The Cullen's
23 Capítulo 23
Alguns dias haviam se passado desde o nascimento da pequena Lilian, e a mansão Cullen parecia viver em um estado suspenso, como se o tempo tivesse decidido caminhar mais devagar. O ar estava sempre carregado de ternura — o tipo de ternura que se manifesta nos gestos pequenos: passos silenciosos pelos corredores, portas fechadas com cuidado excessivo, vozes baixas mesmo quando não havia motivo para sussurrar. A chegada de uma criança mudava tudo. Mudava até o modo como a dor se escondia.
No quarto banhado pela luz morna da tarde, Bella estava sentada próxima à janela, Lilian acomodada em seus braços com uma naturalidade quase instintiva. O corpo pequeno da bebê se encaixava nela como se sempre tivesse pertencido ali. Alice circulava pelo quarto, organizando fraldas, cobertores e pequenas roupas dobradas com zelo, o rosto iluminado por um sorriso constante.
— Às vezes eu me pego pensando nisso antes de dormir — comentou Alice, parando diante do espelho. — No dia em que vou finalmente segurar meu bebê. Imagino o peso nos braços, o cheiro… — levou a mão ao ventre arredondado. — Não vejo a hora.
Bella sorriu de leve, mas o sorriso não chegou aos olhos.
Ela observava Lilian dormir, os cílios minúsculos projetando sombras suaves sobre o rosto delicado. Aquele silêncio, aquele calor, despertavam nela pensamentos que não pediam permissão para existir. Em sua mente, a imagem se transformava sem aviso — três crianças correndo pelo jardim, risadas misturadas ao vento, uma voz masculina chamando por elas ao longe.
Se Deus tivesse permitido…
Se aquele bebê tivesse ficado…
A conta era cruel demais para terminar.
— Bella? — Alice chamou, notando o olhar distante. — Você se perdeu de novo.
Ela piscou, respirando fundo, como se precisasse voltar de muito longe.
— Desculpa… — murmurou. — Às vezes minha cabeça vai para lugares que não deveria.
Alice se aproximou, sentando-se à frente dela, os olhos atentos demais para ignorar.
— Desde aquela noite… você mudou.
O corpo de Bella ficou rígido, quase imperceptivelmente.
— Aquilo não deveria ter acontecido — respondeu, a voz firme demais para alguém que dizia a verdade sem dor. — Foi um erro. Um erro que só deixou tudo mais confuso. Desde então… — ela hesitou. — Desde então, eu evito o Edward o máximo que posso.
Alice inclinou a cabeça.
— Vocês brigaram feio.
— Brigamos — Bella admitiu. — Gritamos coisas que não podem ser retiradas depois. E depois… — fechou os olhos por um instante. — Depois aconteceu algo que só piorou tudo. Não significou amor. Não significou reconciliação. Só fraqueza.
Alice ficou em silêncio por alguns segundos antes de perguntar, com cuidado:
— E a Tânia?
Bella ergueu o olhar, sério, cansado.
— Essa gravidez… não me convence. Não sei se esse filho é do Edward ou do Dimitri.
Alice levou a mão à boca, chocada.
— Bella…
— Se for do Edward, meu irmão vai ser destruído quando a verdade vier à tona — completou ela. — Dimitri está feliz. Radiante. Acredita que esse bebê é a realização de tudo o que ele sempre quis. Tirar isso dele… — a voz falhou. — Seria cruel demais.
Alice segurou sua mão com força.
— E você? Quem cuida de você nisso tudo?
Bella não respondeu.
-
No fim da tarde, a família inteira se reuniu na sala principal. Carlisle falava com entusiasmo contido, Esme observava tudo com o olhar emocionado de quem coleciona momentos, Emmett não desgrudava da filha, exibindo Lilian como se fosse a maior conquista da humanidade. O ambiente estava leve, quase perigosamente feliz.
Bella sentou-se em uma das poltronas, sentindo um desconforto estranho se instalar aos poucos. Não era dor. Era algo difuso, um peso que parecia vir de dentro, como se seu corpo estivesse tentando lhe dizer algo que sua mente ainda não compreendia.
Ela tentou ignorar.
Até que o som rompeu a conversa como um estalo.
— JASPER!
Alice empalideceu, levando as mãos ao vestido.
— Minha bolsa… — sua voz tremeu. — Estourou.
O mundo virou de cabeça para baixo em segundos.
Horas depois, entre gritos, lágrimas e mãos apertadas, nasceram dois bebês.
Jacob e Jane.
Bella assistiu tudo com o coração apertado — alegria genuína misturada a uma dor silenciosa que ela conhecia bem demais.
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Alguns dias depois, numa tarde tranquila, Bella cuidava dos três sobrinhos com a ajuda das criadas. Lilian dormia profundamente, enquanto Jacob e Jane alternavam-se em seus braços. Ela cantava baixinho, sorria, falava com eles como se fossem capazes de entender cada palavra.
Edward observava a cena encostado no batente da porta.
O nó em seu peito apertou.
— Você leva jeito com crianças — disse, finalmente.
Bella se virou devagar. O sorriso desapareceu no mesmo instante.
— Não serei mãe.
Edward soltou uma gargalhada curta, quase nervosa.
— Não diga isso como se fosse uma sentença.
Ela respirou fundo, o olhar endurecendo.
— Nós já fomos — disse, sem rodeios. — E perdemos.
O silêncio caiu pesado entre eles.
— Se Deus tivesse permitido… — a voz dela baixou. — Nosso bebê estaria quase para nascer agora. Ou talvez… — olhou para os berços. — Talvez estivesse aqui, com os primos.
Edward engoliu em seco.
— Eu penso nisso todos os dias — confessou. — Todos.
Bella o encarou, os olhos marejados, mas firmes.
— Foi melhor assim — disse, com uma honestidade cruel. — A dor que eu estou vivendo agora seria insuportável se eu tivesse um bebê a caminho. Se eu tivesse que sorrir… fingir… enquanto tudo desmorona.
Ele não respondeu.
Edward então tirou do bolso uma pequena caixa.
— Eu comprei de volta — disse, abrindo-a. — A pulseira.
Bella sentiu o rosto queimar.
— Então você sabe.
— Eu sei que você está se preparando para ir embora — respondeu. — Vendendo tudo. Guardando dinheiro. — Deu um passo à frente. — Por causa do desquite.
— Não se meta — ela cortou.
— Bella, isso tudo é uma armação — insistiu. — A Tânia mentiu. Eu sei disso.
— Mentira — ela rebateu, a voz trêmula. — Tudo o que sai da sua boca é mentira.
Edward respirou fundo.
— Então me deixe tentar de novo.
Ela riu sem humor.
— Você não tem esse direito.
— Me deixe te conquistar outra vez — ele pediu. — Se, ao fim da temporada… quando Alec estiver casado… você ainda não conseguir me perdoar, eu te darei o desquite. Com tudo o que você precisa para viver bem. Dignamente.
Ela o encarou por longos segundos.
— Eu não prometo perdão — disse, por fim. — Nem amor.
Edward assentiu.
— Eu só peço que não me trate como um estranho.
Bella voltou-se para os berços, pegando Jane no colo.
Edward saiu em silêncio.
E sozinha, com as crianças, Bella sentiu novamente aquela sensação estranha crescer dentro dela — mais intensa agora.
Como se seu corpo guardasse um segredo que ela ainda não estava pronta para ouvir.
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