The Chosen Ones — Chapter One.
23 Akemi: senhora Chiyo.
Depois de Gaara ser levado para o hospital, eu volto para o meu quarto e, no caminho, escuto alguns shinnobis falando sobre uma tal comemoração de aniversário do Kazekage. Eu não paro para escutar, apenas sigo meu caminho. Quando abro a minha porta, eu cambaleio para dentro e a fecho atrás mim. Com dificuldade, começo a tirar minha roupa. Primeiro a bandana, depois calça e blusa, sandálias ninja e por último as roupas íntimas. Me arrasto até a cama e, no meio dos lençóis brancos, eu me deito nua. É então que eu começo a refletir sobre o que escutei e quase não consigo acreditar que no meio de tanta confusão, Rasa inventou uma festa de aniversário.
— Se eu pudesse matá-lo... — digo no silêncio do quarto, com a voz fraca.
Eu deixo Rasa de lado quando sinto as primeiras pontadas de dor nos meus machucados recém-feitos. Lágrimas rolam dos meus olhos para meus ouvidos enquanto uma fumacinha já conhecida por mim começa a subir de meus machucados. Poucas pessoas sabem, mas eu não nasci apenas com o Mukuton de Hashirama, mas também com a capacidade de regeneração das células, exatamente como ele tinha. Por isso recusei a ajuda de Kankuro. Eu não preciso de médicos quando me machuco, preciso apenas de descanso e um pouco de concentração.
Ininterruptas, as lágrimas continuam caindo. Não choro por estar muito machucada ou por estar com dor, mas sim por tudo o que aconteceu. Por mim, por Gaara, por minha família, por não poder mudar as coisas. O rosto de Gaara com o olho de Shukaku aparece em minha mente e eu mordo a costa da minha mão para que meu grito não seja alto demais. Sinto tanta agonia dentro de mim que me vejo pedindo mentalmente para que esses machucados não se curem e me façam morrer porque não aguento mais. Diferente do que minha tia, meu sensei, meus amigos e qualquer outra pessoa pense eu não sou forte e não tenho a menor condição de lidar com tudo o que está acontecendo.
Ignorando os machucados internos e externos se curando, eu viro de lado e me encolho em posição fetal. Febril, eu sinto meu corpo todo ficar gelado mesmo estando banhado de suor. Minha respiração fica ofegante enquanto as lágrimas pingam do meu nariz para o colchão e eu chamo por minha mãe, por meu irmão e por meu pai.
— Me levem com vocês — digo baixinho, soluçando. — Por favor, eu não quero mais ficar aqui. Eu não aguento mais.
Quando meus olhos se abrem, vejo Gaara na minha frente com uma luz branca tão forte atrás de si que eu preciso semicerrar os olhos para enxergar direito seu rosto. Seus olhos encaram diretamente os meus e seus cabelos balançam como se estivesse ventando dentro do quarto. Digo à mim mesma que ele não é real, mas não consigo evitar esticar a mão para tocá-lo. Ele estica a mão também na minha direção e meus dedos atravessam os seus. Eu preciso de você, escuto a voz dele na minha cabeça. Você não pode desistir da gente, Akemi. Minha mente é inundada por lembranças vindas desde o momento em que conheci Gaara até hoje. O que mais dói, depois da época afastados, são os beijos, são as palavras dele dizendo "eu vou provar para você que tudo o que sabemos sobre aquela noite está errado". Se for verdade, passamos oito anos separados por absolutamente nada. Eu o odiei sem motivo nenhum. A palavra "amor" me atinge com força. Não consigo pensar em outra palavra para descrever o que eu sinto por Gaara; na vinda para Sunagakure eu disse que gosto dele, mas não é isso, nunca foi isso. "Gostar" nunca seria o suficiente para descrever tudo o que sinto por ele, a dor que me acometeu quando tive que me forçar a odiá-lo, a saudade que senti dele em cada fibra do meu ser por oito anos. Eu o amo. E eu nunca me perdoaria se o ódio que cultivei foi sem motivo, por não ter ido atrás da história, por não ter dado o benefício da dúvida a ele. Com esse pensamento, eu ergo o corpo e vomito na lata de lixo que está ao lado da minha cama.
