The Confidant
1 Charles Francis Xavier
Notas iniciais
Seu dia não havia começado bem.
Ele estava atrasado, então não tinha tempo para olhar aonde estava indo. Driblando as pessoas na rua parecia muito mais fácil na sua cabeça. Na vida real, cada empurrãozinho para tirar alguém do meio lhe valia um olhar aborrecido ou até mesmo um palavrão. Mesmo assim, ele era um homem em uma missão. Estava com a pasta amarela firmemente em seu braço esquerdo, um enorme casaco escuro — porque Londres naqueles dias estava simplesmente impossível — e um guarda chuva sobre a sua cabeça.
Embora o clima fosse a ultima coisa em sua cabeça.
Charles estava preocupado. Nunca foi um homem de acordar atrasado — era perfeccionista demais para isso. Então por que diabos, justamente no dia que não poderia se atrasar, acordara em cima da hora?
Ah, sim, por que sua querida irmã resolvera dar uma festa na ultima noite.
E o pior: para ele.
Sentiu a vergonha passar por ele quando se lembrava. Havia bebido bastante — quão ruim era a ideia de competir quem estava mais bêbado? Péssima — e feito muito coisa dos quais ele se arrependia naquele momento, enquanto esperava o sinal fechar. Quando se lembrava que havia usado a língua para pegar o licor que pingava ao lado dos lábios de Margaret...
Oh, Deus. Alguém me mate.
A coisa era, ficara acordado até tarde. Jogado em cima do balcão de sua cozinha — sua tão arrumada cozinha! — com duas calcinhas que ele até agora não sabia de onde haviam surgido na cabeça. E uma ressaca. E um lembrete de que tinha seu primeiro paciente ao amanhecer. E que se não comparecesse, mancharia seu currículo para sempre. Ele mal havia se formado!
Então pulou entre os corpos jogados no chão — e estremeceu quando viu a bagunça que sua linda, arrumada e cheirosa casa se encontrava — se enfiou embaixo de um chuveiro e prometeu nunca mais ir em uma festa feita por sua irmã.
E pensar que a festa era para comemorar seu primeiro paciente depois de formado... Se ele se atrasasse, não teria pacientes nunca e ele morreria de vergonha!
Andou a passos largos, ainda se esquivando das pessoas, o objetivo de ser mais rápido que o tempo em seu relógio marcava. Engoliu em seco quando uma senhora lhe lançou um mal olhado depois de ser levemente empurrada por ele.
Como se ele tivesse culpa!
— Desculpe — murmurou e saiu apressado.
Se ele tivesse tido tempo de pegar um pouco de chá, tomar uns comprimidos contra ressaca — oh meu Deus, o que sua mãe pensaria disso — e organizado seu cabelo cacheado...
A vida não era justa.
Encontrar o endereço não foi difícil. O escritório se encontrava em um prédio imponente, elegante e chamativo. Era um dos endereços mais caros daquela parte de Londres. Charles nunca duvidou que Sr.Shaw fosse consideravelmente rico, mas aquilo? Charles sentiu sua mandíbula cair quando entrou e viu o interior. A cor predominante era dourado, cadeiras douradas, sofá dourado, até a pequena cafeteira brilhava como se fosse de ouro — se duvidar, pensou, com certeza é — tudo localizado em um grande saguão, de piso escuro e liso, como mármore.
Charles caminhou em direção ao balcão com duas atendentes de coque duvidoso. Parou abruptamente em frente a elas.
Elas o encararam.
Charles encarou de volta.
Percebendo que estava fazendo papel de idiota, Charles corou fortemente. Nervosamente, procurou um pequeno papel que estava no bolso do casaco e — ele não poderia ter esquecido — respirando fundo, entregou a elas.
— Eu...hum, sou estagiário do Sr.Shaw, Sebastian Shaw...do grupo Beta do...Sim, hã...Charles Xavier, isso, Charles Xavier, psicólogo, você sabe, meu primeiro dia e...esquece. — e lhes lançou seu melhor sorriso.
Que nenhuma delas devolveu.
Idiota. Como se seu dia já não estivesse indo muito bem.
