Dois anos depois.

Sons de lutas ecoavam naquela praia proibida para estrangeiros e turistas. Os moradores próximos já estavam acostumados a eles. Afinal, a ilha desde tempos mitológicos, tem sido agraciada com a honra de servir de berço para inúmeros e bravos Cavaleiros de Ouro que usaram a armadura de Escorpião.

O diferencial, que atraia de início os olhares curiosos dos mais velhos e de admiração de outros mais jovens, e mulheres que se arriscavam a passar ali, era que uma mulher tentava o que muitos consideravam um absurdo ou impossível. Usar uma armadura de ouro.

Mas admitiam que a adolescente treinada pelo atual cavaleiro desta constelação tinha força de vontade, pois treinavam constantemente, todos os dias, até a exaustão!

Ela havia dominado a técnica das Agulhas Escarlates e Restriction, mas o golpe final e certeiro chamado Antares, a jovem ainda não havia adquirido. Era a técnica final, e eventualmente, a mais difícil de ser aprendida.

O sol implacável estava anunciando o meio dia quando pararam para descansar do treino, a sombra de uma macieira próxima, enquanto almoçavam.

—Nunca pensei que era tão difícil aplicar a Antares, mestre!-dizia a menina, de costas para o mestre, para retirar a máscara e comer.

—Para aplicar este golpe é preciso estar bem concentrado. Tem que ser perfeito!-explicava.- Embora tivesse criado técnicas próprias, aprendido outras com meu mestre, mas a Antares somente consegui dominá-la após quatro anos. Treinamos faz dois anos, Kian...ainda tem muito tempo para aprender, não é rápida para aplicar um golpe certeiro e mortal em seu inimigo.

—É muito tempo! Já faz dois anos...-ela fazia contas mentalmente.-Eu pretendo aprender em no máximo quatro meses!

Milo gargalhou ao ouvir isso, deixando-a indignada.

—Se conseguir este feito, vou morrer realizado como professor. -mordeu uma maçã.- Mas não se iluda. Você não vai conseguir antes de uns dois anos.

—Vou conseguir em quatro meses.- ela decidiu.

—Está bem, não vou tirar seu entusiasmo. Mas você não vai conseguir.-levantou-se.-Deixarei que treine seus golpes, enquanto vou ao Santuário. Voltarei em uma semana!

—Vai agora?

—É. Fui chamado.

—Algo errado? –sentindo o mestre ansioso por algo.

—Um funeral... Uma batalha. –ele sorri triste, olhando o próprio punho.

—Era seu amigo?

—Sim. Ambos eram meus amigos.

—Sinto muito, mestre. Posso ir? –Kian pergunta, esperançosa.

—Claro que não. –vendo-a desapontada, dá um peteleco na testa dela. – Se chamaram os cavaleiros de ouro para uma batalha, boa coisa não é. Fique aqui que é melhor.

—Mas...

—Ainda é uma aprendiz. Não está pronta!

—Mas...mas... quero ir... –fazendo bico, inconformada.

—NÃO! JÁ DISSE QUE NÃO!

Ela se assusta pelo tom de voz do cavaleiro. Milo parecia cansado e esfregava os olhos com uma mão.

—Desculpe. Não a quero na linha de fogo. O inimigo é cruel e poderoso, não pode ser subestimado, matou dois cavaleiros de ouro de modo covarde. Ele se aproveitou... atacando jovens aprendizes e os cavaleiros se sacrificaram para protegê-los e a outros inocentes. Não quero você por perto.

Ela baixou o olhar, envergonhada por ter insistido.

—Acha que eles atacariam aqui?

—Não acredito. Espero que não. A última vez que apareceram, outros cavaleiros de ouro os colocaram para correr. Aproveite que estarei ausente e treine todos os dias, Peste.- se levantando e saindo, acenando de costas para ela.

—Eu vou te mostrar quem eu sou, coroa!-resmungou emburrada.

—Eu ouvi isso!-Milo disse de longe.

Kian havia treinado o dia todo, após a saída de Milo e voltava para a cabana que foi sua casa nos últimos oitos anos, totalmente desanimada. Geralmente um cavaleiro levava de seis a sete anos para ser sagrado e servir Atena. Ela não havia conseguido alcançar esta meta no tempo que pretendia.

