The Cullen's
27 Capítulo 27
Bella acordou antes do amanhecer, o quarto ainda mergulhado em sombras suaves, e levou a mão ao ventre quase sem perceber. O gesto já lhe era natural, instintivo, como se seu corpo soubesse antes da mente que ali havia algo precioso demais para ser deixado ao acaso. O medo vinha em ondas silenciosas: medo de perder aquele bebê, medo de não ser suficiente, medo do peso invisível que agora carregava — não apenas uma vida, mas o herdeiro do título de Lord Cullen. Às vezes, o ar lhe parecia rarefeito, como se a responsabilidade lhe apertasse o peito, e Bella se perguntava se todas as mulheres antes dela haviam sentido o mesmo ao gerar um nome que não lhes pertencia inteiramente.
Foi Esme quem a encontrou sentada na poltrona, envolta em um xale fino, os olhos perdidos na janela.
— Você não dormiu — constatou com suavidade, fechando a porta atrás de si.
Bella respirou fundo antes de responder.
— Tenho medo, Esme… — confessou, a voz baixa. — Não apenas de perder o bebê. Mas de tudo que ele representa. Às vezes sinto que não estou gerando uma criança… estou gerando uma obrigação.
Esme sentou-se à sua frente, segurando-lhe as mãos com firmeza maternal.
— Quando Carlisle abriu mão do título — começou, depois de um silêncio carregado — o mundo não foi gentil conosco. Meu sogro… — ela suspirou — meu sogro nunca o perdoou completamente. Havia uma expectativa cruel de que eu lhe desse um filho homem que compensasse essa decisão. Cada gravidez era uma cobrança. Cada silêncio, um julgamento.
Bella engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras.
— Carlisle sempre se culpou — Esme continuou, os olhos marejados — por ter colocado tanto sobre os ombros de Edward. Enquanto Emmett e Alice corriam pelos jardins, Edward acompanhava o avô em reuniões, aprendia sobre contratos, terras, títulos. Os poucos momentos em que ele era apenas um menino… eram com Stefan. E com Dimitri.
— Ele nunca fala disso — Bella murmurou.
— Porque aprendeu cedo demais que sentir era um luxo — Esme respondeu, apertando-lhe as mãos. — Mas você… você o fez reaprender.
Bella deixou uma lágrima escapar.
— E se eu falhar com ele? Com o bebê?
— Você já não falhou — Esme disse com doçura firme. — Está aqui. Lutando. Isso é mais do que muitas conseguiram.
Edward entrou no quarto em silêncio, trazendo consigo não apenas o perfume leve das flores que segurava, mas uma hesitação visível nos ombros, como se cada passo fosse medido para não quebrar algo frágil demais. Bella estava sentada à penteadeira, os cabelos soltos caindo pelas costas, os dedos distraídos sobre a madeira polida. Quando ela ergueu o olhar e o viu refletido no espelho, o coração apertou — ainda doía, mas doía diferente agora.
— Eu não vim discutir — Edward disse primeiro, a voz baixa, quase cuidadosa demais para alguém que sempre fora tão seguro de si. — Vim… ficar.
Bella se levantou devagar. O silêncio entre eles não era vazio; era carregado de tudo o que ainda precisava ser dito.
— Você ficou muitas vezes — ela respondeu. — Mesmo quando eu pedia distância.
— Eu sei — ele assentiu. — E talvez eu devesse ter ido embora mais vezes. Mas não hoje.
Edward estendeu as flores, e ela aceitou sem pensar. O gesto simples fez seus olhos arderem.
— Não são um pedido de desculpas — ele continuou. — São um pedido de recomeço. Um de verdade. Sem mentiras, sem orgulho… sem fantasmas entre nós.
Bella respirou fundo, sentindo o nó na garganta.
— Eu tive tanto medo — confessou. — Medo de te perdoar e perder tudo de novo. Medo de amar você sabendo que posso perder esse bebê… sabendo que posso perder você.