Horas se passam em que eu entro e saio do estado de inconsciência. Sonhos e lembranças vêm e vão. A lua já está alta no céu quando escuto batidas na porta e uma voz conhecida chamar meu nome. Mas não tenho forças para falar nada. Escuto a porta se abrindo e quero dizer que estou pelada, para a pessoa ir embora, mas minha garganta está seca e eu continuo calada. Mais uma vez escuto meu nome e a pessoa corre até mim. Um cabelo cor de areia e olhos azuis muito escuros entram em meu campo de visão.
— Akemi!
A voz de Temari parece muito longe, como se eu estivesse dentro d’água e ela estivesse falando acima de mim. Sinto sua mão em minha testa molhada e depois ela me enrolando em um lençol. Ela grita por Kankuro, eu não o vejo, mas sinto quando ele me carrega e sai correndo comigo do quarto, trazendo junto o lençol que Temari enrolou em meu corpo. A última coisa que vejo antes de perder a consciência são luzes brancas muito claras.
—x—
Quando acordo, posso escutar o ruído do vento passando pelas janelas. Assim que a minha visão fica menos turva, eu vejo que está acontecendo uma tempestade de areia do lado de fora. É a primeira vez que vejo uma desde o dia em que fui embora da Vila da Areia. Ao meu lado há uma jarra de água e um corpo que eu encho até a boca e bebo todo o líquido transparente rapidamente. Minha garganta está tão seca que parece uma lixa.
Percebo que estou no hospital, e, com cuidado para não puxar a agulha que está levando soro à minha veia, eu levanto da cama e vou caminhando até uma das janelas circulares que tem no quarto, puxando o suporte do soro junto comigo. Percebo que estou usando um vestido de hospital, mas por baixo ainda estou nua e meu pé em contato com o chão frio me faz estremecer. Na janela, eu fico olhando a areia voando do lado de fora.
— Akemi? — a voz de Kankuro vem da porta, mas eu não viro para ele. — Ah, você acordou.
Eu o escuto entrando no quarto e fechando a porta atrás de si. Logo sinto sua presença às minhas costas e eu finalmente viro de frente para ele. Ele está usando uma blusa e uma calça pretas com um sapato também preto, e está sem toda aquela maquiagem.
— Como você está? — ele pergunta, me analisando.
Dou de ombros.
— Bem, eu acho.
Eu me arrasto de volta para minha cama, contornando Kankuro, e ele vem atrás de mim. Quando eu me sento entre os lençóis, ele para na minha frente.
— Quando eu trouxe você, os médicos disseram que a maioria dos seus machucados estão curados, apenas colocaram um carativo na sua cabeça — ele aponta para minha testa e eu finalmente percebo as bandagens ali. — O machucado em sua testa não estava 100% ainda. E o soro é para você se sentir mais forte até sair daqui.
Nós passamos um tempinho em silêncio até eu quebrá-lo.
— Como está Gaara? — pergunto.
— Bem. Ele não ficou muito tempo desmaiado, assim que entraram no hospital ele acordou, mas ainda está sendo medicado também. Perguntou por você várias vezes.
Eu olho para Kankuro, mas logo desvio o olhar antes que eu acabe pedindo para que ele me leve até o irmão. Antes que eu possa mudar de assunto, a porta se abre e Temari entra por ela. Ela continua com a mesma cara de poucos amigos de sempre, mas agora me olha com algo parecido com preocupação em seus olhos.
— Como ela está? — Temari pergunta ao irmão, se referindo à mim.
— Está bem — ele responde.
— Temari, eu estou bem aqui — digo, acenando para ela. — Pode falar comigo.
Ela me encara por um tempo indeterminado em que eu não faço a menor ideia do que esperar. Até que ela me surpreende vindo até mim e me dando um abraço apertado. Eu fico tão surpresa que demoro um tempão para colocar as mãos nas costas dela e retribuir o abraço.
— Obrigada pelo o que você fez por Gaara na arena — ela diz quando me solta. — Se você não estivesse lá, eu não sei o que teria acontecido.
— Para ser sincera com você, Temari, ele ficou daquele jeito por minha causa.
— Não foi por sua causa, Akemi — ela se afasta e me lança um olhar triste. — Eu não sei o que está acontecendo com Gaara, mas a cada dia as coisas parecem piorar.