Amaldiçoando-se por ser mulher e sentir-se fraca, ela entrou em casa chutando móveis e dando um soco na parede para extravasar sua raiva. A parede cedeu ao seu golpe criando um buraco.

—Ai que droga! O velho vai me matar!

Olhou para o buraco criado pelo seu soco e foi quando notou algo escondido em um espaço dentro da parede. Enfiou a mão no vão da parede e retirou de lá o objeto. Era um livro antigo. Quando o abriu notou que não se tratava realmente de um livro, mas um diário.

"-O diário de Kárdia?"-olhou espantada, lendo com interesse para o seu conteúdo.

Ler as memórias do antigo cavaleiro de escorpião todas às noites, escritas antes da Guerra Santa que ceifou sua vida, tornou-se um hábito que Kian cultivou durante aquela semana e nos dias que vieram a seguir.

Seu mestre demorara mais do que uma semana para retornar. Pelas cicatrizes e ar taciturno que trouxera, a luta havia sido muito mais difícil do que imaginara. Ele permaneceu calado, algo incomum, sobre o assunto. Quando finalmente respondeu algumas perguntas, foi para dizer que seu pai estava bem, não havia se ferido seriamente. Mas que havia perdido alguns amigos nessa batalha.

Decidiu não perguntar mais nada. Depois de um tempo, Milo parecia ter voltado ao normal e os treinamentos recomeçaram mais pesados do que nunca.

De dia, treinava incansavelmente com Milo. À noite, a luz fraca de velas em seu quarto, lia as anotações referentes tanto a sua vida, memórias, sentimentos e experiências como cavaleiro.

—"Shin-ou Ten ...É o ponto vital do corpo de todo ser humano..."-lia no silêncio do quarto.-"Meu mestre me disse que quando apertado, estanca hemorragias."

Ouviu um ronco, indicando que Milo dormia profundamente no quarto ao lado.

—O coroa nunca me contou sobre isso.- falava pra si mesma, virando a folha e vendo um desenho grotescamente feito na página.- Ele até desenhou o ponto vital!

—Apague a vela e vá dormir!-gritou Milo abrindo a porta, quase fazendo Kian derrubar a vela e queimar todo o seu colchão.- Que isso que você está lendo?

—Nada.- Kian escondendo o diário.

—Nada?- estranhando.- Posso ver?

—Não! Coisas de mulher.- respondeu prontamente.

—Hmmm?

—É...coisas como...meus pensamentos, sentimentos, poesias, rapazes, TPM, cólicas...

—Pode parar!-ele levantou a mão.- Não precisa me explicar nada. Amanhã iremos a Agathia.

—Agathia? Amanhã?-a garota espantou-se.- Mas, você me disse que somente iríamos a Agathia quando eu estivesse pronta para receber minha armadura ou...

—Tenho observado seu desempenho, creio que chegou o momento de você mostrar seu verdadeiro potencial. Não vamos perder mais tempo.

—Mestre, como é este teste afinal? Você nunca fala sobre isso!

—Amanhã você saberá. Agora durma!-e saiu do quarto, fechando a porta em seguida.

Kian não fazia ideia de como seria o tal teste final, Milo sempre desconversava quando ela perguntava ou simplesmente a mandava continuar com algum exercício e o assunto era desviado. Até mesmo ir às cavernas em Agathia era proibido, pois o mestre sempre se referia ao local secreto como um lugar sagrado.

Súbito lhe ocorreu um pensamento. Kárdia deve ter anotado sobre como era o tal teste final. Se lesse sobre o assunto, poderia se preparar para qualquer eventualidade.

Pegou o diário e o folheou a procura de qualquer coisa que se refere ao teste e Agathia. Até que por fim encontrou e começou a ler atentamente. Os olhos se arregalaram e as mãos estremeceram levemente.

—Não...- murmurou, deixando o diário cair ao chão e a menina encolheu-se na cama soluçando baixinho.

A noite parecia não ter fim e o sol nem aparecera no horizonte quando Kian apareceu na pequena cozinha, pronta para seguir seu mestre. Milo já estava acordado e preparava o desjejum. Era nítido que nenhum dos dois havia dormido bem.

