The Clare
14 Vila dos Anões Surdos
Notas iniciais
Ouvi um barulho ensurdecedor. Acordei em choque olhando ao lado para entender a situação. Não havia nada, apenas Lucian batendo em uma panela ao lado de nossa cama. Olhei para baixo e vi Sieg ainda dormindo. Voltei meu olhar para Lucian, fulminando-o.
– O que pensa que está fazendo a esta hora da manhã? — Disse tentando me deitar novamente. — São 4h da manhã Lucian. Me deixe dormir!
–Luce, temos que sair cedo de casa se queremos chegar na ilha do dragão a tempo do eclipse. Acorde Sieg e tomem café. Vamos partir em meia hora.
Lucian saiu do quarto, mesmo eu estando um pouco fora de mim. Chacoalhei Sieg, mas o mesmo não emitiu nem um som. Era incrível, pois ele dormia como uma pedra.
–Vamos Sieg, Acorde! — Já estava começando a perder a paciência quando ele se mexeu e abriu os olhos. Expliquei a situação e levantamos em direção a cozinha.
Nós finalmente íamos começar nossa esperada aventura. Mas confesso estar nervosa com que iriamos encontrar pela frente. Um lugar chamado “Ilha dos Dragões” não parece muito seguro para mim...
Descemos e demos de cara com todos no sofá, conversando. Aparentemente só sobrava nos dois para comer. Nos sentamos enquanto eu servia uma boa dose de café quente.
– Bom, temos que fazer uma rota até lá. — Disse Nick, tirando um mapa do bolso. Ele sempre esteve com aquilo ali?
–Por que não viajamos com o Sr. dragão? — Disse Samantha, apontando para Sieg.
–Meu nome é Siegfreed! — Disse Sieg, mastigando um pão.
–Está bem, está bem. — Ela respondeu, balançando as mãos.
–Se formos montados nele a viagem inteira, irá consumir muito de sua magia, e ele vai se cansar. Pois como você já percebeu, somos 6, e ele é um só. — Respondeu Nick.
–Seis? Você contou certo Nickolaus? Há apenas cinco de nós aqui. — Peter disse, confuso.
– E a gata de Lucian? Não podemos deixar ela aqui. Não sabemos quanto tempo essa viagem irá durar, e ela pode morrer de fome, ou até frio.
–Finalmente alguém com um pouco de consciência falou algo decente. — Ouvimos sua fina voz no outro lado da sala, deitada em uma poltrona. — Obrigado por fingirem que não estão me vendo.
–Desculpe Moira, sabe que é mentira, não é? — Disse Lucian, chamando-a para seu colo. Era a primeira vez que eu o ouvia a chamando pelo nome.
–Humpf. — Ouvimos um barulhinho saindo de sua boca enquanto ela se aninhava no colo de Lucian.
–Vamos prosseguir. Vamos apenas viajar com o Sieg quando for realmente necessário. Mas por enquanto, seguiremos pela terra. — Nick continuou. — Iremos passar pela Vila dos Anões Surdos e pela cidade dos Devins. Levaremos cerca de 5 dias até a Ilha dos dragões, então vamos levar uma quantidade boa de suprimento até o próximo ponto. E Lembrem-se: O que vamos encontrar no caminho, pode ser fatal, então sempre mantenham-se alertas.
–Entedi! Então vamos indo? Antes que fique muito tarde- Disse Samantha, se levantando animada.
–Você não vai. — Ouvimos a voz de Nick soando firme. Todos nós o encaramos surpresos, até mesmo Sam.
–O que disse? Disse que eu não vou? — Ela repetiu.
–Sim. Estamos indo para um lugar muito perigoso, então quero que fique aqui. E também, nossas lojas precisam de alguém tomando conta delas. Tente entender, mas você fica Sam.
–Está falando sério Nickolaus Stanbern? Tudo isso pela loja? — Disse Sam, levantando sua voz.
–Pode dar o chilique que quiser, eu disse que você fica, e você vai ficar. Fim de conversa.
Nós não falamos nenhuma palavra até nos despedirmos de Sam. Ela realmente estava frustrada. Mas talvez Nick tivesse razão. Lá é perigoso até para mim, quanto mais a ela.
Começamos a andar em direção ao Leste, a caminho para a Vila dos anões surdos. Não perguntei o que iriamos encontrar lá, pois era um pouco óbvio. Mas estava me sentindo um pouco desconfortável enquanto andávamos. Afinal, eu era a única menina do grupo. Agradecia a cada momento em que Sieg estava comigo, apesar de que se algo acontecer, ele não poderia me defender tanto. Sem falar que eu tinha que ouvir cada palavra irritante de Moira.
Após uma longa caminhada e poucas paradas em pequenas vilas no caminho, conseguíamos ver o começo da Vila dos anões. Confesso que estava com uma incrível vontade de dar um pontapé em Moira, mas minhas pernas estavam doendo muito, então desisti da ideia.
Ao passarmos pela vila, vimos tudo muito estranho. Não por ser silencioso, mas sim pois não havia ninguém nas ruas e becos. Nem um animal, humano e muito menos anões. Nos encaramos e caminhamos com cuidado, com medo de ser uma emboscada.