Nós três ficamos em silêncio. Eu tentando entender se Temari e eu estávamos de bem uma com ou a outra e digerindo o que ela havia acabado de me falar Gaara, e os outros dois absortos em seus próprios pensamentos.
— Enfim, eu trouxe uma roupa limpa para você — ela coloca uma muda de roupa em cima da cama.
— Obrigada — digo.
— Vou voltar para o quarto do Gaara, para ver se ele precisa de algo.
Nós nos despedimos e Kankuro sorri para mim, dizendo que agora finalmente eu e ela íamos começar a nos dar bem e eu digo para ele não cantar vitória antes do tempo. A nossa conversa não continua porque batem na porta e um médico ninja entra no quarto, chamando a nossa atenção.
— Akemi-san — ele me chama. — Ah, que bom que você já acordou. Tem uma pessoa aqui que quer falar com você.
Kankuro e eu trocamos um olhar e a porta se abre de novo, revelando uma senhorinha. Ela usa um vestido longo com mangas compridas típico de Sunagakure, com um xale branco por cima e uma faixa na testa. O médico ninja faz uma reverência e sai do quarto, deixando eu, Kankuro e senhora sozinhos.
— Baa-sama?! — Kankuro parece ainda mais surpreso que eu com a presença da senhora. — O que a senhora está fazendo aqui?
— Olá, Kankuro, meu menino — ela dá um sorrisinho mínimo para ele e se aproxima de nós. — Como você está? Soube que as suas marionetes evoluíram muito.
— Hã... Sim, é verdade — ele cora um pouco. — Venho trabalhando bastante nelas.
— Sua mãe teria ficado orgulhosa — ela dá tapinhas na mão dele e se vira para mim. — Senhorita Senju — ela pega uma mão minha e faz uma reverência, encostando a testa na costa da minha mão. Imagino que um ponto de interrogação se forma bem no meio da minha testa. —, há quanto tempo — ela levanta o rosto e me encara. — A última vez que a vi, você era uma menininha e agora está uma mulher. Está muito parecida com sua mãe, tão bonita quanto ela era.
— Obrigada — eu digo, recolhendo minha mão quando ela a solta. — Desculpe, mas eu não me lembro da senhora. Como foi que nos conhecemos?
Ela solta um arzinho pelo nariz quando dá um sorrisinho.
— Kankuro, meu querido, poderia puxar aquela poltrona para mim e pedir que tragam um chá com biscoitos para nós? Eu terei uma conversa longa com a senhorita Senju.
Kankuro me lança um olhar, mas faz o que a senhora pediu. Ele a ajuda a se sentar na poltrona e sai para pedir o chá com biscoitos. Quando estamos sozinhas, a senhora fica olhando pela janelinha que tem ao lado da minha cama e eu sigo seu olhar. A tempestade de hoje parece mais forte do que as que eu costumo me lembrar.
— Me chamo Chiyo — ela diz, chamando minha atenção de volta para ela. Eu observo seu rosto que ainda está olhando pela janela. — Conheci sua família quando vocês vieram para a Vila da Areia e a sua mãe ainda estava grávida de você. Eu era uma médica ninja na época.
Ela vira o rosto para mim e me encara finalmente.
— Você sabe por que sua família veio para a Vila da Folha e você nasceu aqui, Akemi? — ela pergunta. Eu balanço a cabeça, dizendo que sim.
— O clã Senju estava sendo caçado na época e como a minha mãe e a tia Tsunade eram as últimas Senju vivas elas tiveram que tomar uma decisão. Lutar ou fugir. Minha tia queria lutar, mas minha mãe preferiu fugir. Ela já tinha construído uma família, tinha um filho e mais um estava vindo. Ela não queria arriscar encarar o problema de frente e acabar perdendo sua família. Tsunade acabou aceitando a decisão dela e as duas foram embora de Konoha. Minha mãe resolveu se refugiar aqui e a minha tia passou a viver sem um endereço fixo.
— Exatamente — ela junta as mãos em cima do colo. — E viver sem um paradeiro fixo era a decisão que a sua mãe deveria ter tomado também, assim como a princesa Tsunade. Mas, como você disse, ela já tinha Hayato, seu marido, Takashi, seu filho, e mais uma menininha vindo. Ela precisava se fixar em um lugar para cuidar de sua família e ter sua filha. Esse foi o erro dela — Chiyo se recosta na cadeira. — Mas ela era a mulher mais altruísta que eu já conheci, ela nunca colocaria sua necessidade acima de sua família. Muito menos acima de você.