Em silêncio comeram e saíram da cabana e seguiram correndo para Agathia. A cidade não era seu destino, foram até uma praia próxima e isolada, onde avistaram uma caverna de difícil acesso. A própria natureza a protegia com rochas pontiagudos e a maré que a noite cobria parte do acesso.

Mestre e aluna não falavam nada. Os únicos sons eram os das ondas batendo mansamente nas rochas e encostas e os pássaros saindo de seus ninhos para pescar no mar.

—Chegamos.- disse o cavaleiro por fim.- Vamos entrar.

Kian concordou e saltou atrás de Milo até a caverna e entraram. Enquanto caminhavam pelos corredores escuros e sinuosos, esculpidos na aurora do tempo por atividades vulcânicas que deram origem a ilha, ela arriscou a perguntar:

—Por que está acelerando meu treino? Disse que eu não estaria pronta em menos de dois anos.

—Pensei que estivesse com pressa de vestir logo sua armadura, Peste. Disse que faria isso em quatro meses.- ele provocou, mas Kian esperava uma resposta.- Logo estes tempos de paz irão terminar. Inimigos de Atena começaram a se manifestar pelo mundo. O Grande Mestre determinou que as Doze Casas tenham seus guardiões o mais breve possível para as guerras e defender Atena.

—O...papai?

—Sim. Ele tá mandão.- Milo riu.- Acontece que as Casas de Gêmeos, Peixes e Escorpião não possuem cavaleiros. Bem, isso tem que ser mudado. Você entende?

—Sim.

—Ótimo. Por que chegamos.

Chegaram a um enorme salão, com centenas de metros de largura e altura, e bem no centro dela estava um tipo de altar e nele a Urna com a Armadura dourada de Escorpião. Kian lançou um breve olhar pela caverna e notou que em uma das paredes havia espaços onde repousavam centenas de ossadas. O local era uma enorme cripta.

—Eles são..?

—Os antigos Cavaleiros de Escorpião.- explicou Milo.- Esta caverna é o local onde são sepultados todos que já usaram esta armadura.

—Há espaços vazios.- ela procurava entre as centenas uma em especial.

—Muitos morreram em batalhas e foi impossível recuperar os corpos e trazê-los aqui, ou...

—Ou morreram antes de terem tido um discípulo.- ela completou.- O teste é uma batalha de vida ou morte entre Mestre e Discípulo, não é?

—Sim.- Milo respondeu sério.

—ISSO NÃO É JUSTO!-ela alterou-se, inconformada.

—Tem sido assim há gerações, Kian. Desde que o primeiro cavaleiro usou esta armadura e ensinou ao seu sucessor a técnica das Agulhas Escarlates e Antares. Eu tive que passar por isso.

—Mas, por quê?

—Kian, me diga o que sabe sobre as Agulhas Escarlates.- ele ordenou.- Diga!

— Libera-se energia através de um dedo. -ela explicava sem jeito, pois detestava aulas teóricas.- Igual a uma agulha venenosa. Atinge o sistema nervoso do inimigo que cai paralisado pela dor e provoca sangramento e a perda dos sentidos também. São quinze golpes, as quinze estrelas que dão forma a constelação de escorpião, e a base que o tempo passa as cavidades feitas pelo ataque do escorpião dilatam.

—E o que provoca no final este ataque?

—Se perde os sentidos, até a atingir a Loucura ou a Morte.- ela respondeu por fim.

—Loucura se seu adversário cair antes da Décima quinta agulhada. Morte ao ser atingida pela Antares. É o que vai acontecer com um de nós no final deste teste.

Kian sentia as mãos suares e estremecerem.

—Antares é o último golpe da Agulha Escarlate. -Ele continuou.- Você atinge o centro da constelação do Escorpião, mais propriamente em seu "coração". Se por ventura o adversário não tiver morrido ou entrado em Coma Profundo durante os ataques da Agulha Escarlate encontrará a Morte tida como certa. Nem mesmo um Deus pode sobreviver a este ataque! Neste último golpe perfura com seus dedos indicador e do meio o corpo do adversário. — Ele se aproxima de Kian e toca a região que ele disseram com os dedos.- Fazendo com que o sangue do inimigo jorre de tal forma que a morte é quase instantânea. É impossível sobreviver ao último ataque da Antares. Todos aqueles que o receberam tiveram seu fim!

