The Cullen's
22 Capítulo 22
Edward não dormira.
A noite inteira fora um desfile cruel de pensamentos que se chocavam uns contra os outros, sem ordem, sem misericórdia. O quarto da mansão Cullen, tão familiar, parecia agora estranho — como se já não lhe pertencesse. Bella dormia de costas, imóvel, e aquela simples posição feria mais do que qualquer palavra dura que ela pudesse ter dito. Não havia briga, não havia gritos. Apenas distância. Uma distância silenciosa, gelada, impossível de atravessar.
Ele se levantou com cuidado, apoiando o peso do corpo primeiro na perna direita. A esquerda respondeu com a dor conhecida, profunda, próxima ao fêmur — a lembrança física do tiro que quase lhe custara tudo. A bengala, encostada à poltrona, foi sua companheira até a janela. Edward respirou fundo, tentando organizar o caos interno. Eu ainda posso consertar, pensou. Eu preciso consertar.
Quando deixou o quarto e seguiu pelo corredor lateral da mansão em direção ao escritório, não esperava encontrá-la.
Tânia estava ali como se sempre tivesse pertencido àquele espaço.
Edward fechou a porta do escritório com mais força do que pretendia. O som ecoou pela madeira antiga, arrancando um sorriso breve — e perigoso — dos lábios de Tânia.
— Você não devia estar aqui — ele disse, a voz baixa, dura. — Dimitri vai notar sua ausência.
— Dimitri nunca percebe nada — ela respondeu, caminhando lentamente pelo cômodo, como se fosse dona dele. — Sempre foi assim. Você sabe.
Edward se virou, o maxilar travado.
— Diga logo o que quer, Tânia.
Ela parou a poucos passos dele. O sorriso sumiu.
— Eu vim naquela noite para te impedir de casar com Bella.
O silêncio caiu pesado entre os dois.
— Isso é mentira — Edward rebateu, imediato. — Você apareceu bêbada, confusa, inventando coisas—
— Eu fui até o seu quarto escondida — ela interrompeu, firme. — Sabia exatamente onde ficava a porta de serviço. Sabia que você mancava naquela semana… porque tinha acabado de levar o tiro.
Os olhos dele oscilaram por um segundo. Um erro mínimo. Mas Tânia viu.
— Você estava sentado na cama — continuou —, tentando tirar a bota da perna esquerda. A ferida perto do fêmur ainda estava inflamada. Você xingou quando forçou demais… e jogou a bengala no chão.
Edward respirou fundo.
— Pare.
— Você me mandou sair — ela disse, ignorando-o. — Disse que já tinha feito sua escolha. Que se casaria com Bella.
Ela engoliu em seco.
— Mas quando virei as costas… você me segurou pelo braço.
Ele deu um passo atrás.
— Eu estava confuso. Machucado. Você se aproveitou disso.
Tânia riu, amarga.
— Não ouse fingir que não lembra. Você disse meu nome. Disse que tudo estava desmoronando. Disse que ninguém te via como ela… como eu.
— Chega! — Edward elevou a voz, algo raro. — Você não vai usar uma noite de erro para destruir minha esposa.
Ela então levou a mão ao ventre, num gesto simples — e devastador.
— Não é uma noite, Edward. É uma consequência.
Ele a encarou, incrédulo.
— Esse filho não é meu.
— Não é de Dimitri — ela respondeu, sem hesitar. —Você sabe disso também.
Edward balançou a cabeça, os olhos ardendo.
— Você está mentindo. Inventando uma história para se livrar de um casamento que nunca quis.
— Então me diga — Tânia aproximou-se mais uma vez, baixando a voz —, quem mais sabe da cicatriz torta logo acima do joelho esquerdo? Quem mais ouviu você reclamar que talvez nunca voltasse a andar sem dor?
O silêncio agora era ensurdecedor.
— Quando Bella pedir o desquite — ela continuou —, eu pedirei o meu. Não precisamos fingir mais. Podemos...
— Não — ele a cortou, seco.
Ela piscou, surpresa.
— O quê?
— Eu não ficarei com você. Nunca. — Edward endireitou os ombros. — Se essa criança for minha, eu assumirei. Não faltará nada. Mas você e eu… isso acabou naquela noite. Foi um erro. E erros não viram lares.
Tânia o encarou por longos segundos. O orgulho ferido transformando-se em algo mais frio.
— Veremos — ela disse por fim. — Porque a verdade sempre encontra um jeito de vir à tona. Mesmo quando todos fingem não enxergá-la.
Ela saiu sem olhar para trás.
Edward permaneceu imóvel, a mão apoiada na mesa… e, instintivamente, o peso recaindo sobre a perna esquerda — aquela que ainda o lembrava, todos os dias, que algumas feridas nunca cicatrizam direito.
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A nova temporada londrina começou envolta em expectativa e tensão. O primeiro baile, novamente na mansão Cullen, prometia ser inesquecível. Um baile de máscaras. Um espetáculo.
Bella, como anfitriã, se movia com elegância impecável, mas por dentro sentia-se frágil como vidro. Pediu ajuda a Esme, e juntas cuidaram de cada detalhe. Quando a rainha Charlotte entrou no salão, todos se calaram.
— Magnífico — declarou a rainha, olhando diretamente para Bella. — Absolutamente magnífico.
A sociedade murmurou aprovação.
Enquanto isso, Alec observava tudo com curiosidade distraída… até vê-la.
Vestia prata. Um tom suave, quase etéreo. Os cabelos ondulados emolduravam o rosto escondido pela máscara delicada. Ela parecia fora do tempo. Fora do mundo.
— Posso? — perguntou ele, estendendo a mão.
Ela aceitou.
Dançaram. Conversaram. Riram. Caminharam pelo jardim sob a luz das lanternas. Quando os sinos anunciaram a meia-noite, ela se afastou correndo. Um sapato caiu. Alec o apanhou, o coração acelerado.
— Espere! — chamou.
Ela não voltou.
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Na manhã seguinte, o grito de Rosalie cortou a mansão como um relâmpago.
O parto foi intenso. Quando o choro de Lilian ecoou, Esme chorou junto. Bella observava à distância, o peito apertado. Era ali que eu deveria estar, pensou.
— Ser mulher não é fácil — Jasper comentou, tentando aliviar o clima.
Bella respondeu, sem olhar para Edward:
— Nem sempre é escolha.
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Dias depois, no palácio, Bella conversava com a rainha sobre constelações quando o enjoo veio com força. O cheiro do chá virou seu estômago.
— Isabella — Charlotte observou atentamente —, você está grávida?
— Não — Bella respondeu rápido demais. — Não há essa possibilidade.
A rainha não insistiu. Mas não acreditou.
E enquanto Alec vagava pelos parques à procura da dama de prata, Edward sentia o cerco se fechar. A verdade não pediria licença por muito mais tempo.
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