Vinte e três minutos, quatro xícaras de café e duas lavadas de rosto em água gelada depois, Kaoru estava em um estado próximo do normal, pelo menos conseguindo formar frases inteiras sem cometer erros gramaticais que passassem a impressão de que ele havia abandonado a escola no primário. Die conseguia causar os mais estranhos efeitos, sensações e sentimentos no publicitário, e estava ficando cada mais complicado para o mais velho dos dois homens controlar ou evitar que todas essas coisas surgissem dentro dele.

Kaoru não tinha idéia de onde Die estava no banco ou o que ele estava fazendo; desde que havia se recuperado da cena na porta giratória da agência, ele não havia visto o ruivo novamente. Suspirando com pesar mesmo sem saber por que, o homem de cabelos roxos subiu para o andar onde os gerentes ficavam, retirando uma senha e esperando pela sua vez para ser atendido.

Sentado e olhando para um painel que ia mostrando o número da senha e a mesa para onde os clientes deveriam se dirigir, Kaoru descobriu que sua mente havia se agarrado a todas as memórias que envolviam Die com a força que um integrante do Greenpeace usava para abraçar uma árvore ameaçada por tratores. Não pensando mais na estranheza da sua comparação, o publicitário preferiu se concentrar apenas em Die e no jeito... Peculiar que o outro vinha se comportando.

Aquela cena no banco havia sido positivamente a mais escandalosa demonstração por parte do ruivo em público. Claro que Kaoru já havia sofrido nas mãos do ruivo, no sentido literal da expressão, diante de olhos de terceiros; mas nada como havia acontecido naquela tarde.

Die não tinha medo de ser pego? Receio de ser visto fazendo aquelas coisas com alguém que nem namorado seu era e...

Namorado.

Kaoru não entendeu porque sua mente escolheu aquela palavra, mas decidiu deixar o assunto de lado. Por enquanto. Afinal, ele havia reparado em outra coisa maior e mais importante:

...Die era solteiro?

Engraçado como aquela constatação nunca lhe havia ocorrido antes. Na primeira vez que Kaoru encontrou o diabo na forma humana, que curiosamente atendia pelo nome de Ando Daisuke e morava no apartamento vizinho, o publicitário bem se lembrava das três... Senhoritas de profissão duvidosa que estavam junto com ele. Mas depois daquele dia, Kaoru nunca mais vira Die com ninguém... E ele já tinha visto o ruivo por muitas outras vezes para poder afirmar isso com convicção.

Talvez o ruivo não tivesse ninguém de fato e preferisse relações sem compromisso. Kaoru não poderia saber; não estava vinte e quatro horas do lado do seu ex-chefe interino e portanto o outro poderia ter várias mulheres e homens... Ou qualquer criatura bípede que ele desejasse espalhados pela cidade para encontros casuais.

O fato de que ele nunca havia visto ninguém não significava que Die não tinha seus encontros. Porque alguém com o físico do ruivo não deveria ter problemas para arrumar parceiros; era fácil demais sucumbir aos encantos dele, como Kaoru sabia muito bem. Bem até demais.

Carisma também era uma qualidade que transbordava no homem mais novo: era impossível resistir aos pedidos do ruivo, por mais absurdos que fossem. E por absurdos, o publicitário englobava todas as maluquices que ele já havia escutado da boca maravilhosa e talentosa do seu vizinho.

E como se essas duas coisas não fossem o suficiente, Die ainda era bem-sucedido, competente e dono de uma confiança incomparável: se Ando Daisuke desejava algo, ele geralmente conseguia. No tempo de um estalar de dedos, Kaoru supunha. Ele era...

— Perfeito...

— Senhor?

Os olhos castanhos do homem de cabelos roxos piscaram uma, duas vezes até ele se dar conta de onde estava: sentado na mesa de um dos gerentes, com recibos bancários na sua mão e vários papéis sobre a mesa. Ele já havia resolvido o problema da sua conta?

