Notas iniciais
Como assim? Até eu tô confuso com tudo isso. Vocês sabem, toda essa história me deixa com dor de cabeça, afinal, como pode ser possível que eu tenha escrito o oitavo capítulo tão rápido? Grr, a onda de inspiração voltou com tudo.

Capítulo 8


Eu não queria mesmo deixar algo que eu nem entendo o porquê estragar tudo o que Thiago nos proporcionou nos últimos dias. Banho, roupas, conforto, liberdade; ou seja, esperança. Agora, por algum motivo idiota, uma frase esquisita aparece na minha cabeça do nada, a escola explode e eu não tenho como não culpar o Thiago por desconfiar de mim, afinal eu estava na rua, sendo madrugada, na frente do dito local de ataque, sem um álibi convincente. Uma pergunta coçava meu cérebro, por que alguém iria querer explodir a escola? Mas que porra, eu estava puto por isso. O Thiago pode ser um maníaco por segurança, pode requerer algum toque de recolher, mas olha onde estamos vivendo! Lá fora tá rolando o apocalipse porra! Mesmo que o Thiago não desconfie de mim nem um pouco, eu o ajudarei incondicionalmente a encontrar o culpado, ou os culpados disso. Ferrar com a paz no condomínio era, na minha opinião, inaceitável, e se tiverem quebrado os aparelhos auditivos da minha irmã, eu precisaria ser segurado para não quebrar a cara do culpado.

Ou seja, meu primeiro objetivo depois de recupera-lo será provar o quanto Igor tem de envolvimento nisso tudo, me parece justo, mesmo que ele negue, preciso saber se eu realmente ouvi sua voz antes do ataque.

Todos esses pensamentos passaram pela minha cabeça enquanto eu limpava meus ferimentos — com dificuldade —, e saía pelas portas da enfermaria, queria entender porque não havia ninguém lá agora, tudo à minha volta parecia fantasmagórico, sem vida. Eu me sentia diferente.

Andei cada vez mais rápido em direção à Escola, eu estava perdendo o foco levemente a cada passo, como se estivesse com sono. Com certeza isso era resultado da minha contusão, e sim, eu estava puto com isso também.

De repente, ouço gritos vindos da direção da Escola, homens e mulheres gritando ordens uns aos outros, alguns calmos, outros mais desesperados. Uma fumaça escura subia, e ouvia-se também som de estacas e tratores — ou o que pareciam ser tratores, para mim —, que estavam retirando mantimentos e alguns móveis coloridos de dentro da casa numa velocidade desesperadora, muita coisa estava quebrando ou caindo, ou os dois.

Eu ouvia grunhidos, bem ao fundo, quase imperceptíveis.

Estava claro para mim, um minuto depois, que a escola estava encostada à parede do condomínio, e estávamos desprotegidos. Os monstros estavam entrando.

Foi como se o meu sangue tivesse sumido do meu corpo, precisei me segurar em um poste para não perder a compostura. O terrível sentimento de saber que muita coisa ruim iria acontecer ali agora, a agonia de pensar que teria que passar por todos eles pelo aparelho de Isabelle estava me tirando do sério. Cada passo parecia mais pesado que o outro, o frio na barriga iria me consumir vivo — Expectativa, ansiedade, e todas essas babaquices —, o que me fazia perder a velocidade totalmente.

Ninguém estava ouvindo-os?

As exclamações gradualmente se tornavam mais claras, muitos guardas já estavam espalhados por perto, tentando afastar os poucos curiosos que tentavam ver o que acontecia. Senhoras puxavam com força as crianças, tentando evitar confusão. Enquanto isso, os murmúrios monstruosos se tornavam cada vez mais numerosos, eu temia que uma horda tivesse a caminho, ia ser nosso fim, mesmo assim, ninguém parecia estar dando a mínima.

Carros chegaram um atrás do outro, numa comitiva. Thiago estava na traseira de uma picape, deu um tiro para o alto e gritou, quando o lugar ficou um pouco mais silencioso.

— Moradores de Prestesburgo! – apenas o som nauseante dos grunhidos eram ouvidos ao fundo, porque todos se calaram – Não se preocupem, nos preparamos para isso, a explosão fora apenas um acidente com a tubulação de gás, estamos retirando tudo dá escola, e logo realocaremos suas crianças a outro lugar, não se preocupem, logo consertaremos isso e nossas vidas voltarão ao normal. Isso é tudo.