Isso, Charles, disse uma pequena voz em sua cabeça que soava estranhamente como sua mãe, faça o papel de bobo no seu primeiro dia de trabalho.
Charles queria se estapear.
Uma olhou para o papel amassado em dúvida e olhou para sua cara. Do papel para ele. Dele para o papel.
Ele se sentia soar. Tava calor, certo?
— Sr.Shaw não tolera atrasos — disse por fim, como se dissesse para uma criança que o Papai Noel não existisse e esperava um escândalo por causa disso.
Sim, certo.
— Eu sei — respondeu — Faltam exatamente — olhou para o relógio de relance — cinco minutos. Posso subir? Tenho certeza de que as senhoritas tem mais o que fazer do que se preocupar com um pequeno estagiário como eu.
A moça corou até os fios do cabelo e lhe lançou um pequeno sorriso.
Charles Xavier não era bobo. Ele poderia ser ingênuo — até mesmo inocente — mas ele era filho de sua mãe e possuía uma inteligência quase que fora do normal. Ele sabia manipular, gabaritar uma prova de alta dificuldade, ser gentil e atencioso, formular teses fora de seu assunto e tudo isso sem sequer soar. Por ser o primeiro de sua classe, Sr. Shaw viu nele um progresso e por mais que todos lamentassem ele ter largado a medicina cirurgiã, nunca tivera uma oportunidade maior do que essa, trabalhar para o maior escritório de psicologia e análise de Londre. Embora ele tivesse dinheiro o suficiente para compra-la.
Mas ninguém precisava saber disso.
— Sim, Xavier, pode subir. Ainda há tempo.
Ainda nervoso, alisou as mãos suadas no casaco e sorriu agradecido. Foi em direção ao elevador e suspirou. Sim, ele havia chegado a tempo. Não, ele não teria uma mancha no currículo. Sim, ele ainda mataria sua irmã por faze-lo trabalhar com ressaca.
Quando o elevador apitou, saiu de seus pensamentos e olhou surpreso ao seu redor. Aquele andar parecia ainda mais ornamentado que o saguão, mas era de todo branco e preto, com cores sóbrias e tapetes finíssimos.
Charles momentaneamente temeu que, se pisasse, teria que limpar as manchas deixadas para trás naquele piso branco.
— Charles ! — gritou uma voz e ele se virou para ver quem era e revirou os olhos para a loira deslumbrante que caminhava o mais rápido que podia em saltos enormes na sua direção.
Mesmo se preparando para o golpe, ainda cambaleou com a força do abraço de sua melhor amiga. A mulher tinha algo para abraços e Charles era "seu urso de olhos azuis favoritos". Depois de sete anos de amizade, ele estava acostumado com as manias de Emma Frost.
— Como você pode estar aqui linda e maravilhosa depois de ontem a noite — sibilou para ela, azedo.— Eu acordei um trapo de lixo.
A risada dela era como rios brilhantes enquanto ela o arrastava para algum corredor — Querido, eu saí antes que mais algum estrago pudesse ser feito. Eu não acredito que aceitou aquela bebida duvidosa de Raven, você deveria ter aprendido!
A única vez que fora detido foi quando bebeu uma substância duvidosa — ou o inibidor de vergonha, como ele e Emma chamavam — de Raven e atacou uma pequena loja de doces na faculdade que se recusava a vender ursinhos de goma para ele. Ou qualquer outro aluno. Qual o sentido de ter ursinhos de goma e não vende-los? Charles entrou lá, pegou os ursinhos, jogou para qualquer pessoa que passava por ele, inclusive o dono e foi preso.
Parabéns Charles, ele queria se bater nas costas quando fora jogado na traseira do carro de polícia, você é um ótimo exemplo.
Charles revirou os olhos enquanto Emma tirava seu casaco e o pendurava — Desde quando eu posso dizer não a Raven? Eu ainda não acredito que me deixou lá sozinho. Você sabe o quanto eu bebi? Nem eu, perdi a conta.
Emma riu — Cale a boca. Pelo menos está aqui, a tempo e...er...em bom estado, eu diria.
Charles levantou as sobrancelhas.
— Ok, você está um bagaço. Sorte sua que Shaw não vai estar aqui hoje.