— Ah, nada. Me desculpe. — o publicitário corou e fez uma pequena mesura com a cabeça, o gerente do banco forçando um sorriso e retornando ao papel em que ele estava escrevendo.

— Como eu ia dizendo, Niikura-san... — o gerente prosseguiu depois de olhar para Kaoru de uma forma estranha — Eu preciso que o senhor me forneça o número da sua conta em Hyogo para contatar a agência de lá e resolver o problema da transferência.

— Hai. Aqui está... — ele passou um papel para o outro homem que copiou os dígitos e a agência onde ele mantinha a conta, devolvendo o documento logo em seguida — Quando eu terei notícias sobre a transferência?

— Ligaremos para o senhor! — o gerente falou mais rápido do que seria necessário e com um sorriso que o publicitário sabia ser forçado. Kaoru decidiu não gastar mais tempo pensando nisso e saiu depois de agradecer o funcionário, não percebendo que os olhares das pessoas daquele andar estavam majoritariamente sobre ele.

Talvez porque ele havia se comportado mecanicamente pelos últimos quinze minutos, murmurando todo o tipo de elogios sem sentido sobre alguém chamado \"Die\" e corando sem razão aparente. Mas Kaoru não havia percebido esse detalhe.

Um carro.

O publicitário havia decidido, assim que ele sentiu suas costas serem empurradas dolorosamente para dentro do vagão de um trem numa manhã fria de Tokyo, que um carro seria o próximo bem de consumo que ele iria adquirir com o seu salário.

Não que houvesse algo de errado com os trens e metrôs da capital japonesa, mas o problema era que estava frio. Muito frio, ainda parecia que eles estavam no auge do inverno, próximo do Natal, sendo que fevereiro se aproximava rapidamente.

O Natal... O Natal do ano anterior na vida de Kaoru havia sido um Natal e tanto. Não havia como esquecer a viagem para o aniversário na casa de Die ou então os planos do ruivo para que eles passassem o Natal juntos. Mas o que realmente havia sido inesquecível...

Era a noite da grande festa a fantasia de aniversário de Ando Daisuke. Quando Kaoru descobriu que era possível sim chegar ao paraíso mesmo enquanto vivendo na terra e pelas mãos, boca e corpo daquele que o publicitário considerava o demônio, o verdadeiro diabo na sua deliciosa forma humana.

Em um estado semelhante ao de estupor enquanto sua mente repassava os eventos daquela noite memorável, o trem freou bruscamente sobre os trilhos, devido a problemas com a neve. Desatento, Kaoru acabou dando vários passos para frente e esbarrando em algum pobre passageiro, empurrando o mesmo contra a parede do vagão.

Assim que o trem voltou a se movimentar, porém bem mais lentamente do que antes, Kaoru recuperou sua pasta que havia ido ao chão e sacudiu a cabeça, como se tentasse colocar os pensamentos em ordem daquela forma.

— Me desculpe. Eu estava distraído... — ele murmurou antes mesmo de se reerguer, ajeitando seu sobretudo.

— Não foi nada.

Kaoru congelou na posição que estava, analisando a voz da outra pessoa. Ele realmente deveria estar alucinando ou pelo menos obcecado; o publicitário poderia jurar que a voz daquele estranho que o havia salvado de uma queda nada gloriosa era igual a de Die.

Finalmente se levantando e olhando para o homem que ele havia empurrado sem querer contra a parede, ele inicialmente não viu muita coisa: o estranho lia o jornal do dia, encostado contra o vagão do trem, balançando suavemente junto com o mesmo. De onde Kaoru estava, tudo do rosto do outro homem que ele conseguia divisar era o óculos de lentes escuras que ele usava e um gorro de lã para proteger a cabeça do frio que fazia do lado de fora.

De repente o salvador anônimo do homem de cabelos roxos baixou o jornal, dobrando-o e colocando debaixo do braço direito. Piscando, o publicitário corou ao perceber que o outro homem provavelmente havia notado que ele estava encarando, mas Kaoru não conseguia desviar o olhar. Especialmente porque... O estranho havia aberto um sorriso.