O efeito de suas palavras era incrível, eu conseguia sentir uma pequena pontada de ansiedade, o que me fez pensar que essa tinha sido a primeira vez que o condomínio estivera num problema com essas proporções. Me escondi entre os carros para que ele não me visse e entrei na Escola.

Era uma casa, uma das grandes, que fora adaptada para ser um tipo de escola, uma das paredes fora derrubada para se tornar uma grande sala, poderia ser mais bonita, se não houvesse um buraco imenso dando para a rua, e um cheiro nauseante de queimado. Várias pessoas estavam aqui dentro, correndo de um lado para o outro, da sala parcialmente destruída para a cozinha intocada, tão ocupadas que nem me perceberam.

Passei por eles até a cozinha, onde panelas de tamanhos variados descansavam no fogão, e uma grande porta de vidro dava uma bela vista para o quintal, tinha que encontrar a tal da tia Vic, encontrar o aparelho e cair fora o mais rápido possível, porque os monstros já estavam invadindo, por um pequeno buraco no muro do condomínio, como se tivesse sido feito justamente para essa ocasião, e aquela visão bagunçou meu estômago.

— Onde é a sala da Tia Vic? – perguntei para uma das senhoras que estavam ali, recolhendo mantimentos o mais rápido que conseguia. Ela nem havia notado o que estava prestes a acontecer – Preciso falar com ela.

— Escolheu uma péssima hora para vir prestar suas condolências, garoto – ela simplesmente jogou esse balde de água gelada em mim e saiu correndo com uma caixa de mantimentos embalados.

Tia Vic estava morta? Ela foi a única baixa nesse infeliz ataque? Era o que eu mais precisava nesse momento. Saí andando de cabeça baixa, pensando no meu próximo movimento, quando segurei no corrimão de madeira da escada, decidi subir. Era uma casa normal, com rabiscos de giz de cera pelas paredes e desenhos pregados com tachinhas. Um desenho, outrora engraçado, da Tia Vic estava colado bem na altura dos olhos, ela estava pintada de giz vermelho, desenhada tão bem quanto uma criança de 5 anos a desenharia, uma mulher rechonchuda com um sorriso contagiante no rosto, e 8 fios de cabelo espalhados na cabeça. Isso estava bem ao lado de um quarto com uma faixa preta o destacando, era ali mesmo, com certeza, conseguia sentir o cheiro de queimado.

Abri a porta esperando ver o diabo, o que eu encontrei foi um pouco pior. O corpo dela — de fato, era rechonchudo —, jazia deitado na cama como se ela estivesse apenas dormindo, provavelmente estava quando os estilhaços da explosão a perfuraram, e o incêndio deixaram-na com uma horrenda queimadura de terceiro grau na parte esquerda do corpo. Ela nem ao menos sentiu, isso era reconfortante. O que era, na verdade, muito desconfortável, era o cheiro que me deixava zonzo, enjoado e muito confuso.

Olhei em volta, ela guardaria o aparelho aqui? Será que eu era tão azarado assim?

Procurei por todo o cômodo, nada, era como achar uma agulha carbonizada num palheiro escuro. O quarto ganhou um pequeno buraco, assim como a sala, mas esse dava visão para o quintal, onde eu podia, ao fundo, ver o que estava prestes a acontecer, precisava sair dali o mais rápido possível, porém algo me segurou. Estava cada vez mais enjoado com o cheiro podre, as moscas e todo o ambiente queimado. Vomitei, mesmo de estômago vazio, quando terminei, vi que mais dos monstros entraram. Eu tinha ferrado tudo, eles me perceberam, eles iriam entrar um por um freneticamente agora por minha causa. Olhei para o corpo de Vic deitado, e supliquei por perdão, não controlava mais meu corpo, e, por razões inexplicáveis, mordi o braço queimado dela.

Assim, sem explicação, uma hora estava olhando pela janela, observando a invasão iminente, na outra, estava de olhos fechados, aproveitando o sabor defumado do braço daquela mulher. "Dead Test" circulava pela minha cabeça, e por um momento, meu mundo foi apenas isso, até que na terceira mordida, um pedaço da carne dela pesou no meu estômago, e eu vomitei numa ânsia avassaladora tudo o que eu havia tentado comer ali.