— Por que você está me dizendo tudo isso? — pergunto.
— Porque, Akemi, há dezoito anos atrás, eu cometi um erro que envolve você e Gaara. E, depois de saber o que houve naquela arena de treinamento mais cedo e como você ficou depois, eu percebi que preciso contar à você sobre isso ou não apenas a sua vida e a de Gaara estarão em perigo, mas toda a Vila da Areia também.
Sinto meu coração acelerar em meu peito e um frio na barriga que revira todo meu estômago vazio. Uma sensação horrível toma conta de mim e eu sinto a marca em minhas costelas formigar.
— Que erro? — pergunto, cheia de ansiedade. Ela suspira.
— Rasa, o pai de Gaara, no momento em que soube que Karura, sua esposa, estava grávida pela terceira vez seu egoísmo e sua ganância de shinnobi falaram mais alto e ele selou em Karura o espírito de Shukaku, a besta de uma cauda. Ele selou o destino tanto do filho quanto da mãe ao fazer isso.
O chá com biscoitos que Kankuro pediu chegam e Chiyo dá uma pausa para receber a pessoa que trouxe e para se servir. Ela me oferece e eu aceito imediatamente, pois meu estômago está vazio a horas.
— Eu acompanhei os planos do quarto Kazekage desde o início e até cheguei a pensar que funcionaria. Rasa queria uma arma para Sunagakure e achou a oportunidade em seu filho mais novo e eu acreditei nele e em seu plano — ela dá um gole no chá. — Gaara nasceu oito meses depois do selamento de Shukaku em sua mãe, eu estava presente em seu parto e ajudei do início ao fim. Eu era uma médica ninja na época. Ele foi uma criança prematura, eu lembro como se fosse ontem, ele era tão pequeno que cabia perfeitamente na palma de duas mãos. No momento do nascimento, o espírito da besta de uma cauda foi passada para Gaara e, como você deve saber, quando uma Juubi é retirada de seu receptáculo humano este morre. Assim foi com Karura. Eu me lembro de ter dito à Rasa que Gaara precisaria ser criado com cautela, pois Shukaku sempre fora conhecido pelos problemas de personalidade. Ele podia ser dócil quando queria, mas também podia ser um assassino cruel que só traz destruição por onde passa. Mas Rasa fez muita coisa errada; ele mimou muito Gaara por um tempo, o manteve recluso, afastado de tudo e todos e, no fim, tentou matá-lo mais vezes do que consigo me lembrar. A única coisa que ele devia ter dado de verdade, ele não deu, que era amor.
Ela se cala por um momento, como se estivesse refletindo. Eu tento absorve tudo o que ela me disse até agora enquanto como alguns biscoitos, mas eles parecem feito de borracha na minha boca. Não consigo sentir o gosto enquanto mastigo e engulo, só consigo pensar no quanto odeio com todas as minhas forças o pai de Gaara por ter matado Karura e por ter feito Gaara sofrer tanto.
— Um mês depois de Gaara nascer, sua mãe, Asami, já com nove meses de você, entrou em trabalho de parto e, assim como aconteceu com Gaara, eu participei do seu nascimento também. Sua mãe sempre foi uma mulher muito forte e o seu parto foi bem menos conturbado que o do filho do Kazekage. Você nasceu forte e saudável, gritando à plenos pulmões no meio da sala de parto — eu acabo dando um sorriso mínimo com essa fala dela. —, e em poucos dias sua mãe recebeu alta do hospital e vocês foram para casa — ela se mexe na poltrona, mudando de posição. — Então, enquanto você vivia a melhor vida de todas com seus pais e seu irmão, o inferno de Gaara começou desde que ele ficou saudável o suficiente para receber alta do hospital. Ele era um bebê muito agitado, não conseguia dormir bem e chorava quase toda hora. Isso era por causa do Shukaku, é claro. Ele infernizava a mente de Gaara desde que era apenas um bebê. Eu acompanhei tudo isso de perto e cuidei por muitas vezes dele quando o próprio pai não aguentava mais um filho que berrava o dia todo por estar com sono e não poder dormir.
Ela dá uma pausa novamente para encher sua xícara com chá. Ao meu redor, a temperatura do quarto parece ter caído. Eu só sinto frio e começo a tremer involuntariamente.