E aquele sorriso era muito familiar; familiar até demais. E quando os óculos foram removidos juntamente com o gorro preto, o publicitário percebeu com horror que seu salvador não era mais um ser incógnito na multidão. Era impossível passar desapercebido quando se tinha aquele sorriso sensual unido a um olhar malicioso e um cabelo com a cor das chamas que pareciam sempre consumir aquele homem.

Era Ando Daisuke.

— Ohayou, Kao. Andou bebendo logo de manhã cedo para perder o equilíbrio assim ou... Foi a emoção de me ver?

Fechando a boca que Kaoru não sabia que estava aberta, o publicitário acirrou os olhos e lançou um olhar venenoso na direção do outro, fazendo um pequeno barulho de desprezo com o fundo da garganta. No entanto, um leve rubor tingiu seu rosto; Die estava mais ou menos certo no final: ele estivera pensando sobre o ruivo.

— Nenhum dos dois. — ele redargüiu com a maior seriedade que ele conseguiu imprimir à sua face, rapidamente olhando pro lado; ele não iria durar muito tempo em um conflito direto com aquele que vinha ocupando a maior parte dos seus pensamentos — E é Kaoru.

— Você desviou o olhar, Kao! — o ruivo continuou, ignorando o protesto costumeiro do outro — Isso me leva a crer que você estava mentindo, não?

— Não! Claro que não! — o publicitário se virou com rapidez, mas o movimento do trem jogou-o para frente por acidente e Kaoru se viu mais próximo do rosto do outro do que ele gostaria — Não estava mentindo... — ele terminou a frase com a voz fraca, se afastando rapidamente assim que teve a chance.

— Estou mais ou menos convencido. — o outro declarou, Die então indo para a sua frente e se aproximando de Kaoru, que instintivamente tentou ir para trás mas acabou esbarrando em um outro passageiro — Calma, Kao... — ele falou, sua voz suave e melodiosa pingando sensualidade e gentilezas — Eu só vou... — ele prosseguiu, encostando seu corpo de leve ao do outro homem e deslizando sua mão esquerda pelo corpo do outro até chegar na mão direita de Kaoru — Pegar sua pasta.

Em segundos Die havia retornado à sua posição contra a parede do trem, abrindo a pasta do seu vizinho e constatando com alegria que havia espaço para guardar seu jornal ali. Devolvendo a mesma para o seu dono com o jornal dentro, o ruivo abriu um sorriso brilhante ao ver que o outro homem continuava parado no mesmo lugar e sem esboçar reação alguma com a exceção de um rubor mais forte no rosto.

Nesse momento o trem parou em mais uma estação, e as pessoas que estavam de frente para as portas do vagão saíram da frente das mesmas. Kaoru ficou parado, ainda no mesmo lugar, puxado por Die na hora em que as portas se abriram e escapando de virar um alvo da massa furiosa de trabalhadores que embarcava no trem.

O número de pessoas que entraram foi o suficiente para fazer com que o publicitário se sentisse preso numa lata de sardinhas, não tendo espaço para se movimentar como antes. Felizmente, faltavam apenas duas estações para que ele pudesse descer e chegar ao seu trabalho, onde por menor que sua mesa fosse, certamente era maior do que o espaço que ele tinha ali dentro.

O que ele não imaginava era que um par de braços fosse envolvê-lo discretamente pela cintura, sem que ninguém na multidão reparasse aquele detalhe.

Engolindo a exclamação de espanto que tentou sair pela sua boca, Kaoru se sentiu ultrajado ao ser atacado por Die daquela maneira, seu rosto colorindo visivelmente quando foi puxado com força contra o corpo do seu ex-chefe interino a ponto de sentir até os botões do casaco do ruivo contra as suas costas...

...E algo definitivamente mais duro e pronunciado do que um botão, na área imediatamente inferior ao cinto da calça do outro homem.

— Kaoru...

