The Crooked Man
1 Capítulo 1 - A casa, o lago e a árvore.
Notas iniciais
Reino Unido — Inglaterra/1842.
A neblina densa já se tornara parte das cidades faz um bom tempo. As pessoas acordavam indispostas e desanimadas, apenas por saberem que teriam de enfrentar o frio e a solidão das ruas. Era normal chover de vez em quando, dava um ar de dependência com as casas das quais cobriam suas cabeças.
Só havia uma exceção. A estranha casa perto da zona rural. Não se sabe a quanto tempo ela está lá, nem quem eram seus donos antes de ser abandonada, se é que foi abandonada. Eu, na realidade, nunca liguei muito para isso, até que soube que iria começar a viver naquele lugar bizarro.
Isso é culpa do meu maldito hábito de independência. Desde pequeno quis morar sozinho, mesmo sem saber as consequências disso. Hoje olho para trás e penso "como eu era inocente". Não conhecia a palavra trabalhar nem mesmo sabia o que era cozinhar alguma coisa. Cresci no luxo dos meus pais e isso me fez ficar com um psicológico de "ter tudo na mão".
Se não fosse ela, isso nunca teria mudado. E agora, nesse tempo gelado, procuro pela minha sobrevivência pessoal. Meu pai era um nobre muito famoso aqui em Londres, comandava a hipoteca de muitas casas. Minha mãe era uma senhora bondosa que sempre se importou com nós dois. Quando meu pai morreu, de uma doença cardíaca, mamãe ficou depressiva e não demorou muito para que seguisse o mesmo destino.
As ações caíram. Sem os empreendimentos necessários tudo foi a falência. Fiquei sozinho neste imenso mundo.
Até que ela me encontrou. Ela cuidou de mim e me ensinou mais do que eu poderia imaginar sobre esse caos que chamamos de vida. Não demorou muito e, como qualquer humano, tive de me apaixonar. Meu sentimento não foi retribuído, pelo menos eu acho que não. Mas é melhor eu voltar ao assunto principal; essas memórias para mim são muito dolorosas.
Depois de trabalhar algum tempo como carregador de recursos para armazéns e celeiros, consegui uma quantia considerável de dinheiro. Primeiramente fui à procura de apartamentos baratos na parte urbana. O problema é que quando não estavam lotados, os riscos de roubo e assaltos eram muito altos. Posso não parecer, no entanto, sou uma pessoa racional e não gosto de correr riscos.
Certo dia, um antigo colega que me ajudava no carregamento me indicou aquele lugar tenebroso. Era Franklin, um ex-viajante de mãos fortes mas de corpo magro e um pouco peludo.
– O reino precisa de dinheiro para tratar os negócios com a Alemanha e a França! — apontou para o leste, onde as árvores já perdiam suas plantas fluidamente — Estão vendendo residências sem proprietários, talvez fique interessado em algo.
O agradeci pela informação e fui em busca do melhor que pude arranjar, pelo menos tentar eu tentaria. Procurei guardas e executivos do reino para tratar a respeito do assunto. Entretanto, mais uma vez a sorte não esteve ao meu lado.
– Está tudo ocupado — me dizia um alto guarda com uniforme azul e branco — estrangeiros de Portugal ocuparam todo o terreno com o dinheiro de suas terras.
Ventava muito e estava começando a garoar. Depois de receber essa notícia, fiquei desanimado e estava pronto para voltar a fazenda de meu patrão, onde dormia. Me despedi do guarda e me retirei de cabeça baixa, segurando meu chapéu com uma das mãos para que não voasse devido ao vento. Já estava quase fora da vista dos altos edifícios quando um velho veio quase ofegante em minha direção.
– Com licença, senhor — pude perceber de vista que ele era um mendigo. Roupas esfarrapadas, barba cumprida e rosto ossudo — não pude deixar de ouvir a conversa que estava tendo com o soldadinho.E se eu disser que existe um imóvel a ser comprado?
Fiquei espantado diante daquela notícia.
– Impossível! — exclamei convicto — todos a quem procurei me deram a informação contrária.
O velho sorriu. Um sorriso banguela e feio. A neblina e o céu branco quase imperceptível só serviam para ressaltar esta imagem perturbadora.
– Na verdade as pessoas não gostam muito de falar sobre esse lugar, dizem que é amaldiçoado, mas claro que o senhor não acreditaria nessas baboseiras, não é?
– Claro que não, só um idiota acreditaria em histórias para assustar.
– Ótimo! Pois a casa a qual me refiro é a casa perto do lago estranho...
Gelei. Não porque estava frio, mas de medo. Desde criança ouço histórias sobre esse lugar. Casualmente eu ouvia meu pais e seus amigos ricos comentando sobre isso no bar. Uma casa pequena, de cor castanha e gasta. As janelas nada refletem pois lá dentro tudo é escuro. Quem passa por perto nem se da ao trabalho de olhar para não ter que sonhar com isso de noite.
Eu só a vi uma ou duas vezes, quando acompanhava minha mãe na colheita de primavera. A casa fica perto da zona rural, então não é muito vista. O pior é o lago próximo a ela. "O lago estranho." É chamado assim pois apesar de ser grande é raso e, bem no canto, se encontra uma árvore torta, como se estivesse caindo, todavia, nunca muda de posição.
– O senhor está me ouvindo? — Questionou o mendigo me olhando curioso.
– Oh! Sim, sim — parecia que eu havia despertado de um transe — me desculpe, somente me distraí um pouco.
O velho deu um sinal de desdém com as mãos e voltou a sorrir feiamente.
– Então vai compra-la?
Ponderei por um instante. Não era hora de ter medo e voltar a ser como uma criança. Não era eu quem queria ser independente? Pois bem.
– Sim, irei! Muito obrigado pela informação.
Eu já ia me retirando quando sinto uma mão em meu ombro. Me viro e o vejo com a cara carrancuda.
– Bem... eu pensei que com isso eu poderia receber algo em troca... não acha?
Entendi o que ele quis dizer e lhe paguei o suficiente para pães em uma semana. No meu ver, era mais que o suficiente.
– Que Deus lhe acompanhe, meu rapaz!
Me virei e disse um "amém" silencioso, porque para onde eu ia toda ajuda seria bem vinda.
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