The Circus

2 Sob a lona vermelha


Notas iniciais
Oi gente!!! Voltei mais cedo pois não aguentei de ansiedade para postar! Desculpem pelo capítulo ficar pequenino:( Espero do fundo do meu coração que vocês estejam gostando da fic e que gostem desse capítulo. Por favor comentem e me digam a opinião de vocês, ficarei muito feliz com as criticas e responderei todos os comentários. Obrigada por estar acompanhando a fic! Boa leitura e beijos de luz♥

✦ Capítulo 2

Edward despertou com um solavanco brusco, o corpo sendo arrastado de um sono pesado para a realidade ao som agudo e prolongado dos freios do trem. O metal gritava contra metal, um ruído estridente que parecia atravessar os ossos, vibrando por dentro do peito antes mesmo de alcançar os ouvidos. Por alguns segundos, ele não soube onde estava. O mundo ainda girava lento, enevoado, como se sua mente tivesse ficado para trás enquanto o corpo seguia adiante.


O cheiro foi a primeira coisa que o trouxe de volta.

Lona úmida, terra, ferrugem… e algo orgânico demais para ser ignorado.

Ele piscou algumas vezes, tentando ajustar a visão à luz pálida da manhã que agora atravessava as frestas do vagão. Estava deitado entre os rolos pesados de lona, mais fundo do que lembrava ter se acomodado, o corpo rígido, o pescoço dolorido e uma coceira insistente nas canelas que parecia piorar a cada movimento.

Então se lembrou.

O trem. Os homens. A noite.

O circo.

Antes que pudesse organizar os pensamentos, passos se aproximaram, e uma sombra familiar surgiu ao seu lado. Emmett inclinou-se sobre ele, o chapéu torto, o cigarro preso entre os dentes, o rosto marcado por um cansaço que parecia antigo demais para pertencer apenas àquela manhã.

— Vamos lá, garoto — disse ele, cutucando-o com leve insistência. — É melhor sair daqui antes que apareça gente que não gosta de surpresas.

Edward se sentou lentamente, passando a mão pelo rosto enquanto tentava afastar o torpor.

— Eu… onde exatamente nós estamos?

Emmett soltou um riso curto, como se a pergunta fosse quase desnecessária.

— No coração do problema, se quer saber. — Ele cuspiu de lado e ajustou o chapéu. — Mas, com sorte, também pode ser o começo de algo.

Edward franziu levemente o cenho, ainda tentando acompanhar.

— Você disse ontem… que poderia me arrumar algo?

— Disse, e disse certo. — Emmett já caminhava em direção à borda do vagão. — Talvez o Mike Doidão aceite você. Está precisando de gente… e não é do tipo que faz muitas perguntas.

Edward se levantou com esforço, ignorando a dor no corpo. Coçou as canelas mais uma vez, quase com desespero, antes de calçar melhor os sapatos e seguir o velho.

Quando saltou do vagão, o impacto do chão de cascalho subiu pelas pernas como um choque seco. Ele respirou fundo, e então viu.

À luz da manhã, o que antes era apenas sombras e formas indistintas agora se revelava com clareza quase deslumbrante.

Os vagões se estendiam em fileiras longas, todos pintados em um vermelho intenso, quase vibrante demais para aquele cenário de poeira e desgaste. As laterais exibiam letras grandes, desenhadas à mão com traços ornamentados, formando o nome que agora parecia ecoar em tudo ao redor:

Circo Irmãos Swan — O Maior Espetáculo da Terra.

Havia movimento por toda parte.

Homens caminhavam com pressa, carregando cordas, caixas, ferramentas. Cavalos robustos, percherões de porte imponente, eram atrelados às carroças, seus corpos musculosos tensionando-se sob o peso dos arreios enquanto bufavam contra o ar frio da manhã. O som era constante: metal, madeira, vozes, passos, um caos organizado que parecia seguir regras próprias.

Edward mal teve tempo de absorver tudo quando sentiu a mão de Emmett segurando seu braço, puxando-o ligeiramente para trás.

— Fique atento — murmurou.

Três cavaleiros cruzaram o terreno em disparada, levantando poeira atrás de si. O primeiro deles analisava o espaço com atenção, fincando pequenas bandeirolas no chão em pontos estratégicos, marcando algo que Edward ainda não compreendia.

— Eles estão medindo o terreno — explicou Emmett, quase como se lesse seus pensamentos.

Seguiram até um dos vagões maiores, de onde vinha um cheiro forte, pesado, inconfundível.

Animais.

— Dimitri! — chamou Emmett, erguendo a voz.

Uma figura surgiu na entrada. O homem tinha o rosto endurecido pelo tempo, e quando levantou a mão para apoiar-se na rampa, Edward percebeu a ausência de alguns dedos, uma falta que parecia antiga, já incorporada à forma como ele se movia.

O olhar que lançou sobre Edward foi direto, avaliador, sem qualquer traço de simpatia.

Silêncio.

Então, sem dizer nada, ele virou as costas e desapareceu para dentro do vagão.

Edward piscou, confuso.

— Isso… foi bom?

Emmett riu, dando-lhe um tapa leve nas costas.

— Foi mais do que bom, garoto. Foi um sim.