O sussurro que escapou dos lábios de Die foi praticamente inaudível; Kaoru tinha certeza que ninguém ali naquele trem havia escutado nada, por mais próximos que todos estivessem uns dos outros. No entanto, aquelas três sílabas unidas, formando o seu nome verdadeiro e pronunciadas daquela forma contra o seu pescoço fizeram suas pernas adquirirem a consistência de geléia, bem como cerraram seus olhos em segundos.

Os dedos da mão direita de Die começaram a deslizar suavemente pelo casaco do outro homem, o publicitário ainda contra o corpo do outro e de olhos fechados. Kaoru sentiu, então, a língua quente e úmida do outro contra a sua nuca, delineando círculos molhados que depois de tocados pelo vento frio, faziam o homem mais velho tremer de cima a baixo.

— Ahhh, Kaoru!

Novamente um sussurro; mas tão carregado de sensualidade que o homem de cabelos roxos pensou por um momento se aquilo não era praticamente um orgasmo em miniatura para o ruivo, porque algo semelhante havia acontecido com ele ao ouvir a voz do outro daquela maneira.

O trem parou e mais pessoas entraram, poucos dos passageiros desembarcando; o espaço tinha se reduzido ainda mais. Quando um senhor particularmente gordo entrou no vagão, ele acabou empurrando Kaoru e Die ainda mais contra a parede, o mais velho dos dois homens tremendo visivelmente antes de deixar um suspiro pequeno escapar dos seus lábios.

— Kao...

O publicitário não tinha forças para corrigir seu nome naquele estado, mas conseguiu abrir os olhos. Felizmente, ninguém dentro do trem parecia notar qualquer coisa de absurdo ou indecente acontecendo onde os dois homens estavam.

— Sim...?

— Eu vou...

Die de repente mordeu o pescoço de Kaoru com uma intensidade que o outro não estava esperando, desta vez precisando levar a sua mão livre da pasta até a boca para impedir um gemido de escapar. O homem de cabelos roxos deu graças aos céus por estar usando um casaco largo e comprido na frente, porque ele tinha certeza absoluta de que evidências corporais de que ele estava se divertindo já deveriam ser no mínimo visíveis.

— Kao...

De novo aquela voz que enlouquecia qualquer um.

— Eu vou descer.

Os olhos do publicitário se abriram novamente em choque: primeiro ao ouvir a voz do ruivo com o ânimo de quem ditava uma lista de supermercado, e segundo porque a massa quente, confortável e conveniente que era o corpo de Die atrás de si havia sumido. Atordoado, Kaoru só deixou o vagão do trem quando o sinal sonoro que indicava o fechamento iminente das portas soou.

Do lado de fora, na plataforma do trem e exposto ao vento gelado da manhã novamente, o homem de cabelos roxos ofegou um pouco antes de virar seu rosto na direção do ruivo, que havia dado alguns passos na sua frente e o esperava próximo das catracas.

De repente... Kaoru não estava mais tão certo sobre comprar ou não um carro.

Na sexta-feira daquela mesma semana, Kaoru abriu a porta do elevador, saiu para o hall comum do seu andar e... Tropeçou em uma caixa de papelão, quase colidindo com a parede ao desviar de duas sacolas plásticas e algo que lembrava uma bicicleta ergométrica embalada em sacos pretos.

Piscando e massageando a cabeça, o homem de cabelos roxos lançou um olhar perdido para a multidão de coisas que estavam ali no hall, em frente a porta do seu apartamento e do seu vizinho também, que curiosamente encontrava-se aberta.

De onde Kaoru estava, ele conseguia ver mais pacotes, sacos e bolsas espalhados pelo chão da sala do ruivo, fazendo uma trilha do elevador que seguia em direção aos quartos do apartamento do outro homem. Achando aquela cena estranha, o publicitário andou na direção da porta aberta, sendo surpreendido por um homem em um uniforme azul escuro que ele nunca havia visto.

— Com licença!