Edward deu um passo à frente, com cuidado por causa da perna ainda sensível, e tocou o rosto dela com delicadeza.
— Bella… eu já perdi você uma vez. Não sobreviveria a perder de novo por escolha própria.
Ela fechou os olhos quando sentiu o toque, e quando os abriu, havia algo diferente ali: menos defesa, mais verdade.
— Eu não sei se consigo esquecer — ela murmurou.
— Eu não quero que esqueça — Edward respondeu. — Quero que lembre… e ainda assim escolha ficar.
Foi Bella quem diminuiu a distância entre eles. O beijo veio lento, contido no início, como se ambos testassem o chão antes de pisar. Mas bastou um segundo a mais, um suspiro compartilhado, para que tudo o que estava reprimido viesse à tona. O beijo se aprofundou, quente, cheio de emoção e promessas não ditas. Edward a envolveu com cuidado, como se ela fosse algo precioso demais para ser tocado sem reverência.
Quando se separaram, as testas ainda encostadas, Bella sussurrou:
— Vamos tentar. De verdade. Não pelo nome… não pelo título… por nós.
— Por nós — ele confirmou, com um sorriso emocionado. — E por essa pequena vida que está chegando.
Ela pousou a mão sobre o ventre, e Edward cobriu a dela com a sua, naquele gesto simples que parecia selar algo novo entre eles.
-
Dias depois, Bella recebeu Bree Turner para um chá na mansão Cullen. A jovem chegou tímida, os passos cautelosos ecoando pelos corredores amplos, os olhos curiosos percorrendo cada detalhe — os vitrais, os quadros antigos, o perfume suave de flores frescas espalhado pelo ar.
— Eu achei que ficaria intimidada — Bree confessou, sentando-se com cuidado. — Mas… me sinto estranhamente acolhida aqui.
Bella sorriu, servindo o chá.
— Esta casa já foi um labirinto para mim — disse. — Hoje, tento torná-la um lugar de refúgio. Especialmente para quem ainda está descobrindo quem é.
Bree corou levemente.
— Alec… ele me olha como se eu fosse algo raro. Como se o mundo inteiro ficasse em silêncio quando estamos conversando.
Bella observou aquela jovem cheia de esperança e sentiu um aperto agridoce no peito. Viu ali o reflexo de si mesma, antes das dores, antes das perdas.
— Cuide desse olhar — aconselhou com suavidade. — Nem todos sabem sustentar sentimentos verdadeiros.
As duas conversaram longamente, sobre livros, bailes, expectativas, e também sobre medos. Bree falou de sua ansiedade diante da temporada, do peso de ser observada, julgada.
— Às vezes acho que a sociedade não quer nos ver felizes — Bree disse.
Bella sorriu de lado.
— Ela não quer. Mas isso nunca nos impediu.
Alec encontrou o pai no salão menor da mansão Swan, aquele reservado às conversas que não comportavam testemunhas. Charles estava de pé, observando a chuva fina pela janela, as mãos cruzadas atrás do corpo numa postura que Alec conhecia bem: autoridade contida, paciência estratégica.
— O senhor pediu para falar comigo — Alec disse, fechando a porta atrás de si.
Charles virou-se devagar, avaliando o filho com um olhar que misturava orgulho e preocupação.
— Pedi — confirmou. — Porque ouvi rumores. E aprendi, ao longo da vida, que rumores ignorados criam tragédias.
Alec respirou fundo. Não havia ensaio possível para aquilo.
— Quero pedir Bree Turner em casamento.
O silêncio que se seguiu foi espesso. Charles não reagiu de imediato, apenas caminhou até a mesa e apoiou as mãos no tampo escuro, como se precisasse de algo sólido sob os dedos.
— Você a ama? — perguntou por fim.
— Amo — respondeu Alec sem hesitação. — Não como um capricho da temporada. Amo com intenção. Com responsabilidade.
Charles assentiu lentamente.