O trabalho começou antes que Edward pudesse pensar melhor sobre o que havia aceitado.

Dentro do vagão, o ar era denso, quase sólido. O cheiro de esterco, palha molhada e animal se misturava de forma sufocante. O chão estava coberto por uma camada espessa de sujeira que parecia não ter fim, e cada movimento levantava partículas que grudavam na pele, na roupa, na respiração.

Seth trabalhava ao lado dele.

Era jovem, mais do que Edward esperava encontrar ali, com traços suaves e um jeito inquieto que contrastava com o ambiente pesado ao redor. Falava pouco, mas se movia rápido, como alguém acostumado à rotina.

— Vinte e sete — respondeu ele, sem parar de trabalhar, quando Edward perguntou quantos cavalos passavam por ali.

Edward olhou ao redor, tentando imaginar todos eles naquele espaço apertado.

— É… bastante.

— É para que ninguém fuja — completou Seth, simples.

A resposta ficou no ar.

Quando Dimitri anunciou o intervalo, Seth largou a pá quase imediatamente.

— Vamos!

— Para onde?

— Comida!

A palavra foi suficiente.


A cozinha era impossível de ignorar.

Uma bandeira laranja tremulava acima da tenda, chamando todos como um farol em meio ao movimento constante do circo. A fumaça subia da parte de trás, trazendo consigo um cheiro que fez o estômago de Edward reagir antes mesmo que ele percebesse o quanto estava faminto.

Pessoas se aglomeravam ao redor das mesas, formando uma fila desorganizada, mas eficiente. Quando recebeu seu prato , ovos, pão, algo quente e simples, Edward sentiu um alívio quase físico.

Mas antes que pudesse se sentar, Seth o puxou pelo braço.

— Não ali.

— Por quê?

Seth baixou a voz, olhando ao redor antes de responder:

— Aqueles lugares… são deles.

— Deles quem?

— Os artistas.

Edward observou à distância. Mesas mais organizadas, com outro tipo de cuidado. Uma separação invisível, mas evidente.

— E eles não comem com vocês?

Seth deu de ombros.

— Raramente. Eles vivem… diferente.

Houve uma pausa.

— Só a Bella às vezes vem.

O nome surgiu com um peso diferente.

— Bella?

O olhar de Seth mudou. Havia admiração ali, quase reverência.

— Ela é… — ele hesitou, procurando a palavra — diferente.

Edward não perguntou mais.

Mas guardou o nome.


Horas depois, com o corpo já cansado e a mente ainda tentando acompanhar tudo ao redor, Edward se afastou do movimento principal. Precisava de silêncio. Ou de algo próximo disso.

Caminhou entre os vagões, seguindo sem direção até perceber a mudança no som ao redor. O barulho constante do circo foi sendo substituído por algo mais suave.

Água.

Ele seguiu o som.

A vegetação se fechava levemente ao redor, criando um contraste inesperado com o caos que deixara para trás. E então, ao atravessar os últimos arbustos, encontrou.

Um lago.

A superfície refletia a luz da manhã, quebrando-a em pequenos brilhos instáveis. E ali, dentro da água, alguém se movia.

Ela.

Edward parou.

Não por decisão consciente, mas porque o corpo simplesmente… recusou-se a avançar.

A jovem girava lentamente dentro da água, os movimentos leves, naturais, como se fizesse parte daquele lugar. Havia uma tranquilidade em seus gestos que destoava completamente do mundo que ele acabara de conhecer. Os cabelos escuros, molhados, se misturavam à superfície, e sua voz, suave, quase um sussurro cantado, parecia preencher o espaço com algo difícil de nomear.

Não era apenas beleza.

Era… presença.

Edward deu um passo atrás sem perceber, e então pisou em um galho seco.

O som foi alto demais.

Ela parou.

Virou-se.

— Tem alguém aí?

A voz era calma. Curiosa, não assustada.

Edward prendeu a respiração, imóvel.

Houve um pequeno silêncio… e então ela riu, baixo, como se tivesse entendido mais do que ele gostaria.

— Tudo bem… — disse ela, com leveza — eu já estou saindo.

Ele desviou o olhar por instinto, mesmo escondido, enquanto ela deixava a água e vestia o vestido com movimentos tranquilos, sem pressa, como se estivesse acostumada àquele tipo de situação.

Quando ela falou novamente, havia um sorriso em sua voz:

— Pronto. Agora você pode aparecer.

Edward hesitou, mas saiu e então viu seus olhos.

Castanhos. Profundos. Quentes.

E, por um instante, todo o resto desapareceu.

— Eu não conheço você — disse ela, inclinando levemente a cabeça.

— Edward — respondeu ele, a voz mais baixa do que pretendia. — Cheguei hoje.

Ela sorriu.

E havia algo naquele sorriso que não era apenas gentileza.

— Eu sou Bella.

O nome fez sentido imediatamente.

Edward estendeu a mão, ainda tentando recuperar o próprio equilíbrio interno.

— Prazer.

Ela segurou sua mão com naturalidade, simples, mas suficiente.

E, naquele toque breve, Edward teve a estranha e imediata sensação de que… algo havia começado.

Algo que ele ainda não entendia, mas que, de alguma forma, já não poderia evitar.