O homem desconhecido parou na frente do elevador, virando-se na direção do homem de cabelos roxos com um olhar ligeiramente confuso no rosto:

— Sim?

— O quê está acontecendo aqui?

— Mudança.

Com aquele simples esclarecimento o homem tomou o elevador, deixando um Kaoru atordoado e com olhos bem arregalados para trás. Mudança? Como assim? Para onde Die estava indo?

Uma coisa que nunca havia cruzado a mente de Kaoru, por mais plausível que fosse, era justamente uma possível mudança de Die. Era compreensível: ele tinha dinheiro para morar em um lugar bem maior e com muito mais luxo, pelo que Kaoru pôde deduzir da festa que o outro tinha dado. No entanto... No entanto...

O publicitário parou na entrada do apartamento do ruivo, olhando a sala onde ele e Die haviam jogado uma modalidade interessante de Scrabble uma vez. Ele também reconheceu o telefone pelo qual fora forçado a convidar o ruivo para o Natal e, se ele fosse mais para dentro, encontraria o quarto onde os dois haviam dormido uma noite juntos, que olhando naquele momento... Não parecia tão ruim e tensa quanto fora na época.

Era como se o coração de Kaoru estivesse apertado agora; era engraçado, ele que sempre odiara tanto seu vizinho estava triste com a idéia de vê-lo partir. Sem mais energia cortada, apartamentos invadidos, propostas indecentes de jogos... A vida iria ser no mínimo monótona sem Die por perto.

— Kao! Mas que surpresa agradável!

A cabeça do publicitário girou na direção da voz inconfundível daquele que parecia ser seu carrasco e salvador ao mesmo tempo, seu queixo caindo em segundos ao perceber a vestimenta que caracterizava o ruivo naquele momento.

Die estava usando um macacão de jeans, surrado e que aparentava longos anos de uso. Folgado, ele estava preso na lateral do corpo do outro homem por botões, mas as suas alças estavam completamente soltas, de forma que o macacão pendia para a frente entre o abdômen e a cintura do ruivo, expondo todo o seu tórax dali para cima.

Tórax esse que estava curiosamente brilhante sob a luz da sala de estar: eram pequenas gotículas de suor que brilhavam, evidenciando que o outro estivera fazendo alguma coisa que envolvia esforço físico... E Kaoru podia lembrar de algumas situações prazerosas em que ele vira o cabelo flamejante do seu ainda vizinho colado na sua testa daquela mesma forma.

A língua habilidosa de Die apareceu repentinamente para molhar os lábios do seu dono, e Kaoru seguiu com um quê de avidez aquele pequeno gesto. Vendo que o homem de cabelos roxos não iria responder alguma coisa verbal tão cedo, o ruivo se aproximou do seu vizinho, sorrindo quando notou que o outro parecia ter saído de um transe, dando vários passos para trás e quase tropeçando novamente em uma caixa.

— Eu acabei de chegar agora e... Me disseram que é uma mudança.

— Ah, sim. Começou hoje... Aproveitando que é sexta-feira e sobre o final de semana para terminar. Desculpe pela confusão no hall.

O homem de cabelos roxos sacudiu a cabeça negativamente, notando com surpresa que a desculpa do outro parecia ter sido sincera. Não fosse a roupa e o estado indecentes de Die, capazes de converter até mesmo a liga das senhoras católicas de qualquer bairro ao satanismo, Kaoru poderia jurar que era a primeira vez que eles conversavam como vizinhos civilizados.

— Não tem problema... É impossível fazer uma mudança discreta que não dê dor de cabeça. Eu acho que ainda tenho coisas empacotadas em casa, no estúdio.

— Ah, mesmo? Mas já faz meses isso, não? — Die perguntou, apoiando-se na parte de trás do seu sofá e cruzando os braços depois de correr uma mão pelo seu cabelo vermelho; Kaoru não perdeu o jeito como os músculos do homem mais novo ficavam mais evidentes quando ele esticava o braço de alguma forma.