Fomos em direção a uma pequena taberna. Era estranho imaginar anões surdos pedindo uma bebida, afinal, como eles iriam adivinhar o que o outro queria?
–Eles usam magia para se comunicarem- Disse Peter, um pouco à frente de mim, como se tivesse lido meus pensamentos. Ele se virou e sorriu, fazendo-me corar.
–Que tipo de magia? — tentei virar o rosto, me ocupando com a visão da poeira voando pelo chão.
– É uma muito utilizada por aqui, é como se eles escrevessem no ar, apenas com os dedos. Chamam isso de Runas Magicas.
Abrimos as portas da taberna e sentimos algo molhado aos nossos pés. Algo vermelho e espesso. Olhamos mais à frente e nos chocamos.
–Mas... o que aconteceu aqui...- Ouvi Sieg do meu lado, sussurrando.
Vimos alguns anões despedaçados, outros até mesmo sem as cabeças. Aquilo estava um verdadeiro mar de sangue. Virei a cabeça para segurar a tentativa de vômito. Quem poderia ter feito aquela carnificina? E porquê?
–Lucian, Peter, me ajudem aqui. — Disse Nick, atrás do balcão. Logo depois, eles saíram andando pelo mar de sangue com um barbudo anão. Parecia estar vivo, mas em um estado muito ruim. Fomos para fora da taberna, e nos sentamos na calçada.
–Alguém deve os ter atacado, mas como eles não ouvem, não conseguiram sentir a presença do inimigo. Esse daqui foi o único vivo que encontramos. — Nick olhou para o anão e depois para Lucian. — Tente se comunicar com ele Lucian. Use magia. Talvez ele entenda.
Lucian assentiu com a cabeça e começou a escrever algo no ar. Palavras foram surgindo e dançando pelo ar. Vimos o anão olhar para Lucian e logo depois para as palavras. Ele levantou a mão com um pouco de dificuldade e escreveu algumas coisas também. Pouco tempo depois, ele abaixou a mão e respirou fundo. Deve ter sido difícil ver todos que ele conhecia morrer de uma maneira terrível. Olhamos todos para Lucian, tentando entender o que ele disse.
–Bem. Perguntei a ele seu nome e o que havia acontecido. Ele me disse que foram atacados logo pela manhã, por enormes animais com chifres e presas. De cor amarela e com pessoas encapuzadas atrás deles. Tentaram soar o sino de alarme para as vilas próximas, mas a carnificina aconteceu antes deles poderem fazer algo. Ele diz que não sabe o motivo daquilo ter acontecido, já que os anões são seres pacíficos e que não saem com frequência de sua vila, por isso não tem inimigos. Ah, e seu nome é Jonnah.
– Pode ter sido caça tesouros, não acha? Soube que eles são bem violentos quando querem e quando não encontram o que querem. — Peter olhou para Nick, em dúvida.
– Não acho que tenha sido eles. Eles podem ser violentos mas não a esse ponto. E além do mais, Jonnah disse que eles eram encapuzados e com grandes animais de presas e chifres. – Nick disse em resposta.
– Um clã de magos negros? Digo, aquele chefe dos ladrões não disse algo parecido com isso? — Foi a vez de Sieg de falar. Olhamos todos para ele e logo depois olhamos de volta para Jonnah, que nos olhava com lagrimas nos olhos.
–Pode ser isso. Não somos os únicos nessa jornada, todos sabemos disso.
Ouvimos Jonnah tossir um pouco de sangue, e logo depois escrever mais uma coisa. Esperamos pacientemente por ele, pois sabíamos sua situação de dor. Confesso que estava sentindo uma dor só de olhar para seu pequeno corpo todo machucado.
– Isso... Por favor não! — Disse Lucian olhando para Jonnah mais uma vez. O vimos fechar os olhos, enquanto víamos lagrimas manchadas de vermelho saindo de seus olhos. Podíamos compreender o que havia acontecido.
– O que ele disse Lucian? — Perguntei confusa.
– Disse que haviam o envenenado antes de nós chegarmos, e que ele só estava como um peso. Não o deixaram vivo sem querer, e sim para nos atrasar e nos confundir. Podemos chamar isso de uma suposta armadilha.
–Pobre anão. — disse passando a mão por seu rosto e sujando meus dedos de sangue. – Sei que não temos tempo, mas podemos fazer um pequeno tumulo para ele? Não nos conhecíamos, mas ele viveu e viu todos a quem amava sendo mortos. Por favor Nickolaus. — Pedi, o encarando.
–Está bem.