— Então sente-se — ordenou. — Porque amar, Alec, nunca foi o bastante nesta família.
Alec obedeceu, o corpo tenso.
— Você carrega o nome Swan — Charles continuou. — Um nome que pesa. Um nome que atrai expectativas, inveja e ataques. Ao escolher Bree, você a coloca no centro disso tudo. Está preparado para protegê-la quando o mundo decidir atacá-la?
— Estou — Alec respondeu, a voz firme. — Mesmo que isso signifique enfrentar nossa própria família.
Os olhos de Charles escureceram por um segundo.
— Isso não é uma promessa pequena.
— Nenhuma promessa que valha a pena é — Alec rebateu.
Charles suspirou, como se aquele diálogo o levasse de volta a decisões antigas, feridas mal cicatrizadas.
— Muito bem — disse. — Irei com você à mansão Turner. Faremos o pedido da forma correta. Mas saiba: se eles disserem não, não será por falta de sentimento. Será por medo.
Alec assentiu, sentindo o peso daquela verdade.
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O panfleto chegou antes que o pedido pudesse ser feito.
Foi entregue como todos os outros: papel barato, tinta afiada, palavras escolhidas para ferir. Mas desta vez, havia algo diferente — uma crueldade calculada, quase pessoal.
Lady Whistledown falava de Bella e Edward com falsa simpatia, apenas para em seguida escancarar segredos, distorcer alianças, insinuar que a nobreza Swan estava ruindo por dentro. Tânia surgia nas entrelinhas como vítima injustiçada, enquanto os Cullen eram pintados como cúmplices silenciosos.
— Isso é guerra — Edward disse, amassando o papel entre os dedos.
— E não fui eu — Alice afirmou, encarando todos um a um. — Alguém está usando meu nome para destruir reputações.
Carlisle fechou os olhos por um instante.
— Então alguém conhece Lady Whistledown bem demais.
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Mesmo assim, Charles decidiu seguir adiante.
A visita à mansão Turner aconteceu sob um céu cinzento, como se até o clima soubesse que aquele dia não terminaria bem. Alec manteve a postura ereta, o coração acelerado, enquanto Bree os aguardava na sala de visitas, os olhos cheios de esperança e medo.
Lord Turner não prolongou a conversa.
— Senhor Swan — disse friamente —, em outras circunstâncias, eu teria orgulho em aceitar esse pedido. Mas não posso.
Bree levou a mão ao peito.
— Papai… — tentou intervir.
— Não — ele a interrompeu. — Enquanto o nome Swan estiver ligado a escândalos, minha filha não será exposta ao julgamento público.
Alec levantou-se de imediato.
— O que foi escrito não define quem somos — afirmou, com firmeza. — E muito menos quem Bree é para mim.
— A sociedade não se importa com verdades — Lord Turner retrucou. — Apenas com versões convenientes.
Charles permaneceu em silêncio até então, mas quando falou, sua voz cortou o ar.
— Está cometendo um erro. — Ele encarou Lord Turner sem piscar. — Proteger sua filha afastando-a de quem a ama não é proteção. É controle.
Lord Turner endureceu.
— A conversa acabou.
Bree chorava agora, contida pela mãe. Alec aproximou-se dela, segurou suas mãos com cuidado.
— Isso não termina aqui — prometeu em voz baixa. — Eu não vou desistir de você.
Ela assentiu entre lágrimas.
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Ao deixarem a mansão Turner, Charles colocou a mão no ombro do filho.
— Agora você entende — disse. — O verdadeiro custo de amar em voz alta.
Alec apertou os punhos.
— Entendo. — Ele ergueu o olhar, decidido. — E não vou recuar.
Em algum lugar da cidade, novos panfletos já estavam sendo impressos.
E quem quer que estivesse por trás da falsa Lady Whistledown havia conseguido exatamente o que queria: dividir famílias, atrasar casamentos, plantar medo.
Mas também havia despertado algo perigoso.
A determinação de quem não tem mais nada a perder.
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