— Sério? — questionou surpreso — Que motivo não o deixaria receber os novatos?
— Não sei — deu de ombros — ele não é meu melhor amigo, que atualmente está um lixo. Vira, deixa eu ajeitar esse cabelo. Qualquer dia desses eu o corto enquanto você está dormindo.
— Você não ousaria — disse indignado, porque seu cabelo era seu xodó pessoal — e você está aqui há um mês, Emma. Você deve saber que isso é estranho, ele saindo assim.
— Na verdade, é. Mas não questionamos, porque como você mesmo disse, estou aqui há um mês. E tira a mão daí que eu estou arrumando.
Charles deixou a mão cair com um bufo irritado.
Mulheres.
Depois que seu cabelo estava devidamente arrumado, e tomado alguns comprimidos para ressaca, sob olhar alegre de Emma, Charles se moveu para sala onde os estagiários do programa Beta estavam. Não estava lotado, apenas pessoas selecionadas, quase todas com quem ele estudou na faculdade. Inclusive Moira McTaggert, a única mulher no mundo a não suportar a sua presença. Alias, McTaggert não suportava muita gente, sempre com o nariz empinado, respostas afiadas e olhos intensos. Desde a primeira vez que o viu, Moira o considerou competição — desde notas, até atenção do Sr.Shaw e outras pessoas renomadas — e sempre arrumava um jeito de despreza-lo.
Quando o viu entrar, lhe lançou um olhar azedo, mas permaneceu no lugar, perfeitamente aprumada para o seu primeiro dia. Charles deu de ombros porque, sinceramente, já havia cansado de tentar acabar com essa briguinha tosca, porque ele realmente não a odiava e admirava sua inteligência, como havia chegado a tal ponto, partindo de tão pouco.
É claro que o sentimento não era recíproco.
Então um homem de terno entrou na sala e todos — inclusive ele — sentaram-se mais reto, prestando o máximo de atenção.
— Bem Vindos — disse — Sr.Shaw, infelizmente não pode estar aqui para dizer, mas todos nós admiramos cada um de vocês. Não foi fácil chegar aqui. Nem um pouco. Todos enfrentaram desafios e devo alertar, virão muitos mais. Essa não é uma empresa comum. Vocês não são pessoas comuns. Vocês são inteligentes, pessoas que veem além do que o mundo quer que vejam e é disso que precisamos. Nossos pacientes precisam disso. Somos uma família agora. Esqueçam qualquer rixa que possam ter e se unam. Sebastian Shaw criou isso do nada. Do suor e da persistência. Sejamos gratos. Sejamos competentes. E se cada um de vocês for o que nos foi prometido, nossa relação durará. E enquanto ela dura, a empresa cresce. Se fortalece.
O homem do discurso era, obviamente, talentoso. Cada palavra era dita com emoção, com força e cada pessoa na sala estava presa a elas. E Charles se sentiu sorrir porque sim, ele estava no emprego dos sonhos. Ajudando pessoas.
O homem olhava para cada um, como se falando para eles, somente eles. E quando terminou, um coro de palmas o saudou e Charles percebeu que era um deles.
— Ok, agora o trabalho começa. Stone, paciente Ronnie, sala três. Felix, paciente Richard, sala sete. Call, paciente Jonh, sala nove. McTaggert, paciente Mary, sala quatro.
E cada um se levantava, pegava uma pequena pasta e saia, em busca de seus primeiros pacientes. Charles sentiu sua barriga tremer e não sabia se era de emoção ou falta de comida.
— Kings, paciente Derek, sala cinco. Xavier... — de repente o homem parou, olhou para a planilha mais atentamente e Charles prendeu a respiração — Xavier, paciente Lensherr, sala seis.
Aquilo havia sido estranho.
Levantou-se trêmulo e pegou sua pasta sob o olhar atento dos outros. Caminhou a passos firmes em direção a sala seis, sentindo-se mais nervoso que nunca.
Parou em frente a porta e respirou.
Ok, Charles Francis Chavier, você consegue.
Ele tinha um sentimento de que o que quer que estivesse por trás daquela porta, o mudaria para sempre.
Ele mal podia esperar.

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