— Sim, faz. Mas eu me ocupei demais com o trabalho e sobretudo com as coisas de Matsumoto-san, então... — o homem de cabelos roxos respirou fundo para fazer a pergunta derradeira — Quando é que você... Vai embora?

O publicitário acabou formulando a pergunta enquanto olhava para o chão, não percebendo o rápido olhar de confusão que passou pelo rosto do outro. Kaoru perdeu também a lenta curva que se formou nos lábios de Die, que ao contrário da maioria dos seus sorrisos, não carregava maldade ou malícia nenhuma.

— Boa pergunta. Não sei ainda.

— Não sabe? Mas a mudança começou hoje e você ainda não sa... — Kaoru interrompeu sua própria pergunta quando uma jovem conhecida sua apareceu na porta que ligava o corredor à sala, sorrido largamente — Ayame-san?

— Kaoru-san! Que boa surpresa vê-lo por aqui! — a garota se aproximou e os dois trocaram cumprimentos, o homem de cabelos roxos ainda bastante surpreso — Oni-chan, vá colocar alguma roupa!

Die suspirou.

— Ayame, já disse que mover coisas pra lá e pra cá cansa e me dá calor. Não consigo vestir mais coisas do que isso.

— Depois vai ficar resfriado e eu vou ter que cuidar de você... — ela resmungou e em seguida se virou para o morador do 303, sorrindo — Ah, Kaoru-san... Desculpe pela bagunça, mas logo convidaremos você para uma festinha de boas-vindas.

— Festa?

— Sim! Eu estou me mudando para cá... Vou começar a faculdade aqui em Tokyo! — ela exclamou com animação, sorrindo de um jeito muito semelhante ao de Die quando este estava empolgado também.

O queixo de Kaoru caiu e voltou ao seu lugar, caindo uma segunda vez para retornar à sua posição inicial. Die... Não estava indo embora?

— Então você não vai...

— Embora? Ah, não. — o ruivo sacudiu a cabeça — Não mesmo. Eu gosto da... Vizinhança daqui.

A troca de olhares cheia de significados que se operou entre os dois homens escapou da garota, que estava refazendo a trança que prendia seu cabelo. Kaoru sentiu uma onda de alívio de proporções fantásticas correndo pelo seu corpo, antes de piscar e instintivamente oferecer ajuda:

— Eu posso deixar a pasta em casa e trocar de roupa para ajudar vocês, Ayame-san.

— Imagine, Kaoru-san! Tem uns dois rapazes que já estão trazendo as coisas para cima...

— Se bem que depois a casa vai ficar uma bagunça e eles vão embora. — Die observou na hora em que os homens uniformizados da transportadora voltavam, deixando mais caixas sobre uma mesa antes de saírem novamente.

— Ah, mas damos um jeito.

— Não tem problema, Ayame-san. Eu já volto.

— Se você tem certeza... Eu vou lá dentro, então. Oni-chan, preciso da chave do quarto de hóspedes!

— Chave... Nossa, faz tempo que não vejo essa chave.

Deixando os irmãos sozinhos, Kaoru retornou ao seu apartamento, não se importando em trancar a porta. Deixando a pasta sobre o seu sofá, ele rapidamente foi até o quarto e colocou roupas antigas que ele usava para trabalhar em casa, além de um agasalho. Afinal, Tokyo continuava gelada para todos, menos Die.

Nem bem cinco minutos haviam se passado quando o publicitário entrou no apartamento vizinho novamente, chamando pelos irmãos até descobrir que eles estavam no quarto que anteriormente estivera trancado; o ruivo provavelmente achara a chave.

— Oni-chan, como você pode ser tão descuidado?

— Ninguém usava esse quarto, Ayame...

— O quê aconteceu?

— Olhe, Kaoru-san!

O homem de cabelos roxos entrou no quarto e imediatamente viu o problema: uma enorme mancha verde se alastrava pelo teto do quarto, pegando parte de uma parede próxima a uma janela. Mofo. Algum vazamento no andar de cima provavelmente causara infiltração de água que originara toda aquela massa verde que coloria o teto do quarto de Ayame.

