The Crooked Man
3 Capítulo 3 - Nosso cantinho especial!
Notas iniciais
Reino Unido — Inglaterra/1842
Coloquei minha mala cuidadosamente no chão úmido. Me aproximei lentamente da porta com madeira velha e descascada. Olhei para cima, para ter uma visão mais ampla de onde estava. Um sentimento de repugnância se apoderou de mim e tive um pensamento. "Foi isso o melhor que pude arrumar?" Entendo que as casas na cidade já foram todas compradas ou alugadas, mas por que essa infelicidade teve de acontecer justamente a mim eu não sei.
Talvez fosse a vida querendo me dar uma lição.
Até minha única amiga naquele momento, a lua, parecia estar querendo rir de mim. De minha desgraça. Levei minha mão até a maçaneta enferrujada e com alguma gravuras antigas. A girei cuidadosamente e a porta abriu num rangido agudo e lento. A primeira coisa que senti foi o a diferença do ar. Lá dentro era abafado e quente. A segunda coisa foi o cheiro que se impregnou em minhas narinas. A coisa mais parecida que já tive a audácia de cheirar antes foi misturas estranhas com vinagre que minha mãe fazia com as flores que recolhia.
Peguei minha mala e adentrei na escuridão. Eu de nada via. Tateei as paredes geladas, procurando saber onde me encontrava. Por sorte, ou azar, mais um raio surgiu no céu e clareou momentaneamente as coisas. Além de uma mesa e cadeiras caídas, consegui ver um lampião. Desloquei-me até lá e peguei um isqueiro no bolso de meu casaco. Abri o objeto e acendi com as chamas.
Guardei o isqueiro e tirei meu chapéu. Levantei o braço, com o lampião em mão para iluminar o caminho. Voltei, fechei a porta rapidamente e comecei a andar pelo local. Eu estava num cômodo que aparentemente era a cozinha. As janelas rachadas já eram normais para mim. Andei rumo à uma porta que havia na esquerda. Passei por prateleiras com livros velhos e candelabros pela metade.
Abri a porta com um olhar de esguelha para trás e entrei.
Era um pequeno corredor. Do meu lado direito, uma porta. Do lado esquerdo, uma escada para o andar de cima e ao seu lado outra porta. Percebi que nas paredes também tinham quadros, mas nada que fosse muito relevante. Geralmente eram de paisagens aleatórias. Decidi entrar nas portas antes de ir para o andar de cima, começando pela da direita que estava mais perto.
Abri. Nesse cômodo na havia, além de muitos papéis espalhados pelo chão e objetos sem importância. Mas o que me deixou feliz, mesmo que pouco, foi a lareira em uma das paredes. Corri até ela e, com o isqueiro já em uma mão, a acendi. A luz das chamas não era forte, entretanto, melhor que a do lampião que carregava. Ao olhar para cima da lareira, percebi alguns desenhos talhados. Eram apenas traços, mas, pelas fisionomias, supus ser um homem, um gato e um rato.
Não dei mais atenção a isso e levantei ainda mais o olhar. Outro quadro, porém, agora eu conhecia o lugar. Era o lago aqui do lado. Mas... a árvore não estava lá. Por quê? Talvez tivesse sido pintado antes de sua plantação. Era a explicação mais provável. Não acho que alguém simplesmente a ignoraria e somente pintaria a água.
Depois de observar por alguns instantes, me abaixei e peguei um dos papéis. Aproximei o lampião da folha, no entanto, nada distingui daquilo. A letra era muito antiga e estava muito manchada. Deixei a lareira acesa e voltei. Dessa vez abri a porta da esquerda. Um banheiro. Minúsculo, mas não deixava de ser um banheiro. O vaso ficava de frente para a pequena pia, que logo acima continha um espelho rachado mas de reflexo visível. Deixei o lampião na pia e urinei. Consegui relaxar um pouco mais depois disso. Como tive coragem de entrar nesses lugares eu não sei.
Só sei que minha determinação não está mais tão alta. Acho que até o velho celeiro do senhor Willard era mais higiênico. Lavei as mãos na pequena pia e dei descarga. Quando eu ia pegar o lampião e sair, ouço algo quebrando. Pelo som, distingui ser vidro, mas eu não sabia o que era, e nem estava com vontade de saber. Estava com tanto medo que cogitei a hipótese de apagar o lampião e fingir que nunca estive ali.
Aí me lembrei da lareira, do chapéu e da mala. "Droga, droga, droga." Foi o que eu resmungava. Se tinha alguém ali, iria perceber que não era o único. Esperei cinco minutos e reuni coragem para espiar. Abri a porta lentamente, sem ranger. As duas portas por qual já fui estavam fechadas, então era provável que fosse apenas o vento pregando uma peça em mim. "Mas e o andar de cima?" Claro, que minha consciência precisava me assustar ainda mais, ou então prevenir.
Naquele instante, pensei nela.
– Me diz, você tem medo de alguma coisa?
– Não sei te responder...
– Por que diz isso?
– Porque eu nunca fiz ou vi algo que realmente me assustasse.
Nós dois estávamos olhando as estrelas naquela noite. Conversávamos e ficávamos em silêncio logo após. Era relaxante.
– Sabe... acho que todos temos medo de alguma coisa. Só não queremos admitir para as pessoas que gostamos.
– E qual é o seu medo?
Ela riu. Não posso esquecer daquele sorriso.
– Parece que você não ouviu o que eu acabei de dizer.
Voltei a realidade e sorri. Peguei o lampião e subi as escadas. Sempre me apoiando no corrimão de madeira escura. Mais quadros enfeitavam as paredes. Quando cheguei no final, só havia mais uma porta. Era a última naquela casa. Pelo menos, a última que eu tinha visto até então. Porém, essa era muito bonita. Não estava gasta como as outras. A madeira parecia ser nova e a maçaneta de material caro. Estranhei a porta e a abri.
Um quarto. Claro, por que não pensei nisso? Cozinha, banheiro, uma aparente sala vazia com lareira... faltava o quarto.
No entanto, de todas as coisas lá presentes, a primeira que me chamou a atenção foi o recado na parede. Que pensei ser em tinta vermelha. Como eu era inocente para pensar que aquilo era tinta. "ПӨƧƧӨ ᄃΛПƬIПΉӨ ΣƧPΣᄃIΛᄂ!" Aproximei o lampião de lá e examinei com mais atenção. "Nosso cantinho especial!".
Eu já ia me perguntar o que diabos significava aquilo quando outro som surgiu. Esse parecia abafado e constante. O pior é que parecia vir de baixo e não de fora. Tenho certeza que dessa vez, não era uma pegadinha do vento. Nem que antes fosse.
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