depois, com algo na mão que Kaoru nunca havia visto antes.

— Quer um pedaço, Kao? — o outro perguntou alegremente, sentando-se novamente à mesa e fazendo uma leve careta; o recheio estava quente — Churro.

— Nunca comi.

— Ah, não? Precisa experimentar um dia, é uma delícia. — o homem mais novo sorriu, sua língua deslizando por entre os lábios para lamber com habilidade parte do recheio que estava descendo pela lateral da massa. Ele então correu a mesma até o topo do churro, onde engoliu o recheio de chocolate, já menos quente, fazendo um barulho de prazer.

E abriu os olhos, focando-os com malícia na figura do homem que dividia a mesa com ele.

Kaoru congelou naquele momento, assistindo passivamente a tudo que o ruivo fazia com o que até então lhe parecera um petisco inocente. Die usava a sua língua para remover todo e qualquer excesso de chocolate que caísse pela massa quando ele mordia o churro, logo em seguida fechando os olhos e gemendo baixinho, deixando a cabeça cair para trás numa das vezes.

Aquele show particular de Ando Daisuke fez Kaoru reviver certas memórias, seu corpo reagindo fortemente às insinuações do outro. Depois do que parecera uma eternidade, o ruivo terminou o churro e lambeu seus dedos vagarosamente antes de limpá-los com um guardanapo e terminar seu refrigerante, parecendo feliz consigo mesmo.

E ele não tinha razão para não estar se suas intenções eram torturar Kaoru; ele havia sido incrivelmente bem-sucedido.

O barulho de um toque de celular cortou o silêncio que havia se instalado entre os dois adultos, Die rapidamente pegando o seu aparelho e atendendo a ligação. O volume alto do mesmo permitiu a Kaoru identificar a voz da integrante mais nova da família Ando, comunicando seu desejo em conjunto com o das amigas de voltar para casa.

O irmão mais velho concordou e se levantou da cadeira, juntando todo o lixo da mesa antes de lançar um olhar para a sua companhia daquele dia:

— Vamos, Kao?

O publicitário engoliu em seco, levantando com alguma dificuldade e ignorando os olhares indiscretos que Die provavelmente estava lhe dedicando. A volta até o carro se deu praticamente em silêncio, este cortado apenas uma vez quando o ruivo se ofereceu para carregar Kaoru no colo ao ver a sua dificuldade para andar mais rápido devido ao volume que era delineado pela sua calça.

A resposta do publicitário foi um olhar que teria matado qualquer um, mas que parecia sempre ineficaz quando dirigido ao seu ex-vizinho; talvez porque Ando Daisuke estivesse longe de ser qualquer um.

Assim que chegou em casa, Kaoru tombou na cama. Estava exausto, física e mentalmente falando; ele havia aturado todo o tipo de ataque de Die durante o dia e a sua força de vontade estava no final. Mais por orgulho do que por qualquer outra coisa, ele continuava a resistir qualquer oferta do ruivo; as memórias de todos os constrangimentos e problemas que o seu ex-vizinho haviam lhe causado eram vivas. Bem vivas.

O publicitário caiu em um sono pesado pelo resto da tarde e começo da noite, só acordando com o barulho do que parecia ser algo pesado indo de encontro ao chão. Assustado com a possibilidade de Die ter feito algum estrago nos seus trabalhos que estavam no estúdio, Kaoru deu impulso com o seu corpo para sentar na cama e descer correndo da mesma, somente para perceber que aquilo era impossível.

Piscando os olhos para tentar se livrar da sonolência que ainda sentia, o homem de cabelos roxos sentiu seus pulsos presos a alguma coisa, acima da sua cabeça. Respirando fundo, Kaoru tentou acreditar que aquilo não passava de uma simples ilusão, porque ele havia trancado a port...

Ele não havia trancado a porta do seu quarto quando eles chegaram de volta do parque. O publicitário estivera cansado demais e simplesmente caíra na cama, inclusive com a roupa que estava vestindo durante o passeio.

E se a porta ficara aberta por um tempo superior a cinco segundos, isso já era suficiente para que o ruivo aprontasse algo. E aparentemente, era o caso. Puxando os braços com força, Kaoru entrou em pânico ao olhar para o lado e perceber que suas duas mãos tinham sido algemadas à cabeceira da sua cama, não possibilitando uma distância maior do que centímetros entre ele e o objeto sobre o qual dormia todas as noites.

Passos abafados vieram do corredor e, de repente, uma bota chutou a porta de madeira do quarto de Kaoru com estilo, aplicando a força certa para que ela abrisse mas não batesse na parede e fechasse de novo. Logo em seguida, uma perna ligada a essa bota apareceu, envolvida em negro como era o caso do calçado; não tardou para a figura completa de Die aparecer no quarto depois.