Estava tão surpreso que não tive reação nenhuma, era apenas nojo, de mim mesmo e de toda aquela situação. Lágrimas brotaram em meus olhos. Aquela confusão crescente que o cheiro deixava em mim não era náusea, era fome, uma fome horrenda. Tão subitamente, me senti um monstro, tudo estava dando errado tão rápido, tão inesperado, que senti que iria me perder, me jogar desse buraco para que os já monstros me tornassem um deles. Nessa hora, entretanto, foi Isabelle que me salvou, ela não deixou que eu fizesse aquilo, ela precisava de mim tanto quanto eu precisava dela. Com certeza tudo isso não passava de um mal entendido, talvez eu estivesse alucinando de novo, ouvindo e pensando coisas que não aconteceram. Estar apenas louco era uma ideia bem melhor do que achar que me tornei um monstro. Cuspi um gosto ruim da boca e saí do quarto rapidamente.

Esperava entrar em mais algum lugar para procurar, mas a calmaria dera lugar a confusão. Desci quase que instantaneamente para a cozinha, a porta de vidro estava estilhaçada, e o chão da varanda para o quintal estava repleto de corpos duplamente mortos. Três homens seguravam facões e picaretas, com suas atenções totalmente voltadas para a porta, enquanto outros dois passavam correndo por mim, levando o último dos suprimentos do lugar. As senhoras que recolhiam os mantimentos sumiram, e deram lugar a apenas soldados.

— Mantenha a porta segura, não deixem nenhum passar – disse um dos homens, para os outros – Até que cerquem o lugar, nada pode passar daqui.

— Quanto tempo você acha? – perguntou o outro, com uma voz familiar.

— Não sei, o mais rápido possível, provavelmente algumas horas – bufou o terceiro – Por que diabos não nos deixaram usar nossas armas?

— Como a população vai agir quando souberem disso...

Me esgueirei por detrás deles, para que não me percebessem, e fui embora.


***

Não foi a melhor fuga do mundo, aliás, nem foi bem uma fuga, todo mundo estava se afastando da casa, apenas os homens de Thiago, cada um com uma arma cortante diferente, estavam próximos, não deixando ninguém se aproximar. Estava entre algumas pessoas, despistando, quando senti uma mão em meu ombro.

— Arthur! – era Anna – Meu Deus, você tá bem? Você tava lá dentro? – ela encarava meu machucado e minha cara de confuso – Responde, porra!

Pisquei.

— Tô sim, obrigado. – continuei a andar, mas ela me interrompeu de novo.

— Escuta aqui, seu idiota – disse ela, tentando ser seria, mesmo sendo claro seu temor – O Igor está lá dentro, quero saber se ele está bem, só isso, aí você pode voltar pra sua irmã – ela respirou fundo.

— Ele tá lá dentro? – Limpei os olhos vermelhos com os dedos.

— Como você não o viu?

— Está tudo tão esquisito – disse, tentando disfarçar – Eu só entrei rápido procurando uma coisa, e saí, parecia estar tudo sob controle.

— Sob controle uma ova – ela esbaforou – O Thiago é um idiota, tá se esforçando pra cobrir o que realmente está acontecendo – ela segurou minha mão, e eu soube na hora o que ela estava querendo e ja comecei a negar com a cabeça – Por favor, Arthur, preciso ajudá-los.

— Eles vão cercar a escola, ja está tudo certo – contestei, eu não queria de jeito nenhum voltar lá, mesmo sabendo que não seria simples assim.

— Aqueles bunda-moles não tem coragem nenhuma pra luta! – ela gritou, mas viu que não deveria falar muito alto – Só pra enganar todo mundo, está muito claro pra mim que os zumbis já estão dominando o quintal, temos que lidar com eles e... – ela fez uma pausa e olhou em volta – Temos que fazer isso rápido, antes do entardecer... Senão...

— Senão o que?

— Vamos ter que lidar com os recém nascidos... – ela disse como se fosse a coisa mais terrível que poderia acontecer na vida, e eu não fazia ideia.

Eu não me dei o trabalho de responder ou tentar entender, apenas me virei mais uma vez e saí.

— Se você não for, eu terei que ir sozinha.

Foi o que me fez repensar. Não que minha vida ou segurança não fosse mais importante que a dela, mas, mas... Eu não queria vê-la machucada, como não queria que ninguém se machucasse, esse era realmente um problema seríssimo. Droga de personalidade pacífica.

— Me arruma uma arma que preste, e eu vou.

Ela me deu um machado de incêndio, bem útil de madeira firme, eu me sentia muito mais confortável segurando-o. Cuspi para o lado o gosto ruim na boca, por algum motivo, mesmo sendo hora do café dá manhã, eu não sentia fome.

Notas finais
MAS COMO ASSIM? sinto que esse capítulo foi uma virada enorme! Kkk Tomara que gostem
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.