—Eu não quero te matar.- ela disse.

—Se não me matar, seu corpo ficará ali.- ele apontou para o outro extremo do salão, onde haviam inúmeras lápides.- Junto com todos os garotos que tentaram se tornarem cavaleiros antes de você. Não tem escolha. É Vencer ou Morrer!

Milo deu um salto para trás e assumiu uma postura de luta, elevando seu cosmo e a unha crescendo e assumindo a cor rubra, Kian notou que se não fizesse o mesmo, defende-se e revidar os ataques, seria morta ali.

—Ser um cavaleiro é estar acima de sentimentos pessoais, Kian. Defender Atena, o Santuário e a Terra... estas são as únicas paixões e as únicas razões para lutar, viver ou morrer de um Cavaleiro. -dizia Milo.- Todo o resto não importa!

—Ter amigos, uma família...defende-los, dar a vida por eles.- murmurou Kian. -Meu pai me dizia que lutar e morrer por eles, deixava o coração de Atena feliz!

Milo sorri e ataca com o primeiro golpe de uma Agulha Escarlate. Kian mal vê o movimento dele, e sente uma dor lancinante percorrer seu corpo no instante seguinte que ele se mexera. Ela grita, cai de joelhos.

—Se não fizer algo, vou matá-la, Kian.

Ela então se levanta e se coloca em posição de ataque, respirando profundamente e ataca. Três agulhas, duas desviadas por Milo e a terceira o acerta em cheio fazendo-o recuar um instante. Ele volta a sorrir e a atacar. Ambos trocam golpes, desviam-se de uns, sentem os efeitos da maioria deles. Diante do décimo quarto ataque, a garota perde a sua máscara que cai em algum lugar do Salão. Ela nem sequer pensa em procurá-la. Ambos se olhavam ofegantes, as roupas manchadas pelo sangue, os ferimentos das agulhas ardiam. Uma dor difícil de ser descrita.

—Não cedeu a loucura.- dizia Milo com uma expressão feliz no rosto.- Sua velocidade é perfeita! Você compensa a falta de força física com velocidade e destreza. Um cavaleiro de escorpião não precisa de força física para vencer. Contamos com nossa velocidade e nossa precisão em cada golpe. Seus golpes a cada ataque se aproximam da perfeição! Estou orgulhoso de você!

—O-obrigada, Mestre.- ela permanecia séria.

—Mas agora, veremos o quanto é rápida! Está preparada para a Antares?

—Você está?

Milo estava cheio de orgulho naquele instante. Poderia morrer naquele momento em paz e seu corpo repousaria ao lado do seu mestre naquele lugar.

Havia vivido e lutado por Atena, havia feitos amigos que considerava como irmãos e jamais os esqueceria, nem mesmo na outra vida...Shura, Aiolia, Kamus...será que Kamus sentiu a mesma coisa que ele quando defrontou-se com Hyoga tantos anos atrás ao ensiná-lo a técnica máxima, ao qual custou sua própria vida?

Não...Kamus na ocasião não pode salvar Hyoga dos efeitos do golpe, Kian iria sobreviver, continuar seu legado...continuar a lutar por Atena.

Ambos avançaram, ele hesitou um milésimo de segundos. O suficiente para garantir que Kian aplicaria o golpe com total perfeição e lhe daria uma morte dolorosa, mas rápida. Sorriu ao sentir os dedos dela perfurando sua carne e atingindo o ponto vital.

—M-muito bem...Pestinha...não, Kian...Amazona de Ouro...de Escorpião...-Milo cai de joelhos e tomba ao chão, imóvel.

Kian estava em estado de choque, respirava com dificuldades, não acreditando no que fizera. Pareceu despertar do golpe psicológico que recebera no momento em que a urna brilhou com a intensidade de um sol, abriu-se e a Armadura dourada cobriu o corpo de sua nova eleita.

Ela teve apenas forças para gritar a plenos pulmões, com os olhos anuviados pelas lágrimas:

—MESTREEEEEEEEEEEEEE!

Fim da Parte 4.