— Vai ser impossível dormir aqui.

— Mas se colocarmos algum remédio ou substância para combater essa coisa... — Kaoru opinou, andando para mais perto do problema na parede e notando que aquele quarto, ocupado por três cadeiras velhas, uma espreguiçadeira daquelas encontradas em praias e embalagens de eletrodomésticos precisava de uma faxina decente — Tem muita poeira aqui e a pintura também está descascando.

— Eu não fico criticando o seu apartamento, Kao!

— Não é crítica, é realismo. — rebateu o publicitário acirrando os olhos — E é Kaoru. Há quanto tempo você não abre esse quarto?

— Hah, uns cinco anos, eu aposto. Desde que ele chegou aqui.

O assobio do ruivo que nada inocente confirmou a resposta da irmã, que tinha agora um olhar de derrota no rosto.

— Bom, eu acho que eu vou para um hotel então...

— E vai me deixar com toda essa bagunça aqui sozinho?

— Oni-chan, a culpa é sua. Quem mandou não abrir o quarto como uma pessoa normal? O Kaoru-kun não usa o quarto como um dormitório e cuida muito bem dele!

Die ergueu as sobrancelhas quando ouviu aquele comentário e seu olhar caiu em Kaoru, que corara ligeiramente. Bom, o seu estúdio estava mais para depósito de coisas que ainda não haviam sido desempacotadas como ele mesmo admitira mais cedo, mas pelo menos não tinha metade do teto de outra cor.

— Bom, não vem ao caso. Precisamos falar com o vizinho de cima também.

— Ah, ninguém mora no 404. Está desocupado há alguns anos porque tem briga entre os herdeiros, eu acho. — o ruivo explicou — Ninguém vai pagar pelo conserto... Disso. — ele apontou para a mancha.

Os dois integrantes da família Ando continuaram falando e discutindo sobre o problema, enquanto a mente de Kaoru se retirou de campo e começou a mandar sugestões para o publicitário que a primeira vista pareceram absurdas; mas sua cabeça foi tão insistente que no final, a idéia lhe parecia tolerável.

— ...Die.

Os irmãos se viraram quando ouviram Kaoru falar depois de algum tempo, o ruivo parecendo um pouco surpreso; o homem de cabelos roxos raramente se dirigia ao dono daquele apartamento pelo seu apelido.

— Para que a Ayame não vá para um hotel... Você pode deixar seu quarto com ela.

— E eu vou dormir na sala? Meu sofá é a morada de várias caixas agora. — ele replicou, e Kaoru sorriu um pouco. Ele parecia ter no máximo dez anos com aquele tom de voz.

— Eu não tinha terminado, Daisuke. — e pela primeira vez, o homem de cabelos roxos acrescentou o nome verdadeiro do outro por brincadeira e não por estar falando sério — Meu estúdio está habitável e tem uma cama dobrável lá. Você pode ficar comigo enquanto não resolvemos o problema para a Ayame aqui.

Die estava atrás da irmã, e o outro homem viu da posição que ocupava um brilho estranho passar pelo rosto do outro, antes de sumir em definitivo. A garota se adiantou:

— Ah, Kaoru-san! Não precisa fazer isso, não tem problema algum em ficar em hotéis! Vai dar muito trabalho para você.

A mão direita de Die de repente surgiu no ombro do vizinho, apertando-o ligeiramente:

— Você tem certeza disso, Kaoru?

Ah, o seu nome verdadeiro. Um tremor quase imperceptível correu o corpo do publicitário a partir de onde os dedos de Die encontravam o tecido do seu casaco, e ele balançou a cabeça afirmativamente depois de engolir em seco.

Aquela era uma atitude que ele jamais imaginaria tomar há poucos meses atrás. O que diabos estava acontecendo com ele? Onde estava aquele pedaço da sua cabeça que sempre lutava contra qualquer tentativa de submissão aos desígnios do ruivo, que combatia fervorosamente qualquer manifestação de concordância com aquele que havia feito da sua vida um inferno na terra?