O homem de cabelos roxos já havia visto o outro como militar em preto, mas aquilo era diferente. O seu ex-vizinho trajava uma calça da cor da noite, justíssima ao ponto de parecer que aquele material se agarrava ao corpo do outro. Pelo barulho que ele fazia, Kaoru supôs ser tudo vinil, brilhando em alguns pontos sob a luz que vinha do corredor e dando a impressão de não haver nem mesmo ar entre a calça e a pele do ruivo.

As botas também eram pretas, porém com a parte da frente em metal; o mais velho dos dois homens nem queria pensar em quanto um chute com aquilo devia doer na vítima, mas fato era que conferia um aspecto meio dominador e meio atraente ao outro ocupante do quarto. Os olhos de Kaoru, agora mais despertos, finalmente passaram por toda a parte inferior do corpo do outro homem, notando que aquela calça definitivamente marcaria a linha das roupas de baixo do outro.

E se nenhuma linha era vista, isso só podia significar a total ausência delas.

O coração do publicitário quase parou para somente recomeçar a bater mais forte quando chegou na parte de cima de Die. Ele estivera esperando qualquer coisa, menos a falta completa de tecido. O ruivo não vestia nada na parte de cima, todo o seu tórax nu, bem como seus braços, adornados apenas na área dos pulsos pelo que pareciam braceletes prateados.

No pescoço do seu ex-vizinho, estava algo que ele não imaginara ver em Die naquela vida: uma coleira, preta e lustrosa, com uma corrente de mais ou menos meio metro caindo dali em linha reta. O rosto de Die não contava com nenhuma adição à sua beleza natural, apenas o brilho malicioso que sempre acompanhava o ruivo quando ele se encontrava sozinho com Kaoru.

A porta do quarto continuou aberta, sendo a lâmpada do corredor a única fonte de luz para iluminar a cena que foi Die subindo na cama e colocando seus joelhos ao lado da forma do publicitário, o silêncio cortado apenas pelo barulho da corrente do ruivo balançando. Kaoru notou que algo estava preso na ponta daquela corrente, e acirrou os olhos para ver melhor: era uma chave.

O homem mais novo foi então se movimentando devagar, sempre apoiado nos joelhos, até mais ou menos a cintura de Kaoru. O material da sua calça não permitia que ele separasse mais as suas pernas, então o ruivo optou por se deitar sobre o homem mais velho que tinha sob si, puxando a corrente que pendia da sua coleira para abrir as algemas que prendiam o dono do apartamento à própria cama.

Die então rolou para o lado, forçando o outro homem a descer da cama para evitar uma possível queda. Ainda sem entender direito o que estava acontecendo, Kaoru massageou as áreas do seu braço que haviam sido agredidas pelo seu breve aprisionamento enquanto observava o ruivo que deitava folgadamente na sua cama, prendendo então um de seus braços com uma das algemas e jogando a outra para longe. Com um puxão certeiro, a chave que o libertaria dali se soltou da corrente, e foi atirada na direção do publicitário, que a pegou no susto.

— Ayame me disse hoje que talvez eu perturbe você demais... E ela disse que eu deveria pedir desculpas. Então aqui está meu pedido de desculpas e a minha oferta de revanche, Kaoru. — ele rolou as sílabas que formavam o nome verdadeiro do outro com a sua língua devagar, deixando um gemido leve escapar no final — Faça o que quiser comigo. Desconte a sua raiva, a sua frustração, o seu descontentamento... Ou quem sabe o seu desejo? — ele perguntou com um sorriso sedutor e um olhar na direção do volume que aparecera novamente por baixo das roupas do publicitário.

A única dúvida que apareceu na mente de Kaoru naquele momento foi a respeito de qual sentimento ele deveria escolher para começar a descontar no homem sedutor que havia se algemado à sua própria cama.

Continua...

Notas finais
E a fanfic voltou!

Não tenho como me desculpar pela demora, mas espero que não seja fritada em óleo quente por ninguém porque senão... Não haverá ninguém para postar o próximo lemon! 8D Sim, haverá um próximo lemon que seguirá o mesmo esquema do primeiro, sendo postado numa side-fic separada da história principal. Não será necessário que ninguém leia o lemon para continuar depois em TDND. n.n

Se alguém quiser ser avisado quando da publicação do lemon, comente aqui e eu enviarei mensagens particulares quando a side-fic estiver disponível.

Beijos a todos e muito obrigada pela atenção! Juro que ainda faço uma maratona e respondo a TODAS as reviews (leio todas, mas não consigo responder x.x).
Mari-chan.