— Eu sempre soube sobre o clã de sua mãe, o kekkei genkai dela herdado de Hashirama. Quando você completou um mês, eu percebi que você tinha a capacidade de regeneração celular que o Primeiro Hokage também tinha. Percebi isso quando você se cortou sem querer um dia com um brinquedo seu e rapidamente o corte sumiu, nem deu tempo de você chorar apesar da sua ter entrado em desespero. Vendo todo o sofrimento pelo qual Gaara passava e essa sua habilidade de regeneração, eu acabei tendo uma ideia. Não falei nada para Rasa e nem para os seus pais. E talvez esse tenha sido meu maior erro, pois se eu tivesse falado algo para os seus pais, eles teriam me impedido de fazer o que eu fiz com você.
— E o que você fez comigo? — pergunto, sentindo lágrimas encherem meus olhos.
— Em um dia, quando você tinha quatro meses e Gaara cinco, eu o levei na sua casa com a desculpa de que eu estava indo visitar Asami e ver como você estava. Nessa época, Rasa nem parava mais em casa para não ter que lidar com Gaara, ele passava o dia todo no escritório do Kazekage e até dormia lá. Kankuro e Temari tinham babás, mas Gaara era muito difícil de lidar e ninguém conseguia ficar com ele por muito tempo, então eu ia ficar com a criança. Mas enfim, Asami era uma mulher muito gentil e, quando cheguei na sua casa com o bebezinho ruivo no colo, ela tratou logo de ir fazer um lanche para mim e um suquinho para Gaara. Não demorou muito para que Gaara tentasse dormir no meu colo, mas não conseguiu, como de costume, e começou a chorar. Você nem se abalou com o choro dele, estava mais concentrada com seus brinquedos dentro do seu chiqueirinho que em outro bebê se esgoelando, mas a sua mãe ficou comovida e pediu para segurá-lo. Por incrível que pareça, ele se acalmou nos braços dela e, na hora que você precisava tomar banho, eu me ofereci para lhe dar para não tirar Gaara de onde ele estava já que estava tão calminho — ela desvia o olhar do meu. — Quando terminei de dar o seu banho, eu fiz em você a marca que você tem nas costelas.
Meus olhos se arregalam automaticamente e eu levo uma mão a boca, horrorizada. Levanto da cama depois de uns segundos, pois não consigo mais me manter sentada. É muita informação junta.
— O símbolo que você tem no seu corpo, Akemi — eu sinto os olhos dela me seguindo. —, é uma marca antiga que significa selamento. Foi criada há muito tempo, pelo Sábio dos Seis Caminhos. Ela permite controlar uma Juubi quando necessário. Mas precisa ser feita em uma outra pessoa, pois o receptáculo de uma Juubi, ao perder o controle, nunca teria forças suficientes para controlar a si próprio. Foi muito arriscado fazer isso em você, eu admito. É um jutsu que só pode ser feito em possuidores do Estilo Madeira. Eu estava morrendo de medo de dar algo errado, pois você ainda não tinha desenvolvido nenhum poder e, assim como seu irmão, você poderia ter nascido com o Estilo Água do Segundo Hokage ou com a habilidade para desenvolver o byakugou da princesa Tsunade considerando que você tem a capacidade de regeneração ou até mesmo com algo herdado do clã do seu pai. Mas, você sendo uma Senju, tinha uma grande probabilidade de nascer com o Estilo Madeira também e você era minha única esperança, então eu arrisquei.
— A senhora está me dizendo que eu poderia ter morrido?! — minha voz se eleva uma oitava e eu olho incrédula para ela. — Como você teve coragem de fazer isso?!
Ela desvia o olhar do meu, claramente se sentindo culpada, mas nem isso é capaz de fazer minha raiva diminui.