Aparentemente, ela havia seguido aquele ditado que dizia: \"se não pode vencê-los, junte-se a eles\". E Kaoru estava prestes a fazer a mesma coisa.

Depois de mais um pouco de conversa, Die finalmente aceitou a oferta e foi para o apartamento de Kaoru. Os dois homens embalaram o que julgavam suficiente para uma noite e transportaram para o apartamento vizinho, depois ajudando Ayame a pelo menos colocar tudo que havia sido deixado no hall para dentro de casa.

Já era bem tarde quando o publicitário trancou a porta do seu apartamento, suspirando de cansaço mesmo sem ter feito muita coisa. Caminhando para o seu estúdio, ele abriu a porta do mesmo e arrumou as telas e material de artes em geral que ele deixava ali dentro, abrindo a cama de armar próximo de uma mesa com um abajur.

— Kaoru.

Seu nome de novo. Ele se ergueu e encontrou Die parado, encostado no batente da porta aberta do cômodo. Ele ainda vestia as mesmas roupas que usava enquanto ajudava Ayame na mudança, mas tinha alguma coisa de diferente nele. Seu olhar era... Sério. Anormalmente sério para alguém que Kaoru raramente via com aquela postura.

— Hai?

— Você fez tudo isso pela Ayame... — ele perguntou, sua face finalmente assumindo os trejeitos zombeteiros e maliciosos de sempre, conforme o ruivo avançou alguns passos na direção do outro homem — Ou por você mesmo?

Um momento de silêncio se passou entre os dois, Kaoru resistindo bravamente contra um rubor que teimava em querer tingir seu rosto e Die ali, parado, exibindo muito mais do seu corpo do que era recomendável.

— Pela Ayame, claro. Eu gosto muito dela.

— Você está mentindo.

— Não estou! — o publicitário rebateu, acirrando os olhos e cruzando os braços — Você é muito metido, Ando Daisuke. Não pense que todas as pessoas ao seu redor estão sempre cedendo aos seus desejos por sua causa, porque não é o meu caso!

Sentindo seu sangue ferver, Kaoru saiu de onde estava com passos largos e decididos, pronto para deixar o quarto e Die sozinhos pela noite. No entanto, quando ele estava prestes a atravessar para o corredor, seu pulso direito foi agarrado com uma força inesperada pelo ruivo.

A série de acontecimentos que se sucedeu depois foi rápida, porém não veloz demais para que ele não acompanhasse o modo como o seu ex-chefe interino o agarrou com as duas mãos e praticamente o jogou contra a parede, beijando sua boca com uma paixão tão grande que havia deixado Kaoru tonto; o publicitário não conseguira sequer corresponder à altura.

De repente, o contato se interrompeu, e o homem mais velho foi presenteado com um Die ofegante, com os lábios brilhantes por causa da saliva e com uma expressão triunfante, satisfeita e... Um pouco misteriosa.

— Exato. Você é único, Kaoru... Não pense que eu não sei disso. Boa noite.

Depois desse cumprimento educado, o publicitário não conseguiu pensar em mais nada a não ser em se retirar do estúdio e deixar o ruivo sozinho. Pasmo e com mais dúvidas do que nunca a respeito do outro homem, ele foi para sua cama.

Mas não conseguiu dormir.

Continua...

Notas finais
Oeoe~!

Gomen pela demora. :x Estamos chegando no final da história, mas ainda temos algumas reviravoltas pela frente (ou assim espero! xD). Tenho um monte de reviews para responder, eu sei - e peço desculpas! É que infelizmente o Nyah! passou a ser bloqueado no meu escritório então tenho pouco tempo em casa para atualizar aqui... Mas prometo que ainda respondo TODOS os comentários!

Beijos e obrigada por tudo, pessoas queridas! =*
Mari-chan.