Após aquilo, passamos alguns minutos cavando um pequeno buraco, e o enterramos enrolado em uma das poucas toalhas brancas que encontramos limpa. Jogamos um pouco de terra, e logo depois nos despedimos. Estávamos pensando em ficar lá por aquela noite, já que algo pode acontecer conosco enquanto andamos pelos caminhos de noite. Cada um foi para uma casa que se encontrasse sozinha. Peter ficou comigo e Sieg, caso algo acontecesse, enquanto Lucian, Moira e Nick ficaram em outra. Não trocamos muitas palavras enquanto comíamos, só o necessário para prosseguir a viagem. Fomos para nossos respectivos quartos e nos deitamos. Sieg adormeceu primeiro, enquanto eu não conseguia tirar a imagem da carnificina dos anões da minha mente. Me levantei e me sentei em frente à casa, tomando um pouco de ar. Tenho certeza de que senti uma lagrima descendo, esquentando meu rosto com uma dor de pena. Ouvi um barulho no piso e me virei bruscamente quando me dei de cara com Peter me olhando. Ele me deu um sorriso triste e se sentou ao meu lado.
–Aqui está você de novo. Sempre aparecendo quando eu preciso. — Disse abaixando a cabeça e sorrindo tristemente. — Não consegue dormir também?
–Sim... Achei que você estivesse aqui, e que quisesse alguém para lhe dar conforto. Cheguei na hora errada, eu suponho? — Disse, enquanto olhava para meu rosto, enquanto outra lagrima caia.
–Não, você chegou na hora certa...- Disse, enquanto encostava minha cabeça em seu ombro. Ficamos assim por alguns minutos antes de eu começar a falar. — Sabe... estou com medo. Não um medo comum. Um medo triste.
– O que quer dizer com isso? — Ele disse olhando para o céu. Estava tão estrelado e bonito.
– Digo... E se algo de ruim nos acontecer? Se algo de ruim acontecer com Sam enquanto estivermos fora? E se alguém mais morrer? E se nunca mais pudermos voltar? Estou com medo do que vamos enfrentar Peter. — Disse, tentando segurar mais lagrimas de caírem. Vi ele se virando para mim e me encarando.
–Luce. Você é uma das pessoas mais fortes que conheci, e mesmo que não saiba muito como você é, sei o que estou dizendo. E acredite em mim, nunca irei deixar nada de ruim acontecer com você, e nem com os outros. Confie em mim Luce. Eu vou te proteger.
Eu o encarei, um pouco rubra pelas suas palavras de conforto e assenti, enquanto derramava mais algumas lagrimas. Voltei a me encostar em seu ombro, até as lagrimas secarem e eu cair no sono.
Acordei na minha cama, no dia seguinte. Nem lembrava mais que dia da semana era, após tanto tempo sem me importar. Vi Sieg ainda dormindo e me lembrei da noite passada. Senti meu rosto ainda quente. Desci as escadas e vi Peter conversando com Nick e Lucian, enquanto Moira tomava um pouco de leite.
–Bom dia. – Disse sem motivação. Todos eles assentiram e continuaram conversando. Me sentei ao lado de Peter e peguei um copo de café. Olhei para ele, tentando agradecer por me ouvir na noite passada, e por ter me levado para a cama. Mas quando ele me olhou, não consegui manter meu olhar e me foquei no café. Vi um sorriso se formando enquanto ele bebia um pouco do seu café.
– Bom dia. — Disse enquanto eu soltava uma risadinha. Vimos Lucian e Nick nos olhando, enquanto Sieg descia as escadas e se juntava a nós.
–Bom, vamos dar mais uma vasculhada na cidade e ver se encontramos algo de importante, e logo depois iremos partir. Então tentem ficar prontos a tempo ok. – Disse Lucian, enquanto ele e Nickolaus se levantavam e iam em direção para a porta. Assentimos e continuamos comendo.
–Qual a próxima cidade que iremos? — Perguntou Sieg, quando Moira veio e se deitou na mesa. Não era muito higiênico, mas preferimos não comentar.
–Dadiva? — Disse Peter, meio confuso.
–Devins. — Corrigiu Moira. — É uma cidade um pouco antiga, da mesma época da Ilha dos Dragões. Era uma cidade de uma rara espécie de Humanos com Felinos. Eles também usavam magia, mas era diferente da de vocês. Usavam-na mais para cura e aprimoramentos de danos mágicos. Infelizmente, todos foram extintos na grande guerra e sua magia ficou escondida por muito tempo. Soube que não existem animais por lá, pois coisas estranhas acontecem com eles.
–Então devemos cuidar de você, para que nada aconteça. — Disse, olhando-a.
–Tente não ficar no meu pé por muito tempo, está bem? – Disse, retribuindo o olhar. Bufei de raiva.
–Enfim, o que vamos fazer até Lucian e Nick voltar? Ainda temos um pouco de tempo. Querem dar uma volta? Talvez pudéssemos cavar mais covas para o restante dos anões.
–Talvez seja uma boa ideia. Vamos lá.
Todos foram em direção as outras casas e a taberna e tentamos arrastar o máximo de anões, ou o que restavam deles para fora. Começamos a cavar e a colocá-los em seus lugares. Era realmente triste aquilo ter acontecido, e ainda mais por algo que não os envolvia. Era uma pena.
Terminamos e voltamos para a casa em que estávamos. Lucian e Nick voltaram com alguns suprimentos e colocaram nas bolsas. Nos arrumamos e nos apressamos para a próxima cidade.
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