— Mesmo tendo esse risco, eu fui em frente — ela continua falando. Escuto um tremor em sua voz. — E deu tudo certo. Você ficou quietinha durante todo o processo, sem chorar uma única vez, até cochilou. E então você aceitou a marca e reconheceu o Shukaku dentro de Gaara, que estava perto, na sala com a sua mãe, como sendo aquele que você precisaria selar ou controlar caso algo acontecesse. Quando tudo terminou, eu respirei tão aliviada que quase chorei, voltei para sala com você, e Asami e eu ficamos conversando como se nada tivesse acontecido, enquanto você e Gaara brincavam juntos no chiqueirinho. Eu lembro que você bateu sem querer um brinquedo em Gaara e eu e Asami ficamos esperando ele revidar ou chorar, mas ele apenas se inclinou na sua direção e deu algo com um beijo em sua bochecha. Asami achou ele o bebê mais encantador do mundo. Quando eu fui embora com Gaara, sabia com certeza de que você possuía o Estilo Madeira de Hashirama Senju.
— Como você tem coragem de falar que deu tudo certo?! — eu me aproximo dela, ignorando a parte fofa que ela falou sobre mim e Gaara. — VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUANTO EU ESTOU SOFRENDO POR SUA CAUSA? Essa porcaria de marca, toda vez que o Gaara se descontrola, eu sinto arder como o inferno, dói tanto que às vezes eu acho que vou morrer! Você tem alguma noção disso?!
— Ela arde porque está lhe avisando para agir contra Shukaku — lágrimas começam a rolar pelas bochechas dela e eu lhe dou as costas, sentindo um gosto amargo na boca. — Eu sinto muito, Akemi.
— Os meus pais nunca perceberam nada? — pergunto, com a voz trêmula.
— Enquanto você era bebê, a marca parecia mais um sinal que um símbolo. Quando você fez cinco anos, ela começou a ganhar forma e então seus pais me procuraram por eu ser médica na época. Eu fiquei morrendo de medo de que eles soubessem sobre esse jutsu ou deduzissem, pois todos sabiam a história de Gaara, mas acredito que eles não sabiam da existência de um jutsu como esse, pois acreditaram quando eu disse que poderia ser apenas uma marca de nascença.
Ficamos um momento em silêncio. Nesse intervalo, eu arranco a agulha de soro do meu braço, jogo tudo no lixo e faço um curativo em cima da minha veia. Depois, pego a roupa que Temari havia trazido para mim e vou me trocar no banheiro. Lá dentro eu inspiro e expiro várias vezes para não acabar tendo um ataque de pânico e de raiva tudo junto. Quando saio, a senhora Chiyo me encara com olhos vermelhos de choro. Eu caminho até ela e puxo uma cadeira para sua frente, me sentando na mesma. Fecho os olhos com força e sinto meu lábio inferior começar a tremer, mas engulo a vontade de chorar. Agora é o momento em que eu preciso ser forte de verdade.
— Quando chegar a hora — eu não digo “se chegar”, pois sei que o momento chegará mais cedo ou mais tarde. —, como eu faço para lidar com o Shukaku?
Chiyo limpa os olhos com seu xale e se ajeita novamente na cadeira.
— Por você ter a marca, só de estar perto dele você pode controlá-lo como você fez na arena de treinamento, mas existem mais dois jeitos que são provenientes do seu kekkei genkai: o primeiro é o justu “Estilo Hokage: Jutsu do Sabugueiro, Décima Ordem da Iluminação” e o segundo jeito é o justu “Arte Sábio: Portão do Grande Deus”.
Ela passa um tempo me explicando como se faz os dois jutsus e eu escuto tudo com atenção, tomando nota de tudo mentalmente. Quando ela termina, eu me recosto na cadeira.
— Você disse que não falou nada para Rasa e fez isso escondido dele. Mas em algum momento ele descobriu algo? — pergunto, pois o fato de Rasa nunca ter gostado de mim deve ter alguma explicação além da antipatia.
— Ele nunca descobriu o que eu fiz, mas ficou receoso quando soube que você tem o Estilo Madeira — ela diz.
Ah, que ótimo, penso. Além de ter uma organização maluca atrás de mim ainda tem um Kage que pode me matar se souber que eu posso controlar o filho dele. Passo uma mão no rosto, sentindo minha cabeça começar a latejar.
— Tenho só mais uma pergunta. Existe alguma maneira de tirar isso de mim? — pergunto, mais calma.
Ela balança a cabeça, negando, com uma expressão triste.
— Você pode morrer se eu tentar remover a marca, além de que eu teria que tirar o Shukaku do Gaara também e, assim como você, ele poderia morrer.
— Resumindo, nós dois podemos morrer por causa do egoísmo de duas pessoas — digo, desacreditada.
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